28.5.09

Defeitos da indiferença

Há um hábito intrigante nas tradições portuguesas. Só ouvir as pessoas depois de elas protestarem e não prevenir esses protestos po formas eficazes de participação. Ontem, O Jornal de Notícias eu conta de que a empresa responsável pelo Programa Polis da Costa da Caparica está "a tentar encontrar soluções provisórias para levar os barcos do mar até aos apoios" de pesca devido às rampas necessárias não terem sido previstas e concretizadas em tempo útil. Isto implica novas obras, depois de concluidas as anteriores. Mas, que os barcos precisam de ir dos apoios de pesca ao mar parece óbvio. Como é possível que ninguém, nas várias instituições que acompanham a execução do Polis, da Câmara Municipal à Costa Polis se tenha apercebido em tempo útil da inevitabilidade de tais rampas serem feitas? Defeitos de quem fica indiferente às necessidades dos utentes.

26.5.09

Em que unidade se mede um hospital? A propósito do Hospital do Seixal

Há quem confunda a melhoria das respostas às populações com a construção de edifícios e grandes obras. Tento que não seja o meu caso, mas vejo os exemplos multiplicarem-se à minha volta. Esta tarde, na Comissão de Saúde, discutiu-se um projecto de resolução do PCP que queria recomendar ao governo "que o novo Hospital do Seixal seja dotado de camas de internamento e de um serviço de atendimento para situações de urgência que corresponda a uma adequada assistência hospitalar, que satisfaça as necessidades das populações." À vista desarmada parece fácil concordar com a frase. Mas ela diz muito sobre o que a política pode ter de equívoco. Senão vejamos: 1. O PCP, pedindo "camas de internamento", explora a angústias das pessoas e a identificação que fazem entre tratamento de qualidade e número de camas. Mas há situações clínicas cada vez mais complexas e haverá ainda mais no futuro que se resolvem com cirurgia de ambulatório e os chamados "centros de alta resolução" responderão a cada vez mais segmentos das necessidades de saúde. Se um hospital sem camas pode contrariar o senso comum, não é menos verdade que pode, em articulação com um hospital de referência (no caso o Garcia de Orta), permitir cuidados diferenciados e de alta qualidade, sem duplicações nem sobreposições e utilizando racionalmente os recursos. Ou seja, o hospital previsto para o Seixal, desdobrará o Garcia de Orta e terá cirurgia em ambulatório, telemedicina, meios complementares de diagnóstico e terapêutica modernos e consultas externas diferenciadas. Funcionará em rede com o Garcia de Orta e os Centros de Saúde e terá, ainda, camas de retaguarda para doentes em convalescença. Assim sendo, qual é a questão? As camas do Garcia de Orta serão libertadas de ocupação que hoje têm, dada a expansão dos cuidados em ambulatório e mais cuidados de saúde serão prestados mais próximos dos cidadãos, sem que se construa tanto betão nem subam tanto os custos de funcionamento. É certo que não haverá camas de internamento no Seixal, mas não é menos necessário recordar que o objectivo que pretendemos não é ter camas ao pé da porta, mas cuidados de saúde de qualidade próximos e eficientes no quadro do uso racional dos recursos. 2. Lendo a proposta do PCP fica-se com a ideia de que o que se antecipa é um hospital sem qualquer atendimento de urgência. Mas não é verdade. O que neste momento está previsto é que tal hospital seja dotado de um serviço de urgência básica. Ora, essa urgência é precisamente o que está congestionado nas àreas que o novo hospital vai servir e, na minha opinião, uma das razões que justificam a sua necessidade. O PCP argumentará que ainda não foi formalmente escrito que assim será. Mas há hoje o compromisso público que será assim. Mais, se porventura tal questão se voltasse a colocar, toda a minha posição teria que ser revista, porquanto penso que o descongestionamento das urgências é uma prioridade essencial da melhoria dos cuidados de saúde em Almada, no Seixal e em Sesimbra. Neste ponto, aliás, creio que os Presidentes de Câmara de Almada, Seixal e Sesimbra devem estar unidos na exigência ao Governo de que se reequacione as carências decorrentes do fecho dos SAP e tome iniciativas para o período que medeia até à construção do novo hospital, que podem bem passar por abrir pelo menos uma nova unidade para garantir a adequada assistência das populações. Ou seja, acho o novo Hospital do Seixal, com o perfil que se anuncia, particularmente bem-vindo e um passo na melhoria dos serviços às populações metropolitanas do Sul do Tejo que deve ser apoiada e complementada com medidas imediatas. Não junto a minha voz aos que desvalorizam e atacam esta solução, antes vendo nela potencialidades elevadas para a melhoria da rede de cuidados e a colocação dos nossos concelhos no futuro, também na àrea dos cuidados de saúde. A mim, o que me preocupa é se o projecto continua a atrasar-se. Os hospitais devem medir-se em tipo de cuidados que prestam e adequação às necessidades e não em número de camas e toneladas de betão.

25.5.09

www.almada.cdu.pt igual a www.almada.pcp.pt?

A CDU de Almada distribuiu um comunicado com o seu endereço: http://www.almada.cdu.pt/. Fui ver o que pensam os meus adversários. As novidades chegaram ainda antes dos conteúdos. O endereço é reencaminhado automaticamente para outro. Imaginam qual? Depois digam que a CDU e o PCP não são uma e a mesmissima coisa. Adenda: Alguns dias depois deste texto ser publicado, o PCP (ou devo dize a CDU?) corrigiu o lapso. Pelo que agora o que aqui está escrito já não acontece, mas foi verdade e vários deputados do PCP e até os dos Verdes na AR bem o sabem.

Um hospital pode ser muito mais que um centro de consultas e internamento

Quatro dezenas de crianças com problemas neurológicos que são acompanhadas no Centro de Desenvolvimento da Criança Torrado da Silva, do Hospital Garcia de Orta, em Almada, participaram este sábado num cruzeiro à descoberta dos golfinhos no estuário do Sado.

22.5.09

Um bairro cheio de equipamentos pode ser, ainda assim, um gueto?

Fernanda Câncio fala a frio do bairro da Bela Vista. Relembra que o bairro não é um gueto à antiga, está dotado de equipamentos sociais e se articula - embora o diga com demasiado optimismo - com o tecido urbano. Mas não vê aquele que me parece ser o nó fundamental do problema. Todas as concentrações de pobreza e exclusão geram vulnerabilidade a, usemos o eufemismo, modos de vida alternativos. Mesmo a mais perfeita política de equipamentos continuaria a ser incapaz de superar essa dimensão do problema. Evidentemente, nem todos os bairros geram no seu seio lideranças marginais. A maioria deles resiste-lhes. Mas é isso mesmo, resiste-lhes. Muitas vezes, sózinha e duplamente vitimizada: por tais lideranças, quando dentro do bairro e pela indiferença ou desprezo, quando fora dele. Há bairros que sucumbem a tais lideranças. Talvez a Bela Vista tenha chegado a essa situação. As minorias criminosas tomam-lhes conta da vida social, marcam a sua imagem, condicionam as polícias, juntam aos seus crimes um que não vem no Código Penal, de homicídio do espaço público. Quando isso acontece, o que fazer? Em Portugal vigora uma visão que não conduz a longo prazo a nenhuma solução e que eu chamaria de uso da polícia como exército de ocupação. Dá segurança em situações agudas, mas usada permanentemente apenas eleva a estigmatização e a tensão social. Sem ingenuidades, é preciso partir a coluna vertebral ao crime organizado dentro dos bairros problemáticos. mas isso faz-se com informações, com infiltração policial, com policiamento preventivo, ganhando o bairro contra os "seus" criminosos. Não é fácil, mas é indispensável, quando o problema está produzido. Mas não esqueçamos que o problema essencial é o de que as grandes concentrações de pobreza geram vulnerabilidade à captura das populações por dinâmicas problemáticas. Pelo que só se pode cortar o mal pela raíz, eliminando tais concentrações. O que podemos fazer combatendo a pobreza e a desigualdade mas temos que fazer também não a deixando concentrar-se no espaço. Essa concentração é a expressão quotidiana da guetização. Como? Disseminando a habitação social, o realojamento e a habitação a custos controlados pela cidade. Mantendo a diversidade social em todo o tecido urbano em vez de deixar o capitalismo inscrever-se na cidade sob a forma de apartheid social. Mas isso pressupõe uma política urbana não capturada pela especulação imobiliária.

21.5.09

Almada: a CDU está possuída pelo espírito faraónico e vergada ao imobiliário. Temos que travá-la.

Megalómano que se preze não abandona o poder ser tentar construír a sua obra de regime. De preferência um edifício imponente que um dia possa levar o seu nome ou imortalizar a sua passagem pela política. Na versão verdadeiramente grande, era assim com as obras faraónicas e os palácios de reis e presidentes, na versão paroquial, passa sempre por construir novos paços do concelho. A CDU de Almada teve ontem um encontro com essa megalomania. Candidamente, embrulhou-a no discurso de que "O que será edificado naquele território é um hotel, a área de terciário, o edifício do poder local, o futuro Arquivo Histórico Municipal e um edifício que albergará os vários serviços municipais". Sem eufemismos, o que lá iriam fazer, se os cidadãos o deixassem, eram os novos paços do concelho, adornados por ainda mais edifícios que lhes dessem vizinhança e enquadramento. Este projecto faraónico é, neste momento, duplamente errado, porque está errado nos objectivos e no tempo em que surge. A Almada faz falta um centro forte. A cidade não carece que de que se andem a construir novos centrozinhos, espalhados pelo município e que não terão qualquer centralidade, canibalizarão o actual centro e não produzirão cidade. Mais, a percepção errática da câmara quanto ao que é fazer cidade está a tentar produzir centralidades que se arruinam reciprocamente e a complicar ainda mais as acessibilidades. O que precisamos é de ser mais atractivos para fora, não de andar a brincar à deslocalização interna de serviços municipais. Almada não precisa de um palácio novo para gáudio de quem a governa. A prioridade do município não é fazer mais edifícios, é prestar melhores serviços, mais acessíveis e mais transparentes para o cidadão. Precisa de reforma orgânica, não de deslocalização física. Melhor andaria a maioria da CDU se, em vez de desbaratar o que recebe de contrapartidas em edifícios comemoracionistas dos seus 35 longos anos de poder, tivesse resolvido neste mandato o problema de não haver uma Loja do Cidadão, que funcionasse como loja âncora para o centro da cidade. Loja de cuja falta a Câmara é totalmente responsável. Melhor andaria a CDU, se estivesse a reorganizar a administração municipal, modernizando-a e simplificando procedimentos, tornando-a mais amiga dos cidadãos e das empresas, respondendo mais rapida e diligentemente. Mas o projecto está também errado no tempo em que surge. Com o país em crise, a prioridade do gasto dos dinheiros públicos confiados ao município é a construção de milhares de metros quadrados para relocalizar os seus serviços? Pretende a maioria retirar ainda mais emprego do centro da cidade? Com que efeitos? Este projecto é errado e não deve ser concretizado. Ontem, o PS votou contra, mas só há uma forma de evitar que o espírito faraónico e vergado ao imobiliário deixe de comandar a cidade. Só há uma forma de garantir que a autarquia vai gerir cautelosamente os delicados equilíbrios urbanos de Almada. A aprovação de projectos como estes em cima de eleições não deixa margem para dúvidas. Quem assim pensar só tem um caminho: retirar à CDU o comando da câmara. Já.

20.5.09

Entrevista ao PNETpolítica: as diferenças entre o PS e o PCP em Almada

O Professor Carlos Santos, que anima o projecto PNETpolítica e tem o blogue O valor das ideias pediu-me uma entrevista sobre a candidatura à Câmara de Almada. Transcrevo abaixo a parte em que me foi pedido que sumariasse as propostas que fazem a diferença do PS em relação à CDU. A entrevista pode ser lida, na íntegra, aqui. Se tivesse que sumariar 3 ou 4 propostas, para as pessoas de Almada perceberem a diferença de uma gestão sua e do PS, quais seriam? Uma vez eleito, revogarei imediatamente o Plano de Mobilidade e substitui-lo-ei por um sistema de circulação eficaz e mais respeitador das pessoas. Darei grande prioridade à afirmação de Almada como centralidade urbana daquilo a que chamo a Cidade do Sul do Tejo, competindo com Oeiras, Cascais e Sintra por todos os investimentos de relevância metropolitana, aproveitando todas as oportunidades que se abram, para compensar as que se perderam. Procederei à revisão de toda a gestão urbanística da frente de praias, animando-as para que, da Trafaria à Fonte da Telha, tenhamos mais de duas dezenas de kilómetros de costa com vida doze meses por ano, com muito maior qualidade urbanística, e, no Verão, menos superlotadas e com acesso ordenado. Reverei de alto a baixo a política social de habitação, acabando com a construção de novos bairros sociais e sua substituição por uma política de inclusão social das pessoas desfavorecidas em diferentes zonas. Não hesitarei em tomar as medidas necessárias para a melhoria da situação de segurança, criando uma polícia municipal que possa libertar a PSP e a GNR de outras tarefas para as funções de segurança, introduzindo, em articulação com o comércio local, zonas com vídeovigilância e, sobretudo, estimulando a que policiamento de proximidade, melhor iluminação pública e comércio a abrir mais cedo e fechar mais tarde potenciem a segurança urbana. Nenhuma destas medidas aconteceria se os eleitores voltassem a dar a maioria ao PCP.

O comércio em Almada está mal apoiado: notícia de uma lamentável coincidência

A montra do estabelecimento comercial de um dos comerciantes que se têm distinguido nos protestos contra a situação actual do comércio em Almada foi vandalizada logo que esse protesto alastrou pelo centro do concelho. Trata-se, evidentemente, de uma lamentável coincidência que nada tem a ver com tal protesto e, seguramente, quem perpetrou tal acto de vandalismo não tinha nenhuma intenção intimidatória, sendo pura coincidência ter sido aquele estabelecimento comercial e não outro e agora e não noutra altura.

19.5.09

O comércio de Almada merece ser melhor apoiado

O comércio de Almada merece ser melhor apoiado. As dificuldades por que passa a actividade comercial constituem um sinal preocupante da degradação da vida urbana. Uma cidade europeia, viva e dinâmica, não pode deixar definhar o seu centro. Pelo contrário, ele deve ser o sinal fundamental da sua vitalidade. Mas a autarquia criou as condições para que acontecesse a situação com a qual está resignada: a cidade está sitiado, o centro é dificilmente acessível e o efeito combinado desses fenómenos pode resultar na morte anunciada do centro de Almada. Os comerciantes manifestaram-se e têm razão. A actual maioria respondeu-lhes com auto-justificação e propaganda. O PS fez chegar-lhes as soluções que desde já garante que adoptará assim que os cidadãos nos confiarem a gestão da Câmara Municipal: O PS tem novas soluções, que os comunistas não aceitam e precisam de ser apoiadas por si. Queremos discuti-las consigo, mas desde já lhe garantimos que: Vamos devolver a vida a Almada.

18.5.09

Donald Rumsfeld não queria enviar militares para o Katrina

Afinal o atraso da intervenção dos militares no combate à devastação provocada pelo furacão Katrina não foi um atraso, mas o resultado da resistência de Donald Rumsfeld. Paul Krugman, neste post, recorda o que escreveu na altura e remete-nos para a notícia. Rumsfeld não queria enviar os militares e só o fez, cinco dias depois da tragédia, em resultado de uma ordem directa. O que mais ainda saberemos do que fez e do que se recusou a fazer? Mas, há que dizê-lo, a democracia americana dá-nos a garantia de que este tipo de coisas acabam por vir a público.

15.5.09

PCP, campanha eleitoral e Cristo-Rei

Como deve o poder político em campanha tratar os fenómenos religiosos? Julgo que deve manter uma distância respeitosa e recato, valorizando e apoiando, sem tentar colar-se-lhes ou deixar que eles se colem à política. O PCP, à frente da Câmara de Almada, seguiu por outro caminho, o da tentativa de instrumentalização. Este fim de semana, como diz Francisco Clamote, até o Cristo-Rei foi convocado para a campanha eleitoral. Separação entre Igreja e Estado? Para o PCP de Almada, trinta e cinco anos depois do fim do Portugal fascista de fado, futebol e Fátima, continua a valer tudo. Esta oportunista colagem de fachada é ainda mais chocante por ir de par com o desmazelo nos deveres do Município para com um santuário que é um recurso valioso do concelho. A Câmara tem o dever de proporcionar ao santuário uma melhor envolvente urbanística, de modo a valorizá-lo como recurso e a bem receber os crentes que o procuram. Tem o dever de criar as condições para que os crentes possam aceder-lhe facimente e fruir dele confortavelmente e em segurança. Tem o dever de valorizar também o recurso turístico que ele constitui, num momento em que o turismo religioso cresce de expressão. Contudo, como os peregrinos deste fim de semana compreenderão, nada disso foi assegurado. O envolvimento municipal no Cristo-Rei é uma fotografia difundida para que a associação subliminar entre religião e política se forme nos espíritos. Que limites deve ter o poder, quando em campanha eleitoral, para recorrer aos meios públicos que gere para benefício da força política que comanda os destinos, seja de um Governo ou de uma autarquia? Estou convencido que a lei deveria ser mais restritiva, nomeadamente no último semestre antes de uma eleição, no qual já vigoram regimes especiais de campanha eleitoral. Mas também sei que o limite mais eficaz a essa tentação estará sempre na exigência cívica que os democratas impõem a si mesmos. Quando esse limite se relaxa, assistimos aos inauguracionismos mais despudorados, de que os fontanários de Alberto João são paradigmáticos e às tentativas de colagem oportunista a eventos de significado público. Em Almada já temos exemplos mais do que suficientes de que a maioria velha de trinta e cinco anos usará todos os expedientes nesse domínio. O boletim municipal Kim-Il-Sungeano já não é notícia. Recentemente inaugurou-se uma primeira pedra de um parque de estacionamento que deveria estar concluido há anos mas só chegará depois das eleições. Creio, contudo, que estes gestos de pequeno oportunismo subvalorizam os cidadãos de Almada e as raízes profundas das suas exigentes convicções democráticas.

A crise chegou à economia real, políticas globais mais firmes precisam-se

A crise transferiu-se do sistema financeiro para a economia real. A retracção dos mercados mundiais está a afectar os grandes espaços económicos de um modo que o gráfico demonstra inequivocamente. A variação homóloga do PIB continua a afundar-se. Para Portugal, pequena economia aberta e dependente do sector exportador, no qual temos baseado o nosso crescimento, esta conjuntura é muito difícil. Isso mesmo demonstra o gráfico acima (clique para ver ampliado). Se é certo que estamos a evoluir menos mal que o nosso motor económico, a Alemanha e que o conjunto da área Euro, não é menos certo que estamos a sofrer esta recessão após vários anos de fraco crescimento económico. Os indicadores sociais, se nada acontecer, reagirão retardada mas fortemente. Aproxima-se o momento de, mais do que falar de crise, se assumirem a nível global políticas mais firmes quanto às suas causas e consequências. (Publicado também no Canhoto)

14.5.09

Desculpa de mau pregador

Depois de acusar o Primeiro-Ministro de querer fugir aos debates e confrontado com os factos, Rangel emenda a mão e fala da diferença entre a data do próximo debate quinzenal que o PSD preferia e aquela em que se vai realizar. De que diferença se trata? O PSD queria o debate na sexta-feira doze de Junho, depois de dois feriados consecutivos e ficou acordado que será na sessão parlamentar seguinte, na quarta-feira 17 de Junho. Desculpa de mau pregador.

Nem por ser campanha eleitoral devia deixar de se levar a mal

Os partidos e o Governo concordaram que não haveria debate quinzenal no Parlamento com o Primeiro-Ministro durante a campanha eleitoral para as eleições europeias. Pessoalmente, acho bem, mas quem não tivesse concordado teria todo o direito de achar mal. O que é indesculpável é que um dos partidos que há duas semanas atrás concordou com isso venha hoje acusar o Primeiro-Ministro de não querer ir debater ao Parlamento. Nem por ser campanha eleitoral, devia deixar de se levar a mal. Não dignifica o Parlamento, nem dignifica o PSD que é o autor da gracinha, mais uma vez pela voz de Paulo Rangel. O que me preocupa é que este tipo de duplicidade entre o discurso à volta da mesa e o que se faz para o microfone costuma passar sem sanção política e que a comunicação ande tão contaminada por este tipo de ruído em vez da discussão séria sobre o país, a Europa ou ambos.

13.5.09

Fragilidade masculina

Pode não ser hipocondria. Parece que os homens resistem menos às infecções que as mulheres e a culpa é das hormonas, segundo este estudo referido pela BBC.

11.5.09

Quem terá menos razão, Vital ou Alegre?

A doutrina de Vital Moreira sobre disciplina de voto parece-me demasiado rígida e limitadora da responsabilidade individual dos deputados, reflectindo uma visão excessivamente disciplinadora da relação entre o partido e o grupo parlamentar, que transforma o segundo em mero corpo de funcionários do primeiro. Acresce que é barulho por nada, já que, recorde-se, o Governo se aproxima do fim da legislatura sem ter perdido uma única votação no Parlamento, nem de uma mera resolução, o que não é fácil na maior parte das democracias. Mas o conselho que Manuel Alegre lhe dá: que não se meta na vida interna do partido, no fundo, que se cale, é contraproducente, porque atinge um candidato do PS em campanha e desnecessariamente deselegante, porque não rebate argumentos, limita-se a retirar voz ao autor. Não vislumbro claramente qual dos dois terá menos razão.

Os incidentes da Bela Vista e a necessidade de uma nova política social de habitação

Foto: Carlos Varela, JN Os acontecimentos do bairro da Bela Vista trouxeram para a ribalta mediática um dos maiores problemas urbanos das próximas décadas: o modelo de acantonamento social dos grupos desfavorecidos em bairros separados do resto da cidade falhou no objectivo essencial de criar condições de vida digna e incluir socialmente populações vulneráveis. Este falhanço não é português, é geral, não é apenas do nosso modelo de gestão do realojamento é desta concepção de realojamento. Em todo o lado e em particular nos EUA que começaram o modelo e em França de onde o importámos também é assim. Por toda a parte estes bairros vivem em tensão permanente, sitiados pela polícia, criando um clima de guerra civil surda entre a autoridade e os residentes que sobe de tom sempre que um rastilho se acende. As culpas pelo falhanço repartem-se entre as soluções urbanísticas, que quase sempre separam estes bairros das cidades em que existem, guetizando-os; a gestão dos processos de realojamento, criando comunidades de vizinhança sem nenhuma rede de solidariedade e quebrando as solidariedades pré-estabelecidas; o reducionismo de quem pensa que realojar é apenas transferir pessoas de uma barraca para uma casa, sem acompanhamento social duradouro; a incapacidade dos residentes para gerar lideranças que travem a propensão à marginalidade que se torna cumulativa e os métodos de policiamento que preferem a visibilidade mediática mais próxima do exército de ocupação à infiltração discreta, a expedição punitiva à convivência quotidiana, a repressão à monitorização preventiva eficaz. Estou convencido que as grandes concentrações de bairros sociais não têm boa solução, pelo que há que gerir o melhor possível a integração dos que existem no tecido urbano, acompanhando-os. Mas, sobretudo, é tempo de parar de construir novos bairros. A carência de alojamento permanece. Em Almada, por exemplo, ainda abrange milhares de famílias, após trinta e cinco anos de incapacidade para acabar com os bairros clandestinos e a subsistência de alojamento degradado. Pelo que tem que haver novas respostas. Também nestas é necessário combater o folclore das entregas de chaves para efeitos de campanha eleitoral. Pelo contrário, há que diversificar as soluções de realojamento e de apoio social a quem dele carece: rendas sociais em bairros não estigmatizados, inclusão de habitação social, com muito baixa densidade em todas as zonas da cidade, acompanhamento de famílias fragilizadas para prevenir e combater o risco de desfiliação social. Se não queremos que os incidentes da Bela Vista progridam de incidentes isolados num ou outro bairro especialmente problemático para uma situação generalizada nos grandes guetos ubanos que estão a ser construídos há décadas, é hora de mudar de rumo e definir uma nova política social de habitação, sem grandes concentrações propensas a serem capturadas por lideranças à margem da lei, onde os problemas sociais se concentram, se multiplicam e se agudizam. A minha proposta a Almada vai nesse mesmo sentido. Paremos de criar novos bairros sociais, já. Diversifiquemos os métodos e soluções de realojamento, imediatamente.

10.5.09

Os recursos comuns devem ter formas partilhadas de gestão: elementar, mas pouco frequente

"O estuário do Tejo não pode ser visto a retalho. Precisa de um plano de gestão coordenada entre todos os municípios", diz o biólogo Henrique Cabral, do Centro de OCeanografia da Universidade de Lisboa. Concordo. As autarquias têm que encontrar as melhores formas de gerir os sues interesses comuns e saír do espírito de capelinha em que o mundo acaba ou começa às portas de cada concelho.

9.5.09

Os amigos europeus do PSD não são os mais óbvios

No dia da Europa, Carlos Santos foi ao EU Profiler ver que partidos se parecem mais com o PSD e com o PS. O que concluiu é elucidativo: É por demais significativo que todos os partidos mais próximos do PSD (com excepção do CDS) sejam partidos oriundos de democracias jovens e imaturas, de leste europeu, com no máximo 15 anos de plena vivência pacífica e democrática. De acordo com a sua cartilha ideológica o PSD, que se diz reformista e humanista, e que Sá Carneiro queria que fosse social democrata, republicano e laico, surge colado a forças conservadoras, ou de pendor democrata cristão (como é comum no PPE) ou de pendor nacionalista! Entre os camponeses da lituânia e os nacionalistas croatas com slogans fascistas, a companhia em que o partido anda diz muito do seu estado corrente. Para concluir, importa dizer que este problema não se verifica no Partido Socialista. Repetindo o mesmo exercício, os partidos mais próximos são os socialistas gregos do PASOK, os sociais democratas polacos, Partido Socialista e Trabalhista do Luxemburgo, o Partido Socialista Suiço, e o Partido Socialista Operátio Espanhol (PSOE).

As diferenças entre 1929 e 2009

Esta manhã, num debate sobre a crise mundial, sustentei a tese de que a crise actual é da mesma gravidade que a de 1929, apenas está a ter uma resposta mais rápida (usando especialmente estes dados) e que Portugal está agora a começar a sofrer significativamente os seus efeitos, acrescendo que se estes se aliam na adversidade à vulnerabilidade da nossa posição no mercado interno depois do alargamento a leste. A certa altura, um dos participantes comentou que não havia então diferenças entre a crise de 1929 e a actual, que o capitalismo não tinha evoluído nada em oitenta anos. A repetição da crise demonstra que, entre outras coisas, aprendemos a lição das dificuldades de responder ao problema. por isso, agora os governos e os bancos centrais estão a reagir mais depressa. Mas a primeira resposta que me veio ao espírito foi a de que, para além de tudo o mais, há uma grande diferença nos dispositivos de gestão da dimensão social da crise e que isso é visível nos rostos das pessoas e lembrei-me da grande iniciativa de reportagem fotográfica da administração americana. As fotos acima mostram, de facto, as diferenças entre esta cise e a de 1929. Outras, do acervo que resultou dessa iniciativa inédita de fotografar a crise, podem ser vistas aqui.

6.5.09

O que ninguém fez em Santa Comba Dão

O Almadalmada publicou esta fotografia, um documento que retrata o gesto popular de substituição da Rua Salazar pela Rua da Liberdade, a 27 de Abril de 1974. Um gesto que, ao que parece, não teve eco até hoje em Santa Comba Dão.

4.5.09

O pior cenário à excepção de todos os outros menos um

Jorge Sampaio juntou hoje a sua voz ao grupo dos que não diabolizam uma coligação PS-PSD se a situação do país o tornar necessário. O coro de reacções que gerou é normal,dado que já estamos quase em campanha eleitoral e é o momento de cada força mostrar o que a separa de todas as outras.Mas há um problema de fundo na governabilidade de Portugal, que persiste. A conjugação do nosso sistema partidário com o nosso sistema eleitoral e a nossa história política diz que há, em princípio, dois partidos que podem aspirar a maiorias absolutas (PS e PSD), apesar de o sistema ser proporcional; que o bloco eleitoral da direita consegue formar coligações estáveis e que o bloco da esquerda tem uma fractura insuperável entre o PS e os restantes partidos. Pelo que, quem apostar em governos estáveis pela esquerda, sem tentações limianas, das três uma: ou dá maioria absoluta ao PS, ou espera que PS e PCP ou BE superem a fractura que os divide, ou aceita uma coligação PS-PSD. Ou, então,prefere entregar o governo ao PSD e ao CDS. Francisco Louçã veio agora dizer que a coligação PS-PSD seria a pior de todas as soluções. O PS decidiu já há algum tempo dizer aos portugueses que não comentará nenhuma alternativa à maioria absoluta até às eleições. A mim, a coligação PS-PSD parece-me o pior cenário à excepção de todos os outros menos um: maioria absoluta do PS, que tantos receiam mas para a qual ninguém à esquerda tem alternativas viáveis.

A Soeiro não deixa a Victor Cordon pedir desculpa?

A CGTP devia ter pedido desculpas pelos acontecimentos do 1º de Maio ao PS, a Vital Moreira e aos restantes membros da delegação que este enviou ao seu desfile em resposta ao convite da central sindical. O assunto teria morrido ali, circunscrito ao que parece ter sido, uma arruaça de fundamentalistas comunistas que não discutem ideias, invectivam quem não os segue. O facto é que, dias depois, ainda não se percebeu se o pedido de desculpas de Carlos Trindade o vinculava só a ele, se o de Carvalho da Silva foi apenas uma resposta involuntária à pressão de um entrevistador e se a central sindical tem a humildade democrática necessária para pedir desculpas por ter deixado agredir um convidado seu. De repente, o episódio do 1º de Maio pode ter passado a simbolizar o regresso pleno da CGTP ao seio da sua força hegemónica: a Victor Cordon tem alguma réstia de autonomia ou é gerida, até nos aspectos de cortesia para com os seus convidados, pelos ditames da Soeiro Pereira Gomes?

2.5.09

A Alemanha, protagonista da segunda vaga da crise mundial

Se os EUA foram os principais atingidos pela primeira onda da crise mundial, o colapso do sistema financeiro especulativo, a Alemanha parece ser a protagonista da segunda, a da retracção dos mercados, dada a sua dependência das exportações industriais (Le Figaro, via Zinha Pinto Bull no Twitter). Portugal, nesta fase paga a factura de duas maneiras. Também é uma economia aberta e tem na Alemanha um dos seus principais parceiros comerciais, embora previsivelmente em perda de importância.

1.5.09

Sobre a agressão a Vital Moreira no 1º de Maio da CGTP (revisto)

"Não assisti aos factos, não tenho informações suficientes", assim acaba de comentar Jerónimo de Sousa a agressão e os insultos a Vital Moreira na manifestação da CGTP. Ao contrário de Carvalho da Silva que, tentando desculpar, não deixou de lamentar os factos, embora os classificasse como "excessos". Da CGTP, só Carlos Trindade deu a cara para pedir desculpa pelo sucedido. Contudo, Carvalho da Silva acaba mesmo de recomendar ao PS que a campanha "seja cuidadosa". Trinta e cinco anos depois de Abril, gestos como o dos militantes da CGTP e palavras como as do Secretário-Geral do PCP são inaceitáveis numa democracia sã. O ódio de certos militantes comunistas ao PS não pode justificar tudo. Para além de outras reflexões, o PS deve agora deixar inequivocamente claro que não tolera nem desculpa tal falta de respeito democrático. Nesse gesto, aliás, estou seguro que será seguido por todos os democratas. A coisa só não é preocupante porque Vital Moreira não é homem de ter medo e vivemos numa democracia do século XXI. E a agressão só diminui quem a praticou e quem a desculpar, ao passo que engrandece as suas vítimas. (publicado também no Canhoto) PS. Entre os que acirravam os ânimos, esta tarde, não estavam só anónimos. Como já se interrogou o Pedro, que dizer desta atoarda do deputado Miguel Tiago? PS2. A Minda enviou-me um comentário, que já publiquei, por referir na versão original do texto o silêncio do BE. Á hora a que escrevi, a reportagem que vi não referia Miguel Portas ou o BE. O comentário fica publicado e o texto vai ser corrigido, pelo que quem ler o comentário de Minda fica a saber que ele se reporta a uma versão do texto que foi corrigida entretanto. PS3. Recebi ainda, por mail, este comentário: Nada me admira o comportamento dos stalinistas de serviço.Isto vem dos inícios do movimento comunista;os partidos socialistas e sociais democratas são os inimigos a abater antes de tudo o mais. Nos anos 20 na Alemanha deu os resultados conhecidos; depois na guerra de Espanha e nos vários frentismos em que partidos socialistas alinharam para serem sacrificados a seguir e um dos últimos episódios é o verão quente de 1975 em Portugal.Os fins justificam tudo a começar por abater a esquerda democrática. Este foi apenas um fait divers mas útil para se verificar que nada mudou naquelas cabeças...!