Mostrar mensagens com a etiqueta Egipto. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Egipto. Mostrar todas as mensagens

28.6.12

O Egipto pode estar nas vésperas de ser governado por uma direita democrata-islâmica

Middle East News Agency (MENA)/Handout/Reuters
Foto: Middle East News Agency (MENA)/Handout/Reuters in Time

Os sorrisos na foto, trocados entre os Bispos da Igreja Cristã Copta e o Presidente eleito, saído da Fraternidade Muçulmana, Mohamed Morsy, podem ser meramente de ocasião. Mas o facto de serem recebidos no Palácio Presidencial ainda antes da investidura do novo Presidente tem significado político. Os sinais de que a Fraternidade Muçulmana pode ter tido a evolução ideológica, a visão estratégica ou pelo menos a flexibilidade táctica para evoluir para uma força que ganha distância do islamismo sectário acumulam-se e são bons sinais. Não é impossível que no Egipto que se prepara haja uma grande direita democrática representada por um partido democrata-islâmico que se coloque no espectro político e nas relações com os valores sociais e as instituições como a democracia-cristã europeia se colocou no pós-II Guerra Mundial.
Essa evolução transformaria a Turquia actual de excepção em modelo seguido pelos países em que o seu modelo de direita democrática, representado pelo AKP,  se torne dominante. A Fraternidade Muçulmana parece querer ser o mais recente mas também mais forte aliado, pelo menos para já, desse modelo político.
Mas a chave do sucesso turco da corrente democrática-islâmica assenta muito no sucesso da política económica e aí, para já, o Egipto está numa situação muito diferente da Turquia, agravando as dificuldades de governabilidade do país.

25.6.12

Egipto: o processo negocial em curso

Mohamed Morsi foi declarado vencedor das eleições presidenciais do Egipto e com ele a Fraternidade Muçulmana.  Esta, depois de vencer folgadamente as eleições parlamentares que serviram de base também à designação dos constituintes, tem claramente a legitimidade eleitoral do seu lado, pelo menos neste momento.
Mas esta não chega para que Morsi e a Fraternidade tenham para já o poder. A dissolução do Parlamento ordenada pelo Supremo Tribunal que sobreviveu da ditadura e a ausência de uma constituição tornam o poder real do Presidente completamente incerto. A estrutura militar que teoricamente assegura a transição revolucionária (o Supremo Comando das Forças Armadas) tem consigo a legitimidade da força, que já demonstrou estar disposta a usar (e já usou) bem como o controlo sobre várias àreas do poder real do país. O tempo que demorou a declarar vencedor Morsi e a declarar derrotado o último Primeiro-Ministro do regime "deposto" é indício suficiente de que há no Egipto um processo negocial em curso e um equilíbrio de poderes ainda indeterminado.
A que constrangimentos teve que submeter-se Morsi para conseguir a Presidência? O tempo dirá, mas a clara reafirmação das alianças internacionais do Egipto no discurso de posse deixa claro que é tempo de pragmatismo para a Fraternidade.
Tal pragmatismo só surpreenderá, no entanto, os mais afastados da evolução dessa força política. Tudo aponta para que a proximidade com Recep Tayyip Erdoğan não se confine às semelhanças de siglas partidárias (Partido da Justiça e da Liberdade no Egipto e Partido da Justiça e do Desenvolvimento na Turquia). Se Morsi abraçar o caminho de Erdoğan, a sua relação com os militares será tensa mas constante e  do equilíbrio tenso entre negociação e confronto entre as duas forças resultará o perfil do regime futuro.
Neste jogo de cúpula, os derrotados serão provavelmente os sectores mais cosmopolitas que acreditaram na força da Praça Tahrir. Por desagradável que seja, nada que não costume acontecer na recuperação institucional de processos revolucionários. É mesmo bem possível que alguns desses sectores sejam chamados a manter-se dentro do pacto que parece desenhar-se, por exemplo integrando o Governo que há-de formar-se e que deles nasça a esquerda do novo Egipto.
O quadro pós-Primavera continua em desenvolvimento, mas nos seus traços gerais,  o quadro de nova guerra fria mediterrânica sobre que escrevi em Fevereiro parecem manter-se e - inclusivé na questão síria continua a ser um desfecho provável aquele em que, como então escrevi, Egipto e Turquia fariam uma dupla hegemónica sobre a região que geraria, para o melhor e o pior, um novo parceiro político na discussão do Médio-Oriente, hegemonizado por um parceiro da NATO e suportado em dois exércitos altamente profissionalizados e com treino ocidental.

22.9.11

Turquia: realinhamento estratégico pós Primavera árabe

A Turquia pode ser a grande beneficiária geoestratégica da Primavera àrabe e está a agir em conformidade. Em princípio, o resultado final, embora ainda incerto, dos regimes nascentes no Egipto, na Tunísia e na Líbia será uma democracia formalmente secular com grande influência política de partidos de base islâmica de um novo tipo, para os quais o AKP, o partido maioritário na Turquia, será um exemplo.
Ao nível partidário, o AKP não tem popupado esforços para tecer relações de influência com estas forças emergentes da clandestinidade ou da semilegalidade e para forjar laços com as frentes políticas em formação e que resultam do encontro entre velhos islamistas (tipo Irmandade Muçulmana) e movimentos radicalizados (frequentemente perto do terrorismo ou da luta armada, por vezes mesmo com ligações a Al Qaeda). Este pós-radicalismo islâmico pode vem ser a força emergente nos próximos anos e a nova força política dominante no Médio Oriente e é difícil imaginar que o AKP não se torne numa plataforma influente na definição do caminho dessas forças emergentes.
Ao nível diplomático, a Turquia também está a fazer realinhamentos sérios. Acolheu a primeira grande conferência de apoio à reconstrução da Líbia e está, em simultâneo a retomar uma ligação estratégica com o Egipto e a romper, passo a passo, a aliança que nos últimos anos teve com Israel. Agora, anunciou uma excepção na sua política de "zero problemaqs" com os vizinhos para anunciar que já não fala com o regime sírio, antecipando a sua adesão a sanções. Pelo meio, foi na Turquia que reuniu o conjunto disperso das forças de oposição na tentativa de formar algo equivalente ao Conselho nacional de Transição da Líbia.
A Turquia parece estar a fazer tudo para passar de uma excepção secular nos países de cultura islâmica, para uma força agregadora de um pólo de regimes pluralistas em que as forças islamistas são sufragadas pelo voto popular em eleições livres. Ou, se quisermos antecipar uma tendência provável, para a potência hegemónica de um novo modelo de regime político, o secularismo islâmico, que tem paralelos significativos com o domínio da democracia-cristã em certos períodos da história da Europa Ocidental.
Em princípio são boas notícias, embora tornem ainda mais completo o xadrez da política de alargamento da União Europeia e possa abrir fissuras na OTAN. Ao que se junta a magna questão do conflito israelo-palestiniano.
Israel pode estar perto de ser um dos grandes perdedores da Primavera árabe, a par dos que pensavam que a Europa Ocidental e os EUA podiam ter uma política para a região assente nos interesses económicos e na cooperação militar com regimes autocráticos e opressores, em nome da contenção do radicalismo islâmico.

3.2.11

De links bem abertos: Egipto e Sudão.

1. Quer saber mais sobre o Egipto contemporâneo? No Arts Beat do New York Times, Alexander Star sugere A reading list for the Egypt crisis.
2. Porque se está a fazer história no Sudão e o que têm os cidadãos do mundo a ver com issso? Numa série de pequenos vídeos, a jornalista Rebecca Hamilton explica, no Meet the Journalists do Pulitzer Center on Crisis Reporting.