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6.11.11

Economia dos conflitos: Israel agravou a Intifada

Um estudo israelita acabado de sair demonstra que as restrições ao emprego de palestinianos agravaram a intensidade da segunda intifada na Faixa Ocidental. Cada ponto percentual de descida da taxa de emprego implicou um acréscimo de 0.12 no número de mortos. Moral política do estudo dos economistas: aumentar a taxa de emprego de Palestinianos em Israel não apenas melhora o bem-estar dos Palestinianos, mas também diminui a sua disponibilidade para se envolverem no conflito. Um jogo win-win para quem queira a paz e a coexistência dos dois povos.

22.9.11

Turquia: realinhamento estratégico pós Primavera árabe

A Turquia pode ser a grande beneficiária geoestratégica da Primavera àrabe e está a agir em conformidade. Em princípio, o resultado final, embora ainda incerto, dos regimes nascentes no Egipto, na Tunísia e na Líbia será uma democracia formalmente secular com grande influência política de partidos de base islâmica de um novo tipo, para os quais o AKP, o partido maioritário na Turquia, será um exemplo.
Ao nível partidário, o AKP não tem popupado esforços para tecer relações de influência com estas forças emergentes da clandestinidade ou da semilegalidade e para forjar laços com as frentes políticas em formação e que resultam do encontro entre velhos islamistas (tipo Irmandade Muçulmana) e movimentos radicalizados (frequentemente perto do terrorismo ou da luta armada, por vezes mesmo com ligações a Al Qaeda). Este pós-radicalismo islâmico pode vem ser a força emergente nos próximos anos e a nova força política dominante no Médio Oriente e é difícil imaginar que o AKP não se torne numa plataforma influente na definição do caminho dessas forças emergentes.
Ao nível diplomático, a Turquia também está a fazer realinhamentos sérios. Acolheu a primeira grande conferência de apoio à reconstrução da Líbia e está, em simultâneo a retomar uma ligação estratégica com o Egipto e a romper, passo a passo, a aliança que nos últimos anos teve com Israel. Agora, anunciou uma excepção na sua política de "zero problemaqs" com os vizinhos para anunciar que já não fala com o regime sírio, antecipando a sua adesão a sanções. Pelo meio, foi na Turquia que reuniu o conjunto disperso das forças de oposição na tentativa de formar algo equivalente ao Conselho nacional de Transição da Líbia.
A Turquia parece estar a fazer tudo para passar de uma excepção secular nos países de cultura islâmica, para uma força agregadora de um pólo de regimes pluralistas em que as forças islamistas são sufragadas pelo voto popular em eleições livres. Ou, se quisermos antecipar uma tendência provável, para a potência hegemónica de um novo modelo de regime político, o secularismo islâmico, que tem paralelos significativos com o domínio da democracia-cristã em certos períodos da história da Europa Ocidental.
Em princípio são boas notícias, embora tornem ainda mais completo o xadrez da política de alargamento da União Europeia e possa abrir fissuras na OTAN. Ao que se junta a magna questão do conflito israelo-palestiniano.
Israel pode estar perto de ser um dos grandes perdedores da Primavera árabe, a par dos que pensavam que a Europa Ocidental e os EUA podiam ter uma política para a região assente nos interesses económicos e na cooperação militar com regimes autocráticos e opressores, em nome da contenção do radicalismo islâmico.

18.1.11

A agonia do trabalhismo israelita

O Partido Trabalhista de Israel perdeu o seu líder e um terço dos seus deputados que, decidiram continuar no Governo com o Likud e fazer uma nova força política. Pela primeira vez na sua história, os representantes israelitas do socialismo democrático e da social-democracia, ficaram reduzidos a menos de uma dezena de deputados no Knesset.
Muitas razões explicarão a decadência do Partido Trabalhista, desde as mudanças demográficas, com a imigração de Leste pouco sensível à esquerda, até ao declínio dos bastiões do Partido, como o sindicalismo e os Kibbutz. Mas seguramente a morte de Rabin foi também o princípio da morte dos Trabalhistas. O seu sucessor, Barak, proveniente das forças armadas, recém-entrado no partido, não fez a transição de falcão a pomba que Rabin conseguiu e os trabalhistas nunca mais encontraram o seu caminho. Ao ponto de até hoje fazerem parte da coligação liderada pelo Likud e integrada pela extrema-direita e aparecerem no espectro político à direita do Kadima, que passou de dissidência centrista do Likud a força posicionada - imagine-se - à esquerda do Labour.
Ou seja, a falta de um projecto para o diálogo com os palestinianos, a incapacidade de adaptar a base social-democrata às novas condições sociais do país e o oportunismo destruiram o Labour. Lembro-me de, muito jovem, numa altura em que a Internacional Socialista pressionava Shimon Peres, este ter perguntado se queriam um pequeno partido de valores ou um partido que disputasse o poder, dizendo ser irrealista o projecto de diálogo israelo-àrabe em que os partidos irmãos o queriam  envolver. Peres, fiel a esse "pragmatismo" já não está no Partido Trabalhista, é membro do Kadima. Mas o dilema que ele colocava aos socialistas europeus pode bem ter ajudado a implodir o seu partido de então, agora reduzido a um pequeno partido e perdido no caminho a dar a si mesmo, quanto mais a Israel.
É certo que Israel é uma democracia única e nada pode ser dela extrapolado para outros contextos, mas há uma lição a aprender de tudo isto: a social-democracia, talvez ao contrário de outras forças políticas, precisa de projectos - realistas e claros - mas projectos, para continuar a ser uma força relevante.
Evidentemente, o caso israelita é extremo, o líder do partido coligou-se com um seu adversário para se manter no poder, precipitando a destruição do partido que liderava. Parece teoria da consipração, mas não é teoria, é conspiração de facto.
Mas este caso extremo reforça a necessidade de ver as forças políticas como entidades colectivas. Vamos ver como se refaz o campo do centro-esquerda israelita, mas há razões para pensar que demorará muito tempo  a que algo so influência das ideias progressistas e social-democratas reganhe força no país, que tem vivido tão acentuado desvio para a direita que pode também perder uma das suas bandeiras mais importantes. Não é fácil ser uma demcoracia há cinco décadas em guerra, mas também não é imaginável que o problema se resolva abdicando de o ser. COntudo, há razões para estar pessimista. Como escreveu Daniel Levy na Foreign Policy, "the immediate and fundamental questions facing Israel's future will be (...) decided in a fight between competing versions of the Jabotinskyite tradition (Ze'ev Jabotinsky was the founder of Revisionist Zionism, the forerunner to the Likud Party). Jabotinsky was a territorial maximalist in his time and committed to the role of force and power in achieving the goals of Jewish nationalism.  But he also was in many ways a pragmatic realist and actually a liberal when it came to equality for Arabs. Israel is facing a choice between a fascist mutation of Jabontinskyism and a liberal mutation of Jabotinskyism, and with Labor dead, it is a Likud family affair"
O artigo, que vale a pena ser lido na íntegra tem o triste título  de "A requiem for Israel's Labor Party".