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23.3.13

A semana turca

Na mesma semana, o governo turco consegue do seu prisioneiro e líder do PKK um apelo aos seus guerrilheiros para um cessar-fogo e uma retirada para fora das fronteiras turcas, do primeiro-ministro de Israel um pedido de desculpas pelos acontecimentos da flotilha ao largo de Gaza e do Presidente dos EUA um esforço diplomático que conduzirá ao reatamento das relações diplomáticas com Israel.
Na corrida pela influência no futuro do Médio Oriente que a Primavera árabe abriu (ou expôs), a Turquia teve uma semana plena de sucesso, que não deve ter agradado nem ao Egipto, nem ao Irão, nem às monarquias do golfo. A Turquia parece estar de volta como principal aliado dos EUA na região. Vejamos se a Europa não sofre de um dos seus ataques endémicos de cegueira estratégica face a estes desenvolvimentos.

20.3.13

Os 0 votos no Parlamento cipriota

O acordo entre a troika e o governo não teve um único voto a favor no Parlamento cipriota. A dimensão desta derrota do Presidente por cuja eleição a troika esperou meses para intervir no país, diz bem do desprezo que o método de negociação que se segue nestes processos tem por regras básicas da democracia. Quem imaginou esta solução não achou necessário agir para reunir o apoio dos parlamentares? Não tratou sequer de ter um só aliado para defender o que assinou?
É evidente que foi dado por adquirido que os cipriotas não teriam alternativa. Mas ignorou-se que é um país habituado a ser um problema. Trata-se, além do mais, de um país que, pelos seus recursos naturais, pela sua localização, pela persistência do conflito que divide a ilha em que se situa, é desestabilizável, o que comporta riscos para toda a União. Os últimos dias demonstram que não é difícil consegui-lo. 
A fanfarronice da Gazprom deixa claro que a Rússia quer manter influência neste parceiro do Euro. E a zona Euro quer manter influência no país? Dá a sensação que ninguém na união monetária que partilhamos com o Chipre pensou nisso enquanto misturava a tentação de vampirizar os capitais russos, com toda a probabilidade duvidosos, com a sobranceria face a um povo inteiro e o desprezo pelos representantes eleitos do povo cipriota.


31.8.12

O puzzle sírio: uma guerra civil à espanhola com um desfecho à libanesa ou à jugoslava?

Ontem reuniu o Conselho de Segurança da ONU. Turquia e França subiram o seu nível de envolvimento, a primeira propondo a zona tampão e a segunda declarando-se pronta a reconhecer um governo de transição. Na frente russa e chinesa nada de novo. A novidade mais relevante da reunião foi o desinteresse americano, com Hillary Clinton a não  comparecer à reunião.
Os analistas têm sublinhado que a guerra civil síria avança para uma situação de crise prolongada. Nomeadamente, há notícias de dois paralelismo históricos. Quanto ao desenvolvimento do conflito, evoca-se a Guerra Civil espanhola, sangrenta e demorada, dada a internacionalização do conflito. Na Síria combatem, diz-se, já diversas forças internacionais, dos dois lados. Com o governo haverá militares iranianos, para além de novos fornecimento de armamento russo e com os rebeldes diversos jihadistas internacionais, bem como recursos financeiros generosos das potências do golfo. Quanto ao seu desfecho evoca-se a Jugoslávia e o Líbano. No último caso, a Síria ficaria por muito tmpo um país instável e ingovernável, retalhado internamente por uma soberania frágil e dividido por zonas de influência por linhas religiosas. No caso sírio, essencialmente entre alevitas aliados a cristãos e drusos, sunitas e curdos. Caso evoluisse "à jugoslava", a Síria poderia romper com as fronteiras definidas pela repartição do império otomano no acordo Sykes-Picot, no fim da 1ª gerra mundial e dar origem a três nações (maioritariamente alevita, maioritariamente sunita e maioritariamente curda).
Ambos os cenários - Líbano e Jugoslávia - são um pesadelo para a Turquia, que veria a sua guerra com a insurgência curda alargada potencialmente a bases logísticas, quando não à ambição da constituição de uma pátria curda, juntando a sua zona de fronteira com pelo menos as regiões curdas do Iraque e da Síria. Compreende-se, pois, o activismo turco, pressionado no curto prazo pela crise dos refugiados e no médio prazo por problemas reais de soberania. A crise dos refugiados já causa esporadicamente alegações de perturbação social. Por um lado há rumores de treino militar a refugiados que desertaram das fileiras do exército sírio, por outro de instabilidade, com refugiados a circular fora dos campos e a causar conflitos nas cidades vizinhas e até em pontos tão longínquos da crise como Istambul. As autoridades turcas já prclamaram um limite para a sua capacidade de acolhimento, mas não será fácil fazê-lo cumprir.
O puzzle sírio arrisca-se a constituir para o Médio oriente um novo quadro prolongado de instabilidade. A propsota turca de uma zona de exclusão aérea é, de algum modo, a primeira que o formaliza, já que corresponde a criar uma "soberania limitada" sobre parte do território sírio que poderá prolongar-se. Mas, mesmo essa, é muito difícil de concretizar. Para já, não parece que a Turquia consiga arrastar quaisquer aliados para o plano e o poder anti-aéreo russo se mobilizado para a Síria, não tornará a vida fácil a quem se envolver militarmente na zona.
A solidão turca, contudo, pode também dar lugar a um espírito intervencionista. As forças armadas do país têm um potencial elevado e podem as autoridades convencer-se que a sua segurança interna fica seriamente ameaçada com a continuação por muito tempo da crise turca...
No meio disto tudo, Israel é o grande beneficiário de curto prazo. Com os olhos postos na Síria, os seus mais perigosos adversários não podem dedicar as mesmas energias, se dedicarem algumas, à questão palestiniana e, quem sabe, haverá margem, no meio da confusão, para uma meia dúzia de ataques cirúrgicos que enfraqueçam os seus bem identificados adversários mais perigosos.

19.3.12

Porque não há uma intervenção militar na Síria?

Por enquanto não há mandato internacional para atacar a Síria e, claro, o precedente da interpretação extensiva do mandato concedido pela ONU na Líbia tornará mais difícil que o conselho de Segurança atinja um consenso. Como diz Vivienne Walt ,neste artigo da Time, Assad não está a repetir os mesmos erros de Kadaffi e procura segurar a amizade russa. Mas, tem também outra capacidade de dissuasão made in Russia, Armamento militar sofisticado, nomeadamente de defesa antiaérea que a Líbia não chegou a ter.
Um ataque à Síria não seria o passeio sobre o deserto líbio de há uns meses, mesmo sem contar com outras repercussões e ondas de choque regionais.

29.2.12

Da primavera árabe ao Inverno Sírio: uma nova Guerra Fria?


A Primavera árabe surgiu aos olhos ocidentais como um movimento jovem, urbano e de descontentamento social que gerou uma corrente de simpatia e esperanças de um novo período no Médio Oriente, menos centrado no pragmatismo maquiavélica das doutrinas dos interesses nacionais e mais ancorável na solidariedade entre os povos.
A evolução dos processos diferenciados de que estes movimentos de insurreição geraram em diferentes países deve deixar-nos menos optimistas, embora também não conduza a um balanço globalmente negativo.
A primeira mudança imediata nos regimes políticos da região é a da expansão de regimes pluripartidários com eleições competitivas e razoavelmente livres. Os processos assim ocorridos na Tunísia, em Marrocos e no Egipto atestam que é possível gerar processos democráticos em países árabes sem sobressaltos excessivos.
Concomitantemente, esses processos eleitorais fizeram surgir um novo quadro político-ideológico, com a reconversão das velhas fraternidades muçulmanas num novo demo-islamismo. O movimento demo-islâmico parece vir a preparar-se para ocupar o lugar do centro-direita na política dos países árabes minimamente estabilizados. Mais, este centro-direita, inspirado pelo partido AKP da Turquia, vai transformar o sistema turco de excepção que muitos julgavam visceralmente ligada à história laica do país no século XX no centro ideológico hegemónico no novo quadro político do Médio-Oriente.
Provavelmente, haverá um conjunto de países que arriscam tornar-se em novos Líbanos, retalhados pro guerras civis sangrentas de base étnica e religiosa. O derrube de Saddam já tinha arrastado o Iraque para essa situação. Mas seguramente a Líbia terá a sua prolongada guerra pelo controlo do poder e, tudo o indica, assim acontecerá também com a Síria, havendo o risco de a desestabilização da Síria arrastar o Líbano, embora possa ter também o efeito inverso. Com a Líbia, o Iraque a Síria desestabilizados, a frente que foi anti-americana na região fica desfeita, mas também razoavelmente imprevisível.
O desfecho do processo do Egipto tem ainda alguns níveis de incerteza. Fazendo um paralelo com o Portugal de 1974, o Egipto ainda não atingiu o seu 25 de Novembro, a partir do qual se definirá a natureza do novo regime. Tudo aponta para que se junte aos novos regimes demo-islâmicos, depois de a revolução ter devorado na sua energia os militantes urbanos, laicos ou das minorias religiosas. A ser assim, Egipto e Turquia fariam uma dupla hegemónica sobre a região que geraria, para o melhor e o pior, um novo parceiro político na discussão do Médio-Oriente, hegemonizado por um parceiro da NATO e suportado em dois exércitos altamente profissionalizados e com treino ocidental.
Há, contudo, sinais de que o eixo Turquia-Egipto e a nova corrente demo-islâmica não está sozinha no terreno. O apoio do Qatar aos rebeldes na Líbia, depois na Síria e, agora, a espectacular transferência doa liderança do palestiniano Hamas de Damasco para o emirado sugere que no Golfo há quem tenha outra agenda.
O comportamento do eixo do Golfo desde a Primavera árabe apenas se compagina com a agenda Ocidental na tentativa de isolamento regional do Irão. Esse mesmo Irão que na última década armou e pagou o Hamas.  Em tudo o resto diverge. O Golfo não se mexe por pulsões democráticas ou reformistas no islamismo. A repressão da insurreição no Bahrein - a que nunca fez grandes reportagens na AL Jazeera, nem se viu que extensão terá realmente tido - está aí para o recordar. Por outro lado tem ligações no mínimo polémicas com sectores que foram pelo menos próximos da Al-Qaeda e que integraram as milícias no Iémene, na Líbia e agora na Síria. 
A transferência do Hamas para o Qatar seria impensável há uma década e teria provocado uma forte condenação americana que agora se não viu.
No novo xadrez regional, Israel não está melhor acompanhado do que antes. A parceria com o Egipto corre sérios riscos de ser desfeita como a boa relação com a Turquia está comprometida já desde os antecedentes do assalto à flotilha em Gaza. Israel vai ter que reconstruir a sua visão da região e fazer escolhas. Parece-me claro que a mais segura é a de uma relação discreta mas diplomaticamente sólida com as novas forças demo-islâmicas, ou seja com o eixo Turquia-Egipto. Mas para isso é necessário que o Egipto não fique desestabilizado e as potências do Golfo sejam neutralizadas. Tal implica, infelizmente, que não haja desfecho rápido na situação da Síria.
Neste quadro. o Irão acabará totalmente isolado externamente, depois de ver a legitimidade do regime enfraquecida internamente. Parece-me o mais perigoso dos cenários quanto à manutenção da paz. Em quadros destes, a tentação bélica é enorme. E para onde cairá o Hezbollah? Continuando fiel ao Irão, como   se comportará dentro do Líbano e na guerra com Israel? Custa-me a ver essa frente manter-se calma por muito tempo.
 E no dia em que o Ocidente afirmar/reconhecer que o Irão está na iminência do ponto de não retorno nuclear? 
Terá Israel informações, força e interesse em substituir-se aos EUA num ataque cirúrgico ao Irão, apesar dos riscos de retaliação? Eu diria que sim, até porque a fractura entre a Turquia e o Golfo não deixará de ser paralizante de qualquer manifestação de força que vá além das palavras.
Mas pode também ser, oxalá seja, que o redesenho das tensões políticas no Médio Oriente ponha a regi~~ao numa dinâmica do tipo Guerra Fria. Talvez fosse o melhor, pensando em geopolítica. E ajudava a que nos sentíssemos reconfortados por saber que, no rescaldo da Primavera árabe, é verdade que há alguns povos que conquistaram a democracia .

2.12.11

Europeus? Por este caminho seremos muitos e muito pequenos no mundo.

A União Europeia não conseguiu pôr-se de acordo sobre um veto ao petróleo do Irão. Não surpreende, dada a importância dos produtos petrolíferos iranianos para a Grécia, a Espanha, a Itália, Portugal... Claro que na defesa dos interesses próprios, numa Europa em que não há solidariedade, países esmagados pela sua situação orçamental não podem brincar às grandes potências e agir militantemente contra o programa nuclear iraniano.
Esta questão não é independente da que impediu a UE de convidar o MNE turco para a reunião sobre a Síria. Compreensivelmente, Chipre, provavelmente com o apoio da Grécia, boicotou esse gesto de interesse europeu em nome dos seus interesses nacionais. Os que criticaram o meu texto anterior sobre o tema na base dos inalienáveis direitos nacionais têm razão.
O problema é que uma Europa incapaz de impor sanções adequadas ao Irão ou de agir relevantemente no novo panorama político do Médio Oriente é um anão geoestratégico. Para ser diferente teria que ter mecanismos de compensação por perdas aos prejudicados por decisões de interesse europeu. Mas na UE de hoje quem acredita no interesse europeu? Se a Alemanha e a França não o percebem na questão do Euro, porque haviam Chipre ou a Grécia de o entender nas questões geoestratégicas?
Assim, muitos e muito pequenos seremos os europeus no mundo. Mas a escolha é nossa e talvez esta geração já esquecida das lições dos anos 30 esteja a demolir por ignorância ou incapacidade um edifício de equílibrios tão instáveis. A história nos julgará.

30.11.11

Pode a política europeia para o Médio Oriente ser refém da questão cipriota?

É notícia na Turquia a possibilidade de Chipre ter vetado um convite ao Ministro dos Negócios Estrangeiros para participar na reunião de amanhã sobre a Síria. São conhecidas as razões diplomáticos para este veto, mas ele demonstra à saciedade os impasses da União Europeia em relação ao que se passa na região.
A Turquia é o país que mais influência ganhou com a Primavera àrabe em importância diplomática. Nas eleições livres da Tunísia e de Marrocos, os partidos-irmãos do partido no poder na Turquia ganharam as eleições. Provavelmente no Egipto vai acontecer o mesmo. A oposição síria reune-se em segredo e coordena operações em cidades turcas. Ainda hoje é notícia que houve um encontro secreto entre várias facções sedeadas no estrangeiro e a ala dissidente das forças armadas na cidade fronteiriça de Hattay.
Tudo aponta no sentido de que, provavelmente, a recente experiência de governo de um partido democrata-islâmico passe de uma excepção permitida pela institucionalização da democracia na Turquia a um modelo de governo hegemónico na região. Não é difícil imaginar que os partidos-irmãos que podem vir a estar no poder simultaneamente em vários países terão coordenação entre si e que a Turquia terá, por diversas razões, ascendente sobre estes novos regimes.
Pode parecer sobranceiro da parte da diplomacia turca, mas quando diz que é a União Europeia que perde em influência se não os convidar e não aproveitar a sua influência está carregada de razão. A verdade é que a política europeia para o Médio-Oriente não pode ser refém da questão cipriota, sob pena de ser irrelevante.

22.9.11

O secularismo islâmico é possível, agora? Resposta a Filipe Nunes Vicente.

Filipe Nunes Vicente (FNV) deu-me o privilégio de comentar o post anterior sobre a Turquia e a Primavera árabe. Respondi-lhe também na caixa de comentários. Mas, num segundo pnsamento, achei que o debate devia vir para a página da frente.
A minha hipótese é a de que, como escrevi, "a Turquia parece estar a fazer tudo para passar de uma excepção secular nos países de cultura islâmica, para uma força agregadora de um pólo de regimes pluralistas em que as forças islamistas são sufragadas pelo voto popular em eleições livres. Ou, se quisermos antecipar uma tendência provável, para a potência hegemónica de um novo modelo de regime político, o secularismo islâmico, que tem paralelos significativos com o domínio da democracia-cristã em certos períodos da história da Europa Ocidental."
O FNV traz à discussão dois teólogos liberais shiitas e iranianos, Abdolkarim Soroush e Mohammad Mojtahed Shabestari. Diz o FNV no seu comentário: "Secularismo islâmico? O Sourosh ( o Lutero do Islão...), e o Shabestari asseguram ser impossível.
É claro que pode a vir ser possível , mas se for só daqui a 300 ou 400 anos, como aconteceu na Europa com o cristianismo,temos problemas."

Deixemos, neste texto, de lado a questão de saber se os dois teólogos iranianos efectivamente asseguram que é impossível. Estou convencido, aliás, que lutam com as armas do seu pensamento em sentido inverso e o fazem no Irão, o que só por si demontra que há mais contradições em regimes que imaginamos versões religiosas do totalitarismo do que se vê à primeira vista.
Desenvolvo, pois, o comentário que fiz ao comentário de FNV, partindo do princípio de que há quem sustente essa impossibilidade (poderiamos dizer que é o que Bento XVI mostrou no polémico passo das suas primeiras intervenções pensar do islamismo em geral e isso chegaria para abrir a discussão).
Para haver um secularismo islâmico não é fundamental que haja uma teologia que o sustente. É fundamental que haja um quadro institucional que o sustente e protagonistas políticos que consistementemente o adoptem.
A Turquia moderna forjou esse quadro institucional sob inspiração do laicismo republicano do início do século XX, "à francesa". E, apesar da laicização da educação e do importante aparelho de Estado, teve que recorrer a mecanismos autoritários e a golpes militares para o afirmar. Mas, ao contrário dos regimes àrabes, esses golpes militares reevoluiram no sentido do pluralismo político e de instituições de natureza demo-liberal, por imperfeitas que sejam.
O laicismo, baseado na constituição, levou várias vezes os actuais protagonistas do país à prisão e à iolegalização das suas forças políticas islâmicas. Mas, sobre esse quadro, emergiu um novo equilíbrio institucional, que deu duas maiorias absolutas consecutivas ao partido pós-islamista, chamemos-lhe assim.
Aquilo a que assistimos na Turquia tem alguns aspectos paradoxais para o quadro predominante do pensamento ocidental sobre o islamismo. Frequentemente, os argumentos "demo-islâmicos" são os do pensamento liberal contra o jacobinismo.
Não creio que haja sinais de nenhum tipo de que o predomínio político do partido AKP esteja a construir uma situação de semidemocracia, como a que está em apuros no Irão e atrevo-me a dizer que a Turquia está a fazer a transição de um laicismo republicano para um regime democrático, islâmico e secular, com um partido "demo-islâmico" ou "pós-islamista" dominante, o que torna o conceito possível até prova em contrário.
Como pode, então, compatibilizar-se esta análise e a "impossibilidade" teológica do secularismo islâmico? Creio que pode haver uma "armadilha filosófica" nessa impossibilidade. Onde o poder depende do sufrágio, o político sabe que a sua força e a sua fraqueza têm autonomia - ainda que não independência - do teólogo. O que os políticos islâmicos ouvem na mesquita e lêem no Corão não tem que ser igual ao que fazem no quotidiano da gestão política, se estes instrumentos não forem a fonte do seu poder.
Sabemos que Obama frequentava uma igreja com um pastor radical, mas não é o Presidente desse pastor, não transportou as ideias desse pastor para a sua acção política e também não as deve ter esquecido nem as abominava (senão não frequentava a sua igreja).
Nada nos diz que a relação de Obama com o seu pastor é irreplicável no Médio Oriente das revoluções espalhadas por redes sociais. Também não podemos afirmar que vai acontecer. Mas a diferença entre a revolução iraniana de 1979 e as actuais revoltas passa por aqui. Em 1979 as massas insurgiram-se e entregaram o poder ao clero. Por muitas razões, não se vê nenhum sinal que vá nesse sentido em nenhum dos países da Primavera árabe. Pelo contrário, vêmo-los a escolher poderes de transição, a escrever constituições, a prometer eleições livres. Se forem por aí, insisto, o modelo turco é um dos poucos, senão o único que pode inspirá-los. Penso que os turcos o sabem e querem jogar essa cartada para recriar uma àrea influência no pátio das traseiras do ex-império otomano.
Em minha opinião, esses novos regimes constitucionais "demo-islâmicos" podem surgir não daqui a trezentos mas daqui a três anos. Mais, penso que são a melhor esperança de que possam afirmar-se regimes democráticos seculares e nãosemidemcoracias pluralistas sectárias (como no Iraque e no Líbano) ou teocráticas (como no Irão e na Arábia Saudita).
Assim haja políticos islâmicos que saibam encontrar para o seu pastor o lugar que Obama deu ao seu e cidadãos, crentes e não crentes, que os façam pensar que esse é o melhor caminho para se manterem no poder.

Turquia: realinhamento estratégico pós Primavera árabe

A Turquia pode ser a grande beneficiária geoestratégica da Primavera àrabe e está a agir em conformidade. Em princípio, o resultado final, embora ainda incerto, dos regimes nascentes no Egipto, na Tunísia e na Líbia será uma democracia formalmente secular com grande influência política de partidos de base islâmica de um novo tipo, para os quais o AKP, o partido maioritário na Turquia, será um exemplo.
Ao nível partidário, o AKP não tem popupado esforços para tecer relações de influência com estas forças emergentes da clandestinidade ou da semilegalidade e para forjar laços com as frentes políticas em formação e que resultam do encontro entre velhos islamistas (tipo Irmandade Muçulmana) e movimentos radicalizados (frequentemente perto do terrorismo ou da luta armada, por vezes mesmo com ligações a Al Qaeda). Este pós-radicalismo islâmico pode vem ser a força emergente nos próximos anos e a nova força política dominante no Médio Oriente e é difícil imaginar que o AKP não se torne numa plataforma influente na definição do caminho dessas forças emergentes.
Ao nível diplomático, a Turquia também está a fazer realinhamentos sérios. Acolheu a primeira grande conferência de apoio à reconstrução da Líbia e está, em simultâneo a retomar uma ligação estratégica com o Egipto e a romper, passo a passo, a aliança que nos últimos anos teve com Israel. Agora, anunciou uma excepção na sua política de "zero problemaqs" com os vizinhos para anunciar que já não fala com o regime sírio, antecipando a sua adesão a sanções. Pelo meio, foi na Turquia que reuniu o conjunto disperso das forças de oposição na tentativa de formar algo equivalente ao Conselho nacional de Transição da Líbia.
A Turquia parece estar a fazer tudo para passar de uma excepção secular nos países de cultura islâmica, para uma força agregadora de um pólo de regimes pluralistas em que as forças islamistas são sufragadas pelo voto popular em eleições livres. Ou, se quisermos antecipar uma tendência provável, para a potência hegemónica de um novo modelo de regime político, o secularismo islâmico, que tem paralelos significativos com o domínio da democracia-cristã em certos períodos da história da Europa Ocidental.
Em princípio são boas notícias, embora tornem ainda mais completo o xadrez da política de alargamento da União Europeia e possa abrir fissuras na OTAN. Ao que se junta a magna questão do conflito israelo-palestiniano.
Israel pode estar perto de ser um dos grandes perdedores da Primavera árabe, a par dos que pensavam que a Europa Ocidental e os EUA podiam ter uma política para a região assente nos interesses económicos e na cooperação militar com regimes autocráticos e opressores, em nome da contenção do radicalismo islâmico.

19.1.10

Novo convite a Vitor Dias, agora para serviço público em matéria de política internacional do PCP

Vitor Dias não gostou que lhe respondessem ao seu elogio ao serviço público a propósito de um livro de rui Mateus. Pensa, erradamente, que foi o incómodo que me moveu. Aproveito para lhe dizer que se o considerasse um dos papagaios do partido, não perderia tempo consigo e que agradeço o que perdeu, até agora, comigo.
Parece que, embora respondendo-me, não aceitou o desafio para falar sobre os financiamentos ao PCP. Também não esperava que o aceitasse, aliás. Mas que era serviço público, era.
Quanto ao seu apreço pela obra de Rui Mateus, agora o Vitor muda de tom, prefere o burlesco. Como compreendo que tenha gostado das passagens sobre os elos entre o PS, o Iraque, a Roménia, a Líbia e a Coreia no Norte. Aproveito para o informar que Rui Mateus  deixou de herança no Departamento Internacional do PS ao seu sucessor, Jorge Sampaio, centenas de obras de propaganda desses regimes talvez seus (dele) amigos. Saiba que a biblioteca sobre o ideal Zuche, tive o prazer de ajudar a removê-la... para o lixo. Saiba ainda que, era jovem mas tive orgulho em ter sido a pessoa escolhida para comunicar ao então Embaixador da república Socialista da Roménia que o PS não se faria representar no que veio a ser o último Congresso do Partido Comunista e ao qual genuinamente me não recordo hoje se o PCP foi e a que nível. (Mas foi, não foi?). Já agora, caro Vitor Dias, que puxa estas potências - a que se junta o Iraque e a Líbia - à liça, aceitará que lhe pergunte se está entre os que ainda hoje consideram a Coreia do Norte uma experiência socialista relevante. Já que não prestou o outro serviço público que lhe pedi, dê-me agora uma lição pública sobre a relação entre a Coreia do Norte e o socialismo. Você não é flor de estufa tão frágil que se incomode por lhe pedir que elabore sobre esta evolução recente da visão do mundo do PCP, pois não?

7.7.09

Semidemocracia islâmica ou ditadura? Os futuros imediatos do Irão.

A notícia de que a disputa política em torno dos resultados das eleições presidenciais do Irão tem implicado, de ambos os lados, os clérigos, vem confirmar que estamos perante fracturas internas do regime. O país é uma semidemocracia, com elementos de pluralismo político, tutelada pela hierarquia religiosa. Ao que parece, há agora uma fractura entre sectores que se reivindicam da herança espiritual da revolução islâmica, como os intelectuais que a apoiaram e serviram os seus primeiros governos e os clérigos que a teorizaram e os que se cimentaram nos poderes "seculares" que esta gerou, como os guardas da revolução e o exército. Ao contrário do que poderia imaginar um ocidental desatento, é nos sectores "espiritualistas" (ou islamistas se preferirem), que o descontentamento popular tem mais eco e nos "seculares" (o aparelho militar-policial) que estão os novos duros do regime. Os primeiros têm uma visão da sua "revolução" que assenta na necessidade de renovar a sua legitimidade e de enquadrar o povo no seu projecto político, bem como a sua ambição de hegemonia os leva a perceber o que tem que mudar para que o regime possa persistir. Os segundos têm apenas a consciência do que podem perder se o poder lhes sai das mãos. Não sabemos se o regime vai conseguir reenquadrar o descontentamento, particularmente nos meios urbanos e persistir como semidemocracia com legitimidade popular ou vai evoluir no sentido da ditadura, prescindindo dessa legitimidade e forçando um ciclo de repressão que pode ser duradouro. Em nenhum dos casos se tornaria numa democracia secular, mas no primeiro deles seria um parceiro mais previsível no cenário internacional. Porque quando uma ditadura tenta reganhar apoio popular fá-lo sempre pelos mais cruéis populismos internos e por gestos internacionais altamente simbólicos mas irresponsáveis. Com Amadhinejad acossado internamente, mantido no poder pela força policial e sem a benção de parte significativa do clero, o mundo tem um factor adicional de crise, que se dispensava. Acresce que não se pode prever com rigor como reagirão os movimentos que gravitam na sua órbita, como o Hezbollah, à divisão que atravessará nesse caso o país, como isso interferirá na estabilidade do Líbano e, necessariamente, em todo o Médio Oriente. De facto, a questão de legitimidade também os afecta porque têm uma filiação ideológica no regime iraniano. Os países aliados, esses, serão imunes à questão. O que liga, por exemplo, a Síria ao Irão não é nenhuma visão do Islão e muito menos a Rússia fragilizará a sua aliança com o regime por este se tornar mais ditatorial.

10.3.09

Partilha da Palestina: um consenso internacional que não convence as partes

O consenso internacional de que a questão israelo-palestiniana não se resolve sem o reconhecimento do direito à existência de dois Estados - Israel e Palestina - não é assumido pelas opiniões públicas de nenhum dos potenciais vizinhos. Para agravar as dificuldades, de um e outro lado da fronteira, os que se opõem a esta tese ganham eleições com frequência. A recusa do reconhecimento do Estado de Israel não impediu o Hamas de ganhar democraticamente as eleições em Gaza e a política irrealista do Likud não o impediu de se estar a preparar para formar governo na sequência dos resultados eleitorais em Israel. Acabam por ser as pressões dos parceiros internacionais que introduzem algum realismo quando as opiniões públicas se orientam para os extremos. Hoje, sob pressão egípcia, a Fatah e o Hamas iniciam negociações tendentes à formação de um governo de reconciliação nacional. Conseguirá a pressão da comunidade ocidental e em particular dos EUA impedir que Israel prossiga o caminho do conflito que se anuncia?