Francisco Lopes saiu em defesa de Ana Teresa Vicente. Fica-lhe bem. Só é pena que a veia da pedagogia democrática apenas o tenha inspirado quando o populismo lhe bateu à porta.
Como penso que a política não deve ser reservada aos que nasceram ricos, enriqueceram ou são funcionários dos partidos, devo dizer que não comungo da ideia de que um cidadão deve ser castigado por aceitar representar o povo e dedicar-se à causa pública e acho que se deve discutir seriamente a compensação que a sociedade acha ser justa para uma pessoa que não progrediu na sua carreira profissional enquanto exercia funções publicas. por acaso até discordo totalmente de manipulações como foi a da contagem a dobrar do tempo para efeitos de reforma, mas defendo que haja um subsidio de inserção, por exemplo igual ao que se teria em caso de despedimento.
Sei, contudo, que não é essa a orientação dos actuais políticos profissionais. Por isso sorrio quando vejo gente como Francisco Lopes a fazer estas piruetas, porque há sempre um "que merece" e é sempre aquele que apreciamos e conhecemos, é nosso amigo ou nosso camarada.
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22.1.13
21.1.13
PCP pavloviano, agora no Mali
Por um socialismo de rosto al-qaediano, a solidariedade internacionalista contra a intervenção imperialista no Mali livre (e certamente também na Argélia dos "que assinam com o próprio sangue").
22.9.12
Depois do Conselho de Estado há uma nova relação de forças na políticaportuguesa
Se o Governo, como tudo indica que fará, recuar na mexida na TSU, haverá uma mudança de página na definição da relação de forças neste ciclo político.
Pela primeira vez nesta crise "a rua" terá obrigado um governo a arrepiar caminho, ainda por cima numa medida que se apresentou como integrando a espinha dorsal da estratégia de acção para 2013.
O Governo terá pago o preço de governar sem os parceiros sociais e terá sido forçado - provavelmente por Belém - a encontrar uma solução que possa ser defendida pela UGT, reforçando o papel desta ultima como instancia legitimadora indispensável, ainda que por aceitação passiva, de mexidas sociais.
O Governo terá reconhecido que Belém é o seu limite. Não se importou minimamente com o Parlamento, os parceiros sociais e o Tribunal Constitucional, mas recuou perante o PR. E o Palácio é hoje muito sensível à "rua" e sobretudo ao bom clima com a CIP e a UGT.
A esquerda maximalista festejará o recuo, mas sem razão. Para muitos manifestantes, o BE e o PCP também são "os políticos" e manifestamente a influencia dos seus aparelhos nos manifestantes é muito menor que nas grandes manifs de antigamente. Como já tinha acontecido a alguns sindicatos, os partidos de protesto também viram os inorgânicos a crescer à sua volta e passarão por um período de desorientação.
O CDS entrou em phasing-out da coligação. Teme voltar a afundar-se com o PSD como lhe aconteceu com Santana Lopes e passará a falar mais vezes, sempre que temer perder votos.
O PS ganhou este round. Depois do PSD ter rompido o consenso europeu que devia manter o centro-esquerda amarrado à austeridade, ficou muito mais livre para criticar credivelmente a relação do governo com a crise. Mas qual será o peso de Belém (e da UGT) no Rato? O sentido final de voto e o discurso que o PS fizer sobre um OE sem TSU o dirão.
É altamente improvável que não haja sacrificados no altar da remodelação governamental. Não sabemos quem serão os bodes expiatórios escolhidos mas, se imperasse o principio da responsabilidade politica, três Ministros teriam que sair antes do Natal: Vitor Gaspar, que orquestrou a estratégia orçamental; Álvaro Santos Pereira que não teve a força ou a visão necessárias para impôr a sua negociação com os parceiros e Mota Soares que aceitou a "prenda" da TSU e até balbuciou precocemente umas frases em sua defesa. Contudo, quem falhou rotundamente foi Passos Coelho, que não conseguiu gerir a relação com o quarteto que devia procurar manter consigo para evitar que o caldo do consenso europeu se entorne: Cavaco, Portas, Seguro e Proença.
A gestão desta crise mostrou que Passos Coelho não cumpre os requisitos indispensáveis para ser Primeiro-Ministro. É apenas necessário que ele o perceba ou alguém lhe explique que assim é.
Pela primeira vez nesta crise "a rua" terá obrigado um governo a arrepiar caminho, ainda por cima numa medida que se apresentou como integrando a espinha dorsal da estratégia de acção para 2013.
O Governo terá pago o preço de governar sem os parceiros sociais e terá sido forçado - provavelmente por Belém - a encontrar uma solução que possa ser defendida pela UGT, reforçando o papel desta ultima como instancia legitimadora indispensável, ainda que por aceitação passiva, de mexidas sociais.
O Governo terá reconhecido que Belém é o seu limite. Não se importou minimamente com o Parlamento, os parceiros sociais e o Tribunal Constitucional, mas recuou perante o PR. E o Palácio é hoje muito sensível à "rua" e sobretudo ao bom clima com a CIP e a UGT.
A esquerda maximalista festejará o recuo, mas sem razão. Para muitos manifestantes, o BE e o PCP também são "os políticos" e manifestamente a influencia dos seus aparelhos nos manifestantes é muito menor que nas grandes manifs de antigamente. Como já tinha acontecido a alguns sindicatos, os partidos de protesto também viram os inorgânicos a crescer à sua volta e passarão por um período de desorientação.
O CDS entrou em phasing-out da coligação. Teme voltar a afundar-se com o PSD como lhe aconteceu com Santana Lopes e passará a falar mais vezes, sempre que temer perder votos.
O PS ganhou este round. Depois do PSD ter rompido o consenso europeu que devia manter o centro-esquerda amarrado à austeridade, ficou muito mais livre para criticar credivelmente a relação do governo com a crise. Mas qual será o peso de Belém (e da UGT) no Rato? O sentido final de voto e o discurso que o PS fizer sobre um OE sem TSU o dirão.
É altamente improvável que não haja sacrificados no altar da remodelação governamental. Não sabemos quem serão os bodes expiatórios escolhidos mas, se imperasse o principio da responsabilidade politica, três Ministros teriam que sair antes do Natal: Vitor Gaspar, que orquestrou a estratégia orçamental; Álvaro Santos Pereira que não teve a força ou a visão necessárias para impôr a sua negociação com os parceiros e Mota Soares que aceitou a "prenda" da TSU e até balbuciou precocemente umas frases em sua defesa. Contudo, quem falhou rotundamente foi Passos Coelho, que não conseguiu gerir a relação com o quarteto que devia procurar manter consigo para evitar que o caldo do consenso europeu se entorne: Cavaco, Portas, Seguro e Proença.
A gestão desta crise mostrou que Passos Coelho não cumpre os requisitos indispensáveis para ser Primeiro-Ministro. É apenas necessário que ele o perceba ou alguém lhe explique que assim é.
28.6.12
Sabia que para receber o subsídio de desemprego é obrigado a revelar o estatuto laboral do seu cônjuge ou parceiro em união de facto?
De vez em quando deparamo-nos com umas pérolas legislativas que desafiam as ideologias. Por exemplo o que terá levado o PCP e Os Verdes a votar a favor (e o BE a abster-se) num projecto-lei da iniciativa de CDS-PP que passou à história como a Lei nº 4/2010, na qual se diz no nº1 do artº 2º que "é obrigatória a actualização dos dados relativos à situação laboral do cônjuge ou equiparado por parte do requerente das prestações de desemprego"?
O CDS-PP tão avesso ao estatuto das uniões de facto, aqui não se importou de as reconhecer amplamente para criar uma obrigação aos desempregados. E o PCP e os Verdes deram uma de defensores da família como unidade básica da nação. Até podemos dar aos desempregados certos direitos relacionados com o seu estatuto familiar, mas o dever universal de declarar dados das suas uniões de facto e casamentos para receber o subsídio de desemprego a que ganhou direito pelo seu trabalho individual?
O CDS-PP tão avesso ao estatuto das uniões de facto, aqui não se importou de as reconhecer amplamente para criar uma obrigação aos desempregados. E o PCP e os Verdes deram uma de defensores da família como unidade básica da nação. Até podemos dar aos desempregados certos direitos relacionados com o seu estatuto familiar, mas o dever universal de declarar dados das suas uniões de facto e casamentos para receber o subsídio de desemprego a que ganhou direito pelo seu trabalho individual?
27.1.12
CGTP: hoje há Congresso
A 10 de Maio de 2011, escrevi aqui no Banco um texto sobre a sucessão da CGTP que incluía uma previsão, que aqui reproduzo para que se compare com o que acontece este fim-de-semana:
Tudo aponta para que o senhor que se segue e que já todos sabemos que é Arménio Carlos resolva as tensões a favor do PCP. Os bastidores devem estar muito activos, para que coopte os clássicos representantes das minorias. Quem sabe se é desta que a UDP e/ou o PSR chegam à Comissão Executiva, donde foram sempre banidos, como sinal da nova "abertura" e recompensa pelo realinhamento do BE como aliado do PCP, já não apenas no Parlamento Europeu, mas também nas legislativas.
O texto dedicado à "chave para a sucessão na CGTP" continua disponível na íntegra, aqui.
Tudo aponta para que o senhor que se segue e que já todos sabemos que é Arménio Carlos resolva as tensões a favor do PCP. Os bastidores devem estar muito activos, para que coopte os clássicos representantes das minorias. Quem sabe se é desta que a UDP e/ou o PSR chegam à Comissão Executiva, donde foram sempre banidos, como sinal da nova "abertura" e recompensa pelo realinhamento do BE como aliado do PCP, já não apenas no Parlamento Europeu, mas também nas legislativas.
O texto dedicado à "chave para a sucessão na CGTP" continua disponível na íntegra, aqui.
20.12.11
A morte de Kim II não estraga a consoada a Jerónimo de Sousa
A retórica "anti-imperialista" do comunicado do PCP sobre a morte de Kim II deixa mais aberto do que é costume o mal-estar do Partido para com aquilo que a direcção já chegou a designar como experiência de socialismo, embora arrepiando caminho entre a versão provisória e a definitiva de umas teses ao Congresso. De facto, o PCP salienta que escreve uma nota de pesar só depois de instado a tal pelos órgãos da comunicação social E sentiu necessidade de mencionar factos e práticas da realidade política coreana com as quais não se identifica . Como não são reservas atribuíveis só ao camarada de turno na secção internacional, são indicadores suficientes de que o CC poupou Bernardino Soares ao incómodo de apresentar um voto de pesar por Kim II na Assembleia da República e de que Jerónimo de Sousa não vai passar a consoada a caminho de Pyongyang. Essa fava deve ter saído a um funcionário pouco exposto à curiosidade mediática.
28.9.11
Estamos em 2011, sabem?
Muita coisa me separa da análise que Carlos Brito faz do último governo e muita pedra haveria que partir para chegar de modo sério ao ponto de convergência política a que apela. Mas, perante o ataque ideológico da direita, cá como lá fora, a esquerda precisa de uma nova agenda se quiser ser alternativa. Por isso partilho inteiramente desta perspectiva:
Nada desculpa que perante a ofensiva violenta da direita, que está a provocar o brutal agravamento das condições de vida dos trabalhadores e de todo o povo, a esquerda permaneça dividida. Nenhuma das grandes formações políticas desta área pode ser desculpada.
O que é possível, por exemplo, na Dinamarca só é impossível em Portugal porque todas as esquerdas ainda vivem determinadas politicamente pelo lado da barricada em que estiveram no PREC, perante o Muro de Berlim ou ambos. Estamos em 2011, sabem?
PS. Para que não me avaliem mal. Entre o bloco central, a maioria de direita e o caos, o princípio da realidade continua a fazer-me preferir o bloco central. Mas esse é o resultado de erros nossos, sectarismo ardente, má fortuna.
Nada desculpa que perante a ofensiva violenta da direita, que está a provocar o brutal agravamento das condições de vida dos trabalhadores e de todo o povo, a esquerda permaneça dividida. Nenhuma das grandes formações políticas desta área pode ser desculpada.
O que é possível, por exemplo, na Dinamarca só é impossível em Portugal porque todas as esquerdas ainda vivem determinadas politicamente pelo lado da barricada em que estiveram no PREC, perante o Muro de Berlim ou ambos. Estamos em 2011, sabem?
PS. Para que não me avaliem mal. Entre o bloco central, a maioria de direita e o caos, o princípio da realidade continua a fazer-me preferir o bloco central. Mas esse é o resultado de erros nossos, sectarismo ardente, má fortuna.
6.9.11
Quando Bush, Blair e as fontes do Avante estão de acordo...
A CIA transportou da Tailândia até à Líbia, com a cooperação do MI6 e aprovação ministerial britânica, pelo menos uma pessoa para ser "interrogada", noticia o Telegraph. Chama-se Abdel Akim Belhadj, o tal passageiro involuntário, entregue a Kadafi para ser torturado. Acontece que agora é um dos chefes militares rebeldes. Por isso, provavelmente, vamos saber mais sobre o que realmente aconteceu.
Seja como for, a "guerra suja" é reprovável em si e esta prova adicional do envolvimento do governo de Blair nem seria surpreendente, não fora o inusitado aliado em tão lamentáveis exercícios.
Fiquei curioso de como lidaria o PCP com esta conivência entre a CIA e o seu mais recente - e algo surpreendente - herói do socialismo. Fui ver e abri a boca de espanto. Porventura ignorando ainda em que companhia aérea Belhadj havia voado para a Líbia, o Avante de 1 de Setembro informa-nos: "Em Tripoli os contra-revolucionários estão às ordens de Abdelhakim Belhadj, quadro militar da Al-Qaeda. De acordo com informações recolhidas pelo jornalista Pepe Escobar para o Asia Times, Belhadj, jihadista forjado no Afeganistão, terá sido libertado pelos EUA para, juntamente com os instrutores e soldados da CIA, MI6, SAS britânico e Legião Francesa, orquestrar, desde Fevereiro, a chamada «insurreição popular contra Kahdafi».
Irá o Avante da próxima semana noticiar que o dito homem foi "libertado" pela CIA nas masmorras de Kadafi? Provavelmente o assunto já não terá actualidade para a próxima edição. Convenhamos que é melhor não insistir numa tecla que terá sido partilhada por Bush, Blair e as fontes do Avante.
PS. Entretanto, as ligações de Kadafi ao "transporte de passageiros" da CIA nem sequer são uma notícia inteiramente nova. Ana Gomes relembra-o e recorda que as linhas aéreas da agência voaram entre Tripoli e aeroportos em Portugal, com as novvas autoridades a, como ela diz, ver navios, que é como quem diz a assobiar para o lado.
Seja como for, a "guerra suja" é reprovável em si e esta prova adicional do envolvimento do governo de Blair nem seria surpreendente, não fora o inusitado aliado em tão lamentáveis exercícios.
Fiquei curioso de como lidaria o PCP com esta conivência entre a CIA e o seu mais recente - e algo surpreendente - herói do socialismo. Fui ver e abri a boca de espanto. Porventura ignorando ainda em que companhia aérea Belhadj havia voado para a Líbia, o Avante de 1 de Setembro informa-nos: "Em Tripoli os contra-revolucionários estão às ordens de Abdelhakim Belhadj, quadro militar da Al-Qaeda. De acordo com informações recolhidas pelo jornalista Pepe Escobar para o Asia Times, Belhadj, jihadista forjado no Afeganistão, terá sido libertado pelos EUA para, juntamente com os instrutores e soldados da CIA, MI6, SAS britânico e Legião Francesa, orquestrar, desde Fevereiro, a chamada «insurreição popular contra Kahdafi».
Irá o Avante da próxima semana noticiar que o dito homem foi "libertado" pela CIA nas masmorras de Kadafi? Provavelmente o assunto já não terá actualidade para a próxima edição. Convenhamos que é melhor não insistir numa tecla que terá sido partilhada por Bush, Blair e as fontes do Avante.
PS. Entretanto, as ligações de Kadafi ao "transporte de passageiros" da CIA nem sequer são uma notícia inteiramente nova. Ana Gomes relembra-o e recorda que as linhas aéreas da agência voaram entre Tripoli e aeroportos em Portugal, com as novvas autoridades a, como ela diz, ver navios, que é como quem diz a assobiar para o lado.
12.7.11
Nem é tempo para o PSD brincar às ofensivas liberais nem para o PS passar a negar a que a crise mundial existe.
A economia portuguesa está doente há uma década e isso notou-se, entre outras coisas, nos crescimentos muito moderados e na incapacidade de conter o aumento do desemprego. Agora que está submetida a terapia intensiva terá dois anos sucessivos de recessão, "o maior recuo combinado da história portuguesa", diz-se. É preciso acreditar na cura para ter ânimo para sobreviver à terapia. Daí que não seja tempo para o PSD brincar às ofensivas liberais nem para o PS se substituir ao PSD de há 6 meses, de modo populista e irresponsável, negando a evidência da crise. Se não foi Sócrates que inventou a crise mundial, ela também não passou a ser ficção quando Passos Coelho chegou a Primeiro-Ministro. Deixemos o PCP e o BE brincar com as dificuldades dos portugueses, convencidos que as capitalizam e concentremo-nos em separar o trigo do joio nas medidas que aí vêm, ou se preferirem, em separar os princípios farmacológicos activos dos placebos e estes ainda dos alucinógenos liberais.
A pílula é tão mais amarga quanto sabemos que a falta de visão europeia da crise fez de nós vítimas precoces de um problema que mais cedo que tarde chegará às barbas de Paris e Berlim. Então, à europeia, serão tomadas as medidas que agora foram recusadas e a pressão sobre nós aliviar-se-á. O que o austeritativismo já nos terá feito não tem regresso, mas nem temos agora alternativa a seguir este caminho nem podemos ter outra esperança que não a de que a Europa prove que existe na hora de gerir o Euro, nem que o faça tarde. tardíssimo, como historicamente sempre faz. Sob pressão, contudo, a Europa tem acabado por tomar boas decisões. Oxalá a história se repita agora.
A pílula é tão mais amarga quanto sabemos que a falta de visão europeia da crise fez de nós vítimas precoces de um problema que mais cedo que tarde chegará às barbas de Paris e Berlim. Então, à europeia, serão tomadas as medidas que agora foram recusadas e a pressão sobre nós aliviar-se-á. O que o austeritativismo já nos terá feito não tem regresso, mas nem temos agora alternativa a seguir este caminho nem podemos ter outra esperança que não a de que a Europa prove que existe na hora de gerir o Euro, nem que o faça tarde. tardíssimo, como historicamente sempre faz. Sob pressão, contudo, a Europa tem acabado por tomar boas decisões. Oxalá a história se repita agora.
16.6.11
O governo preferido dos leitores do Banco Corrido
Mas para a reflexão necessária nos próximos anos acho que as opiniões aqui recolhidas sobre o Governo preferido deixam algumas pistas interessantes:
1. Os leitores que queriam o PSD no Governo tiveram o governo que pediram. Quem queria o PSD no governo apostou na coligação de direita (44%), ou no governo tripartido (27%), em terceiro lugar no bloco central (23%) e só em último lugar num governo minoritário do PSD (7%).
2. Os que queriam o PS no Governo estavam divididos quanto ao Governo que queriam. Apostaram numa maioria de esquerda (25%), mais do que no PS minoritário (23%) ou no PS coligado com o CDS (15%). Rejeitaram claramente o bloco central (defendido por 11%). Mas, se simplificarmos a leitura para uma agregação PS e esquerda, PS sózinho e PS e direita, o resultado é mais expressivo da fractura: PS e direita, 39%; PS e esquerda, 38%; PS sózinho, 23%.
À direita, o espaço natural PSD-CDS parece sólido para quem aqui veio dar opinião.A grande coligação - o bloco central - não mereceu simpatia dos que aqui deixaram o seu testemunho. À esquerda a fractura é notória, apesar da aproximação de análise da situação do país entre os partidos do "arco da governabilidade" e a diferença abissal de discurso político entre o PS e os partidos à sua esquerda.
A quantidade dos que aqui veio, contra todo o discurso produzido pelo PS, pelo PCP e pelo BE, defender um entendimento do PS com a esquerda não deixa de motivar reflexão sobre a descoincidência entre o posicionamento institucional dos partidos e a percepção dos (e)leitores.
Serão apenas os leitores do Banco a "puxarem" por uma opção de esquerda que não tem, de momento, qualquer adesão à realidade, ou reflectirão um sentimento eleitoral relevante que ñenhuma das forças de esquerda absorveu no seu posicionamento estratégico? Quem quiser continuar o debate é bem-vindo, agora à caixa de comentários.
11.6.11
Ich bin ein Daniel Oliveira ou quantas divisões tem o exército do Papa?
"Não, já o disse e alguns não perceberam, o desvario do Bloco não passa pelo seu coordenador." (Daniel Oliveira)
Não sei o suficiente sobre o BE para saber exactamente a quem se deve o desvario. Mas acho que ele foi notório na recente campanha eleitoral, como escrevi aqui. Daniel Oliveira, talvez tacticamente, quer poupar Francisco Louçã, mas a verdade é que o próprio tinha teorizado o objectivo do BE como sendo não o reforço da esquerda mas a derrota do PS. Acabou o BE por ser vítima da sua cegueira táctica e do desconhecimento de uma regra do comportamento eleitoral dos portugueses. Quando a esquerda desce, não é à custa de uns partidos de esquerda em benefício de outros mas, essencialmente, desce em conjunto, claro que uns mais que outros e, quando muito, uns aguentam-se quando os outros caem a pique. Não foi o que agora aconteceu ao BE perante a derrota do PS. Mas, francamente nem é isso que é essencial.
O que é importante é que o BE tudo fez para precipitar a queda do PS, desde a sua pueril moção de censura do Carnaval, sem que tivesse estratégia sobre o que fazer com essa queda.
Há uma coisa que quem dirige o PS, o BE e o PCP não percebe. Os partidos estão distantes entre si em tudo, menos nos seus eleitorados, em que partes significativas já votaram em momentos diferentes nos três.
Nós os "políticos" podemos continuar a viver por muito tempo sem fazer a constatação do Rui Tavares. Ou sem ouvir, no BE, o realismo do Daniel Oliveira que percebeu (sem que eu concorde cm os adjectivos) que o papel do Bloco é ocupar um espaço amplo na esquerda, que não se revê nem na ortodoxia do PCP, nem na moleza do PS, mas que quer um Bloco disponível para soluções de poder. Ou, no PS, cedendo à tentação centrista da equidistância como se não fosse verdade, como disse em 2009, que o que estruturalmente divide o PS do BE e do PCP é a Europa e o princípio da realidade.
Julgo que a esquerda tem tudo a ganhar em clarificar tanto as suas diferenças como as suas convergências, nisso aprendendo com a direita. Foi isso que não conseguiu no ciclo político que agora termina, como em tempo disse Soares, autopsiando previamente (com dois anos de antecedência) a morte da maioria parlamentar de esquerda que se encaminhava para a derrota que teve agora, em 2011. Manuel Alegre, honra lhe seja feita, tentou inverter essa tendência num dado momento, fossem quais fossem as suas intenções. Mas já então foi o mesmo Luis Fazenda que agora nos pergunta quem é Daniel Oliveira que se encarregou de matar a conversa na casca.
Talvez o Daniel, que sabe muito mais do BE que eu, tenha razão quando diz que o problema não passa pelo coordenador. Eu só tenho a certeza que neste momento a solução também não. Quanto a quem é Daniel Oliveira, permitam-me que responda com amizade pelo Daniel, à pergunta de Luis Fazenda. É um homem de esquerda, um espírito livre, que quer ao mesmo tempo que haja à esquerda alternativas ao PS e ao PCP e uma cultura de poder para mudar Portugal em vez de bramir contra os que o mudam contra a nossa vontade. Não será do meu partido e eu não serei do dele, mas sabe distinguir o essencial do acessório. Quantos políticos, no PS, no PCP e no BE o saberão? Cada partido tem o Fazenda que merece e a pergunta estalinista típica de Fazenda ao Daniel, já eu a ouvi a outros no PS e no PCP é cultura oficial. Afinal quantas divisões tem o exército do Papa?
Os Fazendas dos três partidos conduzem-nos ciclicamente aos governos da AD e talvez até fiquem contentes. Os que neles votam mais tarde ou mais cedo vão perceber o logro.
Não sei o suficiente sobre o BE para saber exactamente a quem se deve o desvario. Mas acho que ele foi notório na recente campanha eleitoral, como escrevi aqui. Daniel Oliveira, talvez tacticamente, quer poupar Francisco Louçã, mas a verdade é que o próprio tinha teorizado o objectivo do BE como sendo não o reforço da esquerda mas a derrota do PS. Acabou o BE por ser vítima da sua cegueira táctica e do desconhecimento de uma regra do comportamento eleitoral dos portugueses. Quando a esquerda desce, não é à custa de uns partidos de esquerda em benefício de outros mas, essencialmente, desce em conjunto, claro que uns mais que outros e, quando muito, uns aguentam-se quando os outros caem a pique. Não foi o que agora aconteceu ao BE perante a derrota do PS. Mas, francamente nem é isso que é essencial.
O que é importante é que o BE tudo fez para precipitar a queda do PS, desde a sua pueril moção de censura do Carnaval, sem que tivesse estratégia sobre o que fazer com essa queda.
Há uma coisa que quem dirige o PS, o BE e o PCP não percebe. Os partidos estão distantes entre si em tudo, menos nos seus eleitorados, em que partes significativas já votaram em momentos diferentes nos três.
Nós os "políticos" podemos continuar a viver por muito tempo sem fazer a constatação do Rui Tavares. Ou sem ouvir, no BE, o realismo do Daniel Oliveira que percebeu (sem que eu concorde cm os adjectivos) que o papel do Bloco é ocupar um espaço amplo na esquerda, que não se revê nem na ortodoxia do PCP, nem na moleza do PS, mas que quer um Bloco disponível para soluções de poder. Ou, no PS, cedendo à tentação centrista da equidistância como se não fosse verdade, como disse em 2009, que o que estruturalmente divide o PS do BE e do PCP é a Europa e o princípio da realidade.
Julgo que a esquerda tem tudo a ganhar em clarificar tanto as suas diferenças como as suas convergências, nisso aprendendo com a direita. Foi isso que não conseguiu no ciclo político que agora termina, como em tempo disse Soares, autopsiando previamente (com dois anos de antecedência) a morte da maioria parlamentar de esquerda que se encaminhava para a derrota que teve agora, em 2011. Manuel Alegre, honra lhe seja feita, tentou inverter essa tendência num dado momento, fossem quais fossem as suas intenções. Mas já então foi o mesmo Luis Fazenda que agora nos pergunta quem é Daniel Oliveira que se encarregou de matar a conversa na casca.
Talvez o Daniel, que sabe muito mais do BE que eu, tenha razão quando diz que o problema não passa pelo coordenador. Eu só tenho a certeza que neste momento a solução também não. Quanto a quem é Daniel Oliveira, permitam-me que responda com amizade pelo Daniel, à pergunta de Luis Fazenda. É um homem de esquerda, um espírito livre, que quer ao mesmo tempo que haja à esquerda alternativas ao PS e ao PCP e uma cultura de poder para mudar Portugal em vez de bramir contra os que o mudam contra a nossa vontade. Não será do meu partido e eu não serei do dele, mas sabe distinguir o essencial do acessório. Quantos políticos, no PS, no PCP e no BE o saberão? Cada partido tem o Fazenda que merece e a pergunta estalinista típica de Fazenda ao Daniel, já eu a ouvi a outros no PS e no PCP é cultura oficial. Afinal quantas divisões tem o exército do Papa?
Os Fazendas dos três partidos conduzem-nos ciclicamente aos governos da AD e talvez até fiquem contentes. Os que neles votam mais tarde ou mais cedo vão perceber o logro.
10.5.11
A chave para a sucessão na CGTP
"Eu não tenho relações com Jerónimo de Sousa. Conhecemo-nos há muitos anos, sempre tivemos relações cordiais, mantemos essas relações cordiais, as relações da CGTP com o PCP são relações institucionais conhecidas." (Manuel Carvalho da Silva, em entrevista ao CM)
Não é preciso ser um iniciado na kremlinologia da CGTP para saber que Carvalho da Silva e Jerónimo de Sousa andam de cadeias às avessas pelo menos desde quando um quis ser Secretário-Geral da CGTP e foi o outro, muito antes do outro ser Secretário-Geral do PCP em vez de algum dos companheiros de visão da evolução do comunismo do primeiro.
Mas a CGTP nunca teve autonomia para ter um líder que pudesse actuar autónomamente e conflituante com a "linha do partido". Foi isso que aconteceu nos últimos anos, embora a opinião pública alargada não tenha dado conta.
A situação anómala gerou conflitos que tiveram alguns desenvolvimentos relevantes, embora tenham passado despercebidos.
Houve sindicatos com duas listas saídas da linha sindical do PCP degladiando-se quase até aos tribunais (como no SPGL). Houve o caso da não entrada na CSI, que levou ao saneamento de Florival Lança, um militante comunista histórico e responsável até à dissidência pela política internacional da central.
Noutro plano,o da concertação social, as tensões internas da CGTP foram muito visíveis pelo menos na última década. Se obedeceu sempre em última instância ao PCP quanto a modos de acção e calendários no protesto de rua e convocação de greves, enfrentou o partido em negociações com diferentes governos. Umas vezes fintou as proibições, outras vezes a segunda linha com dupla lealdade ao partido e ao sindicalismo placou os controleiros, outras vezes e pelo menos uma de modo pouco honroso para a central, foi óbvio que capitulou às ordens recebidas.
Em todo o caso, como diriam os marxistas, as contradições foram-se agudizando ao ponto de chegar a um impasse. O PCP de Jerónimo está cada vez mais entrincheirado na visão bolchevique do mundo mas teme que a saída de cena de Carvalho da Silva o faça perder as boas graças mediáticas. Carvalho da Silva e os seus sindical-comunistas estão cada vez mais reduzidos a funções de representação e sem poder real, cercados pelo aparelho e combatidos ferozmente sindicato a sindicato, mas não abandonam o plano da acção pública.
O preço é o de Carvalho da Silva cumprir todos os serviços mínimos à retórica imposta pelo partido e o partido não ter coragem para o atirar porta fora, quiçá com um enxovalho pelo caminho, como tem feito até a alguns dos seus próximos.
Mas o tempo e a agudização da situação com o derrube do Governo e a perspectiva de uma luta prolongada contra o FMI é uma oportunidade de ouro para quem manda de facto na CGTP.
Carvalho da Silva disse, julgo pela primeira vez, que não tem relações com o senhor que por acaso é Secretário-Geral do PCP que mais que nunca quer o controle férreo da CGTP. Acrescentou, com pura ironia, que a relação entre CGTP e PCP se faz no seio das relações institucionais "conhecidas".
Tudo aponta para que o senhor que se segue e que já todos sabemos que é Arménio Carlos resolva as tensões a favor do PCP. Os bastidores devem estar muito activos, para que coopte os clássicos representantes das minorias. Quem sabe se é desta que a UDP e/ou o PSR chegam à Comissão Executiva, donde foram sempre banidos, como sinal da nova "abertura" e recompensa pelo realinhamento do BE como aliado do PCP, já não apenas no Parlamento Europeu, mas também nas legislativas.
Carvalho da Silva tornou pública a chave do seu problema. Um Secretário-Geral da CGTP que declara que não tem relações com o Secretário-Geral do PCP não tem futuro. A menos que fosse o outro a não tê-lo. Mas essa batalha os comunistas com quem Carvalho da Silva poderia contar já a perderam há muito.
Não é preciso ser um iniciado na kremlinologia da CGTP para saber que Carvalho da Silva e Jerónimo de Sousa andam de cadeias às avessas pelo menos desde quando um quis ser Secretário-Geral da CGTP e foi o outro, muito antes do outro ser Secretário-Geral do PCP em vez de algum dos companheiros de visão da evolução do comunismo do primeiro.
Mas a CGTP nunca teve autonomia para ter um líder que pudesse actuar autónomamente e conflituante com a "linha do partido". Foi isso que aconteceu nos últimos anos, embora a opinião pública alargada não tenha dado conta.
A situação anómala gerou conflitos que tiveram alguns desenvolvimentos relevantes, embora tenham passado despercebidos.
Houve sindicatos com duas listas saídas da linha sindical do PCP degladiando-se quase até aos tribunais (como no SPGL). Houve o caso da não entrada na CSI, que levou ao saneamento de Florival Lança, um militante comunista histórico e responsável até à dissidência pela política internacional da central.
Noutro plano,o da concertação social, as tensões internas da CGTP foram muito visíveis pelo menos na última década. Se obedeceu sempre em última instância ao PCP quanto a modos de acção e calendários no protesto de rua e convocação de greves, enfrentou o partido em negociações com diferentes governos. Umas vezes fintou as proibições, outras vezes a segunda linha com dupla lealdade ao partido e ao sindicalismo placou os controleiros, outras vezes e pelo menos uma de modo pouco honroso para a central, foi óbvio que capitulou às ordens recebidas.
Em todo o caso, como diriam os marxistas, as contradições foram-se agudizando ao ponto de chegar a um impasse. O PCP de Jerónimo está cada vez mais entrincheirado na visão bolchevique do mundo mas teme que a saída de cena de Carvalho da Silva o faça perder as boas graças mediáticas. Carvalho da Silva e os seus sindical-comunistas estão cada vez mais reduzidos a funções de representação e sem poder real, cercados pelo aparelho e combatidos ferozmente sindicato a sindicato, mas não abandonam o plano da acção pública.
O preço é o de Carvalho da Silva cumprir todos os serviços mínimos à retórica imposta pelo partido e o partido não ter coragem para o atirar porta fora, quiçá com um enxovalho pelo caminho, como tem feito até a alguns dos seus próximos.
Mas o tempo e a agudização da situação com o derrube do Governo e a perspectiva de uma luta prolongada contra o FMI é uma oportunidade de ouro para quem manda de facto na CGTP.
Carvalho da Silva disse, julgo pela primeira vez, que não tem relações com o senhor que por acaso é Secretário-Geral do PCP que mais que nunca quer o controle férreo da CGTP. Acrescentou, com pura ironia, que a relação entre CGTP e PCP se faz no seio das relações institucionais "conhecidas".
Tudo aponta para que o senhor que se segue e que já todos sabemos que é Arménio Carlos resolva as tensões a favor do PCP. Os bastidores devem estar muito activos, para que coopte os clássicos representantes das minorias. Quem sabe se é desta que a UDP e/ou o PSR chegam à Comissão Executiva, donde foram sempre banidos, como sinal da nova "abertura" e recompensa pelo realinhamento do BE como aliado do PCP, já não apenas no Parlamento Europeu, mas também nas legislativas.
Carvalho da Silva tornou pública a chave do seu problema. Um Secretário-Geral da CGTP que declara que não tem relações com o Secretário-Geral do PCP não tem futuro. A menos que fosse o outro a não tê-lo. Mas essa batalha os comunistas com quem Carvalho da Silva poderia contar já a perderam há muito.
15.4.11
Um partido de classe...docente
O PCP divulgou os seus cabeças de lista às legislativas. Na sua maioria são operários, certo? Não, camarada, são professores. O PCP é o partido da classe docente. Ou melhor, em busca de um nicho eleitoral bem definido. Quem tem sentido de oportunidade, quem é?
10.2.11
A moção de censura da Primavera pode vir, afinal, já no Carnaval
1. O BE vai apresentar a sua moção de censura dentro de um mês, disse hoje Francisco Louçã na Assembleia da República. O mesmo Francisco Louçã tinha dito no fim-de-semana passado que tal gesto agora não teria utilidade prática. Portanto, ou anunciou um gesto sem utilidade prática ou mudou de opinião sobre a dita utilidade entre sábado e quarta-feira.
2. A rapidez da mudança de discurso do líder do BE sobre o assunto levanta uma curiosa questão sobre a democracia interna do seu partido ou a verdade da sua relação com os media. Ou a Mesa Nacional do passado fim-de-semana discutiu o assunto e tomou a decisão e Louçã ludibriou os jornalistas com o que disse sobre o assunto. Ou nãoo discutiu e o poder do directório Louçã-Fazenda é tal que os dirigentes do seu partido podem saber de decisão tão importante pelos jornais, sem consulta prévia quais primeiros-ministros europeus perante a dupla Merkel-Sarkozy.
3. O anúncio súbito e sem preparação de tal gesto é um sinal do esquerdismo que tanto irrita os comunistas com sólida formação táctica. O BE sabia que ia ficar amarrado pela sua fragilidade sindical à dinâmica de protesto que o PCP queria protagonizar (como eu disse aqui). Estava consciente que aparecia num papel secundário na operação, que exigiria logística e tempo, que o PCP tinha em marcha. E, como sempre na velha extrema-esquerda, perante a fragilidade, deu um salto em frente, como um jogador de xadrez que não pensa no fim da partida, mas apenas na construção de uma vantagem para a jogada seguinte.
4. Na jogada do BE, o principal visado não é o Governo, mesmo que possa parecer que é a sua grande vítima potencial. O BE quer apenas proeminência sobre os protagonistas comunistas e só o consegue com gestos mediáticos e solos virtuosos. Ao contrário do PCP, o BE não tem o PS como inimigo principal, mas como inimigo secundário. Antes de se dedicar a essa tarefa tem que ganhar vantagem sobre o PCP como protagonista da esquerda à esquerda do PS. O primeiro inimigo do BE, no Parlamento, nos sindicatos, nos ditos movimentos sociais, continua a ser a organização sólida e disciplinada do PCP. Os bloquistas acham-se mais brilhantes, mais inteligentes e mais educados, mais orientados para o futuro, mas subalternizados por uma máquina cinzenta mas podrerosa e triturante em diferentes campos de acção. Hoje, no Grupo Parlamentar do BE há pessoas que dedicaram a sua vida à militância política antigamente dita unitária mas que o PCP sempre vetou para qualquer função importante, que nem esqueceram nem desistiram.
5. É muito provável que o BE tenha feito abortar o sucesso de uma moção de censura, o que não lamento, antes pelo contrário. Mas o oportunismo de a fazer discutir nos primeiros dias de mandato de Cavaco Silva; a coincidência temporal da discussão com o rescaldo das brejeirices do Carnaval da Mealhada e aparentados e a greve de braços caídos que o PCP fará nos exercícios preparatórios, ajudarão a esquerda a isolar-se e diminuem as hipóteses de condicionar o PSD e o CDS. Durante um mês teremos uma espécie de campanha eleitoral entre PCP e BE a ver quem faz discurso mais radical, quem ataca mais a União Europeia real, quem diz mais coisas irreais sobre as possibilidades de sustentar o Estado social. O PCP pagará com gosto esse tributo verbal, desembaraçado da responsabilidade da operação e sabendo que o seu sucesso está comprometido. Ajudará, aliás, a comprometê-lo no que puder. Acredito que as manifestações e greves a convocar até Março estão agora adiadas para Abril. O PCP tudo fará para alimentar então a ideia de que a esquerda é minoritária no parlamento mas maioritária na rua, uma vez que não acredita que processos apressados não abortem.
6. O PSD e o CDS também podem ter algum alívio porque sem tanta pressão da rua, sem tanto descontentamento "espontâneo", sentir-se-ão mais livres para fazer o papel de parceiro responsável. Aliás, é dificil imaginar Passos Coelho a querer mandar José Sócrates já em campanha para a reeleição para a Cimeira Extraordinária em que tantas medidas do seu póprio programa parecem estar perto de ser tomadas. Se Sócrates estiver demissionário por força da derrota, pode ir à Cimeira de Março dizer o que lhe vai na alma, até porque coincidirá com facilidade com a única via para tentar ganhar eleições. Se for para a mesma Cimeira reforçado pela viabilização da direita ao seu Governo, se fica mais livre para dizer que o Parlamento recusou aventuras irresponsáveis, continuará impedido de expressar em público discordâncias sobre o sapo liberal que tem que engolir para evitar o recurso ao FMI.
7. A moção de censura que o PCP queria preparar para a Primavera visava condicionar toda a gente. A que o BE vai apresentar no Carnaval é um fogacho de circunstância. Entre uma e outra há toda a diferença que resulta de o PCP sonhar com o derrube de um regime e o BE querer apenas a crista da onda. O hino da moção do PCP seria a centenária Internacional, o da do BE será a instantânea "parva que sou".
2. A rapidez da mudança de discurso do líder do BE sobre o assunto levanta uma curiosa questão sobre a democracia interna do seu partido ou a verdade da sua relação com os media. Ou a Mesa Nacional do passado fim-de-semana discutiu o assunto e tomou a decisão e Louçã ludibriou os jornalistas com o que disse sobre o assunto. Ou nãoo discutiu e o poder do directório Louçã-Fazenda é tal que os dirigentes do seu partido podem saber de decisão tão importante pelos jornais, sem consulta prévia quais primeiros-ministros europeus perante a dupla Merkel-Sarkozy.
3. O anúncio súbito e sem preparação de tal gesto é um sinal do esquerdismo que tanto irrita os comunistas com sólida formação táctica. O BE sabia que ia ficar amarrado pela sua fragilidade sindical à dinâmica de protesto que o PCP queria protagonizar (como eu disse aqui). Estava consciente que aparecia num papel secundário na operação, que exigiria logística e tempo, que o PCP tinha em marcha. E, como sempre na velha extrema-esquerda, perante a fragilidade, deu um salto em frente, como um jogador de xadrez que não pensa no fim da partida, mas apenas na construção de uma vantagem para a jogada seguinte.
4. Na jogada do BE, o principal visado não é o Governo, mesmo que possa parecer que é a sua grande vítima potencial. O BE quer apenas proeminência sobre os protagonistas comunistas e só o consegue com gestos mediáticos e solos virtuosos. Ao contrário do PCP, o BE não tem o PS como inimigo principal, mas como inimigo secundário. Antes de se dedicar a essa tarefa tem que ganhar vantagem sobre o PCP como protagonista da esquerda à esquerda do PS. O primeiro inimigo do BE, no Parlamento, nos sindicatos, nos ditos movimentos sociais, continua a ser a organização sólida e disciplinada do PCP. Os bloquistas acham-se mais brilhantes, mais inteligentes e mais educados, mais orientados para o futuro, mas subalternizados por uma máquina cinzenta mas podrerosa e triturante em diferentes campos de acção. Hoje, no Grupo Parlamentar do BE há pessoas que dedicaram a sua vida à militância política antigamente dita unitária mas que o PCP sempre vetou para qualquer função importante, que nem esqueceram nem desistiram.
5. É muito provável que o BE tenha feito abortar o sucesso de uma moção de censura, o que não lamento, antes pelo contrário. Mas o oportunismo de a fazer discutir nos primeiros dias de mandato de Cavaco Silva; a coincidência temporal da discussão com o rescaldo das brejeirices do Carnaval da Mealhada e aparentados e a greve de braços caídos que o PCP fará nos exercícios preparatórios, ajudarão a esquerda a isolar-se e diminuem as hipóteses de condicionar o PSD e o CDS. Durante um mês teremos uma espécie de campanha eleitoral entre PCP e BE a ver quem faz discurso mais radical, quem ataca mais a União Europeia real, quem diz mais coisas irreais sobre as possibilidades de sustentar o Estado social. O PCP pagará com gosto esse tributo verbal, desembaraçado da responsabilidade da operação e sabendo que o seu sucesso está comprometido. Ajudará, aliás, a comprometê-lo no que puder. Acredito que as manifestações e greves a convocar até Março estão agora adiadas para Abril. O PCP tudo fará para alimentar então a ideia de que a esquerda é minoritária no parlamento mas maioritária na rua, uma vez que não acredita que processos apressados não abortem.
6. O PSD e o CDS também podem ter algum alívio porque sem tanta pressão da rua, sem tanto descontentamento "espontâneo", sentir-se-ão mais livres para fazer o papel de parceiro responsável. Aliás, é dificil imaginar Passos Coelho a querer mandar José Sócrates já em campanha para a reeleição para a Cimeira Extraordinária em que tantas medidas do seu póprio programa parecem estar perto de ser tomadas. Se Sócrates estiver demissionário por força da derrota, pode ir à Cimeira de Março dizer o que lhe vai na alma, até porque coincidirá com facilidade com a única via para tentar ganhar eleições. Se for para a mesma Cimeira reforçado pela viabilização da direita ao seu Governo, se fica mais livre para dizer que o Parlamento recusou aventuras irresponsáveis, continuará impedido de expressar em público discordâncias sobre o sapo liberal que tem que engolir para evitar o recurso ao FMI.
7. A moção de censura que o PCP queria preparar para a Primavera visava condicionar toda a gente. A que o BE vai apresentar no Carnaval é um fogacho de circunstância. Entre uma e outra há toda a diferença que resulta de o PCP sonhar com o derrube de um regime e o BE querer apenas a crista da onda. O hino da moção do PCP seria a centenária Internacional, o da do BE será a instantânea "parva que sou".
8.2.11
Vem aí mais uma moção de censura?
1. O PCP, com as cautelas tácticas que o caracterizam, está a apalpar o terreno para a apresentação de uma moção de censura.
Diz a experiência que entre estes primeiros passos e a efectiva apresentação deve haver uns testes de rua, com a marcação de umas manfestações e de umas greves pelos sindicatos mais obedientes da CGTP, pelo que é de esperar mais umas greves nos transportes, na administração local, na função pública em geral, porventura nos professores.
Se a organização do descontentamento produzir os resultados esperados surgirá, no topo da estratégia, a dita moção. Então, o BE já estará amarrado pelos seus braços e fragilidades sindicais e a direita estará constrangida a fazer o flic-flac de apoiar o Governo, destruindo a retórica anti-Sócrates violenta de Passos Coelho ou de aparecer ao povo a reboque do PCP.
Para que assim seja, o PCP tem que andar depressa e Março tem que ser um mês de grande contestação. Até porque o PCP não pode correr o risco de bons resultados na execução orçamental lhe estragarem a jogada e darem ao PSD um bom pretexto para se abster sem prejudicar o seu alinhamento. Portanto, se eu fosse adivinho, esperava por uma moção de censura do PCP a ser apresentada na AR algures entre a posse do Presidente da República e o 25 de Abril, quiçá no rescaldo do Congresso do PS.
2. Há quem se surpreenda por o discurso do PCP sobre moções de censura ser agora diferente do que foi no contexto pré-Presidenciais. Temos que reconhecer que a novidade era esse discurso ser a sério e não conjunturalmente definido pela vontade de atraír votos para o pré-candidato a sucessor de Jerónimo de Sousa. Mesmo assim, convém recordar que o PCP não dizia que não apresentava moções de censura, dizia uma coisa bem diferente, ou seja, que não garantia a aprovação de moções de censura da direita. Ao antecipar-se, pode evitar esse risco minimizando os custos, que sempre existem, de dois discursos contraditórios.
3. O que pode querer o PCP com tal moção? A mim parece-me claro. Se a moção for derrotada, ganha poque "desmascara" os verdadeiros aliados do governo e pode fazer o discurso do "capitulacionismo" do PS à direita. Se a moção for vencedora, ganha porque foi a direita que se colou a ele e caberá, em particular a Passos Coelho, o ónus de explicar aos seus eleitores porque diz que o país precisa de estabilidade, bom governo, menos Estado e viabiliza uma moção de censura que há-de estar bem recheada de retórica anti-capitalista, linguagem dos direitos sociais e necessidade de "outra política".
4. Ao agir assim, o PCP aceita correr o risco de aumentar a probabilidade do regresso de um governo de direita? Claro. Mas esse não é e nunca foi o problema do PCP. O que eles mais temem é o tempo em que o país tem governos de centro-esquerda bem sucedidos e com políticas sociais consequentes. Atacaram impiedosamente os seus próprios dirigentes de topo que dialogaram com governos do PS no passado, levando alguns até à expulsão, tentaram activamente boicotar todos os acordos de concertação social que a CGTP assinou e conseguiram que não assinasse alguns em que estavam as próprias propostas da central sindical. Assustou-os que um Secretário-geral do PS desfilasse na primeira fila de uma manifestação do 25 de Abril e pudesse ir ao 1º de Maio de ambas as centrais sindicais e ser bem recebido também na da CGTP. Armadilharam o Forum Social quando o PS se juntou, desmantelaram o Comité Português para a Paz e a Cooperação por ter veleidades de independência, etc. etc.
5. Na doutrina estratégica do PCP, o objectivo final é a revolução comunista e o inimigo dessa revolução que mais temem é o sucesso do socialismo democrático. Parecem chavões? Olhem para os textos do PCP e não para as minhas palavras. Vejam o quanto temem a "socialdemocratização" do comunismo, o que vai de chamarem traidor a Gorbachov até ao desprezo pelos partidos comunistas que estabeleceram plataformas de governo na Europa Ocidental. Para o PCP, um governo PSD-CDS é um seguro de vida e um governo do PS é uma ameaça latente.
6. Em suma, a táctica do PCP é coerente. Quer retomar a iniciativa política, esquecer o relativo desaire das Presidenciais em que não capitalizou o desastre de Alegre e maximizar as hipóteses de ter um inimigo realmente de direita para combater. Para o PCP, o PS é o inimigo, o PSD é apenas um adversário.
Diz a experiência que entre estes primeiros passos e a efectiva apresentação deve haver uns testes de rua, com a marcação de umas manfestações e de umas greves pelos sindicatos mais obedientes da CGTP, pelo que é de esperar mais umas greves nos transportes, na administração local, na função pública em geral, porventura nos professores.
Se a organização do descontentamento produzir os resultados esperados surgirá, no topo da estratégia, a dita moção. Então, o BE já estará amarrado pelos seus braços e fragilidades sindicais e a direita estará constrangida a fazer o flic-flac de apoiar o Governo, destruindo a retórica anti-Sócrates violenta de Passos Coelho ou de aparecer ao povo a reboque do PCP.
Para que assim seja, o PCP tem que andar depressa e Março tem que ser um mês de grande contestação. Até porque o PCP não pode correr o risco de bons resultados na execução orçamental lhe estragarem a jogada e darem ao PSD um bom pretexto para se abster sem prejudicar o seu alinhamento. Portanto, se eu fosse adivinho, esperava por uma moção de censura do PCP a ser apresentada na AR algures entre a posse do Presidente da República e o 25 de Abril, quiçá no rescaldo do Congresso do PS.
2. Há quem se surpreenda por o discurso do PCP sobre moções de censura ser agora diferente do que foi no contexto pré-Presidenciais. Temos que reconhecer que a novidade era esse discurso ser a sério e não conjunturalmente definido pela vontade de atraír votos para o pré-candidato a sucessor de Jerónimo de Sousa. Mesmo assim, convém recordar que o PCP não dizia que não apresentava moções de censura, dizia uma coisa bem diferente, ou seja, que não garantia a aprovação de moções de censura da direita. Ao antecipar-se, pode evitar esse risco minimizando os custos, que sempre existem, de dois discursos contraditórios.
3. O que pode querer o PCP com tal moção? A mim parece-me claro. Se a moção for derrotada, ganha poque "desmascara" os verdadeiros aliados do governo e pode fazer o discurso do "capitulacionismo" do PS à direita. Se a moção for vencedora, ganha porque foi a direita que se colou a ele e caberá, em particular a Passos Coelho, o ónus de explicar aos seus eleitores porque diz que o país precisa de estabilidade, bom governo, menos Estado e viabiliza uma moção de censura que há-de estar bem recheada de retórica anti-capitalista, linguagem dos direitos sociais e necessidade de "outra política".
4. Ao agir assim, o PCP aceita correr o risco de aumentar a probabilidade do regresso de um governo de direita? Claro. Mas esse não é e nunca foi o problema do PCP. O que eles mais temem é o tempo em que o país tem governos de centro-esquerda bem sucedidos e com políticas sociais consequentes. Atacaram impiedosamente os seus próprios dirigentes de topo que dialogaram com governos do PS no passado, levando alguns até à expulsão, tentaram activamente boicotar todos os acordos de concertação social que a CGTP assinou e conseguiram que não assinasse alguns em que estavam as próprias propostas da central sindical. Assustou-os que um Secretário-geral do PS desfilasse na primeira fila de uma manifestação do 25 de Abril e pudesse ir ao 1º de Maio de ambas as centrais sindicais e ser bem recebido também na da CGTP. Armadilharam o Forum Social quando o PS se juntou, desmantelaram o Comité Português para a Paz e a Cooperação por ter veleidades de independência, etc. etc.
5. Na doutrina estratégica do PCP, o objectivo final é a revolução comunista e o inimigo dessa revolução que mais temem é o sucesso do socialismo democrático. Parecem chavões? Olhem para os textos do PCP e não para as minhas palavras. Vejam o quanto temem a "socialdemocratização" do comunismo, o que vai de chamarem traidor a Gorbachov até ao desprezo pelos partidos comunistas que estabeleceram plataformas de governo na Europa Ocidental. Para o PCP, um governo PSD-CDS é um seguro de vida e um governo do PS é uma ameaça latente.
6. Em suma, a táctica do PCP é coerente. Quer retomar a iniciativa política, esquecer o relativo desaire das Presidenciais em que não capitalizou o desastre de Alegre e maximizar as hipóteses de ter um inimigo realmente de direita para combater. Para o PCP, o PS é o inimigo, o PSD é apenas um adversário.
11.10.10
Um golpe na credibilidade de quem?
O PCP considera que a atribuição do Nobel da Paz deste ano a Liu Xiaobo é um golpe na credibilidade do galardão. A ser um golpe na credibilidade de alguém, este comentário do PCP sê-lo-ia na do Partido que o escreve, se alguma tivesse em matéria de defesa dos Direitos Humanos.
20.9.10
Coreia do Norte: mais um passo para entronizar Kim III
Ainda há alguém que chame àquilo socialismo? Em Portugal, ainda há dois anos havia: o Comité Central do PCP. Aliás, ainda pode comprar nas Edições Avante este livro anunciado como conseguindo explicar porque o socialismo sobreviveu na Coreia do Norte, "pelo menos numa certa forma".
8.9.10
De passagem pelo banco, o Luis Costa recomenda
Acabei de ler o livro da Leonor Figueiredo SITA VALLES Revolucionária, Comunista até à Morte (1951-1977). Devorei-o num ápice e, reconheço-o, mexeu muito comigo.
Conheci a Sita aí por 72/73 era eu dirigente (eleito Vice-presidente da Direcção, mas impedido, como todos os membros da lista, de tomar posse pelo Ministério de Veiga Simão) da única associação de estudantes de Lisboa (ISCSPU) "controlada" à data pela UEC/PCP na academia de Lisboa, como de resto se evidencia no livro, quando a Sita emerge no movimento associativo de Medicina e, depois, em todo o movimento estudantil de Lisboa. Eu era delegado à RIA e tinhamos contactos espúrios.
Para cuidar da vidinha e pagar a renda de casa, eu tinha um biscate no Ministério do Ultramar, arranjado pelo meu conterrâneo Luis Magueijo, que era lá contínuo, que começou por ser a contagem manual das fichas do recenseamento da Guiné e depois foi evoluindo para organizar uma biblioteca especializada em publicações da FAO e para apoiar a equipa que produzia regularmente um boletim de conjuntura, de circulação reservada, com a informação real sobre a economia das "províncias ultramarinas". Obviamente que, pelos canais adequados, chegava sempre uma cópia aos meus contactos estudantis ligados aos movimentos de libertação.
Um belo dia, aí por Setembro de 73, por altura das "eleições", a Sita foi ter comigo ao Ministério do Ultramar. Chega ao edifício do Restelo, onde hoje funciona o Ministério da Defesa, anuncia-se na recepção, toma o elevador até ao 4º andar, avança pelo longo corredor até ao gabinete que partilhava com dois colegas funcionários, na Direcção-Geral de Economia. Exuberante como sempre, saia curta como normalmente, sobressaia na lapela do casaco o emblema da CDE, aquele a que chamavamos na gíria o "pé de galinha". Obviamente que fiquei à rasca e transmiti-lhe subtilmente o incómodo. Mas pronto, eu também não era dos mais prudentes na pureza (ingenuidade?) dos 20 anos e ali à volta a minha conotação com o "contra" já era sobremaneira conhecida.
Esta Sita timorata que eu conheci está impecavel/implacavelmente retratada no livro.
Depois do 25 de Abril perdi-lhe praticamente o rasto. Ela era da UEC e a minha ligação era com o Partido. Embora continuasse a estudar e pertencesse aos orgãos sociais da associação de estudantes, a minha ligação partidária era em Algés onde morava e sobretudo enquanto membro do organismo de direcção da função pública. Soube mais tarde que tinha rumado a Angola. Depois vieram as notícias do esmagamento da "Revolta Activa" e do seu bárbaro assassínato. Ainda me recordo das discussões feitas em reunião de célula quando questionávamos o Partido sobre o que se tinha passado, bem como a pouco inteligível posição do "grande colectivo" sobre os acontecimentos.
O livro abre pistas, ajuda a enquadrar os factos, permite compreender o posicionamento dos actores, regista silêncios, mas obviamente que muito há ainda por esclarecer, até porque o exercício do direito do contraditório revela-se impossível, porque os "revoltosos" foram todos aniquilados.
Em síntese: leitura recomendada.
Boas leituras.
Luis Costa
Conheci a Sita aí por 72/73 era eu dirigente (eleito Vice-presidente da Direcção, mas impedido, como todos os membros da lista, de tomar posse pelo Ministério de Veiga Simão) da única associação de estudantes de Lisboa (ISCSPU) "controlada" à data pela UEC/PCP na academia de Lisboa, como de resto se evidencia no livro, quando a Sita emerge no movimento associativo de Medicina e, depois, em todo o movimento estudantil de Lisboa. Eu era delegado à RIA e tinhamos contactos espúrios.
Para cuidar da vidinha e pagar a renda de casa, eu tinha um biscate no Ministério do Ultramar, arranjado pelo meu conterrâneo Luis Magueijo, que era lá contínuo, que começou por ser a contagem manual das fichas do recenseamento da Guiné e depois foi evoluindo para organizar uma biblioteca especializada em publicações da FAO e para apoiar a equipa que produzia regularmente um boletim de conjuntura, de circulação reservada, com a informação real sobre a economia das "províncias ultramarinas". Obviamente que, pelos canais adequados, chegava sempre uma cópia aos meus contactos estudantis ligados aos movimentos de libertação.
Um belo dia, aí por Setembro de 73, por altura das "eleições", a Sita foi ter comigo ao Ministério do Ultramar. Chega ao edifício do Restelo, onde hoje funciona o Ministério da Defesa, anuncia-se na recepção, toma o elevador até ao 4º andar, avança pelo longo corredor até ao gabinete que partilhava com dois colegas funcionários, na Direcção-Geral de Economia. Exuberante como sempre, saia curta como normalmente, sobressaia na lapela do casaco o emblema da CDE, aquele a que chamavamos na gíria o "pé de galinha". Obviamente que fiquei à rasca e transmiti-lhe subtilmente o incómodo. Mas pronto, eu também não era dos mais prudentes na pureza (ingenuidade?) dos 20 anos e ali à volta a minha conotação com o "contra" já era sobremaneira conhecida.
Esta Sita timorata que eu conheci está impecavel/implacavelmente retratada no livro.
Depois do 25 de Abril perdi-lhe praticamente o rasto. Ela era da UEC e a minha ligação era com o Partido. Embora continuasse a estudar e pertencesse aos orgãos sociais da associação de estudantes, a minha ligação partidária era em Algés onde morava e sobretudo enquanto membro do organismo de direcção da função pública. Soube mais tarde que tinha rumado a Angola. Depois vieram as notícias do esmagamento da "Revolta Activa" e do seu bárbaro assassínato. Ainda me recordo das discussões feitas em reunião de célula quando questionávamos o Partido sobre o que se tinha passado, bem como a pouco inteligível posição do "grande colectivo" sobre os acontecimentos.
O livro abre pistas, ajuda a enquadrar os factos, permite compreender o posicionamento dos actores, regista silêncios, mas obviamente que muito há ainda por esclarecer, até porque o exercício do direito do contraditório revela-se impossível, porque os "revoltosos" foram todos aniquilados.
Em síntese: leitura recomendada.
Boas leituras.
Luis Costa
16.4.10
Florival Lança: a coragem de tornar pública uma derrota política
Florival Lança foi, como contou em entrevista ao Expresso da semana passada, afastado da CGTP por delito de opinião e, acrescento eu, sob a forma clássica das piores tácticas do estalinismo, transformando uma divergência numa penalização moral.
Quem decidiu a dança das cadeiras no último congresso da CGTP (quem terá sido?), limitou-se a criar uma regra de reforma compulsiva dos dirigentes aos 60 anos, transformando o afastamento político numa palatável e neutra decisão com base em critérios administrativos e transformando qualquer reivindicação de que o dirigente afastado se mantivesse, não numa questão política mas num mesquinho "agarrar-se ao lugar".
Não vale a pena dizer que Florival lança não merecia isto. Com toda a fraternidade lhe teria que dizer que recebeu também, na sua vez, o tratamento que o seu partido dedica a quem tem a coragem de ter ideias próprias e as defender.
A razão da discórdia entre o PCP e Florival Lança foi a filiação internacional da CGTP.
Os partidos comunistas da velha guarda, PCP incluido, terão decidido apostar na FSM, a desacreditada estrutura internacional dos sindicatos comunistas que reuniu o seu último congresso, em 2005, em Cuba.
As grandes centrais sindicais dos países democráticos, mesmo as saídas da tradição comunista, como as Comissiones Obreras espanholas, mandaram essa recomendação às urtigas e, de algum modo, a adesão ou não à Confederação Sindical Internacional era, para as centrais de inspiração comunistas, o teste à sua autonomia em relação aos partidos. Como é sabido, a CGTP falhou esse teste.
Florival lança conta agora em livro a sua versão do combate que perdeu, enquanto militante comunista, pela autonomia sindical da sua central em relação ao seu partido.
O livro já foi lançado no Porto e é hoje lançado em Lisboa, às 18h30, no Centro de Informação Urbana de Lisboal de Lisboa, no Centro Comercial Picoas Plaza. A coragem do autor e o interesse da história desta derrota dos comunistas que acreditam na autonomia sindical merece a presença dos que, partindo do mesmo ou de outros quadrantes ideológicos, apostam num sindicalismo independente, capaz de separar as àguas entre a acção político-partidária e a acção sindical. Eu só não estarei porque estarei a viajar para Lisboa à mesma hora, mas daqui mando um abraço ao autor e por seu intermédio aos derrotados da CGTP na batalha da CSI, na esperança de que seja uma derrota temporária.
PS. O livro será igualmente apresentado a 28 de Abril, em Bruxelas, na Livraria Orfeu, também às 18h30.

Quem decidiu a dança das cadeiras no último congresso da CGTP (quem terá sido?), limitou-se a criar uma regra de reforma compulsiva dos dirigentes aos 60 anos, transformando o afastamento político numa palatável e neutra decisão com base em critérios administrativos e transformando qualquer reivindicação de que o dirigente afastado se mantivesse, não numa questão política mas num mesquinho "agarrar-se ao lugar".
Não vale a pena dizer que Florival lança não merecia isto. Com toda a fraternidade lhe teria que dizer que recebeu também, na sua vez, o tratamento que o seu partido dedica a quem tem a coragem de ter ideias próprias e as defender.
A razão da discórdia entre o PCP e Florival Lança foi a filiação internacional da CGTP.
Os partidos comunistas da velha guarda, PCP incluido, terão decidido apostar na FSM, a desacreditada estrutura internacional dos sindicatos comunistas que reuniu o seu último congresso, em 2005, em Cuba.
As grandes centrais sindicais dos países democráticos, mesmo as saídas da tradição comunista, como as Comissiones Obreras espanholas, mandaram essa recomendação às urtigas e, de algum modo, a adesão ou não à Confederação Sindical Internacional era, para as centrais de inspiração comunistas, o teste à sua autonomia em relação aos partidos. Como é sabido, a CGTP falhou esse teste.
Florival lança conta agora em livro a sua versão do combate que perdeu, enquanto militante comunista, pela autonomia sindical da sua central em relação ao seu partido.
O livro já foi lançado no Porto e é hoje lançado em Lisboa, às 18h30, no Centro de Informação Urbana de Lisboal de Lisboa, no Centro Comercial Picoas Plaza. A coragem do autor e o interesse da história desta derrota dos comunistas que acreditam na autonomia sindical merece a presença dos que, partindo do mesmo ou de outros quadrantes ideológicos, apostam num sindicalismo independente, capaz de separar as àguas entre a acção político-partidária e a acção sindical. Eu só não estarei porque estarei a viajar para Lisboa à mesma hora, mas daqui mando um abraço ao autor e por seu intermédio aos derrotados da CGTP na batalha da CSI, na esperança de que seja uma derrota temporária.
PS. O livro será igualmente apresentado a 28 de Abril, em Bruxelas, na Livraria Orfeu, também às 18h30.

19.1.10
Novo convite a Vitor Dias, agora para serviço público em matéria de política internacional do PCP
Vitor Dias não gostou que lhe respondessem ao seu elogio ao serviço público a propósito de um livro de rui Mateus. Pensa, erradamente, que foi o incómodo que me moveu. Aproveito para lhe dizer que se o considerasse um dos papagaios do partido, não perderia tempo consigo e que agradeço o que perdeu, até agora, comigo.
Parece que, embora respondendo-me, não aceitou o desafio para falar sobre os financiamentos ao PCP. Também não esperava que o aceitasse, aliás. Mas que era serviço público, era.
Quanto ao seu apreço pela obra de Rui Mateus, agora o Vitor muda de tom, prefere o burlesco. Como compreendo que tenha gostado das passagens sobre os elos entre o PS, o Iraque, a Roménia, a Líbia e a Coreia no Norte. Aproveito para o informar que Rui Mateus deixou de herança no Departamento Internacional do PS ao seu sucessor, Jorge Sampaio, centenas de obras de propaganda desses regimes talvez seus (dele) amigos. Saiba que a biblioteca sobre o ideal Zuche, tive o prazer de ajudar a removê-la... para o lixo. Saiba ainda que, era jovem mas tive orgulho em ter sido a pessoa escolhida para comunicar ao então Embaixador da república Socialista da Roménia que o PS não se faria representar no que veio a ser o último Congresso do Partido Comunista e ao qual genuinamente me não recordo hoje se o PCP foi e a que nível. (Mas foi, não foi?). Já agora, caro Vitor Dias, que puxa estas potências - a que se junta o Iraque e a Líbia - à liça, aceitará que lhe pergunte se está entre os que ainda hoje consideram a Coreia do Norte uma experiência socialista relevante. Já que não prestou o outro serviço público que lhe pedi, dê-me agora uma lição pública sobre a relação entre a Coreia do Norte e o socialismo. Você não é flor de estufa tão frágil que se incomode por lhe pedir que elabore sobre esta evolução recente da visão do mundo do PCP, pois não?
Parece que, embora respondendo-me, não aceitou o desafio para falar sobre os financiamentos ao PCP. Também não esperava que o aceitasse, aliás. Mas que era serviço público, era.
Quanto ao seu apreço pela obra de Rui Mateus, agora o Vitor muda de tom, prefere o burlesco. Como compreendo que tenha gostado das passagens sobre os elos entre o PS, o Iraque, a Roménia, a Líbia e a Coreia no Norte. Aproveito para o informar que Rui Mateus deixou de herança no Departamento Internacional do PS ao seu sucessor, Jorge Sampaio, centenas de obras de propaganda desses regimes talvez seus (dele) amigos. Saiba que a biblioteca sobre o ideal Zuche, tive o prazer de ajudar a removê-la... para o lixo. Saiba ainda que, era jovem mas tive orgulho em ter sido a pessoa escolhida para comunicar ao então Embaixador da república Socialista da Roménia que o PS não se faria representar no que veio a ser o último Congresso do Partido Comunista e ao qual genuinamente me não recordo hoje se o PCP foi e a que nível. (Mas foi, não foi?). Já agora, caro Vitor Dias, que puxa estas potências - a que se junta o Iraque e a Líbia - à liça, aceitará que lhe pergunte se está entre os que ainda hoje consideram a Coreia do Norte uma experiência socialista relevante. Já que não prestou o outro serviço público que lhe pedi, dê-me agora uma lição pública sobre a relação entre a Coreia do Norte e o socialismo. Você não é flor de estufa tão frágil que se incomode por lhe pedir que elabore sobre esta evolução recente da visão do mundo do PCP, pois não?
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