Na mesma semana, o governo turco consegue do seu prisioneiro e líder do PKK um apelo aos seus guerrilheiros para um cessar-fogo e uma retirada para fora das fronteiras turcas, do primeiro-ministro de Israel um pedido de desculpas pelos acontecimentos da flotilha ao largo de Gaza e do Presidente dos EUA um esforço diplomático que conduzirá ao reatamento das relações diplomáticas com Israel.
Na corrida pela influência no futuro do Médio Oriente que a Primavera árabe abriu (ou expôs), a Turquia teve uma semana plena de sucesso, que não deve ter agradado nem ao Egipto, nem ao Irão, nem às monarquias do golfo. A Turquia parece estar de volta como principal aliado dos EUA na região. Vejamos se a Europa não sofre de um dos seus ataques endémicos de cegueira estratégica face a estes desenvolvimentos.
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23.3.13
12.3.13
Turquia e Europa: sinais de um novo impulso na negociação da adesão
O processo de adesão da Turquia à União europeia está politicamente bloqueado há vários anos. A negociação faz-se por capítulos temáticos e mais de uma dúzia estão bloqueados por vetos de Estados-membros.
Se ninguém espera negociações rápidas, não é menos certo que, se não houver progressos, a própria ideia da ligação entre UE e Turquia pode ser posta em causa e há sinais de erosão da causa europeia na sociedade turca.
Mas também há novidades. O levantamento do veto francês à negociação do capítulo sobre política regional e coordenação dos instrumentos estruturais (capítulo 22) é um duplo sinal na direcção correcta. Trata-se de um capítulo importante para a política de coesão sem ser sensível nos aspectos politico-diplomáticos em jogo e sinaliza uma mudança de atitude francesa com a Presidência de Hollande. É muito pouco para se dizer que há um novo impulso na negociação, mas o suficiente para ser valorizado pela parte turca como sinal de progresso nas relações Turquia-UE.
Se ninguém espera negociações rápidas, não é menos certo que, se não houver progressos, a própria ideia da ligação entre UE e Turquia pode ser posta em causa e há sinais de erosão da causa europeia na sociedade turca.
Mas também há novidades. O levantamento do veto francês à negociação do capítulo sobre política regional e coordenação dos instrumentos estruturais (capítulo 22) é um duplo sinal na direcção correcta. Trata-se de um capítulo importante para a política de coesão sem ser sensível nos aspectos politico-diplomáticos em jogo e sinaliza uma mudança de atitude francesa com a Presidência de Hollande. É muito pouco para se dizer que há um novo impulso na negociação, mas o suficiente para ser valorizado pela parte turca como sinal de progresso nas relações Turquia-UE.
10.12.12
Marx e Lenine não estão seguramente entre os problemas políticos da Turquia actual
Soube hoje, por esta notícia que me chegou, que o index turco proibia as obras de Marx e Lenine. Estou pronto a jurar que vi, pelo menos Marx, nas livrarias. Mas a notícia diz que é mesmo assim, não é alucinação. E na baixa de Ankara, em Kizilay, ao sábado e domingo à tarde, há sempre bancas de grupusculos marxistas-leninistas, distribuição de panfletos com as caras dos banidos e música revolucionária numas aparelhagens arcaicas. De vez em quando há também umas manifestações, embora se deva dizer que nelas normalmente o rácio manifestantes/polícias fardados a preceito, com todo o equipamento das brigadas de intervenção, é pelo menos de 1 para 5 (um manifestante para cinco polícias, entenda-se).
Nos dias de hoje não são seguramente Marx ou o marxismo que exaltam os ânimos neste país de tradição autoritária, onde as clivagens políticas seguem linhas próprias e os democratas mais fieis não são necessariamente os republicanos mais empedernidos. A maior dessas clivagens é entre a manutenção da rígida separação entre Estado e Igreja, com a segunda submetida ao primeiro e uma abertura liberal, que dê à segunda espaço próprio na via pública. A segunda, possivelmente, a da defesa radical da unidade cultural e linguística de um único povo turco versus o reconhecimento de estatutos específicos de minorias religiosas, culturais, étnicas ou regionais. A terceira, a que separa os que querem emular a próspera região Ocidental, dominada por uma burguesia cosmopolita, predominantemente de Istambul, capitalista à moda antiga e com interesses nos EUA e pela Europa fora e os que querem basear-se nos "tigres da Anatólia", uma rede de famílias que progrediu nos negócios com solidariedades comunitárias, regras islâmicas e frequentemente virada para Oriente.
A conjugação das três dicotomias: rígido/flexível no laicismo; nacionalista fechado/aberto à diversidade cultural e aos regionalismos; defensor do capitalismo ocidental/defensor de aproximação às solidariedades informais islâmicas produz uma parte importante do espectro político relevante, com a identidade das principais forças políticas a não ser traduzível imediatamente para o padrão das famílias políticas europeias, por muito que elas "pesquem" partidos no país.
Bem vistas as coisas, se há algo que não se sente que tenha qualquer impacto na sociedade turca e nas suas clivagens é o apelo do internacionalismo proletário e Marx não é espectro que assole estas bandas actualmente, pelo que esta proibição até já devia estar esquecida.
Para tudo, por aqui, todos procuram uma via turca. Nesta fase, a interpretação politicamente predominante dessa via assenta na construção de uma excepção, que gostaria de tornar-se numa regra, a que alguns chamam neo-otomana e que seguramente pretende criar um sistema capitalista demo-islâmico. É possível? E se for, manterá a Turquia em rota paralela com a Europa ou mudá-la-à para uma rota convergente ou divergente? E se vingar na Turquia, é exportável à escala regional, como estão a tentar fazer acontecer no Egipto e pode vir a acontecer a médio prazo na Tunísia, na Líbia, na Síria, talvez em Marrocos?
Não sei que hipótese histórica terá o modelo de capitalismo demo-islâmico turco, mas podem ter a certeza que Marx e Lenine não se contam entre os seus problemas. Daí, que permiti-los oficialmente valha essencialmente como registo da vontade de resolver incómodos com o direito internacional. O que, sendo lateral, não deixa de ser positivo, porque a liberdade de opinião é um bem em si mesma.
Nos dias de hoje não são seguramente Marx ou o marxismo que exaltam os ânimos neste país de tradição autoritária, onde as clivagens políticas seguem linhas próprias e os democratas mais fieis não são necessariamente os republicanos mais empedernidos. A maior dessas clivagens é entre a manutenção da rígida separação entre Estado e Igreja, com a segunda submetida ao primeiro e uma abertura liberal, que dê à segunda espaço próprio na via pública. A segunda, possivelmente, a da defesa radical da unidade cultural e linguística de um único povo turco versus o reconhecimento de estatutos específicos de minorias religiosas, culturais, étnicas ou regionais. A terceira, a que separa os que querem emular a próspera região Ocidental, dominada por uma burguesia cosmopolita, predominantemente de Istambul, capitalista à moda antiga e com interesses nos EUA e pela Europa fora e os que querem basear-se nos "tigres da Anatólia", uma rede de famílias que progrediu nos negócios com solidariedades comunitárias, regras islâmicas e frequentemente virada para Oriente.
A conjugação das três dicotomias: rígido/flexível no laicismo; nacionalista fechado/aberto à diversidade cultural e aos regionalismos; defensor do capitalismo ocidental/defensor de aproximação às solidariedades informais islâmicas produz uma parte importante do espectro político relevante, com a identidade das principais forças políticas a não ser traduzível imediatamente para o padrão das famílias políticas europeias, por muito que elas "pesquem" partidos no país.
Bem vistas as coisas, se há algo que não se sente que tenha qualquer impacto na sociedade turca e nas suas clivagens é o apelo do internacionalismo proletário e Marx não é espectro que assole estas bandas actualmente, pelo que esta proibição até já devia estar esquecida.
Para tudo, por aqui, todos procuram uma via turca. Nesta fase, a interpretação politicamente predominante dessa via assenta na construção de uma excepção, que gostaria de tornar-se numa regra, a que alguns chamam neo-otomana e que seguramente pretende criar um sistema capitalista demo-islâmico. É possível? E se for, manterá a Turquia em rota paralela com a Europa ou mudá-la-à para uma rota convergente ou divergente? E se vingar na Turquia, é exportável à escala regional, como estão a tentar fazer acontecer no Egipto e pode vir a acontecer a médio prazo na Tunísia, na Líbia, na Síria, talvez em Marrocos?
Não sei que hipótese histórica terá o modelo de capitalismo demo-islâmico turco, mas podem ter a certeza que Marx e Lenine não se contam entre os seus problemas. Daí, que permiti-los oficialmente valha essencialmente como registo da vontade de resolver incómodos com o direito internacional. O que, sendo lateral, não deixa de ser positivo, porque a liberdade de opinião é um bem em si mesma.
31.8.12
O puzzle sírio: uma guerra civil à espanhola com um desfecho à libanesa ou à jugoslava?
Ontem reuniu o Conselho de Segurança da ONU. Turquia e França subiram o seu nível de envolvimento, a primeira propondo a zona tampão e a segunda declarando-se pronta a reconhecer um governo de transição. Na frente russa e chinesa nada de novo. A novidade mais relevante da reunião foi o desinteresse americano, com Hillary Clinton a não comparecer à reunião.
Os analistas têm sublinhado que a guerra civil síria avança para uma situação de crise prolongada. Nomeadamente, há notícias de dois paralelismo históricos. Quanto ao desenvolvimento do conflito, evoca-se a Guerra Civil espanhola, sangrenta e demorada, dada a internacionalização do conflito. Na Síria combatem, diz-se, já diversas forças internacionais, dos dois lados. Com o governo haverá militares iranianos, para além de novos fornecimento de armamento russo e com os rebeldes diversos jihadistas internacionais, bem como recursos financeiros generosos das potências do golfo. Quanto ao seu desfecho evoca-se a Jugoslávia e o Líbano. No último caso, a Síria ficaria por muito tmpo um país instável e ingovernável, retalhado internamente por uma soberania frágil e dividido por zonas de influência por linhas religiosas. No caso sírio, essencialmente entre alevitas aliados a cristãos e drusos, sunitas e curdos. Caso evoluisse "à jugoslava", a Síria poderia romper com as fronteiras definidas pela repartição do império otomano no acordo Sykes-Picot, no fim da 1ª gerra mundial e dar origem a três nações (maioritariamente alevita, maioritariamente sunita e maioritariamente curda).
Ambos os cenários - Líbano e Jugoslávia - são um pesadelo para a Turquia, que veria a sua guerra com a insurgência curda alargada potencialmente a bases logísticas, quando não à ambição da constituição de uma pátria curda, juntando a sua zona de fronteira com pelo menos as regiões curdas do Iraque e da Síria. Compreende-se, pois, o activismo turco, pressionado no curto prazo pela crise dos refugiados e no médio prazo por problemas reais de soberania. A crise dos refugiados já causa esporadicamente alegações de perturbação social. Por um lado há rumores de treino militar a refugiados que desertaram das fileiras do exército sírio, por outro de instabilidade, com refugiados a circular fora dos campos e a causar conflitos nas cidades vizinhas e até em pontos tão longínquos da crise como Istambul. As autoridades turcas já prclamaram um limite para a sua capacidade de acolhimento, mas não será fácil fazê-lo cumprir.
O puzzle sírio arrisca-se a constituir para o Médio oriente um novo quadro prolongado de instabilidade. A propsota turca de uma zona de exclusão aérea é, de algum modo, a primeira que o formaliza, já que corresponde a criar uma "soberania limitada" sobre parte do território sírio que poderá prolongar-se. Mas, mesmo essa, é muito difícil de concretizar. Para já, não parece que a Turquia consiga arrastar quaisquer aliados para o plano e o poder anti-aéreo russo se mobilizado para a Síria, não tornará a vida fácil a quem se envolver militarmente na zona.
A solidão turca, contudo, pode também dar lugar a um espírito intervencionista. As forças armadas do país têm um potencial elevado e podem as autoridades convencer-se que a sua segurança interna fica seriamente ameaçada com a continuação por muito tempo da crise turca...
No meio disto tudo, Israel é o grande beneficiário de curto prazo. Com os olhos postos na Síria, os seus mais perigosos adversários não podem dedicar as mesmas energias, se dedicarem algumas, à questão palestiniana e, quem sabe, haverá margem, no meio da confusão, para uma meia dúzia de ataques cirúrgicos que enfraqueçam os seus bem identificados adversários mais perigosos.
Os analistas têm sublinhado que a guerra civil síria avança para uma situação de crise prolongada. Nomeadamente, há notícias de dois paralelismo históricos. Quanto ao desenvolvimento do conflito, evoca-se a Guerra Civil espanhola, sangrenta e demorada, dada a internacionalização do conflito. Na Síria combatem, diz-se, já diversas forças internacionais, dos dois lados. Com o governo haverá militares iranianos, para além de novos fornecimento de armamento russo e com os rebeldes diversos jihadistas internacionais, bem como recursos financeiros generosos das potências do golfo. Quanto ao seu desfecho evoca-se a Jugoslávia e o Líbano. No último caso, a Síria ficaria por muito tmpo um país instável e ingovernável, retalhado internamente por uma soberania frágil e dividido por zonas de influência por linhas religiosas. No caso sírio, essencialmente entre alevitas aliados a cristãos e drusos, sunitas e curdos. Caso evoluisse "à jugoslava", a Síria poderia romper com as fronteiras definidas pela repartição do império otomano no acordo Sykes-Picot, no fim da 1ª gerra mundial e dar origem a três nações (maioritariamente alevita, maioritariamente sunita e maioritariamente curda).
Ambos os cenários - Líbano e Jugoslávia - são um pesadelo para a Turquia, que veria a sua guerra com a insurgência curda alargada potencialmente a bases logísticas, quando não à ambição da constituição de uma pátria curda, juntando a sua zona de fronteira com pelo menos as regiões curdas do Iraque e da Síria. Compreende-se, pois, o activismo turco, pressionado no curto prazo pela crise dos refugiados e no médio prazo por problemas reais de soberania. A crise dos refugiados já causa esporadicamente alegações de perturbação social. Por um lado há rumores de treino militar a refugiados que desertaram das fileiras do exército sírio, por outro de instabilidade, com refugiados a circular fora dos campos e a causar conflitos nas cidades vizinhas e até em pontos tão longínquos da crise como Istambul. As autoridades turcas já prclamaram um limite para a sua capacidade de acolhimento, mas não será fácil fazê-lo cumprir.
O puzzle sírio arrisca-se a constituir para o Médio oriente um novo quadro prolongado de instabilidade. A propsota turca de uma zona de exclusão aérea é, de algum modo, a primeira que o formaliza, já que corresponde a criar uma "soberania limitada" sobre parte do território sírio que poderá prolongar-se. Mas, mesmo essa, é muito difícil de concretizar. Para já, não parece que a Turquia consiga arrastar quaisquer aliados para o plano e o poder anti-aéreo russo se mobilizado para a Síria, não tornará a vida fácil a quem se envolver militarmente na zona.
A solidão turca, contudo, pode também dar lugar a um espírito intervencionista. As forças armadas do país têm um potencial elevado e podem as autoridades convencer-se que a sua segurança interna fica seriamente ameaçada com a continuação por muito tempo da crise turca...
No meio disto tudo, Israel é o grande beneficiário de curto prazo. Com os olhos postos na Síria, os seus mais perigosos adversários não podem dedicar as mesmas energias, se dedicarem algumas, à questão palestiniana e, quem sabe, haverá margem, no meio da confusão, para uma meia dúzia de ataques cirúrgicos que enfraqueçam os seus bem identificados adversários mais perigosos.
25.6.12
Egipto: o processo negocial em curso
Mohamed Morsi foi declarado vencedor das eleições presidenciais do Egipto e com ele a Fraternidade Muçulmana. Esta, depois de vencer folgadamente as eleições parlamentares que serviram de base também à designação dos constituintes, tem claramente a legitimidade eleitoral do seu lado, pelo menos neste momento.Mas esta não chega para que Morsi e a Fraternidade tenham para já o poder. A dissolução do Parlamento ordenada pelo Supremo Tribunal que sobreviveu da ditadura e a ausência de uma constituição tornam o poder real do Presidente completamente incerto. A estrutura militar que teoricamente assegura a transição revolucionária (o Supremo Comando das Forças Armadas) tem consigo a legitimidade da força, que já demonstrou estar disposta a usar (e já usou) bem como o controlo sobre várias àreas do poder real do país. O tempo que demorou a declarar vencedor Morsi e a declarar derrotado o último Primeiro-Ministro do regime "deposto" é indício suficiente de que há no Egipto um processo negocial em curso e um equilíbrio de poderes ainda indeterminado.
A que constrangimentos teve que submeter-se Morsi para conseguir a Presidência? O tempo dirá, mas a clara reafirmação das alianças internacionais do Egipto no discurso de posse deixa claro que é tempo de pragmatismo para a Fraternidade.
Tal pragmatismo só surpreenderá, no entanto, os mais afastados da evolução dessa força política. Tudo aponta para que a proximidade com Recep Tayyip Erdoğan não se confine às semelhanças de siglas partidárias (Partido da Justiça e da Liberdade no Egipto e Partido da Justiça e do Desenvolvimento na Turquia). Se Morsi abraçar o caminho de Erdoğan, a sua relação com os militares será tensa mas constante e do equilíbrio tenso entre negociação e confronto entre as duas forças resultará o perfil do regime futuro.
Neste jogo de cúpula, os derrotados serão provavelmente os sectores mais cosmopolitas que acreditaram na força da Praça Tahrir. Por desagradável que seja, nada que não costume acontecer na recuperação institucional de processos revolucionários. É mesmo bem possível que alguns desses sectores sejam chamados a manter-se dentro do pacto que parece desenhar-se, por exemplo integrando o Governo que há-de formar-se e que deles nasça a esquerda do novo Egipto.
O quadro pós-Primavera continua em desenvolvimento, mas nos seus traços gerais, o quadro de nova guerra fria mediterrânica sobre que escrevi em Fevereiro parecem manter-se e - inclusivé na questão síria continua a ser um desfecho provável aquele em que, como então escrevi, Egipto e Turquia fariam uma dupla hegemónica sobre a região que geraria, para o melhor e o pior, um novo parceiro político na discussão do Médio-Oriente, hegemonizado por um parceiro da NATO e suportado em dois exércitos altamente profissionalizados e com treino ocidental.
13.3.12
Safak Pavey, uma mulher de coragem, um exemplo de vida independente
Actualmente é deputada no Parlamento turco. Antes trabalhou nas Nações Unidas. Há mais de uma década perdeu uma perna e um braço num acidente de comboio em Zurique e continuou o seu trabalho. Há algum tempo, Kamil Pasha dedicou-lhe o seguinte texto.
Como em todas as situações estigmatizantes, a normalidade futura faz-se da heroicidade presente. Poderá sociologizar-se e dizer-se que há condições sociais que favorecem certas heroicidades, mas isso não diminui a importância dos exemplos.
Foi a força desse exemplo que fez de Safak Pavey uma das dez galardoadas do Prémio Internacional Mulheres de Coragem de 2012, sob os auspícios de Hillary Clinton. Diz a nota biográfica da laureada que "demonstrou grnade dignidade pessoal na superação de obstáculos físicos todos os dias, enquanto defendia local e globalmente os direitos das pessoas vulneráveis, incluindo os refugiados e os deficientes". A pose, na fotografia com Michelle Obama, captada pela fotografia de Charles Darapak abaixo reproduzida de que a Time fez uma das fotografias políticas da semana, silencia qualquer texto sobre o tema da deficiência e fala por todos os que defendem a causa da igual participação dos deficientes na vida pública.
Como em todas as situações estigmatizantes, a normalidade futura faz-se da heroicidade presente. Poderá sociologizar-se e dizer-se que há condições sociais que favorecem certas heroicidades, mas isso não diminui a importância dos exemplos.
Foi a força desse exemplo que fez de Safak Pavey uma das dez galardoadas do Prémio Internacional Mulheres de Coragem de 2012, sob os auspícios de Hillary Clinton. Diz a nota biográfica da laureada que "demonstrou grnade dignidade pessoal na superação de obstáculos físicos todos os dias, enquanto defendia local e globalmente os direitos das pessoas vulneráveis, incluindo os refugiados e os deficientes". A pose, na fotografia com Michelle Obama, captada pela fotografia de Charles Darapak abaixo reproduzida de que a Time fez uma das fotografias políticas da semana, silencia qualquer texto sobre o tema da deficiência e fala por todos os que defendem a causa da igual participação dos deficientes na vida pública.
23.2.12
30.11.11
Pode a política europeia para o Médio Oriente ser refém da questão cipriota?
É notícia na Turquia a possibilidade de Chipre ter vetado um convite ao Ministro dos Negócios Estrangeiros para participar na reunião de amanhã sobre a Síria. São conhecidas as razões diplomáticos para este veto, mas ele demonstra à saciedade os impasses da União Europeia em relação ao que se passa na região.
A Turquia é o país que mais influência ganhou com a Primavera àrabe em importância diplomática. Nas eleições livres da Tunísia e de Marrocos, os partidos-irmãos do partido no poder na Turquia ganharam as eleições. Provavelmente no Egipto vai acontecer o mesmo. A oposição síria reune-se em segredo e coordena operações em cidades turcas. Ainda hoje é notícia que houve um encontro secreto entre várias facções sedeadas no estrangeiro e a ala dissidente das forças armadas na cidade fronteiriça de Hattay.
Tudo aponta no sentido de que, provavelmente, a recente experiência de governo de um partido democrata-islâmico passe de uma excepção permitida pela institucionalização da democracia na Turquia a um modelo de governo hegemónico na região. Não é difícil imaginar que os partidos-irmãos que podem vir a estar no poder simultaneamente em vários países terão coordenação entre si e que a Turquia terá, por diversas razões, ascendente sobre estes novos regimes.
Pode parecer sobranceiro da parte da diplomacia turca, mas quando diz que é a União Europeia que perde em influência se não os convidar e não aproveitar a sua influência está carregada de razão. A verdade é que a política europeia para o Médio-Oriente não pode ser refém da questão cipriota, sob pena de ser irrelevante.
A Turquia é o país que mais influência ganhou com a Primavera àrabe em importância diplomática. Nas eleições livres da Tunísia e de Marrocos, os partidos-irmãos do partido no poder na Turquia ganharam as eleições. Provavelmente no Egipto vai acontecer o mesmo. A oposição síria reune-se em segredo e coordena operações em cidades turcas. Ainda hoje é notícia que houve um encontro secreto entre várias facções sedeadas no estrangeiro e a ala dissidente das forças armadas na cidade fronteiriça de Hattay.
Tudo aponta no sentido de que, provavelmente, a recente experiência de governo de um partido democrata-islâmico passe de uma excepção permitida pela institucionalização da democracia na Turquia a um modelo de governo hegemónico na região. Não é difícil imaginar que os partidos-irmãos que podem vir a estar no poder simultaneamente em vários países terão coordenação entre si e que a Turquia terá, por diversas razões, ascendente sobre estes novos regimes.
Pode parecer sobranceiro da parte da diplomacia turca, mas quando diz que é a União Europeia que perde em influência se não os convidar e não aproveitar a sua influência está carregada de razão. A verdade é que a política europeia para o Médio-Oriente não pode ser refém da questão cipriota, sob pena de ser irrelevante.
28.11.11
Atenção Diáspora: Mayra Andrade, hoje, em Istambul.
O espectáculo é às 20h, no CRR Concert Hall. Espero que tenham dito a Mayra, caso cante esta "Palavra", que à polissemia que lhe atribui na canção, o significado de "palavra" em turco é o oposto do português. Em turco, "palavra" é charlatanice, algo em que não se pode confiar. Ignoro se tem a ver com alguma "palavra" que algum português ou espanhol tenha empenhado perante alguém algures na história das relações entre os dois países.
23.9.11
Erdogan e o "islamismo moderado"
Foto: Primeiro-Ministro Turcoe Presidente do Conselho nacional de Transição da Líbia rezando em Tripoli a semana passada (Hurryet Daily News)
Inesperadamente mas com gosto comecei uma troca de ideias com Filipe Nunes Vicente sobre Islão e secularismo.
Hoje trago apenas um pequeno input informativo adicional para o debate. A entrevista do Primeiro-Ministro turco à PBS, tal como reproduzida no Hurryiet Daily News de hoje incidiu também sobre secularismo e Islão. Atente-se no que diz o político demo-islâmico turco
.
Inesperadamente mas com gosto comecei uma troca de ideias com Filipe Nunes Vicente sobre Islão e secularismo.
Hoje trago apenas um pequeno input informativo adicional para o debate. A entrevista do Primeiro-Ministro turco à PBS, tal como reproduzida no Hurryiet Daily News de hoje incidiu também sobre secularismo e Islão. Atente-se no que diz o político demo-islâmico turco
.
22.9.11
O secularismo islâmico é possível, agora? Resposta a Filipe Nunes Vicente.
Filipe Nunes Vicente (FNV) deu-me o privilégio de comentar o post anterior sobre a Turquia e a Primavera árabe. Respondi-lhe também na caixa de comentários. Mas, num segundo pnsamento, achei que o debate devia vir para a página da frente.
A minha hipótese é a de que, como escrevi, "a Turquia parece estar a fazer tudo para passar de uma excepção secular nos países de cultura islâmica, para uma força agregadora de um pólo de regimes pluralistas em que as forças islamistas são sufragadas pelo voto popular em eleições livres. Ou, se quisermos antecipar uma tendência provável, para a potência hegemónica de um novo modelo de regime político, o secularismo islâmico, que tem paralelos significativos com o domínio da democracia-cristã em certos períodos da história da Europa Ocidental."
O FNV traz à discussão dois teólogos liberais shiitas e iranianos, Abdolkarim Soroush e Mohammad Mojtahed Shabestari. Diz o FNV no seu comentário: "Secularismo islâmico? O Sourosh ( o Lutero do Islão...), e o Shabestari asseguram ser impossível.
É claro que pode a vir ser possível , mas se for só daqui a 300 ou 400 anos, como aconteceu na Europa com o cristianismo,temos problemas."
Deixemos, neste texto, de lado a questão de saber se os dois teólogos iranianos efectivamente asseguram que é impossível. Estou convencido, aliás, que lutam com as armas do seu pensamento em sentido inverso e o fazem no Irão, o que só por si demontra que há mais contradições em regimes que imaginamos versões religiosas do totalitarismo do que se vê à primeira vista.
Desenvolvo, pois, o comentário que fiz ao comentário de FNV, partindo do princípio de que há quem sustente essa impossibilidade (poderiamos dizer que é o que Bento XVI mostrou no polémico passo das suas primeiras intervenções pensar do islamismo em geral e isso chegaria para abrir a discussão).
Para haver um secularismo islâmico não é fundamental que haja uma teologia que o sustente. É fundamental que haja um quadro institucional que o sustente e protagonistas políticos que consistementemente o adoptem.
A Turquia moderna forjou esse quadro institucional sob inspiração do laicismo republicano do início do século XX, "à francesa". E, apesar da laicização da educação e do importante aparelho de Estado, teve que recorrer a mecanismos autoritários e a golpes militares para o afirmar. Mas, ao contrário dos regimes àrabes, esses golpes militares reevoluiram no sentido do pluralismo político e de instituições de natureza demo-liberal, por imperfeitas que sejam.
O laicismo, baseado na constituição, levou várias vezes os actuais protagonistas do país à prisão e à iolegalização das suas forças políticas islâmicas. Mas, sobre esse quadro, emergiu um novo equilíbrio institucional, que deu duas maiorias absolutas consecutivas ao partido pós-islamista, chamemos-lhe assim.
Aquilo a que assistimos na Turquia tem alguns aspectos paradoxais para o quadro predominante do pensamento ocidental sobre o islamismo. Frequentemente, os argumentos "demo-islâmicos" são os do pensamento liberal contra o jacobinismo.
Não creio que haja sinais de nenhum tipo de que o predomínio político do partido AKP esteja a construir uma situação de semidemocracia, como a que está em apuros no Irão e atrevo-me a dizer que a Turquia está a fazer a transição de um laicismo republicano para um regime democrático, islâmico e secular, com um partido "demo-islâmico" ou "pós-islamista" dominante, o que torna o conceito possível até prova em contrário.
Como pode, então, compatibilizar-se esta análise e a "impossibilidade" teológica do secularismo islâmico? Creio que pode haver uma "armadilha filosófica" nessa impossibilidade. Onde o poder depende do sufrágio, o político sabe que a sua força e a sua fraqueza têm autonomia - ainda que não independência - do teólogo. O que os políticos islâmicos ouvem na mesquita e lêem no Corão não tem que ser igual ao que fazem no quotidiano da gestão política, se estes instrumentos não forem a fonte do seu poder.
Sabemos que Obama frequentava uma igreja com um pastor radical, mas não é o Presidente desse pastor, não transportou as ideias desse pastor para a sua acção política e também não as deve ter esquecido nem as abominava (senão não frequentava a sua igreja).
Nada nos diz que a relação de Obama com o seu pastor é irreplicável no Médio Oriente das revoluções espalhadas por redes sociais. Também não podemos afirmar que vai acontecer. Mas a diferença entre a revolução iraniana de 1979 e as actuais revoltas passa por aqui. Em 1979 as massas insurgiram-se e entregaram o poder ao clero. Por muitas razões, não se vê nenhum sinal que vá nesse sentido em nenhum dos países da Primavera árabe. Pelo contrário, vêmo-los a escolher poderes de transição, a escrever constituições, a prometer eleições livres. Se forem por aí, insisto, o modelo turco é um dos poucos, senão o único que pode inspirá-los. Penso que os turcos o sabem e querem jogar essa cartada para recriar uma àrea influência no pátio das traseiras do ex-império otomano.
Em minha opinião, esses novos regimes constitucionais "demo-islâmicos" podem surgir não daqui a trezentos mas daqui a três anos. Mais, penso que são a melhor esperança de que possam afirmar-se regimes democráticos seculares e nãosemidemcoracias pluralistas sectárias (como no Iraque e no Líbano) ou teocráticas (como no Irão e na Arábia Saudita).
Assim haja políticos islâmicos que saibam encontrar para o seu pastor o lugar que Obama deu ao seu e cidadãos, crentes e não crentes, que os façam pensar que esse é o melhor caminho para se manterem no poder.
A minha hipótese é a de que, como escrevi, "a Turquia parece estar a fazer tudo para passar de uma excepção secular nos países de cultura islâmica, para uma força agregadora de um pólo de regimes pluralistas em que as forças islamistas são sufragadas pelo voto popular em eleições livres. Ou, se quisermos antecipar uma tendência provável, para a potência hegemónica de um novo modelo de regime político, o secularismo islâmico, que tem paralelos significativos com o domínio da democracia-cristã em certos períodos da história da Europa Ocidental."
O FNV traz à discussão dois teólogos liberais shiitas e iranianos, Abdolkarim Soroush e Mohammad Mojtahed Shabestari. Diz o FNV no seu comentário: "Secularismo islâmico? O Sourosh ( o Lutero do Islão...), e o Shabestari asseguram ser impossível.
É claro que pode a vir ser possível , mas se for só daqui a 300 ou 400 anos, como aconteceu na Europa com o cristianismo,temos problemas."
Deixemos, neste texto, de lado a questão de saber se os dois teólogos iranianos efectivamente asseguram que é impossível. Estou convencido, aliás, que lutam com as armas do seu pensamento em sentido inverso e o fazem no Irão, o que só por si demontra que há mais contradições em regimes que imaginamos versões religiosas do totalitarismo do que se vê à primeira vista.
Desenvolvo, pois, o comentário que fiz ao comentário de FNV, partindo do princípio de que há quem sustente essa impossibilidade (poderiamos dizer que é o que Bento XVI mostrou no polémico passo das suas primeiras intervenções pensar do islamismo em geral e isso chegaria para abrir a discussão).
Para haver um secularismo islâmico não é fundamental que haja uma teologia que o sustente. É fundamental que haja um quadro institucional que o sustente e protagonistas políticos que consistementemente o adoptem.
A Turquia moderna forjou esse quadro institucional sob inspiração do laicismo republicano do início do século XX, "à francesa". E, apesar da laicização da educação e do importante aparelho de Estado, teve que recorrer a mecanismos autoritários e a golpes militares para o afirmar. Mas, ao contrário dos regimes àrabes, esses golpes militares reevoluiram no sentido do pluralismo político e de instituições de natureza demo-liberal, por imperfeitas que sejam.
O laicismo, baseado na constituição, levou várias vezes os actuais protagonistas do país à prisão e à iolegalização das suas forças políticas islâmicas. Mas, sobre esse quadro, emergiu um novo equilíbrio institucional, que deu duas maiorias absolutas consecutivas ao partido pós-islamista, chamemos-lhe assim.
Aquilo a que assistimos na Turquia tem alguns aspectos paradoxais para o quadro predominante do pensamento ocidental sobre o islamismo. Frequentemente, os argumentos "demo-islâmicos" são os do pensamento liberal contra o jacobinismo.
Não creio que haja sinais de nenhum tipo de que o predomínio político do partido AKP esteja a construir uma situação de semidemocracia, como a que está em apuros no Irão e atrevo-me a dizer que a Turquia está a fazer a transição de um laicismo republicano para um regime democrático, islâmico e secular, com um partido "demo-islâmico" ou "pós-islamista" dominante, o que torna o conceito possível até prova em contrário.
Como pode, então, compatibilizar-se esta análise e a "impossibilidade" teológica do secularismo islâmico? Creio que pode haver uma "armadilha filosófica" nessa impossibilidade. Onde o poder depende do sufrágio, o político sabe que a sua força e a sua fraqueza têm autonomia - ainda que não independência - do teólogo. O que os políticos islâmicos ouvem na mesquita e lêem no Corão não tem que ser igual ao que fazem no quotidiano da gestão política, se estes instrumentos não forem a fonte do seu poder.
Sabemos que Obama frequentava uma igreja com um pastor radical, mas não é o Presidente desse pastor, não transportou as ideias desse pastor para a sua acção política e também não as deve ter esquecido nem as abominava (senão não frequentava a sua igreja).
Nada nos diz que a relação de Obama com o seu pastor é irreplicável no Médio Oriente das revoluções espalhadas por redes sociais. Também não podemos afirmar que vai acontecer. Mas a diferença entre a revolução iraniana de 1979 e as actuais revoltas passa por aqui. Em 1979 as massas insurgiram-se e entregaram o poder ao clero. Por muitas razões, não se vê nenhum sinal que vá nesse sentido em nenhum dos países da Primavera árabe. Pelo contrário, vêmo-los a escolher poderes de transição, a escrever constituições, a prometer eleições livres. Se forem por aí, insisto, o modelo turco é um dos poucos, senão o único que pode inspirá-los. Penso que os turcos o sabem e querem jogar essa cartada para recriar uma àrea influência no pátio das traseiras do ex-império otomano.
Em minha opinião, esses novos regimes constitucionais "demo-islâmicos" podem surgir não daqui a trezentos mas daqui a três anos. Mais, penso que são a melhor esperança de que possam afirmar-se regimes democráticos seculares e nãosemidemcoracias pluralistas sectárias (como no Iraque e no Líbano) ou teocráticas (como no Irão e na Arábia Saudita).
Assim haja políticos islâmicos que saibam encontrar para o seu pastor o lugar que Obama deu ao seu e cidadãos, crentes e não crentes, que os façam pensar que esse é o melhor caminho para se manterem no poder.
Turquia: realinhamento estratégico pós Primavera árabe
A Turquia pode ser a grande beneficiária geoestratégica da Primavera àrabe e está a agir em conformidade. Em princípio, o resultado final, embora ainda incerto, dos regimes nascentes no Egipto, na Tunísia e na Líbia será uma democracia formalmente secular com grande influência política de partidos de base islâmica de um novo tipo, para os quais o AKP, o partido maioritário na Turquia, será um exemplo.
Ao nível partidário, o AKP não tem popupado esforços para tecer relações de influência com estas forças emergentes da clandestinidade ou da semilegalidade e para forjar laços com as frentes políticas em formação e que resultam do encontro entre velhos islamistas (tipo Irmandade Muçulmana) e movimentos radicalizados (frequentemente perto do terrorismo ou da luta armada, por vezes mesmo com ligações a Al Qaeda). Este pós-radicalismo islâmico pode vem ser a força emergente nos próximos anos e a nova força política dominante no Médio Oriente e é difícil imaginar que o AKP não se torne numa plataforma influente na definição do caminho dessas forças emergentes.
Ao nível diplomático, a Turquia também está a fazer realinhamentos sérios. Acolheu a primeira grande conferência de apoio à reconstrução da Líbia e está, em simultâneo a retomar uma ligação estratégica com o Egipto e a romper, passo a passo, a aliança que nos últimos anos teve com Israel. Agora, anunciou uma excepção na sua política de "zero problemaqs" com os vizinhos para anunciar que já não fala com o regime sírio, antecipando a sua adesão a sanções. Pelo meio, foi na Turquia que reuniu o conjunto disperso das forças de oposição na tentativa de formar algo equivalente ao Conselho nacional de Transição da Líbia.
A Turquia parece estar a fazer tudo para passar de uma excepção secular nos países de cultura islâmica, para uma força agregadora de um pólo de regimes pluralistas em que as forças islamistas são sufragadas pelo voto popular em eleições livres. Ou, se quisermos antecipar uma tendência provável, para a potência hegemónica de um novo modelo de regime político, o secularismo islâmico, que tem paralelos significativos com o domínio da democracia-cristã em certos períodos da história da Europa Ocidental.
Em princípio são boas notícias, embora tornem ainda mais completo o xadrez da política de alargamento da União Europeia e possa abrir fissuras na OTAN. Ao que se junta a magna questão do conflito israelo-palestiniano.
Israel pode estar perto de ser um dos grandes perdedores da Primavera árabe, a par dos que pensavam que a Europa Ocidental e os EUA podiam ter uma política para a região assente nos interesses económicos e na cooperação militar com regimes autocráticos e opressores, em nome da contenção do radicalismo islâmico.
Ao nível partidário, o AKP não tem popupado esforços para tecer relações de influência com estas forças emergentes da clandestinidade ou da semilegalidade e para forjar laços com as frentes políticas em formação e que resultam do encontro entre velhos islamistas (tipo Irmandade Muçulmana) e movimentos radicalizados (frequentemente perto do terrorismo ou da luta armada, por vezes mesmo com ligações a Al Qaeda). Este pós-radicalismo islâmico pode vem ser a força emergente nos próximos anos e a nova força política dominante no Médio Oriente e é difícil imaginar que o AKP não se torne numa plataforma influente na definição do caminho dessas forças emergentes.
Ao nível diplomático, a Turquia também está a fazer realinhamentos sérios. Acolheu a primeira grande conferência de apoio à reconstrução da Líbia e está, em simultâneo a retomar uma ligação estratégica com o Egipto e a romper, passo a passo, a aliança que nos últimos anos teve com Israel. Agora, anunciou uma excepção na sua política de "zero problemaqs" com os vizinhos para anunciar que já não fala com o regime sírio, antecipando a sua adesão a sanções. Pelo meio, foi na Turquia que reuniu o conjunto disperso das forças de oposição na tentativa de formar algo equivalente ao Conselho nacional de Transição da Líbia.
A Turquia parece estar a fazer tudo para passar de uma excepção secular nos países de cultura islâmica, para uma força agregadora de um pólo de regimes pluralistas em que as forças islamistas são sufragadas pelo voto popular em eleições livres. Ou, se quisermos antecipar uma tendência provável, para a potência hegemónica de um novo modelo de regime político, o secularismo islâmico, que tem paralelos significativos com o domínio da democracia-cristã em certos períodos da história da Europa Ocidental.
Em princípio são boas notícias, embora tornem ainda mais completo o xadrez da política de alargamento da União Europeia e possa abrir fissuras na OTAN. Ao que se junta a magna questão do conflito israelo-palestiniano.
Israel pode estar perto de ser um dos grandes perdedores da Primavera árabe, a par dos que pensavam que a Europa Ocidental e os EUA podiam ter uma política para a região assente nos interesses económicos e na cooperação militar com regimes autocráticos e opressores, em nome da contenção do radicalismo islâmico.
13.6.11
As coisas que ando a fazer na Turquia
O Newsletter do Programa Operacional de Desenvolvimento dos Recursos Humanos publicou o seu primeiro número com o apoio técnico dos projectos de assistência finaciados pela União Europeia. Na página 8 encontra o meu artigo sobre o projecto que lidero. Aqui fica. Se não perceber turco há também uma versão em inglês (o Boletim é bilingue). Como se diz no Facebook, curta o texto!
Türkiye, AB fonlarının yönetimi konusunda oldukça uzun bir yolun başında yer alıyor. Bu yolculuğu
destekliyor olmak bana hem büyük bir gurur hem de büyük bir sorumluluk veriyor. Doğrusu, tüm
iyi olan ve bir o kadar da iyi olmayan yönleriyle ünlü AB bürokrasisi, yönetim yapıları ve örgütsel kültürde önemli uyarlamalar gerektirecek. Ekim ayında gelişimden bu yana geçirdiğim kısa zaman bana ancak yapacağım işlerin uzunluğunu ve Avrupa standartlarında bir fon yönetimi için gereken her şeyi yapmaya istekli insanları tanıma fırsatı verdi. Bu kişilerin önümüzdeki yıllarda yönetecekleri fon miktarının, ülke boyutunda ve ele alınacak sorunlarla birlikte düşünüldüğünde, oldukça sınırlı olduğu söylenebilir. Fakat onlar Avrupa Birliği ve Türkiye arasında insani gelişim odaklı ve düzgün işleyen bir ortaklığın kurulması konusunda tam bir kararlılık içindeler. Bu insanlar aktif istihdam politikasının oluşturulmasını, temel eğitimin iyileştirilmesini, yoksulluğun azaltılmasını, sosyal ayrımcılık ve cinsiyet eşitsizliklerin kaldırılmasını destekleyecekler. Öte yandan, insanların yaşamlarını iyileştirmeyi hedefleyen bu fonlarının yönetilmesi her yıl biraz daha karmaşık hale geliyor. 2007-2011 yılları arasında, yıllık tahsis edilen fon miktarı neredeyse iki katına çıktı. Bu miktar AB - Türkiye ilişkilerindeki ilerlemeler ve yönetim kapasitemizin gelişmesi ile artmaya devam edecektir. (Bunu söylerken kendimi buradaki personelin bir parçası gibi hissediyorum) Türkiye’nin bu fonların
yönetimindeki başarısı, Program Otoritesi’nden eğitim alanlara, tüm ara yapılardan geçmiş olan faaliyetlerin son faydalanıcılarına kadar kapsayan geniş bir insan ağına bağlı. Farklı Avrupa geçmişlerinden gelen teknik destek takımımız, başarıya giden işbirliği okyanusunda yalnızca birer damla. Ancak bizler, Avrupa fonlarını önceden kullanmış ülkelerin tecrübelerinden çıkardıkları dersleri Türkiye’ye aktarmak için elimizden geleni yapacağız. Portekizli, İtalyan, Finlandiyalı ve Türklerden oluşan, zaman zaman İngiltere, Bulgaristan, Romanya gibi ülkelerden
gelen uzmanlarla da desteklenen takımımızla, geçmiş tecrübelerimizi Türkiye’nin yararına kullanmak için çalışacağız. Bazen geçmişte yaptığımız hataların nasıl önlenebileceğini anlatırken, bazen de
olumlu tecrübelerimizi paylaşacağız. Türkiye’nin bu çalışmalarımızdan yararlanmasına yardımcı olmak için gerçekten çok istekliyiz. Çünkü günün sonunda bizler de gururla bu başarının parçası olacağız.
Türkiye, AB fonlarının yönetimi konusunda oldukça uzun bir yolun başında yer alıyor. Bu yolculuğu
destekliyor olmak bana hem büyük bir gurur hem de büyük bir sorumluluk veriyor. Doğrusu, tüm
iyi olan ve bir o kadar da iyi olmayan yönleriyle ünlü AB bürokrasisi, yönetim yapıları ve örgütsel kültürde önemli uyarlamalar gerektirecek. Ekim ayında gelişimden bu yana geçirdiğim kısa zaman bana ancak yapacağım işlerin uzunluğunu ve Avrupa standartlarında bir fon yönetimi için gereken her şeyi yapmaya istekli insanları tanıma fırsatı verdi. Bu kişilerin önümüzdeki yıllarda yönetecekleri fon miktarının, ülke boyutunda ve ele alınacak sorunlarla birlikte düşünüldüğünde, oldukça sınırlı olduğu söylenebilir. Fakat onlar Avrupa Birliği ve Türkiye arasında insani gelişim odaklı ve düzgün işleyen bir ortaklığın kurulması konusunda tam bir kararlılık içindeler. Bu insanlar aktif istihdam politikasının oluşturulmasını, temel eğitimin iyileştirilmesini, yoksulluğun azaltılmasını, sosyal ayrımcılık ve cinsiyet eşitsizliklerin kaldırılmasını destekleyecekler. Öte yandan, insanların yaşamlarını iyileştirmeyi hedefleyen bu fonlarının yönetilmesi her yıl biraz daha karmaşık hale geliyor. 2007-2011 yılları arasında, yıllık tahsis edilen fon miktarı neredeyse iki katına çıktı. Bu miktar AB - Türkiye ilişkilerindeki ilerlemeler ve yönetim kapasitemizin gelişmesi ile artmaya devam edecektir. (Bunu söylerken kendimi buradaki personelin bir parçası gibi hissediyorum) Türkiye’nin bu fonların
yönetimindeki başarısı, Program Otoritesi’nden eğitim alanlara, tüm ara yapılardan geçmiş olan faaliyetlerin son faydalanıcılarına kadar kapsayan geniş bir insan ağına bağlı. Farklı Avrupa geçmişlerinden gelen teknik destek takımımız, başarıya giden işbirliği okyanusunda yalnızca birer damla. Ancak bizler, Avrupa fonlarını önceden kullanmış ülkelerin tecrübelerinden çıkardıkları dersleri Türkiye’ye aktarmak için elimizden geleni yapacağız. Portekizli, İtalyan, Finlandiyalı ve Türklerden oluşan, zaman zaman İngiltere, Bulgaristan, Romanya gibi ülkelerden
gelen uzmanlarla da desteklenen takımımızla, geçmiş tecrübelerimizi Türkiye’nin yararına kullanmak için çalışacağız. Bazen geçmişte yaptığımız hataların nasıl önlenebileceğini anlatırken, bazen de
olumlu tecrübelerimizi paylaşacağız. Türkiye’nin bu çalışmalarımızdan yararlanmasına yardımcı olmak için gerçekten çok istekliyiz. Çünkü günün sonunda bizler de gururla bu başarının parçası olacağız.
12.6.11
Quer acompanhar as eleições de hoje na Turquia?
A Aljazeera cobre, em inglês, as eleições legislativas na Turquia, aqui.
14.2.11
Temos algo a aprender com a indústria turística turca: em 2010, perto de 10 mil pessoas por dia foram visitar o Topkapi
Segundo o Taraf, um jornal em turco citado pelo Hürryiet Daily News, o ano passado mais de três milhões e meio de turistas visitaram o Palácio Topkapi, pagando trinta milhões de liras turcas (perto de 15 milhões de euros). A Hagia Sophia foi visitada por 2,9 milhões de turistas gerou perto de 27 milhões de liras de receita. É certo que o ano passado Istambul foi capital europeia da cultura. Mas a experiência também diz que, tendencialmente, no ano a seguir a um grande acontecimento, as receitas ainda sobem.
Antes de fazer qualquer comparação com Portugal temos também que ter em conta, pelo menos na Hagia Sophia, que estamos perante tesouros únicos do património da humanidade. Mas num país que se quer turístico e em que os principais estádios de futebol atraem mais visitantes por ano que qualquer museu nacional, há algo a aprender com a indústria turística turca, se eu não estou a ver mal.
Antes de fazer qualquer comparação com Portugal temos também que ter em conta, pelo menos na Hagia Sophia, que estamos perante tesouros únicos do património da humanidade. Mas num país que se quer turístico e em que os principais estádios de futebol atraem mais visitantes por ano que qualquer museu nacional, há algo a aprender com a indústria turística turca, se eu não estou a ver mal.
10.12.10
A torre Beyazit de Istambul presta um novo serviço público aos residentes e turistas, anunciou o Hürryiet: previsão meteorológica. É iluminada de azul se amanhã se previr sol; amarelo se estiver enevoado; verde se chover e vermelho se nevar. Que torre lisboeta poderia prestar o mesmo serviço?
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