A crise social em que Portugal entrou e vai permanecer por uns anos vai afectar as instituições políticas e sociais e as que não souberem interpretar bem como devem posicionar-se em cada momento sofrerão consequências, riscos de erosão e, no limite, de fractura.
O quadro institucional do sistema político e de representação de interesses em Portugal é, com pequenas adaptações, o que resulta da gestão do PREC e do 25 de Novembro. Os grandes partidos vêm do pacto MFA-Partidos, os parceiros sociais da sua institucionalização nos anos setenta.
O nível de exposição à crise de cada uma destas instituições é variado, mas significativo. O abalo sofrido na UGT a propósito da Greve geral de 14 de Novembro é, talvez, o sinal mais forte até agora recebido do risco que refiro.
A liderança da UGT, a última instituição em Portugal gerida numa lógica de bloco central, tem apostado em manter as pontes com o governo que estão inscritas no seu código genético de sindicalismo apostado no diálogo. Mas este governo afastou-se do quadro neocorporativo que comandou o PS, a AD e os governos de Cavaco e Barroso. Não tem ministro com força e jeito para o diálogo social e não tem Primeiro-Ministro com simpatia por ele. Consequentemente, a postura dialogante da UGT tem obtido escassos resultados fora da relação com o Ministro da Segurança Social, que por sua vez foi amputado dos dossiers mais relevantes e está entre a espada do défice e a parede do seu próprio conservadorismo.
Coerente com o seu posicionamento de sempre, a liderança da UGT é muito prudente e rema contra a corrente em radicalizações de conflitos para os quais não se antevê projecto de solução e que se esgotam no simples protesto. Tem razão essa liderança quando pensa que a radicalização, no caso sindical, é protagonizada à luz do dia pela CGTP mas emana na sombra da estratégia política do PCP. Na linguagem típica da UGT esses são os protestos motivados por razões politico-partidárias. E quando recorre a essa linguagem para os classificar, demarca-se deles.
A greve convocada pela CGTP para 14 de Novembro foi classificada como greve geral, o que entre nós já só quer dizer greve em que se apela a todos os sindicatos que se associem e não em que se tenta paralizar o país. A UGT, coerente com o seu quadro de pensamento permanente desde a sua fundação, demarcou-se dela e não me surpreenderia que nos bastidores esteja em simultâneo a procurar algum ganho de causa com a negociação bem sucedida de algum assunto relevante.
Mas, como diria José Sócrates o mundo mudou. Os portugueses já não apostam na minoração dos efeitos das medidas deste governo. Passaram para o lado de lá da vedação, o da aspiração de que seja derrubado e as suas políticas substituídas por outras. E a densidade institucional da UGT e o peso da sua liderança sobre a organização já não é o que era. É hoje notícia que mais de metade dos sindicatos da UGT aderem à greve que a central repudia. Tal "rebelião" contra a estratégia da liderança era impensável antes do início desta crise. Pode ser apenas o sinal do ciclo de transição interna de poderes? Pode. Mas parece mais o resultado da descrença no modelo neocorporativo em que a UGT hegemonizada pelos sindicalistas do PS e do PSD foi a ganhadora estratégica mesmo sem ser nunca maioritária entre os trabalhadores. Descrença que o governo instiga pela sua insensibilidade ao diálogo social.
De facto, é a atitude do governo e a ofensiva neoliberal que comanda que está a mudar as regras do jogo das instituições democráticas e de representação de interesses em Portugal. A concertação social pode ser a penas a sua primeira vítima. Assim como o consenso com os parceiros sociais dialogantes foi deitado no lixo, os consensos institucionais com as forças políticas foi reduzido a manobres de diversão na praça pública, sem aviso prévio, preparação adequada nem vontade real de construir qualquer aproximação de posições.
No plano sindical, tudo isto resulta numa vitória táctica da CGTP e, através dela, do PCP, que era inimaginável há dois-três anos. A erosão da credibilidade da moderação da UGT, abandonada pelos seus próprios membros, deve servir para os próximos, os partidos, porem "as barbas de molho".
Quando a luta aquece, ainda ninguém sabe o que, neste ciclo, acontece. E seria terrível se aos malefícios deste governo sobre a economia e a sociedade se juntasse a colonização do espectro partidário da esquerda (e talvez a seguir da direita, mas falarei disso noutra altura) por correntes que, perdido o referencial revolucionário e sem projecto para Portugal como sistema democrático no quadro do capitalismo, são meramente oportunistas e populistas.
Oxalá me engane, mas vejo no horizonte o espaço aberto para uma ofensiva populista sobre a esquerda que só um repensar sério dos seus papeis na sociedade portuguesa por parte das forças da esquerda democrática e dos movimentos sociais não radicalizados pode conter. A UGT pode estar a ser só e ainda, apesar de tudo ao de leve, a primeira vítima.
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9.11.12
23.10.12
Rejeitemos o Orçamento de Estado para 2013, claro.
Os organizadores do Congresso Democrático das Alternativas lançaram uma petição pela rejeição do Orçamento de estado para 2013. Li, assinei e recomendo. (Obrigado, Arrastão, pelo link).
Para que não se gerem dúvidas, a minha posição de partida sobre a resposta adequada à crise é diferente da que saíu do Congresso.
Os seus protagonistas acreditam que é preciso (e que é possível sem lançar o país no caos) denunciar o Memorando com a troika para a seguir reconstruir o caminho. Eu penso que o caminho possível e necessário abrir a renegociação do memorando sem denúncia, usando as evidências cada vez mais óbvias e assumidas dentro da própria troika de que a receita austeritária é desequilibrada e não funciona. (se quiserem, está aqui ao lado uma "sondagem" sobre isto e o vosso voto é muito bem-vindo).
Eu estou convencido de que a plataforma que saiu do Congresso das Alternativas não conseguiu acrescentar nada ao debate político. Para a posição que defende já andava por aí, mais coisa menos coisa, quer o BE, quer o PCP, conforme se prefira o estilo e a linguagem de um ou de outro.
Estou convencido que o Congresso das Alternativa parte de uma premissa errada sobre o destino do país, do seu papel na Europa e do papel da Europa entre nós. Não vejo a Europa como uma imposição externa, um negócio de que devemos tentar livrar-nos quando não há saldo positivo na contabilidade, mas como um jogo de que fazemos parte e em que, para nosso mal, a esquerda tem sido derrotada. Eu não estou preocupado com o domínio alemão sobre a Europa; estou preocupado por a Europa ser dominada por uma alemã de direita. Estou convencido de que o corolário lógico da posição do Congresso, não formulado por razões tácticas, mas absolutamente relevante para definir o seu destino, é a saída de Portugal do Euro. E não vou por aí.
Mas acho que a esquerda deve continuar a debater-se, porque ninguém tem o monopólio da verdade, nem sequer o do erro. E, sobretudo, esta petição nada diz com que não concorde.
Para que não se gerem dúvidas, a minha posição de partida sobre a resposta adequada à crise é diferente da que saíu do Congresso.
Os seus protagonistas acreditam que é preciso (e que é possível sem lançar o país no caos) denunciar o Memorando com a troika para a seguir reconstruir o caminho. Eu penso que o caminho possível e necessário abrir a renegociação do memorando sem denúncia, usando as evidências cada vez mais óbvias e assumidas dentro da própria troika de que a receita austeritária é desequilibrada e não funciona. (se quiserem, está aqui ao lado uma "sondagem" sobre isto e o vosso voto é muito bem-vindo).
Eu estou convencido de que a plataforma que saiu do Congresso das Alternativas não conseguiu acrescentar nada ao debate político. Para a posição que defende já andava por aí, mais coisa menos coisa, quer o BE, quer o PCP, conforme se prefira o estilo e a linguagem de um ou de outro.
Estou convencido que o Congresso das Alternativa parte de uma premissa errada sobre o destino do país, do seu papel na Europa e do papel da Europa entre nós. Não vejo a Europa como uma imposição externa, um negócio de que devemos tentar livrar-nos quando não há saldo positivo na contabilidade, mas como um jogo de que fazemos parte e em que, para nosso mal, a esquerda tem sido derrotada. Eu não estou preocupado com o domínio alemão sobre a Europa; estou preocupado por a Europa ser dominada por uma alemã de direita. Estou convencido de que o corolário lógico da posição do Congresso, não formulado por razões tácticas, mas absolutamente relevante para definir o seu destino, é a saída de Portugal do Euro. E não vou por aí.
Mas acho que a esquerda deve continuar a debater-se, porque ninguém tem o monopólio da verdade, nem sequer o do erro. E, sobretudo, esta petição nada diz com que não concorde.
10.10.12
Já estava com saudades de me rever completamente numa frase de Jorge Sampaio
"Devo dizer que a austeridade pela austeridade, a austeridade excessiva,
pode prejudicar terrivelmente a democracia. Porquê? Porque a democracia
precisa de esperança", Jorge Sampaio numa conversa com internautas do Le Monde
E que se pode extrair daqui para um programa político democrata de esquerda? A recordação de que a esperança nunca foi na sua história da uma filha da facilidade. Foi, pelo contrário, referencial inspirador da necessidade de superação da adversidade. Mas, para que não sejam os que não acreditam na Europa os beneficiados da tecnocracia liberal que comanda neste momento a resposta europeia à crise, é necessário que haja uma esquerda política pró-Europa, dotada de projecto e convergente em diferentes zonas do continente.
É essa esquerda que me faz falta e que não vejo crescer nos partidos social-democratas que parecem querer repetir em relação a Merkel o erro que a terceira via cometeu e lhe foi fatal em relação a Tatcher e Kohl. E que também não vejo surgir, evidentemente, nos que acham que o Syriza e o estilhaçar dos equilíbrios e cedências mútuas que permitiram a UE e o Euro é que é a alternativa.
Pensando bem, não foi por acaso que nem o PS conseguiu produzir política suficientemente forte para enfrentar a crise nem o PCP e o BE tiveram dificuldades de qualquer espécie, perante esse facto, em convergir com o CDS e o PSD, CDS na acção parlamentar cujo desfecho foi o governo que hoje temos.
É tempo de procurar novas fontes de esperança.
E que se pode extrair daqui para um programa político democrata de esquerda? A recordação de que a esperança nunca foi na sua história da uma filha da facilidade. Foi, pelo contrário, referencial inspirador da necessidade de superação da adversidade. Mas, para que não sejam os que não acreditam na Europa os beneficiados da tecnocracia liberal que comanda neste momento a resposta europeia à crise, é necessário que haja uma esquerda política pró-Europa, dotada de projecto e convergente em diferentes zonas do continente.
É essa esquerda que me faz falta e que não vejo crescer nos partidos social-democratas que parecem querer repetir em relação a Merkel o erro que a terceira via cometeu e lhe foi fatal em relação a Tatcher e Kohl. E que também não vejo surgir, evidentemente, nos que acham que o Syriza e o estilhaçar dos equilíbrios e cedências mútuas que permitiram a UE e o Euro é que é a alternativa.
Pensando bem, não foi por acaso que nem o PS conseguiu produzir política suficientemente forte para enfrentar a crise nem o PCP e o BE tiveram dificuldades de qualquer espécie, perante esse facto, em convergir com o CDS e o PSD, CDS na acção parlamentar cujo desfecho foi o governo que hoje temos.
É tempo de procurar novas fontes de esperança.
27.6.12
Congresso Democrático das Alternativas: defender a República para o século XXI
Ao contrário do meu amigo Daniel Oliveira, limitei-me a juntar-me - e em cima da hora - à primeira vaga da onda do Congresso Democrático das Alternativas, cujo manifesto já está disponível no Arrastão.
O texto da convocatória, desculpem-me os seus autores, não me entusiasmou e não o acho particularmente inspirado ou construído de forma a potenciar a máxima convergência possível. Há alternativas para além da denúncia que se presume unilateral do memorando de entendimento com a troika.
Mas sem discutir alternativas não se consegue sair dos simplismos dicotómicos e acredito que a necessidade da discussão está tanto ou mais no espírito da convocatória quanto a sua linguagem, excessivamente Syryza para o meu palato político.Quem quiser discutir o mundo em transformação não pode prender-se excessivamente ao ponto de partida de quem generosamente se prontifica a abrir a discussão. Pessoalmente, interessa-me menos saber qual é o ponto de convergência dos diligentes iniciadores do Congresso do que o conteúdo do debate que com o seu trabalho tornam possível.
Num ponto não tenho dúvidas em acompanhar o espírito do Manifesto que hoje é apresentado - tem que haver outras saídas para a crise. As postas em prática na Europa desde a derrota de Gordon Brown no Reino Unido não funcionam e empobrecem-nos colectivamente.
Também não gosto do Memorando de Entendimento e preferia que ele nunca tivesse existido, mas sem esquecer as responsabilidades partilhadas por toda a esquerda portuguesa, do PS ao PCP e ao BE, na criação da crise política que o tornou inevitável.
Acresce que a crise mudou desde o tempo em que o Memorando foi assinado. Não é uma crise localizada num pequeno grupo de países com problemas orçamentais e de despesa pública, mas uma crise de ausência de respostas europeias e de mecanismos que sustentem a sua moeda. Também não é uma crise devida às maldades da existência do Euro, mas aos erros institucionais com que nasceu.
Em Portugal a intensidade da crise económica e social foi agravada, não é demais repeti-lo, pelo derrube do governo minoritário do PS, em que BE e PCP caminharam de braço dado com a direita, porventura inconscientes das consequências do seu gesto. Ninguém à esquerda pode passar por cima deste "incidente", a meu ver trágico, da percepção do que o tornou possível e de como se formou e evoluiu nesse caminho, se pretende sair da retórica das acusações recíprocas para a busca real de alternativas. Com a esquerda bloqueada e fracturada entre pragmatismo excessivo e maximalismo inconsequente não haverá alternativa nenhuma à solidez política dos governos de direita. Ou talvez haja uma, o bloco central que ninguém quer.
Noutro ponto essencial comungo do espírito e da letra do Manifesto - é necessário um resgate democrático de Portugal. Teremos, concerteza, divergências significativas sobre o conteúdo de tal resgate. Mas, uma coisa é certa, sem resolver os impasses da esquerda ele não acontecerá. E àqueles que pensem que o caminho é o do "milagre" grego recordo que com o PASOK encostado à direita e enfraquecido, o Syryza apenas conseguiu comandar a oposição. Para mim, é fraco consolo para uma esquerda progressista e transformadora assistir impotente à sua fragmentação e dispersão de campos.
O caminho para que procuro contribuir é o oposto do grego, é o da geração de alternativas que alimentem plataformas de pensamento que possam corporizar um governo diferente. É por acreditar que haja no Congresso mais gente com quem partilhe essa motivação, ainda que divirja em muitas coisas concretas, que lá estarei no cinco de Outubro da República cuja comemoração este governo considerou um luxo dispensável.
Na minha visão, o que importa é defender a República para o século XXI. Quaisquer outras agendas para a iniciativa são legítimas, não sendo as que me movem. Aliás, quem pensou a iniciativa tem toda a legitimidade para puxar por elas.. Eu apenas não acho que partilhá-las seja um pré-requisito para procurar as convergências que mais cedo ou mais tarde desbloqueiem a esquerda portuguesa e façam das actuais esquerdas uma força de governo com importância política proporcional aos eleitores que nela confiam.
Quem for por outro caminho, acho eu, terá bons soundbytes - que nos promotores há muita gente inteligente capaz de os inventar e dizer - e proclamações gloriosas, mas pouco impacto na transformação progressista do país.
Cumprimento, antes de mais, a coragem de abrir as portas ao debate entre as esquerdas que os iniciadores tiveram e aproveito também para dizer aos que se fecharem nas muralhas das suas certezas que cometem o erro de pensar que o futuro da esquerda em Portugal se pode fazer pelas linhas do século XX. Tudo aponta noutro sentido.
O texto da convocatória, desculpem-me os seus autores, não me entusiasmou e não o acho particularmente inspirado ou construído de forma a potenciar a máxima convergência possível. Há alternativas para além da denúncia que se presume unilateral do memorando de entendimento com a troika.
Mas sem discutir alternativas não se consegue sair dos simplismos dicotómicos e acredito que a necessidade da discussão está tanto ou mais no espírito da convocatória quanto a sua linguagem, excessivamente Syryza para o meu palato político.Quem quiser discutir o mundo em transformação não pode prender-se excessivamente ao ponto de partida de quem generosamente se prontifica a abrir a discussão. Pessoalmente, interessa-me menos saber qual é o ponto de convergência dos diligentes iniciadores do Congresso do que o conteúdo do debate que com o seu trabalho tornam possível.
Num ponto não tenho dúvidas em acompanhar o espírito do Manifesto que hoje é apresentado - tem que haver outras saídas para a crise. As postas em prática na Europa desde a derrota de Gordon Brown no Reino Unido não funcionam e empobrecem-nos colectivamente.
Também não gosto do Memorando de Entendimento e preferia que ele nunca tivesse existido, mas sem esquecer as responsabilidades partilhadas por toda a esquerda portuguesa, do PS ao PCP e ao BE, na criação da crise política que o tornou inevitável.
Acresce que a crise mudou desde o tempo em que o Memorando foi assinado. Não é uma crise localizada num pequeno grupo de países com problemas orçamentais e de despesa pública, mas uma crise de ausência de respostas europeias e de mecanismos que sustentem a sua moeda. Também não é uma crise devida às maldades da existência do Euro, mas aos erros institucionais com que nasceu.
Em Portugal a intensidade da crise económica e social foi agravada, não é demais repeti-lo, pelo derrube do governo minoritário do PS, em que BE e PCP caminharam de braço dado com a direita, porventura inconscientes das consequências do seu gesto. Ninguém à esquerda pode passar por cima deste "incidente", a meu ver trágico, da percepção do que o tornou possível e de como se formou e evoluiu nesse caminho, se pretende sair da retórica das acusações recíprocas para a busca real de alternativas. Com a esquerda bloqueada e fracturada entre pragmatismo excessivo e maximalismo inconsequente não haverá alternativa nenhuma à solidez política dos governos de direita. Ou talvez haja uma, o bloco central que ninguém quer.
Noutro ponto essencial comungo do espírito e da letra do Manifesto - é necessário um resgate democrático de Portugal. Teremos, concerteza, divergências significativas sobre o conteúdo de tal resgate. Mas, uma coisa é certa, sem resolver os impasses da esquerda ele não acontecerá. E àqueles que pensem que o caminho é o do "milagre" grego recordo que com o PASOK encostado à direita e enfraquecido, o Syryza apenas conseguiu comandar a oposição. Para mim, é fraco consolo para uma esquerda progressista e transformadora assistir impotente à sua fragmentação e dispersão de campos.
O caminho para que procuro contribuir é o oposto do grego, é o da geração de alternativas que alimentem plataformas de pensamento que possam corporizar um governo diferente. É por acreditar que haja no Congresso mais gente com quem partilhe essa motivação, ainda que divirja em muitas coisas concretas, que lá estarei no cinco de Outubro da República cuja comemoração este governo considerou um luxo dispensável.
Na minha visão, o que importa é defender a República para o século XXI. Quaisquer outras agendas para a iniciativa são legítimas, não sendo as que me movem. Aliás, quem pensou a iniciativa tem toda a legitimidade para puxar por elas.. Eu apenas não acho que partilhá-las seja um pré-requisito para procurar as convergências que mais cedo ou mais tarde desbloqueiem a esquerda portuguesa e façam das actuais esquerdas uma força de governo com importância política proporcional aos eleitores que nela confiam.
Quem for por outro caminho, acho eu, terá bons soundbytes - que nos promotores há muita gente inteligente capaz de os inventar e dizer - e proclamações gloriosas, mas pouco impacto na transformação progressista do país.
Cumprimento, antes de mais, a coragem de abrir as portas ao debate entre as esquerdas que os iniciadores tiveram e aproveito também para dizer aos que se fecharem nas muralhas das suas certezas que cometem o erro de pensar que o futuro da esquerda em Portugal se pode fazer pelas linhas do século XX. Tudo aponta noutro sentido.
6.12.11
Sobre a homenagem a João Martins Pereira (3ª parte): a necessidade de um macro-regulador e a importância do Estado de Direito
Considero que a obra ensaística e as intervenções cívicas e políticas de João Martins Pereira, constituem um bom lastro para equacionar os moldes de urdir uma Estratégia Política que responda às graves perturbações nacionais e internacionais registadas nos Mercados e inerentes mutações na sociedade e no governo das sociedades. Prossigo assim uma anotação da “Evocação de João Martins Pereira” organizada pelo CES/CD 25 de Abril, que dedico às omissões da homenagem. As omissões são tão, ou mais gravosas, que os erros ou deturpações. Daí ocupar-me extensamente delas em detrimento das afirmações.
1. A necessidade de um macro-regulador
O “Mercado”( e várias reflexões sobre o “Mercado”) foi abundantemente referido em variadíssimas intervenções. Contudo, o qualificativo de “Macro Regulador” só foi referido no meu depoimento publicado neste blog, mas não apareceu no decurso das três sessões da evocação. Ora, como muitas das intervenções visaram avançar na pesquisa de uma plataforma política alterando o atual modelo de organização e governo da nossa sociedade, essa ausência de uma referência a um Macro Regulador, foi uma lacuna, uma omissão.
Mas parece-me evidente, que sendo o “Mercado”, um potente Macro Regulador, urge teorizar um alternativo Macro Regulador para estribar a tal Estratégia Política, nova, a que acima aludo. Essa preocupação de teorização não foi lembrada.
2. A necessidade do Estado de Direito
2- Ainda no rol das omissões vamos encontrar a escassez das referências ao Estado de Direito, mas devo registar a acuidade tida por João Cravinho, lembrando a Carta Aberta de João Martins Pereira ao desvincular-se do IV Governo Provisório, acontecimento abordado por mim no depoimento também inserido neste blogue.
Com alguma surpresa minha, a temática dos “Excedentes Gerados na Actividade Económica" quase teria passado em claro, embora formate o Investimento Público bem como as disponibilidades financeiras para sustentar as Prestações, ditas, Sociais, o Estado Providência. É óbvio que se também ela se prende com a distribuição de rendimentos, como Francisco Louçã anotou. Mas os aspectos que refiro acima estão num patamar hierarquicamente acima.
A Democracia não é o“Democratismo”. O Popular não é o “Populismo”.
Acácio Lima
5.12.11
Sobre a homenagem a João Martins Pereira: uma análise (2ª parte)
No depoimento inicial procurei relembrar a figura ímpar do intelectual português mais brilhante da segunda metade do século XX- João Martins Pereira - centrando-me na sua obra ensaística, na sua vida profissional e de historiador do Capitalismo em Portugal. A “Evocação de João Martins Pereira”, organizada pelo CES/CD 25 de Abril foi já anotada num primeiro texto a que se segue esta segunda nota que dedico à passagem do “senso comum” acrítico, para o “Materialismo Filosófico”.
Os Mortos, mesmo os Mortes ilustres, caso de João Martins Pereira, não passam procurações.
Do meu ponto de vista, na “Evocação”, andaram mal os que ousaram aventar, que esta perturbação grave dos “Mercados” e as inerentes consequências, poderiam ter levado João Martins Pereira a “rever”, “corrigir”, algumas das suas análises e das suas afirmações.
Esta hipótese de trabalho é inaceitável, pois dissocia as formulações teorizantes de João Martins Pereira do factual, ocorrido até à sua formulação. Foi uma clara menorização do rigor científico usado por João Martins Pereira.
Diz o senso comum que "a História não se repete”. Mas, apesar de tudo, vai havendo, alguns traços comuns na História dos diversos processos políticos. Só que é sempre indevido fazer transposições mecanicistas. O autor deste blog, o Dr. Paulo Pedroso, há talvez dois anos, abordou, com outra consistência, esta crítica ao “Senso Comum”.
Interessante, nesta evocação foi ter sido desenterrada a polémica antiga, das Ideias precederem os Acontecimentos versus os Acontecimentos serem o leito de parto das Ideias, tudo entroncando no Idealismo Filosófico versus o Materialismo Filosófico.
A leitura da obra de João Martins Pereira dispensa qualquer acrescento ao acima dito.
Acácio Lima
Sobre a homenagem a João Martins Pereira: uma análise (1ª parte)
Esta minha ida a Lisboa, às sessões de Homenagem/ Evocação de João Martins Pereira, não podia “perder-se” na “desarrumação” da minha cabeça, pensando eu em fazer um texto corrido, mas muito simples, a propósito.
Só que o Dr. Paulo Pedroso, gentilmente, me incitou a escolher uma outra “formatação”, em textos curtos, suscétíveis de publicação no seu blog. Esta amabilidade do Dr. Paulo Pedroso, vem, de novo, “obrigar-me” a vencer a minha “preguiça” e tentar uma melhor sistematização no meu inicial registo.
Agradeço ao Dr. Paulo Pedroso, esta “disciplina”, esconjurando o meu “desleixo”, ditado por esta “desocupação” de pensionista “por invalidez” física.
1. Uma homenagem participada e de qualidade elevada
A Homenagem, com três sessões, uma na Sexta-feira e duas no Sábado, 25 e 26 de Novembro p. p., mobilizou cerca de cem pessoas, ao logo das sessões.
Para além das múltiplas intervenções dos organizadores e seus convidados, registaram-se diversas outras intervenções do público assistente, muitas delas revelando uma preparação prévia, refletida, maturada, organizada e com objetivos pré definidos.
Diria que, a “qualidade” das participações/intervenções, embora não homogénea, esteve acima do corrente.
Pese contudo que alguns dos intervenientes quase se “esqueceram” de que o centro do evento era a obra e vida, muito rica, de João Martins Pereira. E como advogo, que urge “chamar os bois pelo nome”, não posso deixar de referir Manuel Carvalho da Silva, como caso paradigmático deste desvio.
No polo oposto tivemos Manuela Cruzeiro, José Reis, João Cravinho, e, com alguma surpresa minha, Francisco Louçã fugiu ao tom panfletário, que normalmente usa.
Esta “Evocação de João Martins Pereira” resulta de uma vontade política do CES/CD 25 de Abril, que saudo, agradecendo, em particular, a Rui Bebiano e a Manuela Cruzeiro, todo o enorme esforço, empenho e mestria envolvidas. A mobilizaçao havida e a qualidade das intervenções serão, para eles, com certeza, uma reconfortante contrapartida.
2. A modernização: a articulação micro-macro era um tema caro ao homenageado
Francisco Louçã, acabou por introduzir e tratar eruditamente, mas de forma bem interessante, a apregoada “Modernização”. A parte do “Moderno”, a que eu, chamo o “Modernaço”, termo que o meu Amigo Alexandre Alves Costa, já na década de 60, usava.
Uma parte da “Modernização” centrou-se, efetivamente, na diversificação dos chamados produtos de consumo, mas o seu aparecimento não se cifrou numa alteração básica da estrutura do aparelho produtivo. Poderiamos até falar na “democratização do consumo”. Nesse ângulo, a intervenção de Louçã foi brilhante.
É claro, que do meu ponto de vista, Francisco Louçã omitiu a outra vertente, a da “Modernização” no aparelho produtivo e no aparelho de distribuição, recente, face e ditada pelo incremento decisivo do nível de incorporação técnica e tecnológica, alterando o mix de produtos fabricados, ora mais sofisticados, e alterando-se os métodos e tecnologias de fabricação e de gestão da produção. Tudo ligado a uma nova “Divisão doTrabalho” e “Divisão Internacional do Trabalho”.
Louçã também “omitiu” o “Moderno” que a Desburocratização encerra. Não teço comentários à opção de Louçã nessas “omissões”. É óbvia. A lacuna de Louçâ, no meu ponto de vista, prende-se com a não articulação dos processos micro económicos com os processos macro económicos, onde João Martins Pereira era “mestre dos mestres”.
Numa outra intervenção, que temáticamente entra no mesmo tom da acima referida, apontou-se que há muito, não se processam Cursos sobre Técnicas de Produtividade, o que é um facto que conheço bem pois estive em Paris frequentando um curso de pós gradução em “Técnicas de Produvidade” então ministrado por Jacques Delors. E partiu-se daí para para acusar o patronato de falhas na produtividade e na competividade. E no oposto, ilibava-se, e bem, que tal decorresse dos trabalhadores.
Mas também aqui, voltamos a ter uma “omissão”. As pequenas “astúcias” das Técnicas de Produtividade, em torno da organização dos postos de trabalho, em torno dos lay-out fabris, em torno das sequências de trabalho, em torno do aprofundamento da “preparação de trabalho” e dos “métodos”, o uso de novas ferramentas, nomeadamente de computação ( que muito bem João Cravinho referiu como bem dominados por João Martins Pereira) representam pouco, hoje, face à intervenção de fundo, essa sim,decisiva, decorrente e marcada pelo incremento do nível de incorporação tecnológica e técnica.
Nessa intervenção, e vinha bem a propósito, omitiu-se, quanto aos Trabalhadores, o factor “Qualificação”. Não comento a omissão, pois as razões são também óbvias.
Num segundo texto aludirei ao “Senso Comum” acrítico. Num terceiro texto, ocupar-me-ei das “Omissões” e dentro delas anotarei a respeitante aos “Excedentes Gerados na A,tividade Económica”. No quarto texto irão algumas Notas sobre a passagem ao largo de uma Crítica Radical à Doutrina Corporativa, que informou o anterior regime e continua bem presente na legislação e na mente de muitas pessoas. Tudo isto também ligado a um intervenção política no futuro próximo.
Acácio Lima
Só que o Dr. Paulo Pedroso, gentilmente, me incitou a escolher uma outra “formatação”, em textos curtos, suscétíveis de publicação no seu blog. Esta amabilidade do Dr. Paulo Pedroso, vem, de novo, “obrigar-me” a vencer a minha “preguiça” e tentar uma melhor sistematização no meu inicial registo.
Agradeço ao Dr. Paulo Pedroso, esta “disciplina”, esconjurando o meu “desleixo”, ditado por esta “desocupação” de pensionista “por invalidez” física.
1. Uma homenagem participada e de qualidade elevada
A Homenagem, com três sessões, uma na Sexta-feira e duas no Sábado, 25 e 26 de Novembro p. p., mobilizou cerca de cem pessoas, ao logo das sessões.
Para além das múltiplas intervenções dos organizadores e seus convidados, registaram-se diversas outras intervenções do público assistente, muitas delas revelando uma preparação prévia, refletida, maturada, organizada e com objetivos pré definidos.
Diria que, a “qualidade” das participações/intervenções, embora não homogénea, esteve acima do corrente.
Pese contudo que alguns dos intervenientes quase se “esqueceram” de que o centro do evento era a obra e vida, muito rica, de João Martins Pereira. E como advogo, que urge “chamar os bois pelo nome”, não posso deixar de referir Manuel Carvalho da Silva, como caso paradigmático deste desvio.
No polo oposto tivemos Manuela Cruzeiro, José Reis, João Cravinho, e, com alguma surpresa minha, Francisco Louçã fugiu ao tom panfletário, que normalmente usa.
Esta “Evocação de João Martins Pereira” resulta de uma vontade política do CES/CD 25 de Abril, que saudo, agradecendo, em particular, a Rui Bebiano e a Manuela Cruzeiro, todo o enorme esforço, empenho e mestria envolvidas. A mobilizaçao havida e a qualidade das intervenções serão, para eles, com certeza, uma reconfortante contrapartida.
2. A modernização: a articulação micro-macro era um tema caro ao homenageado
Francisco Louçã, acabou por introduzir e tratar eruditamente, mas de forma bem interessante, a apregoada “Modernização”. A parte do “Moderno”, a que eu, chamo o “Modernaço”, termo que o meu Amigo Alexandre Alves Costa, já na década de 60, usava.
Uma parte da “Modernização” centrou-se, efetivamente, na diversificação dos chamados produtos de consumo, mas o seu aparecimento não se cifrou numa alteração básica da estrutura do aparelho produtivo. Poderiamos até falar na “democratização do consumo”. Nesse ângulo, a intervenção de Louçã foi brilhante.
É claro, que do meu ponto de vista, Francisco Louçã omitiu a outra vertente, a da “Modernização” no aparelho produtivo e no aparelho de distribuição, recente, face e ditada pelo incremento decisivo do nível de incorporação técnica e tecnológica, alterando o mix de produtos fabricados, ora mais sofisticados, e alterando-se os métodos e tecnologias de fabricação e de gestão da produção. Tudo ligado a uma nova “Divisão doTrabalho” e “Divisão Internacional do Trabalho”.
Louçã também “omitiu” o “Moderno” que a Desburocratização encerra. Não teço comentários à opção de Louçã nessas “omissões”. É óbvia. A lacuna de Louçâ, no meu ponto de vista, prende-se com a não articulação dos processos micro económicos com os processos macro económicos, onde João Martins Pereira era “mestre dos mestres”.
Numa outra intervenção, que temáticamente entra no mesmo tom da acima referida, apontou-se que há muito, não se processam Cursos sobre Técnicas de Produtividade, o que é um facto que conheço bem pois estive em Paris frequentando um curso de pós gradução em “Técnicas de Produvidade” então ministrado por Jacques Delors. E partiu-se daí para para acusar o patronato de falhas na produtividade e na competividade. E no oposto, ilibava-se, e bem, que tal decorresse dos trabalhadores.
Mas também aqui, voltamos a ter uma “omissão”. As pequenas “astúcias” das Técnicas de Produtividade, em torno da organização dos postos de trabalho, em torno dos lay-out fabris, em torno das sequências de trabalho, em torno do aprofundamento da “preparação de trabalho” e dos “métodos”, o uso de novas ferramentas, nomeadamente de computação ( que muito bem João Cravinho referiu como bem dominados por João Martins Pereira) representam pouco, hoje, face à intervenção de fundo, essa sim,decisiva, decorrente e marcada pelo incremento do nível de incorporação tecnológica e técnica.
Nessa intervenção, e vinha bem a propósito, omitiu-se, quanto aos Trabalhadores, o factor “Qualificação”. Não comento a omissão, pois as razões são também óbvias.
Num segundo texto aludirei ao “Senso Comum” acrítico. Num terceiro texto, ocupar-me-ei das “Omissões” e dentro delas anotarei a respeitante aos “Excedentes Gerados na A,tividade Económica”. No quarto texto irão algumas Notas sobre a passagem ao largo de uma Crítica Radical à Doutrina Corporativa, que informou o anterior regime e continua bem presente na legislação e na mente de muitas pessoas. Tudo isto também ligado a um intervenção política no futuro próximo.
Acácio Lima
28.9.11
Estamos em 2011, sabem?
Muita coisa me separa da análise que Carlos Brito faz do último governo e muita pedra haveria que partir para chegar de modo sério ao ponto de convergência política a que apela. Mas, perante o ataque ideológico da direita, cá como lá fora, a esquerda precisa de uma nova agenda se quiser ser alternativa. Por isso partilho inteiramente desta perspectiva:
Nada desculpa que perante a ofensiva violenta da direita, que está a provocar o brutal agravamento das condições de vida dos trabalhadores e de todo o povo, a esquerda permaneça dividida. Nenhuma das grandes formações políticas desta área pode ser desculpada.
O que é possível, por exemplo, na Dinamarca só é impossível em Portugal porque todas as esquerdas ainda vivem determinadas politicamente pelo lado da barricada em que estiveram no PREC, perante o Muro de Berlim ou ambos. Estamos em 2011, sabem?
PS. Para que não me avaliem mal. Entre o bloco central, a maioria de direita e o caos, o princípio da realidade continua a fazer-me preferir o bloco central. Mas esse é o resultado de erros nossos, sectarismo ardente, má fortuna.
Nada desculpa que perante a ofensiva violenta da direita, que está a provocar o brutal agravamento das condições de vida dos trabalhadores e de todo o povo, a esquerda permaneça dividida. Nenhuma das grandes formações políticas desta área pode ser desculpada.
O que é possível, por exemplo, na Dinamarca só é impossível em Portugal porque todas as esquerdas ainda vivem determinadas politicamente pelo lado da barricada em que estiveram no PREC, perante o Muro de Berlim ou ambos. Estamos em 2011, sabem?
PS. Para que não me avaliem mal. Entre o bloco central, a maioria de direita e o caos, o princípio da realidade continua a fazer-me preferir o bloco central. Mas esse é o resultado de erros nossos, sectarismo ardente, má fortuna.
16.9.11
Algo vai mal. Será no reino da Dinamarca?
Na Dinamarca, vitória dos socialistas implica coligação de esquerda. Em Portugal é impensável. Culpas? Repartidas por PS, CDU e BE em proporções a apurar quando houver coragem política em simultâneo nas três forças para resolver a questão. Até lá resta ao PS a solidão de ser um partido de esquerda responsável e ao país, quando o PS ganha, ter governos virados para o centro. Erros nossos, sectarismos ardentes, má fortuna.
11.7.11
Esquerda à esquerda do PS: "E agora, que vai ser de nós sem os Bárbaros?"
“E agora, que vai ser de nós sem os Bárbaros? /Essa gente era uma espécie de solução”. Termina citando Cavafis, a melhor análise da esquerda até agora vinda a lume da esquerda à esquerda do PS sobre o que a esquerda precisa de aprender com os meses que nos levaram do PEC ao PSD-CDS. A ler, Cipriano Justo, aqui.
15.6.11
Sobre Cohn-Bendit: reformadores e desbloqueadores da esquerda portuguesa precisam-se.
"Penso que não existe consenso na sociedade portuguesa quanto aos passos que devem ser tomados, nem uma visão concreta sobre que tipo de medidas para além de uma política de austeridade e de reforma. Uma política que, no fundo, defina apenas as medidas de austeridade como o objetivo não tem qualquer perspetiva de futuro" (Daniel Cohn-Bendit, eurodeputado dos Verdes).
Gosto de ver uma esquerda que fala assim. Ignoro se Cohn-Bendit faria propostas para esse consenso que nos ajudassem a encontrar as convergências necessárias. Mas concordo com o ponto de partida: a austeridade é um paliativo de curto prazo; permitirá um ajustamento doloroso mas, no fim, manterá as vulnerabilidades estruturais. Mas como se consegue consenso sobre políticas de reforma? Esse é o dilema da esquerda portuguesa. Até hoje o PS não teve à esquerda nenhum partido com quem construir convergências sobre propostas de reforma. Quem sobraria?
O bloqueio da esquerda empurra o PS para a convergência PS-PSD (já que o bloco central fere os ouvidos sensíveis) ou para a oposição a Governos de direita. Se houver protagonistas com quem se possa falar de uma agenda reformadora, o nó começa a desatar-se. Por isso o contributo de Cohn-Bendit é muito bem-vindo. O problema é que a sua visão não tem partido em Portugal. Talvez seja ouvido por Rui Tavares e Daniel Oliveira. É um bom começo, mas reformadores e desbloqueadores da esquerda precisam-se.
Temos quatro anos para lá chegar, agora que o país vai conhecer os frutos das terapias da direita liberal, com o memorando de entendimento com a troyka servido como base de um prato com muito molho de medidas ideologicamente motivadas a apimentar.
Gosto de ver uma esquerda que fala assim. Ignoro se Cohn-Bendit faria propostas para esse consenso que nos ajudassem a encontrar as convergências necessárias. Mas concordo com o ponto de partida: a austeridade é um paliativo de curto prazo; permitirá um ajustamento doloroso mas, no fim, manterá as vulnerabilidades estruturais. Mas como se consegue consenso sobre políticas de reforma? Esse é o dilema da esquerda portuguesa. Até hoje o PS não teve à esquerda nenhum partido com quem construir convergências sobre propostas de reforma. Quem sobraria?
O bloqueio da esquerda empurra o PS para a convergência PS-PSD (já que o bloco central fere os ouvidos sensíveis) ou para a oposição a Governos de direita. Se houver protagonistas com quem se possa falar de uma agenda reformadora, o nó começa a desatar-se. Por isso o contributo de Cohn-Bendit é muito bem-vindo. O problema é que a sua visão não tem partido em Portugal. Talvez seja ouvido por Rui Tavares e Daniel Oliveira. É um bom começo, mas reformadores e desbloqueadores da esquerda precisam-se.
Temos quatro anos para lá chegar, agora que o país vai conhecer os frutos das terapias da direita liberal, com o memorando de entendimento com a troyka servido como base de um prato com muito molho de medidas ideologicamente motivadas a apimentar.
11.6.11
Ich bin ein Daniel Oliveira ou quantas divisões tem o exército do Papa?
"Não, já o disse e alguns não perceberam, o desvario do Bloco não passa pelo seu coordenador." (Daniel Oliveira)
Não sei o suficiente sobre o BE para saber exactamente a quem se deve o desvario. Mas acho que ele foi notório na recente campanha eleitoral, como escrevi aqui. Daniel Oliveira, talvez tacticamente, quer poupar Francisco Louçã, mas a verdade é que o próprio tinha teorizado o objectivo do BE como sendo não o reforço da esquerda mas a derrota do PS. Acabou o BE por ser vítima da sua cegueira táctica e do desconhecimento de uma regra do comportamento eleitoral dos portugueses. Quando a esquerda desce, não é à custa de uns partidos de esquerda em benefício de outros mas, essencialmente, desce em conjunto, claro que uns mais que outros e, quando muito, uns aguentam-se quando os outros caem a pique. Não foi o que agora aconteceu ao BE perante a derrota do PS. Mas, francamente nem é isso que é essencial.
O que é importante é que o BE tudo fez para precipitar a queda do PS, desde a sua pueril moção de censura do Carnaval, sem que tivesse estratégia sobre o que fazer com essa queda.
Há uma coisa que quem dirige o PS, o BE e o PCP não percebe. Os partidos estão distantes entre si em tudo, menos nos seus eleitorados, em que partes significativas já votaram em momentos diferentes nos três.
Nós os "políticos" podemos continuar a viver por muito tempo sem fazer a constatação do Rui Tavares. Ou sem ouvir, no BE, o realismo do Daniel Oliveira que percebeu (sem que eu concorde cm os adjectivos) que o papel do Bloco é ocupar um espaço amplo na esquerda, que não se revê nem na ortodoxia do PCP, nem na moleza do PS, mas que quer um Bloco disponível para soluções de poder. Ou, no PS, cedendo à tentação centrista da equidistância como se não fosse verdade, como disse em 2009, que o que estruturalmente divide o PS do BE e do PCP é a Europa e o princípio da realidade.
Julgo que a esquerda tem tudo a ganhar em clarificar tanto as suas diferenças como as suas convergências, nisso aprendendo com a direita. Foi isso que não conseguiu no ciclo político que agora termina, como em tempo disse Soares, autopsiando previamente (com dois anos de antecedência) a morte da maioria parlamentar de esquerda que se encaminhava para a derrota que teve agora, em 2011. Manuel Alegre, honra lhe seja feita, tentou inverter essa tendência num dado momento, fossem quais fossem as suas intenções. Mas já então foi o mesmo Luis Fazenda que agora nos pergunta quem é Daniel Oliveira que se encarregou de matar a conversa na casca.
Talvez o Daniel, que sabe muito mais do BE que eu, tenha razão quando diz que o problema não passa pelo coordenador. Eu só tenho a certeza que neste momento a solução também não. Quanto a quem é Daniel Oliveira, permitam-me que responda com amizade pelo Daniel, à pergunta de Luis Fazenda. É um homem de esquerda, um espírito livre, que quer ao mesmo tempo que haja à esquerda alternativas ao PS e ao PCP e uma cultura de poder para mudar Portugal em vez de bramir contra os que o mudam contra a nossa vontade. Não será do meu partido e eu não serei do dele, mas sabe distinguir o essencial do acessório. Quantos políticos, no PS, no PCP e no BE o saberão? Cada partido tem o Fazenda que merece e a pergunta estalinista típica de Fazenda ao Daniel, já eu a ouvi a outros no PS e no PCP é cultura oficial. Afinal quantas divisões tem o exército do Papa?
Os Fazendas dos três partidos conduzem-nos ciclicamente aos governos da AD e talvez até fiquem contentes. Os que neles votam mais tarde ou mais cedo vão perceber o logro.
Não sei o suficiente sobre o BE para saber exactamente a quem se deve o desvario. Mas acho que ele foi notório na recente campanha eleitoral, como escrevi aqui. Daniel Oliveira, talvez tacticamente, quer poupar Francisco Louçã, mas a verdade é que o próprio tinha teorizado o objectivo do BE como sendo não o reforço da esquerda mas a derrota do PS. Acabou o BE por ser vítima da sua cegueira táctica e do desconhecimento de uma regra do comportamento eleitoral dos portugueses. Quando a esquerda desce, não é à custa de uns partidos de esquerda em benefício de outros mas, essencialmente, desce em conjunto, claro que uns mais que outros e, quando muito, uns aguentam-se quando os outros caem a pique. Não foi o que agora aconteceu ao BE perante a derrota do PS. Mas, francamente nem é isso que é essencial.
O que é importante é que o BE tudo fez para precipitar a queda do PS, desde a sua pueril moção de censura do Carnaval, sem que tivesse estratégia sobre o que fazer com essa queda.
Há uma coisa que quem dirige o PS, o BE e o PCP não percebe. Os partidos estão distantes entre si em tudo, menos nos seus eleitorados, em que partes significativas já votaram em momentos diferentes nos três.
Nós os "políticos" podemos continuar a viver por muito tempo sem fazer a constatação do Rui Tavares. Ou sem ouvir, no BE, o realismo do Daniel Oliveira que percebeu (sem que eu concorde cm os adjectivos) que o papel do Bloco é ocupar um espaço amplo na esquerda, que não se revê nem na ortodoxia do PCP, nem na moleza do PS, mas que quer um Bloco disponível para soluções de poder. Ou, no PS, cedendo à tentação centrista da equidistância como se não fosse verdade, como disse em 2009, que o que estruturalmente divide o PS do BE e do PCP é a Europa e o princípio da realidade.
Julgo que a esquerda tem tudo a ganhar em clarificar tanto as suas diferenças como as suas convergências, nisso aprendendo com a direita. Foi isso que não conseguiu no ciclo político que agora termina, como em tempo disse Soares, autopsiando previamente (com dois anos de antecedência) a morte da maioria parlamentar de esquerda que se encaminhava para a derrota que teve agora, em 2011. Manuel Alegre, honra lhe seja feita, tentou inverter essa tendência num dado momento, fossem quais fossem as suas intenções. Mas já então foi o mesmo Luis Fazenda que agora nos pergunta quem é Daniel Oliveira que se encarregou de matar a conversa na casca.
Talvez o Daniel, que sabe muito mais do BE que eu, tenha razão quando diz que o problema não passa pelo coordenador. Eu só tenho a certeza que neste momento a solução também não. Quanto a quem é Daniel Oliveira, permitam-me que responda com amizade pelo Daniel, à pergunta de Luis Fazenda. É um homem de esquerda, um espírito livre, que quer ao mesmo tempo que haja à esquerda alternativas ao PS e ao PCP e uma cultura de poder para mudar Portugal em vez de bramir contra os que o mudam contra a nossa vontade. Não será do meu partido e eu não serei do dele, mas sabe distinguir o essencial do acessório. Quantos políticos, no PS, no PCP e no BE o saberão? Cada partido tem o Fazenda que merece e a pergunta estalinista típica de Fazenda ao Daniel, já eu a ouvi a outros no PS e no PCP é cultura oficial. Afinal quantas divisões tem o exército do Papa?
Os Fazendas dos três partidos conduzem-nos ciclicamente aos governos da AD e talvez até fiquem contentes. Os que neles votam mais tarde ou mais cedo vão perceber o logro.
26.5.11
Sair do Euro e nacionalizar a economia. Se a saída é essa, amiga, não vamos longe. Resposta a Mariana Mortágua.
Mariana Mortágua deu-se aotrabalho de responder à minha reflexão sobre o papel da evolução dos custos detrabalho nas opções políticas da esquerda e agradeço-lhe por isso. É certo que o título do seu texto, bem como o primeiro e o último parágrafos estão longe de ser cumprimentos, contributos para a discussão ou sequer elegantes mas não creio que isso deva evitar o confronto de visões sobre o caminho a seguir. Quem se interessar por esse tópico pode passar já para o post-scriptum e evita deixar-se contaminar por uma discussão de ideias. Eu julgo que o debate deve continuar.
A tese de Mariana Mortágua tem elementos de diagnóstico da situação com os quais concordo. Portugal entrou sobrevalorizado no Euro; há defeitos de configuração institucional no sistema do Euro; o preço da energia e a ineficiência do sistema de justiça prejudicam o país; os custos do financiamento pesam sobre as empresas.
A entrada sobrevalorizada doescudo no Euro foi uma das últimas prendas que a política económica do hoje Presidente Cavaco Silva deixou ao país. Os defeitos do sistema do Euro são óbvios. Os outros factores que enuncia derivam de obstáculos corporativos fortes a reformas institucionais – como na justiça – ou de escassa concorrência - como na energia – ou ainda são efeitos derivados da própria crise – como o custo do crédito. E podíamos acrescentar a desigualdade em Portugal e as distorções fiscais e ainda outros factores.
Mas diagnósticos identificam problemas, não os resolvem e é na terapêutica que nos dividimos. Mariana Mortágua acusa a Alemanha, que “espremeu” os trabalhadores, que gerou excedentes financeiros com que inundou de crédito os países periféricos (argumento contraditório com o preço do crédito), que exporta e isso tem como preço que os outros países não o podem fazer. Volta a ter razão. Mas, queixumes à parte, lamentos não pagam dívidas.
A verdade, tal como a vejo, é que enquanto a deriva neoliberal levava o mundo para o predomínio dos serviços, a Alemanha teve uma estratégia de manutenção de uma base industrial forte. Enquanto toda a gente caminhava alegremente para a liberalização do comércio mundial e para o alargamento da União Europeia sem antecipar as dificuldades competitivas que daí adviriam para a Europa, os alemães estavam precavidos, talvez pelo choque de absorverem a RDA, talvez por maior capacidade de antecipação, talvez por instinto conservador.
Mas os trabalhadores alemães não passaram por tudo isto distraídos, vencidos ou reconduzidos à miséria. Pelo contrário, conseguiram reequilibrar um modelo social que ainda há meia década parecia exaurido e sem qualquer futuro; conseguiram vencer, pelo menos por agora, o desemprego; conseguiram manter a sua indústria competitiva no mercado mundial sem empobrecer as classes médias, nem aprofundar as desigualdades, nem verdadeiramente se tornarem num país liberal. Boa parte das reformas que o permitiram, dolorosas, foram feitas pela coligação entre o SPD e os Verdes e resultam deenfrentamentos duros com os sindicatos. Provavelmente conduziram o SPD à oposição, deixando a direita colher os frutos de reformas que não empreenderia (como os sucessivos pacotes Hartz). Também é verdade que na condução das negociações os sindicatos alemães não forem muito internacionalistas, mas também não são os únicos a sofrer desse pecado.
Pensando nos alemães, pergunto-me como será possível Portugal atravessar um caminho de reformas que permita expandir a indústria e a produtividade, mudar a nossa base competitiva e sair da crise em que eles evitaram entrar? Creio que aqui Mariana Mortágua e eu voltamos a estar de acordo. Como, aliás, sublinhei no meu texto, é esse salto em frente na produtividade que nos podetirar da crise e a questão dos custos do trabalho é um elemento de curto prazo, de sustentação da reforma e, como julgo necessário, de um novo pacto social. Mas como daremos o salto necessário?
É aqui que divergimos profundamente. Mariana não avança explicitamente com o caminho que propõe, fica-se pelo lado negativo da dialéctica, como é conveniente a quem não sai da crítica. Mas cita um texto, aliás bastante interessante e fundamentado, que expõe as alternativas. Dizem os seus autores que há três saídas para os países periféricos: austeridade aompanhada de liberalização; reforma radical da zona Euro; saída radical da zona Euro.
Mariana implicitamente advoga a terceira saída (chamar-lhe terceira via provavelmente ofendê-la-ia). Mas se queremos discutir essa saída convém que vejamos como os autores com seriedade a descrevem:
Ou seja, saída do euro, entrada em crise, nacionalização massiva da economia, bloqueio no acesso ao crédito que dependeria da boa vontade de uma Europa hostil ao movimento e, no fim, aliança com os “espremidos” trabalhadores alemães. Soa familiar. Definitivamente, para os lados do Bloco caminha-se de novo de volta a 1975.
A minha proposta enquadra-se no segundo caminho que os inspiradores de Mariana Mortágua propõem. E ela não disse nada de substancial que me leve a reformulá-la, porque o quadro dela é outro. Eu nem acredito na súbita conversão da periferia europeia à nacionalização da economia nem na espontânea adesão do centro europeu à indignação do proletariado grego e português pelo que, explicitados os caminhos, a nossa discussão fica sem objecto
PS. Cara Mariana, agora vamos aos aspectos laterais do seu texto. Acusarem-me de falta de seriedade é uma coisa que me chateia. Tal como Pinheiro de Azevedo não gostava de ser cercado e contive-me muito para não enveredar pela sua linha de resposta. Nunca fiz parte dos que dizem que a crise se deve a que o povo andou a viver acima das suas possibilidades e em matéria de honestidade e decência no modo como se formulam as políticas, eu tive a coragem de propor um caminho, a Mariana remete para um que não teve a frontalidade de trazer para a boca de cena. Remeteu o quadro geral da sua alternativo para uma citação, como se estivesse apenas a citá-la para contestar um indicador. Em matéria de seriedade a Mariana esteve, nessa escolha, à altura de Frei Tomás.
19.4.11
Vá à Almedina: as esquerdas debatem-se.
Num país em que o debate de ideias escasseia, melhor do que queixarmo-nos, é seguir o que há. Estivera em em Lisboa e não faltaria.
14.2.11
A "doença infantil censória" da esquerda: O BE devia ouvir a Renovação Comunista
Agora João Semedo devia responder com clareza se está com a Renovação Comunista ou com o directório Louçã-Fazenda. A dita Renovação Comunista não podia ser mais clara na denúncia da "doença infantil censória" do BE. Escrevem eles:
Para os porta-estandarte da censura o que parece contar é a utopia de um pólo de contestação à esquerda que trabalhe para uma reversão do governo na quimera de uma forte aceleração do processo social em Portugal. Linha que os dispense de, no imediato, meter a mão nas dificílimas tarefas de tirar urgentemente o nosso País do declínio económico. Das duas uma, ou o poder vem parar às mãos de uma esquerda que não se compromete, ou então a esquerda faz uma espécie de greve às responsabilidades incontornáveis de reconstruir o espaço da esquerda para montar renovadas condições para a governação alternativa. Há certamente muito bluff nesta linha demonstrativa das moções de censura, mas o que há acima de tudo é uma perigosa recaída na doença infantil de censurar para tentar defender-se eleitoralmente. Sem compreender que, em última análise, a esquerda se fortalece ou enfraquece consoante seja capaz de mostrar de forma credível como tem uma política para governar Portugal, mesmo nas mais difíceis e impopulares condições. E a doença infantil vai ao ponto de permitir a imagem de inaceitável competição entre o BE e o PCP na disputa dos respectivos territórios de influência. A doença infantil censória da esquerda é muito perigosa porque pode fornecer todos os pretextos para separar o que começava a ser juntado e para dotar a direita socialista de mais fortes argumentos para hegemonizar o PS e as suas inclinações atávicas para entendimentos à direita.
Leia todo o texto da Renovação Comunista, aqui.
Para os porta-estandarte da censura o que parece contar é a utopia de um pólo de contestação à esquerda que trabalhe para uma reversão do governo na quimera de uma forte aceleração do processo social em Portugal. Linha que os dispense de, no imediato, meter a mão nas dificílimas tarefas de tirar urgentemente o nosso País do declínio económico. Das duas uma, ou o poder vem parar às mãos de uma esquerda que não se compromete, ou então a esquerda faz uma espécie de greve às responsabilidades incontornáveis de reconstruir o espaço da esquerda para montar renovadas condições para a governação alternativa. Há certamente muito bluff nesta linha demonstrativa das moções de censura, mas o que há acima de tudo é uma perigosa recaída na doença infantil de censurar para tentar defender-se eleitoralmente. Sem compreender que, em última análise, a esquerda se fortalece ou enfraquece consoante seja capaz de mostrar de forma credível como tem uma política para governar Portugal, mesmo nas mais difíceis e impopulares condições. E a doença infantil vai ao ponto de permitir a imagem de inaceitável competição entre o BE e o PCP na disputa dos respectivos territórios de influência. A doença infantil censória da esquerda é muito perigosa porque pode fornecer todos os pretextos para separar o que começava a ser juntado e para dotar a direita socialista de mais fortes argumentos para hegemonizar o PS e as suas inclinações atávicas para entendimentos à direita.
Leia todo o texto da Renovação Comunista, aqui.
6.2.11
Vitor Franco ainda não aprendeu a ouvir a Rádio Tirana.
A minha análise das presidenciais suscitou a Vitor Franco, no site "A Comuna," um comentário de que só agora me apercebi. Vale a pena ler, para não esquecer que o sectarismo persiste nos tribalismos identitários de alguma esquerda. Sectário que se preze transforma todas as derrotas, mesmo que conjuntas, em vitórias próprias, julga que os únicos debates bons são consigo próprio e acredita que toda a diferença é traição.
A análise de Vitor Franco fez-me lembrar um amigo ex-ml espanhol que diz que no franquismo, quando estava deprimido, ouvia a Rádio Tirana. Reconfortavam-no as noticias do levantamento de massas e da vitória iminente do proletariado no país, mesmo sabendo que nada se passava assim. Vitor Franco ainda não aprendeu a ouvir a Rádio Tirana.
A análise de Vitor Franco fez-me lembrar um amigo ex-ml espanhol que diz que no franquismo, quando estava deprimido, ouvia a Rádio Tirana. Reconfortavam-no as noticias do levantamento de massas e da vitória iminente do proletariado no país, mesmo sabendo que nada se passava assim. Vitor Franco ainda não aprendeu a ouvir a Rádio Tirana.
18.1.11
A agonia do trabalhismo israelita
O Partido Trabalhista de Israel perdeu o seu líder e um terço dos seus deputados que, decidiram continuar no Governo com o Likud e fazer uma nova força política. Pela primeira vez na sua história, os representantes israelitas do socialismo democrático e da social-democracia, ficaram reduzidos a menos de uma dezena de deputados no Knesset.
Muitas razões explicarão a decadência do Partido Trabalhista, desde as mudanças demográficas, com a imigração de Leste pouco sensível à esquerda, até ao declínio dos bastiões do Partido, como o sindicalismo e os Kibbutz. Mas seguramente a morte de Rabin foi também o princípio da morte dos Trabalhistas. O seu sucessor, Barak, proveniente das forças armadas, recém-entrado no partido, não fez a transição de falcão a pomba que Rabin conseguiu e os trabalhistas nunca mais encontraram o seu caminho. Ao ponto de até hoje fazerem parte da coligação liderada pelo Likud e integrada pela extrema-direita e aparecerem no espectro político à direita do Kadima, que passou de dissidência centrista do Likud a força posicionada - imagine-se - à esquerda do Labour.
Ou seja, a falta de um projecto para o diálogo com os palestinianos, a incapacidade de adaptar a base social-democrata às novas condições sociais do país e o oportunismo destruiram o Labour. Lembro-me de, muito jovem, numa altura em que a Internacional Socialista pressionava Shimon Peres, este ter perguntado se queriam um pequeno partido de valores ou um partido que disputasse o poder, dizendo ser irrealista o projecto de diálogo israelo-àrabe em que os partidos irmãos o queriam envolver. Peres, fiel a esse "pragmatismo" já não está no Partido Trabalhista, é membro do Kadima. Mas o dilema que ele colocava aos socialistas europeus pode bem ter ajudado a implodir o seu partido de então, agora reduzido a um pequeno partido e perdido no caminho a dar a si mesmo, quanto mais a Israel.
É certo que Israel é uma democracia única e nada pode ser dela extrapolado para outros contextos, mas há uma lição a aprender de tudo isto: a social-democracia, talvez ao contrário de outras forças políticas, precisa de projectos - realistas e claros - mas projectos, para continuar a ser uma força relevante.
Evidentemente, o caso israelita é extremo, o líder do partido coligou-se com um seu adversário para se manter no poder, precipitando a destruição do partido que liderava. Parece teoria da consipração, mas não é teoria, é conspiração de facto.
Mas este caso extremo reforça a necessidade de ver as forças políticas como entidades colectivas. Vamos ver como se refaz o campo do centro-esquerda israelita, mas há razões para pensar que demorará muito tempo a que algo so influência das ideias progressistas e social-democratas reganhe força no país, que tem vivido tão acentuado desvio para a direita que pode também perder uma das suas bandeiras mais importantes. Não é fácil ser uma demcoracia há cinco décadas em guerra, mas também não é imaginável que o problema se resolva abdicando de o ser. COntudo, há razões para estar pessimista. Como escreveu Daniel Levy na Foreign Policy, "the immediate and fundamental questions facing Israel's future will be (...) decided in a fight between competing versions of the Jabotinskyite tradition (Ze'ev Jabotinsky was the founder of Revisionist Zionism, the forerunner to the Likud Party). Jabotinsky was a territorial maximalist in his time and committed to the role of force and power in achieving the goals of Jewish nationalism. But he also was in many ways a pragmatic realist and actually a liberal when it came to equality for Arabs. Israel is facing a choice between a fascist mutation of Jabontinskyism and a liberal mutation of Jabotinskyism, and with Labor dead, it is a Likud family affair"
O artigo, que vale a pena ser lido na íntegra tem o triste título de "A requiem for Israel's Labor Party".
Muitas razões explicarão a decadência do Partido Trabalhista, desde as mudanças demográficas, com a imigração de Leste pouco sensível à esquerda, até ao declínio dos bastiões do Partido, como o sindicalismo e os Kibbutz. Mas seguramente a morte de Rabin foi também o princípio da morte dos Trabalhistas. O seu sucessor, Barak, proveniente das forças armadas, recém-entrado no partido, não fez a transição de falcão a pomba que Rabin conseguiu e os trabalhistas nunca mais encontraram o seu caminho. Ao ponto de até hoje fazerem parte da coligação liderada pelo Likud e integrada pela extrema-direita e aparecerem no espectro político à direita do Kadima, que passou de dissidência centrista do Likud a força posicionada - imagine-se - à esquerda do Labour.
Ou seja, a falta de um projecto para o diálogo com os palestinianos, a incapacidade de adaptar a base social-democrata às novas condições sociais do país e o oportunismo destruiram o Labour. Lembro-me de, muito jovem, numa altura em que a Internacional Socialista pressionava Shimon Peres, este ter perguntado se queriam um pequeno partido de valores ou um partido que disputasse o poder, dizendo ser irrealista o projecto de diálogo israelo-àrabe em que os partidos irmãos o queriam envolver. Peres, fiel a esse "pragmatismo" já não está no Partido Trabalhista, é membro do Kadima. Mas o dilema que ele colocava aos socialistas europeus pode bem ter ajudado a implodir o seu partido de então, agora reduzido a um pequeno partido e perdido no caminho a dar a si mesmo, quanto mais a Israel.
É certo que Israel é uma democracia única e nada pode ser dela extrapolado para outros contextos, mas há uma lição a aprender de tudo isto: a social-democracia, talvez ao contrário de outras forças políticas, precisa de projectos - realistas e claros - mas projectos, para continuar a ser uma força relevante.
Evidentemente, o caso israelita é extremo, o líder do partido coligou-se com um seu adversário para se manter no poder, precipitando a destruição do partido que liderava. Parece teoria da consipração, mas não é teoria, é conspiração de facto.
Mas este caso extremo reforça a necessidade de ver as forças políticas como entidades colectivas. Vamos ver como se refaz o campo do centro-esquerda israelita, mas há razões para pensar que demorará muito tempo a que algo so influência das ideias progressistas e social-democratas reganhe força no país, que tem vivido tão acentuado desvio para a direita que pode também perder uma das suas bandeiras mais importantes. Não é fácil ser uma demcoracia há cinco décadas em guerra, mas também não é imaginável que o problema se resolva abdicando de o ser. COntudo, há razões para estar pessimista. Como escreveu Daniel Levy na Foreign Policy, "the immediate and fundamental questions facing Israel's future will be (...) decided in a fight between competing versions of the Jabotinskyite tradition (Ze'ev Jabotinsky was the founder of Revisionist Zionism, the forerunner to the Likud Party). Jabotinsky was a territorial maximalist in his time and committed to the role of force and power in achieving the goals of Jewish nationalism. But he also was in many ways a pragmatic realist and actually a liberal when it came to equality for Arabs. Israel is facing a choice between a fascist mutation of Jabontinskyism and a liberal mutation of Jabotinskyism, and with Labor dead, it is a Likud family affair"
O artigo, que vale a pena ser lido na íntegra tem o triste título de "A requiem for Israel's Labor Party".
6.7.10
Giddens: new labour as such is dead.
"New Labour as such is dead, and it is surely time to abandon the term itself." Anthony Giddens faz uma excelente autópsia de um dos últimos grandes impulsos renovador da social-democracia europeia. É certo que em Portugal nunca teve boa imprensa e que esta morte não é alheia aos seus problemas congénitos, mas a estratégia que o Labour desenhou para chegar de novo ao poder continua a não encontrar muitas fórmulas vencedoras de sucesso que com ele rivalizem, à excepção da via escandinava que todos citam mas ninguém tentou seriamente seguir. E quem queira procurar as novas vias para a social-demcoracia europeia não pode simplesmente fechar os olhos e fazer de conta que a terceira via nunca existiu. Pelo contrário, foi um ente de sucesso e se tem muitas culpas no cartório, tem também alguns resultados para mostrar. Quem melhor que um dos seus mentores para fazer a sua autópsia? Lendo, verá que não teve medo de expôr as feridas nem se afastou do que sempre julgou serem as forças daquela via.
Na hora de pensar de novo o futuro da esquerda democrática como projecto político de poder, é mais importante ler os que têm a coragem de dizer o que pensam do que os que apanham sempre a última moda com a facilidade de quem muda de roupa em cada estação.
Na hora de pensar de novo o futuro da esquerda democrática como projecto político de poder, é mais importante ler os que têm a coragem de dizer o que pensam do que os que apanham sempre a última moda com a facilidade de quem muda de roupa em cada estação.
13.6.10
Holanda: o Rui Namorado esmiuçou os sufrágios.
O Rui Namorado esmiuçou os sufrágios e concluiu que "também na Holanda, a Internacional Socialista continua a murchar. E contra o que antes acontecera não foram os socialistas de esquerda que ganharam com isso: pelo contrário, recuaram ainda mais do que os trabalhistas. E os grandes beneficiários da derrota estrondosa dos democratas-cristãos foram os liberais conservadores e a extrema-direita." À atenção de todos os que, em Portugal e à esquerda, pensam que eventuais dificuldades futuras do PS são apenas uma oportunidade para o canibalizar.
29.4.10
O meu improvável encontro com a aventura deles
Ás 18 horas de quinta-feira, 29 de Abril, no auditório do CES no Picoas Plaza, Adelino Gomes apresenta um livro sobre o MES. Eu não poderia faltar ao lançamento deste livro. Porque os autores são meus amigos, porque contam uma história que merece ser contada e porque o fazem de um modo agradável sem a tentação que tantas vezes se vê nos relatos de quem viveu as coisas para "dourar a pílula" ou, no extremo oposto, para destilar ressentimentos.
Este é um livro que parte das memórias individuais para indagar o que já há de memória histórica de um dos mais curiosos fenómenos da extrema-esquerda portuguesa. Sabe-se muito sobre o que foi o futuro dos seus membros e, se falassemos, a linguagem de hoje, o MES foi um fraco partido mas uma forte marca.
Leia o que o Paulo Bárcia e o António Silva têm a dizer sobre a aventura deles. Como quiseram cruzar essa memória com o que a propósito do seu relato poderiam dizer amigos de gerações diferentes, convidaram o Embaixador José Fafe e convidaram-me também a mim para que escrevessemos sobre como respiraramos o ar do livro.
Para convidar os leitores a irem também ao lançamento do livro , não conseguiria dizer melhor do que aquilo que deixei dito no Prefácio. Por isso aqui o transcrevo como aperitivo à aventura deles:
Este prefácio embaraça-me mais do que qualquer outro dos que já escrevi. O livro é
sobre um período de que apenas tenho as reminiscências de infância e o conhecimento quea história já nos permite. O partido de que fala tornou-se num mito romântico entre muitos dos meus amigos, mas já tinha morrido de facto quando os conheci. Ainda tive um convite para o jantar de encerramento, a que teria sido absurdo ir mas me fez sentir uma espécie de irmão mais novo do grupo. Isto é, sobre o MES não há nada que eu possa dizer a mais do que o livro conta e deveria recusar o convite para escrever este prefácio.
Mas se não tivesse conhecido o António Silva e o Paulo Bárcia, os seus autores, eu não teria algumas das minhas melhores características e alguns dos meus defeitos seriam mais graves. Ser convidado por eles para escrever num livro seu é um privilégio irrecusável.
Acresce que, por causa dessa amizade, fui uma das pessoas que teve acesso ao emocionante texto de Paulo Bárcia, escrito em 2006, para a homenagem a um amigo que
teria feito 50 anos se um acidente estúpido o não tivesse roubado à vida e, por essa via, um dos que fizeram sentir aos autores que tinha chegado o momento de contarem a sua história para além dos serões entre amigos.
Na minha óptica, o momento era agora, porque os filhos de Abril merecem conhecer
as histórias da geração do PREC para além dos pequenos circuitos de filhos de militantes desta ou daquela facção. Mas era também agora por algo mais egoísta, porque me preocupa a perda na sociedade portuguesa da energia generosa que encontro neles e pensava que conhecer melhor a história da sua geração pode ajudar-nos a reencontrá-la.
Os meus amigos António Silva e Paulo Bárcia decidiram contar aos filhos de Abril a sua história e agradeço-lhes a coragem, porque falam de acontecimentos que ainda mexem na memória das pessoas, de gente que ainda anda por aí e nem toda gostará do seu lugar na fotografia ou das cores com que nele é pintada e porque o ponto onde eles se reuniram – o extinto MES – ambicionava um lugar no sistema político que penso que o PS deve incluir no seu, mas que não é evidente que o pretenda ou que, pretendendo-o, o vá conseguir manter.
As duas histórias deste livro, a dos jovens generosos e a do partido anticapitalista, são ambas ajudas para pensar o tempo que vivemos.
Foi isto que procurei que este texto reflectisse, para que convidasse à leitura do livro e à reflexão sobre o que esta história tem a ver connosco, trinta anos depois de ter acontecido.
Continue a ler aqui.
Este é um livro que parte das memórias individuais para indagar o que já há de memória histórica de um dos mais curiosos fenómenos da extrema-esquerda portuguesa. Sabe-se muito sobre o que foi o futuro dos seus membros e, se falassemos, a linguagem de hoje, o MES foi um fraco partido mas uma forte marca.
Leia o que o Paulo Bárcia e o António Silva têm a dizer sobre a aventura deles. Como quiseram cruzar essa memória com o que a propósito do seu relato poderiam dizer amigos de gerações diferentes, convidaram o Embaixador José Fafe e convidaram-me também a mim para que escrevessemos sobre como respiraramos o ar do livro.
Para convidar os leitores a irem também ao lançamento do livro , não conseguiria dizer melhor do que aquilo que deixei dito no Prefácio. Por isso aqui o transcrevo como aperitivo à aventura deles:
Este prefácio embaraça-me mais do que qualquer outro dos que já escrevi. O livro é
sobre um período de que apenas tenho as reminiscências de infância e o conhecimento quea história já nos permite. O partido de que fala tornou-se num mito romântico entre muitos dos meus amigos, mas já tinha morrido de facto quando os conheci. Ainda tive um convite para o jantar de encerramento, a que teria sido absurdo ir mas me fez sentir uma espécie de irmão mais novo do grupo. Isto é, sobre o MES não há nada que eu possa dizer a mais do que o livro conta e deveria recusar o convite para escrever este prefácio.
Mas se não tivesse conhecido o António Silva e o Paulo Bárcia, os seus autores, eu não teria algumas das minhas melhores características e alguns dos meus defeitos seriam mais graves. Ser convidado por eles para escrever num livro seu é um privilégio irrecusável.
Acresce que, por causa dessa amizade, fui uma das pessoas que teve acesso ao emocionante texto de Paulo Bárcia, escrito em 2006, para a homenagem a um amigo que
teria feito 50 anos se um acidente estúpido o não tivesse roubado à vida e, por essa via, um dos que fizeram sentir aos autores que tinha chegado o momento de contarem a sua história para além dos serões entre amigos.
Na minha óptica, o momento era agora, porque os filhos de Abril merecem conhecer
as histórias da geração do PREC para além dos pequenos circuitos de filhos de militantes desta ou daquela facção. Mas era também agora por algo mais egoísta, porque me preocupa a perda na sociedade portuguesa da energia generosa que encontro neles e pensava que conhecer melhor a história da sua geração pode ajudar-nos a reencontrá-la.
Os meus amigos António Silva e Paulo Bárcia decidiram contar aos filhos de Abril a sua história e agradeço-lhes a coragem, porque falam de acontecimentos que ainda mexem na memória das pessoas, de gente que ainda anda por aí e nem toda gostará do seu lugar na fotografia ou das cores com que nele é pintada e porque o ponto onde eles se reuniram – o extinto MES – ambicionava um lugar no sistema político que penso que o PS deve incluir no seu, mas que não é evidente que o pretenda ou que, pretendendo-o, o vá conseguir manter.
As duas histórias deste livro, a dos jovens generosos e a do partido anticapitalista, são ambas ajudas para pensar o tempo que vivemos.
Foi isto que procurei que este texto reflectisse, para que convidasse à leitura do livro e à reflexão sobre o que esta história tem a ver connosco, trinta anos depois de ter acontecido.
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