9.6.08

O voto nas autarquias regionais e a polarização eleitoral da Roménia


Este fim-de-semana foram publicados os resultados oficiais da primeira volta das eleições locais na Roménia, que decorreu a 1 de Junho..
A eleição dos Presidentes de Consilii Judetene (algo como Presidentes de autarquias supramunicipais) dá uma ideia da geografia política tendencial das forças maioritárias:

- o Partido Social Democrata (PSD, a vermelho no mapa), membro do Partido Socialista Europeu ganhou predominantemente no sul e no leste;
- o Partido Democrata Liberal (PDL, a azul), membro do Partido Popular Europeu, ganhou predominantemente no Norte e no Oeste;
- a União Democrata Magiar da Roménia (UDMR, partido da minoria húngara, a verde) - e, como ela, o Forum Democrático dos Alemães da Roménia (FDGR, a preto) - segue a importância demográfica da minoria nacional representada;
- o Partido Nacional Liberal (PNL, a amarelo), membro dos Democratas Liberais Europeus, ganha algumas maiorias esporádicas e dispersas pelo território.

Em suma, nas vésperas das próximas eleições legislativas do Outono – em que o país substituirá o sistema proporcional pelo sistema maioritário - continuou a verificar-se a existência de um sistema tetrapartidário, com duas forças alternativas predominantes (PSD e PDL) e dois fieis da balança alternativos: os liberais (PNL) e os democratas húngaros (UDMR). A quem julgar que a equação é, assim, simples e previsível, recorda-se que o PSD e o PDL, embora hoje colocados em famílias políticas europeias opostas, sairam ambos da FSN que tomou o poder em 1989.

7.6.08

A ler - sobre as desigualdades em Portugal

Portugal não participou na 2ª Guerra Mundial, mas as desigualdades sociais agravarm-se significativamente nesse período. Manteve-se em toda a segunda metade do século XX como um país com grande desigualdade de rendimento, mesmo se comparado com Espanha. Tornou-se mais igualitário com o 25 de Abril e a desigualdade voltou a crescer desde a primeira metade dos anos 80. Para lá da espuma da pequena política quotidiana, Facundo Alvaredo dá uma imagem da persistência histórica da desigualdade em Portugal e de como ela não tende a diminuir, antes pelo contrário. Alvaredo, Facundo, Top incomes and earnings in Portugal 1936-2004, Paris School of Economics, Working Paper nº 2008/17. Abstract: This paper analyzes income and earnings concentration in Portugal from a longrun perspective using personal income and wage tax statistics. Our results suggest that income concentration was much higher during the 1930s and early 1940s than it is today. Top income shares estimated from reported incomes deteriorated during the Second World War, even if Portugal did not take active participation in the conflict. However, the magnitude of the drop was less important than in other European countries. The level of concentration between 1950 and 1970 remained relatively high compared to countries such as Spain, France, UK or the United States. The decrease in income concentration, started very moderately at the end of the 1960s and which accelerated after the revolution of 1974, began to be reversed during the first half of the 1980s. During the last fifteen years top income shares have increased steadily. The rise in wage concentration contributed to this process in a significant way. The evidence since 1989 suggests that the level of marginal tax rate at the top has not been the primary determinant of the level of top reported incomes. Marginal rates have stayed constant in a context of growing top shares.

29.5.08

Carlos Minc, o pitbull e as armadilhas da imagem

O novo Ministro do Ambiente brasileiro é mais um bom conhecedor de Portugal. Passou por cá no PREC enquanto exilado político e fez bons amigos na esquerda a que se convencionou chamar extrema. Conversei com ele uma única vez, há unas anos,no Rio de Janeiro, porque lá tinha ido com um amigo seu dessa época. Da conversa para além das memórias que caracterizam todos os reencontros de amigos, guardo dois episódios. Carlos Minc fazia as suas campanhas eleitorais com dinheiro do seu próprio bolso e da sua família, com recursos extremamente limitados e achava que essa era uma limitação inultrapassável a que ideias como as suas se afirmassem na política nacional. Não lhe passava sequer pela cabeça dar esse salto. Mas, sintomatico mesmo da eficácia e astúcia mediática com que se fazia o combate político no país, foi a história que nos contou do que tinha acabado de acontecer-lhe num programa de TV. Á época Carlos Minc era um activista contra a liberdade com que se passeavam cães perigosos pelo Rio. Um tema fracturante e uma batalha que acabou por ganhar, com a lei que interdita a circulação desses cães na via pública a certas horas e regulamente o uso de mordaças . Nessa altura, foi convidado a ir ao programa de Jô Soares defender as suas posições. Jô, a velha raposa, deu-lhe todo o palco. Deixou-o expor quase sem contraditório todos os seus argumentos sobre a perigosidade desses animais e as suas características violentas e perigosas. Quando a entrevista estava a terminar, subitamente, um pitbull bébé entra em estúdio, salta para o colo do político e tem a performance enternecedora dos cachorros. Sem uma palavra, Jô arrasara toda a argumentação. Comparado com este profissionalismo, os grandes planos de Ferreira Leite são apenas tentativas desastradas de aprendizes de feiticeiro. Mesmo assim., Minc ganhou essa batalha e a sua lei passou. Agora vamos ver como se dá em Brasília. Andamos um pouco distraídos sobre a política brasileira, mas com a administração de Fernando Henrique Cardoso abriu-se um ciclo político no Brasil que conduziu à possibilidade de alguém como Lula poder ser Presidente e em que a defesa de políticas justas, corajosas e radicais se mistura com a gestão realista dos problemas com a qual quase toda a esquerda portuguesa - já que o PCP parece um caso perdido - podia bem aprender algo. Foto: Amisrael

Boas notícias: bombas de fragmentação banidas

Segundo os relatos, a Conferência de Dublin vaui aprovar um tratado banindo as bombas de fragmentação. Trata-se de um grande passo em frente, dado que estas bombas são particularmente letais para as populações civis, quer pela maneira como explodem (dispersando fragmentos por um raio alargado) quer porque as que não são detonadas e ficam no terreno, tal como acontece com as minas anti-pessoais, acabam por atingir, mais tarde, populações civis que buscam vidas normais. Mesmo sem que tenham participado na conferência os principais produtores e utilizadores destas bombas e(os EUA,a Rússia, a China, a India, o Paquistão e Israel), trata-se de um marco importante. Sob a égide das Nações Unidas, mais de uma centena de países apoia este tratado e o envolvimento do Reino Unido é da maior importância, até porque limitará a possibilidade do seu uso pelo aliado americano. O passo, significativo, está dado. É legítimo esperar que mais tarde ou mais cedo produza efeitos universais. Felizmente, foi assim com as minas. Oxalá a história se repita. (Foto: AFP)

27.5.08

Os derrotados em Sofia e a União Europeia

Apesar de a Bulgária ser a pátria de uma figura cimeira do internacionalismo proletário - Georg Dimitrov -, de muitos bulgaros o verem como um personagem importante e de lhe terem construído um mausoléu em apenas 6 dias, em 1949, quase nada restou dessa era no espaço público. Que me lembre, apenas uma ou duas estátuas irrelevantes e em locais secundarissimos. Em contrapartida, a diversidade religiosa que marcou secularmente a cidade sobreviveu ao século XX. Sofia, aliás, deve ser a única cidade da União Europeia na qual há uma mesquita em plena actividade em espaço nobre (a centenas de metros da Presidência da República e dos edifícios governamentais). No centro de Sofia, por outro lado, a mesquita coexiste com a sinagoga e as igrejas cristãs ortodoxas. Curioso, mesmo, é passar por ali numa tarde de sexta-feira. Uma parte dos crentes muçulmanos são eslavos e não turcos como o preconceito nos faria pensar. Bem perto, os descendentes dos judeus ibéricos que se acolheram à sombra protectora do sultão otomano vão à sinagoga expressamente desenhada para eles em traça mourisca no início do século XX. Mais longe, a grande catedral ortodoxa é neobizantina e foi construída em homenagem ao apoio russo à emancipação da Bulgária dos turcos. A Europa quando vista dos templos que persistem em Sofia e pisando a praça onde esteve o meusoléu arrasado, parece-me o carrefour dos que venceram o autoritarismo, aqui sob a forma de comunismo e não o espaço interior do cristianismo contrastante com o islão, como os teóricos das civilizações (seja na variante combate seja na variante diálogo) nos querem fazer crer. Deste ângulo, a Turquia só não pode ser Europa por não ser suficientemente democrática e não por ser "islâmica" ou pobre. Fotos (de cima para baixo): Mausoleu de Georg Dimitrov (construido em 1949, em 6 dias, arrasado em 1999), por C & M Bergfex. Catedral Alexandre Nevsky (construida entre 1904 e 1912), por Georg. Sinagoga (construída entre 1905 e 1909), por Ellen. Mesquita Banya Bashi (1576), por See.

25.5.08

A formação (militar) da Nova Europa

A empresa de sistemas de defesa Cubic Defense Applications fez saber que vendeu à Roménia e à Eslováquia material de formação militar idêntico ao que já tinha vendido à Hungria e que os seus produtos aumentam a operacionalidade militar na região por permitirem aos três países vizinhos treino millitar conjunto e entre eles e as forças americanas. Do ponto de vista militar, o Novo Continente continua a consolidar o alargamento da frente leste da Nova Europa. Um destes dias valerá a pena examinar, aliás, a redistribuição da presença militar americana na Europa depois do alargamento da NATO a Leste e das dificuldades levantadas pela Turquia à colaboração na invasão do Iraque. O guarda chuva americano, para o bem e para o mal "goes east".

Portugal? Fado

O fado é um dos símbolos nacionais mais vendáveis no estrangeiro. Não surpreende, pois, que esteja omnipresente nas iniciativas das nossas embaixadas: encanta os portugueses no exterior e atrai os nacionais dos diversos países. A Embaixada de Portugal na Roménia não é excepção. O ano passado trouxe jovens fadistas à Capital Europeia da Cultura, a Sibiu e agora volta a investir no fado para assinalar a semana portuguesa em Bucareste. Não pude ir ver o espectáculo mas não critico a iniciativa, bem pelo contrário. A minha experiência romena, trabalhando com equipas de diversos países, fez-me olhar de outro modo para a trilogia maldita que associamos à ditadura: Fado, Futebol e Fátima. A propósito, vem aí o jogo entre a selecção de Figo e a de um jogador romeno. Significados políticos internos à parte, os três efes são ainda a mais poderosa marca Portugal e bastar-lhe-ia juntarmos o vinho do Porto, o Algarve e a Madeira para dar conta da percepção imediata dos estrangeiros sobre nós. No que diz respeito ao fado, impressionou-me nestes últimos anos que ainda estivesse na memória dos romenos uma passagem de Amália Rodrigues pelo país a que muitos dos colegas na casa dos 50 anos aludem. É tão recorrente falarem dela como dos golos de Eusébio em 1966. Por acaso acabo de encontrar no youtube, videos desse concerto de Amália. Foi em 1969, ainda estávamos na ditadura e o PCP mudava de casa, de Bucareste para Praga. Ainda não tinha começado a "revolução cultural" que moldou o comunismo romeno que conhecemos. Não sei quem trouxe Amália, como a ditadura portuguesa reagiu à sua entronização num país comunista ou que discurso político a acompanhou no regime de Ceausescu, se é que o houve. Destaco desses vídeos a interpretação do barco negro. (não é possível fazer download). A história deste fado é também significativa de como as marcas se constroem. Esta "canção portuguesa"nasceu como uma toada brasileira sobre a escravatura escrita por dois sambistas, foi um êxito no Brasil nos anos 50, iniciou o percurso inverso da escravatura e foi gravada pelo Ouro Negro no início dos anos 60. A PIDE viu nela uma denúncia do colonialismo e não da escravatura e a música teve que mudar de letra: a sofrida toada da mãe escrava deu lugar às palavras fadistas da temente amante, num poema luminoso de Mourão-Ferreira. Mas, apesar de muitos dos seus admiradores o ignorarem, o fado "tipicamente português"também nasceu dos batuques dos escravos bantos trazidos para Lisboa e só se "casou" com a guitarra portuguesa séculos mais tarde, quando os ingleses a trouxeram, provavelmente para o Porto. .

Ideias de reforma da educação

Se as férias de Verão fossem mais curtas os resultados escolhares melhoravam e as razões pelas quais os resultdos escolares finlandeses são melhores que os ingleses incluem a focalização das escolas deste país no bem estar das crianças e o curriculo do período dos 5-7 anos incluir o desenvolvimento de actividades sociais. Veja aqui o video que apresenta as conclusões e aqui a entrevista com uma das autoras.

O representante do governo dos EUA não sabe quem ia nos voos militares americanos

Se não sabe pergunte, senhor Embaixador e depois dê-nos a resposta.