14.9.08

Resposta a João Delgado, homem de esquerda

João Delgado tem coluna no esquerda.net e não ouviu a minha entrevista à TSF. Isso não o impediu de a comentar com base em pequenos excertos que apareceram em vários media. Não foi o único e não surpreende, uma vez que devemos sempre saber que há quem se preocupe em ouvir antes de ajuizar e quem esteja permanentemente com o dedo no gatilho. No caso concreto e no que interessa, João Delgado, homem de esquerda, por não ter ouvido, não pôde comentar o que eu disse e penso sobre os pré-requisitos que seriam indispensáveis para se poder sequer pensar num governo plural de esquerda em Portugal, um governo que ao mesmo tempo que seja de esquerda tem quer ser governo da República: aceitação dos compromissos decorrentos da participação no Euro, empenhamento na construção da União Europeia e participação na NATO. Oxalá agora diga o que pensa sobre essas três questões em vez de se limitar a discorrer a ladaínha dos que acham que a única esquerda é a sua, estejam onde estiverem.

Censura por simpatia - as partes omitidas da entrevista de Sarah Pahlin à ABC

A candidata republicana a vice-presidente ainda não tem o discurso sintonizado com as posições oficiais da sua candidatura e diz coisas que são contrárias aos interesses presidencial. Acontece! Mas a censura por simpatia do ABC arredondou-lhe as arestas problemáticas e as dissonâncias desaparecem, como que por magia. Transcrevo para aqui o excerto em que a s partes fala de modo potencialmente embaraçoso sobre a sua inexperiência no contacto com chefes de Estado. Mas há mais, sobre diverstos temas de política intenracional, nomeadamente em relação à Rússia, à Ucrânia, ao Irão ou à natureza de "guerra santa" da invasão do Iraque. O texto sem cortes de "censura simpática" está disponível online no site de Mark Levin. Há muito que se sabe que a relação dos media com a política não é neutra, mas tenho as maiores dúvidas que chegar a este ponto, nomeadamente num momento em que os cidadãos formam o seu juízo sobre um potencial governante, demonstra como essa mediação pode ser manipulatória e, por essa via se podem fazer ou (no caso, evitar) desfazer imagens e reputações. (No texto transcrito as partes cortadas da entrevista estão assinaladas a bold e sublinhado.)

GIBSON: Have you ever met a foreign head of state?

PALIN: There in the state of Alaska, our international trade activities bring in many leaders of other countries.

GIBSON: And all governors deal with trade delegations.

PALIN: Right.

GIBSON: Who act at the behest of their governments.

PALIN: Right, right.

GIBSON: I’m talking about somebody who’s a head of state, who can negotiate for that country. Ever met one?

PALIN: I have not and I think if you go back in history and if you ask that question of many vice presidents, they may have the same answer that I just gave you. But, Charlie, again, we’ve got to remember what the desire is in this nation at this time. It is for no more politics as usual and somebody’s big, fat resume maybe that shows decades and decades in that Washington establishment, where, yes, they’ve had opportunities to meet heads of state … these last couple of weeks … it has been overwhelming to me that confirmation of the message that Americans are getting sick and tired of that self-dealing and kind of that closed door, good old boy network that has been the Washington elite.

13.9.08

Não deixem apagar a memória - o que se passa em Espanha

Só me apercebi do debate em Espanha sobre a execução da lei da memória histórica ao ler este excelente post de Daniel Melo. Sem revolução, a democracia espanhola continua o caminho de reencontro com a sua memória. Também lá, não deixem apagar a memória.
O apuramento dos factos históricos e a busca da verdade não pode nunca fazer temer um democrata, seja de direita ou de esquerda. Acaba por surpreender a virulência da posição da direita e o absurdo da recusa da Igreja Católica de abrir à investigação os registos paroquiais de mortes. Como pode haver dúvidas de que temos o direito de saber o que ainda for possível sobre as viítimas da Guerra Civil que continuam "desaparecidas"?

12.9.08

A liberdade é um começo improvável

O que em geral permanece intacto nas épocas de petrificação e de predestinada ruína é a própria faculdade de liberdade, a pura capacidade de começar que inspira e anima todas as actividades humanas e constitui a fonte oculta a partir da qual se produz tudo o que é belo e grande” (Hanna Arendt, “O que é a liberdade?” in Entre o Passado e o Passado e o Futuro, Lisboa, Relógio d’Água, 2006, p. 180)
Hanna Arendt reflectiu sobre a questão filosófica da liberdade num dos oito ensaios escritos nas décadas de cinquenta e sessenta do século XX e recolhidos em Entre o Passado e o Futuro. A sua tese pode resumir-se a que a liberdade é um começo improvável, uma iniciativa, uma acção não prevista numa cadeia de causalidade, interrompendo uma sequência prevista e frequente. Esta concepção da liberdade tem interessantes consequências no campo da acção política. O que é, afinal, uma pessoa livre? A liberdade, assim vista, não é um gesto interior, um debate entre mim e a minha consciência, mas uma acção exterior uma interferência na vida colectiva. Como escreve Arendt: “os homens são livres – o que é diferente de apenas possuirem aptidão para a liberdade – enquanto agem, nem antes nem depois; pois ser livre e agir são uma e a mesma coisa.” (p. 164) Não se é livre sem usar a faculdade de ser imprevisto. Arendt entende que este é um dos motivos pelos quais o cristianismo iniciou realmente a história da filosofia da liberdade, identificando os “milagres” do Novo Testamento como exemplos da capacidade para imprevistamente transformar uma sequência de acontecimentos esperada. Nesta dimensão, o cristianismo encerra uma mensagem libertadora - testemunha e apela ao exercício da liberdade. De algum modo a questão vem do Génesis, pois o homem é a primeira criação depois da criação (como notou Santo Agostinho): Deus criou-o depois de ter criado o mundo e o homem criou a condição humana por, improvavelmente, desobedecer. Essa desobediência foi a fundação política da liberdade humana: agir de modo imprevisto e ser responsabilizado pelas consequências da sua acção, em vez de obedecer de modo previsível e ser recompensado pela passividade. O que nos conduz à questão da relação entre liberdade, política e história. Arendt escreve que, vista as coisas de fora da acção humana, “ as probabilidades de que amanhã seja igual a ontem são muito elevadas” (p. 182). No entanto, na história os seres humanos fizeram acontecer as diferenças entre amanhã e ontem, contra a teoria das probabilidades. Porquê? Porque, tal como escreveu na frase final do ensaio, os homens constroem essa diferença sendo livres, uma vez que “por terem recebido a dupla dádiva da liberdade e da acção são capazes de estabelecer uma realidade própria só deles” (p. 182). Ou seja, a liberdade é o exercício da faculdade de interromper uma cadeia causal pré-determinada, de um ser humano realizar um improvável começo de algo novo. Do meu ponto de vista, assim formulada, a liberdade é a vitória do gesto humano sobre os determinismos, da acção sobre a tradição. Algo simples, mas que precisa muito de ser cultivado para que haja coragem de fazer acontecer ao longo das nossas vidas individuais.

10.9.08

Entrevista à TSF

Esta tarde a TSF difunde uma entrevista minha de que avança excertos em vídeo na TSF online. Talvez pudesse trazer para aqui o vídeo, mas não sei como. Assim, aqui fica o link.

9.9.08

O vento de Leste mudou

Depois da notícia de que os tigres bálticos estão em forte desaceleração económica, a leitura do Ziarul Financiar (o principal jornal económico romeno) de hoje, não deixa margem para dúvidas. O Presidente do Banco central em entrevista nega que a economia do país corra risco de hard landing, dada a combinação de falta de mão-de-obra, aumento dos custos de produção, da inflação e do défice comercial e responde a perguntas sobre se as agências de rating vão mudar o país de classificação no risco de crédito. Embora o título da entrevista seja o de que a economia romena pode continuar a crescer a 6% ao ano, o discurso passou a defensivo e a sustentar que a política fiscal pró-cíclica deve ser contrabalançada por "outro pedal", na política de crédito restritiva. Ao mesmo tempo, dá-se notícia de que o défice comercial cresceu 10% nos primeiros sete anos face ao período homólogo, que o preço do m2 de habitação usada caiu 4% em Agosto e que o City Mall (um dos maiores centros comerciais) viu o seu valor de mercado desvalorizado em 24% desde que foi comprado por um grupo australiano e vai reconverter áreas de lazer para escritórios. Por outro lado, o grupo IKEA anunciou que vai fechar a fábrica de mobiliário que tem no país. Enfim, o vento de Leste mudou.

8.9.08

Outras questões políticas em torno da Abcásia

As férias impediram-me de comentar em tempo devido a questão de fundo nas fronteiras do império russo. O Miguel , a propósito dela, levanta outra questão política e tem razão no essencial. Não sou um purista ou um defensor intransigente da norma, mas quem queira obedecer a um padrão de grafia deve encontrar ponto onde se ancorar e concordo que o conceito de serviço público nos meios de comunicação deve incluir esta pequena mas não irrelevante questão. Diz Miguel: "Cada vez que surgem notícias de áreas geográficas pouco usuais, os diversos meios noticiosos portugueses utilizam na nossa língua várias grafias, consoante o gosto de quem redige (e/ou revê?) a notícia. Este lamentável estado de coisas é devido à total incapacidade para definir regras sensatas e segui-las, que tanto prejudica a nossa vida pública em muitas áreas. Já nem falo na nossa débil, quase inexistente, política da língua. Falo, por exemplo, da presença do Estado em organismos como a Lusa, a RTP e a RDP. Se existem essas entidades públicas sob o pretexto da “defesa do interesse público”, há que perguntar se não deveria estar contemplada nos respectivos contratos a obrigação de zelar pela correcta grafia dos diversos nomes que vão surgindo na actualidade noticiosa." Se não está, podia e devia estar. Se está, devia e podia ser muito mais vísivel.

Virar de página

Volto hoje ao trabalho e ao blogue. Entretanto foi dado mais um passo na minha luta pelo direito à dignidade, à verdade e ao bom nome. A sentença do Tribunal Cível de Lisboa (disponível online no site da Associação Sindical dos Juízes Portugueses) dá mais um passo, decisivo, na reposição da verdade a propósito da calúnia que sobre mim foi lançada e das suas consequências. Infelizmente não encerra este capítulo negro da minha vida, pois falta ainda saber quem, como, porquê e com que intenção urdiu a difamação. Mas, isso não está nas minhas mãos. Fiz tudo o que estava ao meu alcance para que a verdade seja apurada. Os processos pendentes continuarão. Mas é tempo de virar de página.

17.8.08

Quinta da Fonte: cumprir a lei não é uma questão de hábito

A minha opinião sobre o que aconteceu na Quinta da Fonte provocou alguns incómodos. Insisto que se falha a percepção do que se passou se tentarmos seguir a pista das tensões interétnicas. Helena Matos localiza o problem na existência de pessoas que se habituaram a estar acima e para além da lei. . Imaginemos que tem razão. Como acontece que as pessoas ganhem esse hábito? Será que cumprir ou não a lei, no século XXI, é uma questão de hábitos e predisposições psicológicas ou culturais? Não é. Se deixarmos que grupos de cidadãos, de famílias, de pertença social vivam persistemente fora da vida comum, se desistirmos de ver essas pessoas como cidadãos, para o mal e para o bem, só ouviremos falar deles quando nos entram pela porta dentro. E será sempre da pior maneira. Quem pensa que tudo isto é só uma questão de polícia e de "hábitos", analise para onde foram os EUA, que seguiram essa via nas últimas quatro décadas. E, já agora, pense se a vida urbana de certos bairros tem níveis mínimos de sustentabilidade.

1.8.08