Mariana Mortágua deu-se aotrabalho de responder à minha reflexão sobre o papel da evolução dos custos detrabalho nas opções políticas da esquerda e agradeço-lhe por isso. É certo que o título do seu texto, bem como o primeiro e o último parágrafos estão longe de ser cumprimentos, contributos para a discussão ou sequer elegantes mas não creio que isso deva evitar o confronto de visões sobre o caminho a seguir. Quem se interessar por esse tópico pode passar já para o post-scriptum e evita deixar-se contaminar por uma discussão de ideias. Eu julgo que o debate deve continuar.
A tese de Mariana Mortágua tem elementos de diagnóstico da situação com os quais concordo. Portugal entrou sobrevalorizado no Euro; há defeitos de configuração institucional no sistema do Euro; o preço da energia e a ineficiência do sistema de justiça prejudicam o país; os custos do financiamento pesam sobre as empresas.
A entrada sobrevalorizada doescudo no Euro foi uma das últimas prendas que a política económica do hoje Presidente Cavaco Silva deixou ao país. Os defeitos do sistema do Euro são óbvios. Os outros factores que enuncia derivam de obstáculos corporativos fortes a reformas institucionais – como na justiça – ou de escassa concorrência - como na energia – ou ainda são efeitos derivados da própria crise – como o custo do crédito. E podíamos acrescentar a desigualdade em Portugal e as distorções fiscais e ainda outros factores.
Mas diagnósticos identificam problemas, não os resolvem e é na terapêutica que nos dividimos. Mariana Mortágua acusa a Alemanha, que “espremeu” os trabalhadores, que gerou excedentes financeiros com que inundou de crédito os países periféricos (argumento contraditório com o preço do crédito), que exporta e isso tem como preço que os outros países não o podem fazer. Volta a ter razão. Mas, queixumes à parte, lamentos não pagam dívidas.
A verdade, tal como a vejo, é que enquanto a deriva neoliberal levava o mundo para o predomínio dos serviços, a Alemanha teve uma estratégia de manutenção de uma base industrial forte. Enquanto toda a gente caminhava alegremente para a liberalização do comércio mundial e para o alargamento da União Europeia sem antecipar as dificuldades competitivas que daí adviriam para a Europa, os alemães estavam precavidos, talvez pelo choque de absorverem a RDA, talvez por maior capacidade de antecipação, talvez por instinto conservador.
Mas os trabalhadores alemães não passaram por tudo isto distraídos, vencidos ou reconduzidos à miséria. Pelo contrário, conseguiram reequilibrar um modelo social que ainda há meia década parecia exaurido e sem qualquer futuro; conseguiram vencer, pelo menos por agora, o desemprego; conseguiram manter a sua indústria competitiva no mercado mundial sem empobrecer as classes médias, nem aprofundar as desigualdades, nem verdadeiramente se tornarem num país liberal. Boa parte das reformas que o permitiram, dolorosas, foram feitas pela coligação entre o SPD e os Verdes e resultam deenfrentamentos duros com os sindicatos. Provavelmente conduziram o SPD à oposição, deixando a direita colher os frutos de reformas que não empreenderia (como os sucessivos pacotes Hartz). Também é verdade que na condução das negociações os sindicatos alemães não forem muito internacionalistas, mas também não são os únicos a sofrer desse pecado.
Pensando nos alemães, pergunto-me como será possível Portugal atravessar um caminho de reformas que permita expandir a indústria e a produtividade, mudar a nossa base competitiva e sair da crise em que eles evitaram entrar? Creio que aqui Mariana Mortágua e eu voltamos a estar de acordo. Como, aliás, sublinhei no meu texto, é esse salto em frente na produtividade que nos podetirar da crise e a questão dos custos do trabalho é um elemento de curto prazo, de sustentação da reforma e, como julgo necessário, de um novo pacto social. Mas como daremos o salto necessário?
É aqui que divergimos profundamente. Mariana não avança explicitamente com o caminho que propõe, fica-se pelo lado negativo da dialéctica, como é conveniente a quem não sai da crítica. Mas cita um texto, aliás bastante interessante e fundamentado, que expõe as alternativas. Dizem os seus autores que há três saídas para os países periféricos: austeridade aompanhada de liberalização; reforma radical da zona Euro; saída radical da zona Euro.
Mariana implicitamente advoga a terceira saída (chamar-lhe terceira via provavelmente ofendê-la-ia). Mas se queremos discutir essa saída convém que vejamos como os autores com seriedade a descrevem:
Ou seja, saída do euro, entrada em crise, nacionalização massiva da economia, bloqueio no acesso ao crédito que dependeria da boa vontade de uma Europa hostil ao movimento e, no fim, aliança com os “espremidos” trabalhadores alemães. Soa familiar. Definitivamente, para os lados do Bloco caminha-se de novo de volta a 1975.
A minha proposta enquadra-se no segundo caminho que os inspiradores de Mariana Mortágua propõem. E ela não disse nada de substancial que me leve a reformulá-la, porque o quadro dela é outro. Eu nem acredito na súbita conversão da periferia europeia à nacionalização da economia nem na espontânea adesão do centro europeu à indignação do proletariado grego e português pelo que, explicitados os caminhos, a nossa discussão fica sem objecto
PS. Cara Mariana, agora vamos aos aspectos laterais do seu texto. Acusarem-me de falta de seriedade é uma coisa que me chateia. Tal como Pinheiro de Azevedo não gostava de ser cercado e contive-me muito para não enveredar pela sua linha de resposta. Nunca fiz parte dos que dizem que a crise se deve a que o povo andou a viver acima das suas possibilidades e em matéria de honestidade e decência no modo como se formulam as políticas, eu tive a coragem de propor um caminho, a Mariana remete para um que não teve a frontalidade de trazer para a boca de cena. Remeteu o quadro geral da sua alternativo para uma citação, como se estivesse apenas a citá-la para contestar um indicador. Em matéria de seriedade a Mariana esteve, nessa escolha, à altura de Frei Tomás.