6.1.12

Um inquisidor em cada esquina?

Defendo que um político não tem que tornar publicas as suas opções sexuais. Não quero saber quantas hóstias um decisor deglutiu ao longo da vida e não me importa se jejua na Quaresma ou no Ramadão. Sou ateu, mas acho que tinha o direito de não o revelar se me apetecesse. Sou contra todos os rótulos que tenham a ver com a estigmatização de orientações sexuais, religiosas ou filosóficas. Talvez por isso não consiga perceber a histeria mediática que agora caiu sobre a maçonaria, com jornalistas que respeito a aplaudir a intolerância, a estigmatizar grupos a partir de indivíduos que eventualmente conheçam, a incitar à violação desse direito à privacidade. 
Se cristãos, maçons ou ateus, budistas ou islâmicos, acumulando ou não várias dessas condições, fizeram asneiras ou cometeram crimes, persigam-nos e julguem-nos. Mas deixem em paz as suas crenças privadas. São privadas sempre que delas não façam causas públicas. mais, não transformem redes sociais - por estranhos que pareçam os rebanhos - em crimes em pensamento. 
Não ponham, no séc. XXI, em cada esquina uma Inquisição. Essas histórias de culpabilizaçoes colectivas nunca começam bem e acabam sempre mal. 


 PS. Uma primeira versão deste texto referia também a orientação ideológica, o que obriga a uma reflexão diferente como me assinalou o Rui Cerdeira Branco. Daí a correcção.

Recomendação de amigo

Aproxima-se o fim de semana. 
Esta sexta termina o período festivo, com a celebração do dia dos reis ou dos Mestres do Oriente, como avisadamente refere o Verdadeiro Almanaque Borda D'Água de 2012, que, como sabeis, é bissexto. 
Findas as festas, para  ajudar a disfrutar de um fim de semana tranquilo, ouso fazer uma recomendação musical. 
Escolhi uma missa cantável do grande mestre Mozart, precisamente a 49. 
Optei por partilhar apenas a parte mais empolgante, chamada GLÓRIA, mas na loja do You Tube também se podem encontrar, outras partes da mesma obra, nomeadamente o KYRIE, mais suave e relaxante, mais aconselhável para quem fique à lareira a ler um bom livro. Para os menos familiarizados nas coisas da fé, o KYRIE (de origem grega) é parte integrante da missa cantada e no tempo da missa em latim foi entre nós popularizado na versão KYRIE ELEISON, que no actual rito romano foi substituído pelo equivalente traduzido, SENHOR TENDE PIEDADE (DE NÓS). 
Segundo a Wikipedia, no rito tridentino (antes da reforma de Paulo VI de 1969) o KYRIE vinha recitado depois do acto penitencial, enquanto que hoje, no rito ambrosiano, é ainda hoje recitado durante o acto penitencial e já no fim, mesmo antes da benção final, repetido três vezes. Contudo, em 2007, e com este elucidativo e esclarecedor detalhe termino, Bento XVI autorizou que nas missas privadas (sem povo) se use a liturgia tridantina. Excepcionalmente, pode ser usado nas paróquias, desde que assista apenas um número estável e fixo de fiéis (coetus fidelium).
Bom fim de semana e boas músicas.




 L(eitor) M(eu) C(onhecido)


 PS. Bom almoço, tertúlia do Pardal

3.1.12

Um capitalista como os outros

Alexandre Soares dos Santos é um capitalista como outros. Busca racionalmente maximizar os seus lucros dentro do que a lei lhe permite. A notícia da sua "passagem" fiscal para a Holanda não aumenta nem diminui o respeito que me merece. Não é o primeiro nem será o último a fazê-lo. Esta sua decisao é uma boa oportunidade para que António Barreto encomende agora um estudo sobre as razões e a lógica de desvinculação do grupo Pingo Doce - e de outros - em relação aos países em que emergiram. Era prova de independência do exigente think-tank português financiado por este grupo holandês de distribuição.

2.1.12

A cada um o Merkelismo a que tem direito

Em Almada há tão poucos lugares no pré-escolar público que as crianças não sao aceites antes dos 5 anos. Mas a Câmara Municipal vangloria-se de ter excedente orçamental. A cada um o Merkelismo a que tem direito.

"Tocar para ver"

Há tanta coisa por fazer na àrea do design inclusivo que uma notícia sobre uma investigação portuguesa na educação de crianças cegas ou com baixa visão não devia passar ao lado: "tocar para ver" é uma interessante ideia de uma linha de brinquedos para essas mesmas crianças. A ideia de Leonor Pereira, na Universidade do Minho, merece crédito.

31.12.11

para 2012, os ensinamentos de um poema recebido de um amigo de casa.

Não pronuncies palavras vãs. Aristóteles na hora derradeira como um mendigo entregou a sua alma.

Não desperdices a tua vida neste mundo. Quando já não lhe pertenceres os homens te dirão apenas que estás morto.

É essa a única verdade. Bebe como eu vinho puro pelo copo da eternidade.

(Khwaja Shamsu d-Din Muhammad Hafez-e Shirazi)

30.12.11

Agua deixou de ser potável? SMAS de Almada dizem que não têm meios para avisar a população

Há uma ruptura nos canos. A àgua potável torna-se imprópria para consumo. Os cidadãos notam O que dizem os SMAS de Almada (presididos por um vereador da CDU que deixou o porta-voz a falar)? Que não havia meios para avisar a população. Tanta candura desvela. E se houver ameaça à saúde pública? Com a sensibilidade da CDU/Almada não espantava que ficassem também à espera que a TSF desse a notícia. Palavras para quê? São quase 40 anos de poder sem alternância.

Sexo oposto?

Nunca me tinha apercebido que a aprovação do casamento entre pessoas do mesmo sexo tinha tido o efeito colateral de pôr o INE a chamar ao casamento entre pessoas de sexo diferente um casamento entre pessoas de sexo oposto. Oposto? Lá no INE não haverá um dicionário sugerindo que o antónimo de mesmo seja diferente? É só embirração minha ou era uma designação bastante mais apropriada?

22.12.11

O zénite do materialismo dialéctico norte-coreano


Portugal tem um governo de classe, com agenda anti-sindical

A revisão do memorando de entendimento com a troika anuncia o maior ataque à contratação colectiva de que há memória.
Entre Maio e Dezembro, no ponto que se refere à fixação de salários foram feitas umas "pequenas" modificações:

a) o Governo renuncia a fazer qualquer portaria de extensão de um contrato colectivo até estarem definidos critérios de representatividade dos signatários;
b)  onde se lia que a definição da representatividade seria feita com critérios quantitativos e qualitativos passou a ler-se apenas critérios quantitativos;
c) Onde se acometia ao INE a tarefa de recolher informação sobre a representatividade dos parceiros sociais passou a dar-se a responsabilidade ao Governo.


O que valem estas três pequenas mexidas? Quem tenha acompanhado o debate sobre a representatividade sindical e patronal sabe que esta é uma questão extremamente sensível e promotora de conflitualidade. Quem acompanhe a evolução da contratação colectiva sabe também que a cobertura dos trabalhadores por esta tem larga dependência das portarias de extensão e dos efeitos devastadores dos "vetos de gaveta" ministeriais.
Ao anunciar que não há portarias de extensão até estar fechado o processo de medição da representatividade estar fechado, o Governo acaba de anunciar uma drástica redução da contratação colectiva por tempo indefinido. Dificilmente este processo se fechará com algum consenso em meses. Mas o governo já fez saber que não tem intenção de o ver concluído em 2012, se esta notícia tiver fundamento.
Desde o 25 de Abril o ano de maior desprotecção dos trabalhadores pela contratação colectiva foi o de Bagão Félix, a seguir à aprovação do Código do Trabalho. Mas o que se promete para 2012 fará desse ano um paraíso do diálogo social nas empresas.
Não é difícil antever que o governo espera congelar os salários do sector privado por esta via e reforçar o já elevado poder unilateral do patronato nas relações de trabalho em Portugal. Mas há mais. Como vai pôr os sindicatos em estado de necessidade na negociação da questão da representatividade, reservou para si todas as condições para manipular o debate: retirou a responsabilidade pelo apoio técnico a essa medida ao INE, que seria a única instituição pública com independência e credibilidade para o fazer; retirou dos critérios qualquer medida qualitativa, indispensável para que fosse minimamente consensual. O Governo até pode nem querer manipular os resultados do dito estudo, mas quer certamente partir a espinha a qualquer convergência na acção entre a CGTP e a UGT, forçando-as a um confronto em matérias que as dividem há muito tempo enquanto impõe a sua agenda anti-sindical na legislação laboral.
Portugal precisa de fazer reformas e podia fazê-las em diálogo ou de modo autoritário. O Governo escolheu a via autoritária.
Aquilo que na Alemanha levou anos a fazer, com negociações e compromissos, promete-se por cá em meses. A desvalorização dos salários - que sabiamnos que ia acontecer - em vez de ser moderada (os leitores sabem que nem me oponho, como a generalidade da esquerda o faz, à meia hora de trabalho) será brutal, juntando a dita meia hora, a supressão de feriados, a redução de dias de férias, a redução das indemnizações por despedimento. E, cereja em cima do bolo, pelo ataque drástico à eficácia da contratação colectiva. Simplesmente os trabalhadores vão trabalhar mais e por menos dinheiro, nem sequer é pelo mesmo, dado que haverá congelamento nominal dos salários, a menos que, unilateralmente, os patrões decidam o contrário.

Como temia quem olhasse a partir da esquerda para o uso que o PSD faria do memorando com a troika, aí está no seu esplendor total o exercício de embrulhar algumas medidas necessárias numa agenda liberal e no caso anti-sindical. Mas como não vale a pena chorar sobre leite derramado, apenas se pode extrair daqui lições para o futuro mais ou menos imediato, que se me colocam sob a forma de duas perguntas:

1. Ainda há alguém de esquerda capaz de dizer que os Governos do PS, com todos os defeitos que tenham, são iguais aos do PSD?

2. Vão as centrais sindicais cair na mesma armadilha em que caíram os partidos de esquerda há um ano ou dar-lhes-ão, pelo contrário, uma lição de sentido de responsabilidade e de capacidade de distinguir o essencial do acessório, o urgente do que pode esperar?

Acredito que 2012 será o mais importante ano de clarificação política na sociedade portuguesa desde 1976. Ou os protagonistas perceberão o que está em causa ou desaparecerão também sobre os escombros da revolta inorgânica ou da anomia.
O optimismo antropológico é uma das razões que me faz ser de esquerda.  Aproxima-se um momento em que o silêncio é demissão e a convergência é submissão. 2012 não será o ano da separação do trigo do joio, mas o da separação das águas. E, no caso do PS, convém não esquecer que os Portugueses votaram pelas reformas e não pela contra-revolução liberal, na hora de saber com o que se deve transigir e do que se deve demarcar.