10.7.12

OS "unitários" e os "comunistas": episódios de uma guerra sobre autonomia sindical

Há uma séria divergência no espaço sindical comunista sobre a autonomia em relação ao seu Partido. Embora passe relativamente despercebida, em alguns sindicatos tornou-se no conflito central. É o caso do Sindicato dos Professores da Grande Lisboa. Daí que não seja surpreendente ao observador com alguma proximidade que Paulo Sucena, antigo Presidente do Sindicato escreva sobre as recentes eleições:


A Lista A, afecta à anterior Direcção, amplamente unitária, venceu as eleições para os diferentes órgãos do Sindicato com cerca de 1000 votos de diferença relativamente à Lista B, composta por independentes e filiados no PCP.


Bem pode Paulo Sucena lamentar a divisão e pudicamente não referir em público as raízes do conflito que lamenta na página da Renovação Comunista. Mas, a actual direcção do PCP não tem dúvidas de que toda a autonomia tem que ser combatida. Infelizmente para a CGTP, não abundam comunistas que sejam antes do mais sindicalistas, como acontece no SPGL.

9.7.12

Timor-Leste: Xanana ganha, Partido Democrático é o fiel da balança da governabilidade

Xanana - elegendo 30 deputados - ganha e fica bem posicionado para formar coligação maioritária, este parece ser o resultado das legislativas timorenses. A FRETILIN - com 25 deputados - ficou em segundo lugar e apenas mais dois partidos elegeram deputados: o Partido Democrático (8 deputados) e a Frente Mudança (2 deputados).
Xanana parece ter boas condições para formar uma coligação maioritária. Mas, como já aqui prevíramos, o Partido Democrático de La Sama e apoiado por Ramos Horta, é o fiel da balança. Formalmente, quer o CNRT quer a FRETILIN poderiam formar maioria absoluta, embora a desta última fosse só de um lugar.
Dos 21 partidos concorrentes, apenas estes 4 passaram a barreira dos 3%. Um quinto, o partido KHUNTO, ficou-se pelos 2,97% e perdeu por uma unha negra a hipótese de eleger dois deputados. Veja os resultados no blogue La'o Hamutuk

No Barómetro social: o desemprego veio para ficar. O que vai mudar?

O Barómetro Social da Faculdade de Letyras da Universidade do Porto pediu-me um contributo para a discussão sobre o desemprego. Eis o que acho:
Mais tarde ou mais cedo perceber-se-á que a crise do emprego implica uma crise das actuais políticas de emprego. Se a minha visão não estiver errada, o novo desemprego veio para ficar.
As instituições do mercado de trabalho que se cuidem ou não evitarão que os dinamismos sociais cuidem delas. Resta saber se haverá reformas antecipatórias e proactivas ou meramente reactivas e depois de tensões sociais de que tipo e intensidade. 


Pode ler o texto na íntegra, no site do Barómetro.

5.7.12

Não é o bosão e pode dar origem a piadas de mau gosto, mas é uma descoberta portuguesa

Uma equipa de investigadores da Universidade de Aveiro descobriu quatro novas espécies animais, para enriquecer o nosso conhecimento da biodiversidade, que reuniu na designação de Lumbrineris lusitânica.
Sim, o que agora mostrámos ao mundo são quatro novas espécies de vermes marinhos. O que se anda a descobrir entre nós não é o bosão de Higgs e pode até dar origem a piadas de mau gosto, mas é um avanço cientifico nosso.

PS. Obrigado aos que me chamaram a atenção para o - entretanto corrigido - erro ortográfico do "z" em bosão.

4.7.12

Também lhe pedem para pagar em cash nos consultórios médicos?

Carlos Medina Ribeiro, no Sorumbático, queixa-se de duas realidades desagradáveis em consultórios médicos. Uma delas é ter que pagar em cash. A que será devida essa fobia dos clínicos aos novos meios de pagamento?


Trunfo diplomático turco: 16 MNE, incluindo Portugal, defendem novo impulso no processo de adesão à UE

A 28 de Junho, poucos dias antes de começar o semestre da presidência cipriota, que a Turquia não reconhece, na sequência do conflito que divide a ilha, a diplomacia turca conseguiu um trunfo de alguma relevância sob a forma de um texto assinado por 16 Ministros dos Negócios estrangeiros da UE, incluindo Paulo Portas.
O texto foi publicado pelo jornal turco em língua inglesa Hürriyet Daily News. Como se lê no parágrafo final (clicando tem acesso ao texto na íntegra):

We represent countries that have not always shared the same view on how to realize Turkey’s European perspective. But we are united in seeing the accession process as a vital framework for cooperation and a powerful stimulus for reform. Injecting new momentum into the process will benefit both the EU and Turkey. That must be our ambition in the months ahead.

Os signatário são os MNE da Bulgária, Estónia, Finlândia, Alemanha, Hungria, Itália, Letónia, Lituânia, Polónia, Portugal, Roménia, Eslováquia, Espanha, Suécia e Reino Unido.     

3.7.12

Agenda. Tanto Mar, hoje, 18h30, na Bertrand Chiado.

Não estivesse eu do outro lado do que já foi o mare nostrum e lá estaria, na Bertrand do Chiado, a dar um abraço aos autores (e comprar o livro, já agora).

1.7.12

"Não crês no amor? Cala-te estupor": sobre a mística de certos casamentos

Não crês no amor?
?
Não ouves?
?
Não crês no amor?
Cala-te estupor.


 Passadas algumas décadas continuo a reter estes versos do POEMA DO AUTOCARRO (Um de quinze tostões. Campo de Ourique.) do António Gedeão por via da cantata em que o maestro César Batalha, com o Coro de Santo Amaro de Oeiras, reinterpretou soberbamente o tema. Julgo guardar algures ainda o respectivo vinil. Amor é uma palavra pouco comum no meu vocabulário. As palavras gastas e usadas por tudo e por nada sofrem profunda erosão e tornam-se ásperas, amargas, frutos do acaso. Sosseguem. Não vou teorizar (melhor: especular sobre o tema). Vem tudo isto a propósito de neste último dia de Junho, final do Semestre europeu, expressão a conquistar lugar no dicionário das (in)utilidades, realizaram-se dois casamentos, a larga distância um do outro, de pessoas do meu território afectivo que tiveram a particularidade de sair do quadro normal instituído.
Algures em Sintra, a Ana e o Nuno foram à igreja! Eu explico: já estão casados, têm uma filha a caminho de ir para a primária e a Ana entendeu que deveria ter um casamento católico. O Nuno aceitou na condição de só ela fazer os respectivos votos e, consequentemente, ficar desobrigado dos santos sacramentos da igreja. Não é fácil de explicar, mas de uma forma simples, a Ana casou sozinha pela igreja. Disseram-me que o padre tudo faria para que na cerimónia não fosse visível este desiderato. A esta hora não sei ainda como as coisas se passaram, mas desejo-lhes boa sorte. Eles merecem! 
Aqui em Tirgu Mures, na Transilvânia romena, cidade onde a população é metade hungara e a outra metade romena, realizou-se o casamento da Lavinia com quem trabalho, no âmbito de um projecto de transição escola vida activa, há cerca de ano e meio. Na última reunião de trabalho e de coordenação propôs que a próxima se realizasse a 2 de Julho, anunciando que se ia casar no sábado 30 de Junho e procedendo ao convite/exigência de marcarmos presença no acto. Mas não vais de lua de mel, retorquimos. Não, só vou depois, na segunda vamos trabalhar. E assim foi! 
O que tem de especial é o facto de a Lavinia casar pela igreja ortodoxa com um muçulmano da Jordânia e, tal como a Ana, na prática casar sozinha... com o Ahmed! Ao fim de dez horas de maratona casamenteira, eis o balanço. O casamento religioso realizou-se ao ar livre no jardim do hotel/restaurante Atlântico, tendo a mesa/altar sido instalada em cima da relva no meio das ameixoeiras, macieiras e cerejeiras. Só estas já não tinham fruto e as outras ainda estavam em processo de maturação. Belo local, excelente ambiente. Coloquei-me numa posição estratégica - debaixo de uma cerejeira, àquela hora, meio dia aqui, dez horas em Lisboa, os termómetros nos 30 - de modo a poder observar todos os passos essenciais do acto. De onde estava via de frente todos os passos. O padre, homem para 1, 90 metros e uma volumetria bastante para lá da centena de quilos, revelou-se patusco e bem disposto e respeitou todas as fases em que o Ahmed deveria ficar fora de cena: não jurou sobre a Bíblia, não foi confrontado com a necessidade de beijar os livros sagrados e o acto final envolvendo os padrinhos foi também ajustado à circunstância. Isso não impediu que na prédica final o padre não passasse algumas verdades, como o facto de o direito religioso como o direito civil romeno acautelar exclusivamente o casamento monogâmico. Depois produziu alguns ensinamentos sobre os deveres de obediência e de lealdade, os filhos... Tudo isto foi claramente perceptível porque o padre falava em romeno muito pausado porque como o Ahmed não sabe (suficiente) romeno a Lavinia ia traduzindo em inglês para ele as palavras do padre. No final o padre deu um abraço efusivo e beijou o noivo e a noiva e quando me aproximei para os cumprimentos da praxe, o pregador fez questão de me dizer em surdina que era um rapaz especial. 
O banquete marcado para as duas ainda continuava às dez da noite quando procedemos à retirada. Non stop. Comida, bebida, dança, música. Não muito diferente do que se passa nas nossas paragens. 
Momento marcante: O marido da Lavinia tem feições próximas do Sidney Poitier daí do tempo das Sementes de Violência, quando, como o Ahmed hoje, tinha menos de 30 anos. Quando o DJ pôs a rodar o tema principal da telenovela brasileira O Clone, passada entre o Brasil e Marrocos e que eu via na televisão romena em 2007, quando cá vivi, a Lavínia e o Ahmed tomaram de assalto a parte central do espaço de dança. Naquela fracção de segundos pude ver o brilho dos olhos, os gestos cúmplices, o deslizar das mãos, o agitar dos corpos, os lábios que se tocam. Uma e outras vezes. 


Ó música. 
Em tuas profundezas 
Depositamos nossos corações e almas. 
Tu nos ensinaste a ver com os ouvidos 
E a ouvir com os corações. (Gibran Kahlil Gibran) 


 LMC
( Das crónicas que envia aos amigos e eu respigo para o Banco) 

28.6.12

O Egipto pode estar nas vésperas de ser governado por uma direita democrata-islâmica

Middle East News Agency (MENA)/Handout/Reuters
Foto: Middle East News Agency (MENA)/Handout/Reuters in Time

Os sorrisos na foto, trocados entre os Bispos da Igreja Cristã Copta e o Presidente eleito, saído da Fraternidade Muçulmana, Mohamed Morsy, podem ser meramente de ocasião. Mas o facto de serem recebidos no Palácio Presidencial ainda antes da investidura do novo Presidente tem significado político. Os sinais de que a Fraternidade Muçulmana pode ter tido a evolução ideológica, a visão estratégica ou pelo menos a flexibilidade táctica para evoluir para uma força que ganha distância do islamismo sectário acumulam-se e são bons sinais. Não é impossível que no Egipto que se prepara haja uma grande direita democrática representada por um partido democrata-islâmico que se coloque no espectro político e nas relações com os valores sociais e as instituições como a democracia-cristã europeia se colocou no pós-II Guerra Mundial.
Essa evolução transformaria a Turquia actual de excepção em modelo seguido pelos países em que o seu modelo de direita democrática, representado pelo AKP,  se torne dominante. A Fraternidade Muçulmana parece querer ser o mais recente mas também mais forte aliado, pelo menos para já, desse modelo político.
Mas a chave do sucesso turco da corrente democrática-islâmica assenta muito no sucesso da política económica e aí, para já, o Egipto está numa situação muito diferente da Turquia, agravando as dificuldades de governabilidade do país.

Sabia que para receber o subsídio de desemprego é obrigado a revelar o estatuto laboral do seu cônjuge ou parceiro em união de facto?

De vez em quando deparamo-nos com umas pérolas legislativas que desafiam as ideologias. Por exemplo o que terá levado o PCP e Os Verdes a votar  a favor (e o BE a abster-se) num projecto-lei da iniciativa de CDS-PP que passou à história como a Lei nº 4/2010, na qual se diz no nº1 do artº 2º que "é obrigatória a actualização dos dados relativos à situação laboral do cônjuge ou equiparado por parte do requerente das prestações de desemprego"?
O CDS-PP tão avesso ao estatuto das uniões de facto, aqui não se importou de as reconhecer amplamente para criar uma obrigação aos desempregados. E o PCP e os Verdes deram uma de defensores da família como unidade básica da nação. Até podemos dar aos desempregados certos direitos relacionados com o seu estatuto familiar, mas o dever universal de declarar dados das suas uniões de facto e casamentos para receber o subsídio de desemprego a que ganhou direito pelo seu trabalho individual?