9.9.12

Li, gostei, passo.

Estará a crise a tornar-se social e a influir na alteração de padrões estáveis de comportamento? Fernanda Palma põe-nos a pensar que sim, a propósito de uma variação de 50% nos homicídios captados pelas estatísticas que, a confirmar-se como tendência, deveria tornar-se alvo de debate público.
Estarão as instituições que foram pilares da Europa Ocidental, como a Igreja Católica Apostólica Romana a perder o pé do espírito do tempo? Encontro-me entre os que acham que sim, mas sou "de fora". O Padre Anselmo Borges deixa no ar a ideia de que assim é e há quem o tenha tentado evitar, no seu artigo sobre o recentemente falecido Cardeal Carlo Martini que provavelmente discordou nas últimas décadas do poder do Vaticano em tudo o que é importante na relação da igreja com o corpo - o seu próprio corpo e os seus signos vestimentários como a moral sexual e as prescrições que a muitos crentes parecem tão anacrónicas e para não seguir como para os não crentes. Elegantemente, Anselmo Borges diz que o cardeal recusou a "obstinação terapêutica". Concordo e sou capaz de pensar numa palavra mais agressiva aos ouvidos da actual hierarquia do Vaticano para descrever esta sua última decisão corajosa. Poderia a Igreja hoje ser outra? A história não produz contraprova e segue.
Mas a história deixa vestígios, por vezes incómodos para quem esteve ligado aos perdedores. É o que se vê na revisitação de José Milhazes às suas notas sobre o KGB e o PCP, capazes de fazer as alegações de Zita Seabra sobre microfones e etc menos ridiculamente conspirativas do que surgem aos espíritos (ingénuos?) dos que pensam que não há um lado sombrio na relação do PCP com a segurança - a uma escala em que o real pode parecer hipérbole e em que até os eufemismos parecem exagerados à nossa falta de conhecimento.

Velocidade de ponta

Fonte: Coulisses de Bruxelles (leia também o artigo que o cartoon ilustra)

8.9.12

Iluminação em Almada: isto não pode ficar assim mais um ano.


Parece impossível ter que pedir mais iluminação pública para um concelho metropolitano, o grande braço esquerdo da capital, mas foi aquilo a que o brilho das mentes que tudo controlam em Almada nos conduziu. Diga-lhes que isto não pode ficar assim mais um ano. Assine a petição.

A educação de um povo/leituras: A Ana e a Mariana (sem esquecer a clássica Maria)


O LMC foi ver o que une e divide a Ana, a Mariana e a Maria.


Faltavam poucos minutos para as oito e meia da manhã desta quarta-feira 5 de Setembro. Saio do autocarro 728 e dirijo-me ao quiosque no Cais do Sodré em frente da entrada do Metro para comprar o Público. Ao meu lado, uma senhora de meia idade dirige-se ao casal de vendedores e pergunta se têm a ANA. Já não temos, responderam, só temos a MARIANA. A potencial compradora afastou-se, nem água vai nem água vem, como se tivesse sido vítima de uma heresia. REvista só há uma, a ANA e mais nenhuma!
Fiquei de orelha guiada e num quiosque para os lados do Campo Pequeno comprei a ANA, a MARIANA e, já agora, a clássica e histórica MARIA. Por junto 1,95€ porque o preço é uniforme: 0,65€. De imediato mergulhei no universo das revistas de bolso dirigidas sobretudo às mulheres. De resto, a ANA reivindica-se de mulher para mulher e a MARIA, mais do que uma revista a sua maior amiga. Não vislumbrei especial referência na MARIANA embora ostente na capa o símbolo 100% portuguesa. Remoque?


Alguns traços em comum:

1. Longevidade

Num panorama editorial caracterizado pelo aparecimento (muitas vezes efémero) e desaparecimento de publicações, as 3 revistas revelam capacidade resistente e exibem tiragens generosas.
A MARIA já vai no nº 1765 e reclama uma tiragem média de 242 750 exemplares por edição. Contas de merceeiro, na média de 50 edições ano, a MARIA já se publica há mais de 35 anos e em cada ano venderá mais de 10 milhões de exemplares!
A ANA vai no nº 797, indica tiragem média de 58 500 exemplares por edição. Pelas mesmas contas, já sobrevive há cerca de 16 anos.
A MARIANA é mais recente, vai no nº 489, indica uma tiragem média de 50 000 exemplares, devendo andar perto de celebrar 10 anos de vida se, em qualquer dos casos, nenhuma das publicações sofreu interrupção editorial.

2. O seu a seu dono

A MARIA e a ANA pertencem ao universo IMPALA/Jacques Rodrigues. A MARIANA pertence à PRESSPEOPLE, grupo que tem uma linha editorial centrada na culinária com particular enfoque na saudável e vegetariana, para além de uma linha de publicações em torno dos astros, salmos e orações poderosas.
Para quem como eu tem um pós-doc em vida social, tirado na prestigiosa universidade de Marbella, dei conta agora que o grupo IMPALA tem 4 publicações, dirigidas (particularmente) a mulheres das classes D (MARIA), C (ANA), B (NOVA GENTE) e A (VIP). Curiosamente o tamanho é também crescente sendo a MARIA a minorca e a VIP a que tem uma superfície mais ampla.
A MARIANA, suponho que corresponde a um trocadilho ou provocação no ataque ao domínio IMPALA (MARIA¨+ANA), tem um tamanho intermédio, maior que a MARIA, mais pequena que a ANA.

3. Temáticas

Vai tudo bater no mesmo. As 3 revistas dedicam o essencial da primeira página à telenovela da SIC, Dancing Days, que está a contribuir para que a televisão do Balsemão esteja a bater a TVI na prime time. As revistas cavalgam a onda do fenómeno ou inserem-se numa estratégia mais global, companheiras úteis, da ofensiva do canal de Carnaxide?
As telenovelas, os últimos acontecimentos acontecidos e vindouros dos próximos episódios consomem a parte de leão de todas elas.

MARIANA: Duarte rejeita Júlia
MARIA: Mariana conhece o pai e descobre que tem um irmão... mas é rejeitada
ANA: Traição entre irmãs/Raquel rouba namorado a Júlia

Três manchetes todas relativas a Dancing Days.

Sexo: muito e diversificado, com chamadas na primeira página:
ANA: Sexo/Descubra se está a ser traída
MARIA: Teste/Fantasias sexuais por revelar?

Talvez porque anda a vender a colecção CRUZES DO MUNDO (2 colares com +2,95€), a MARIANA é mais parca, chamando à primeira página as declarações da actriz Ana Guiomar que garante não gosto de me ver com implantes.
Para lá das traições, a ANA dedica 2 páginas a 22 lições sobre jogos libidinosos em que é proibido usar mãos e a MARIA desenvolve os 6 mitos comuns sobre os homens. 
A MARIA tem ainda um correio íntimo para ela (tenho vergonha do que ele me pede) e para ele (como fazê-la adorar sexo?) e a ANA publica um conto erótico.
Culinária, receitas, cuidados de beleza, roupas, regresso à escola/filhos, horóscopo, fofoquices de "famosos" nacionais e lá de fora, cenas insólitas (MARIANA: noiva cai ao rio durante as fotos do casamento) são questões transversais nos conteúdos de todas.

4. Publicidade

A contracapa das 3 revistas é de empresas de crédito rápido. As duas da IMPALA, Cofidis. A MARIANA, Cetelem, mas o verso da primeira página é da Cofidis e a Cetelem tem uma página impar na Maria.
Cremes, tratamentos, plataformas vibratórias, soluções para a calvície, astrólogos e videntes, turismo alimentam publicitariamente as 3 revistas.


Eis sinteticamente a minha peregrinação por 3 publicações do nosso panorama editorial que fabricam 20 milhões de cópias por ano correspondendo a 6 mil milhões de páginas impressas, se dermos como bons os números apresentados nas tiragens.
Já parecem os números do deficit, mas, pelas aparências, a crise não está a passar (muito) por aqui...

Boas leituras.

LMC 

7.9.12

"Redobrar a vontade e a ambição": é tempo de deixar Passos Coelho sozinho na sua fuga em frente

Li e reli o discurso do Primeiro-Ministro para concluir que hoje ele atirou pela porta fora dois equilíbrios históricos da sociedade portuguesa. Desobrigou o PS do dever de convergência com o Programa de Assistência Económica e Financeira, lançando-se na aventura de gerir o maior ajustamento da história recente sem acautelar um apoio alargado, ainda que pela passividade e discrição, de todo o espectro do consenso europeu em Portugal. Rompeu o pacto social inerente ao nosso sistema de segurança social, desequilibrando o esforço contributivo entre patrões e empregados. O financiamento dois terços-um terço não é uma originalidade portuguesa, mas a característica predominante do modelo de segurança social a que pertencemos. Nos 45 países europeus cobertos pelo relatório sobre a segurança social na Europa, os trabalhadores portugueses passarão a ser os 5ºs com maior esforço contributivo (agora eram os 17ºs) e os empregadores o 25ºs (agora eram os 16ºs). Para quem invoca a distribuição equitativa de esforços não deixa de ser significativo.

Encontrei no texto oito razões para dizer a Passos Coelho que rompeu irreversivelmente com quaisquer convergências possíveis na gestão de uma crise que era ameaçadora e se torna, pela sua mão, avassaladora.


1. O que nos foi dito resulta de uma opção tomada pelo Governo na 5ª revisão do Memorando de Entendimento com a troika, desligada dos compromissos originais (e já longínquos) e, a fazer fé na declaração do PS, não tendo em conta a posição da maior força da oposição, ao contrário do que aconteceu com o Memorando original. Portanto, o Governo quebrou o elo umbilical que ligava o PS ao PSD e ao CDS em matéria de Programa de Assistência Económica e Financeira.

2. O Governo tem um erro de base no entendimento do que se está a passar na economia portuguesa. Regozija-se com a rapidez da redução do défice externo ignorando a fragilidade dessa redução baseada na contracção da procura interna, que desaparecerá logo que a procura interna se expanda de novo, a menos que o abaixamento do nível de vida dos portugueses se torne estrutural. Mais, menospreza e silencia o risco externo que representa a evolução previsivelmente engativa do nosso segundo maior parceiro comercial, a Espanha.

3. Passos Coelho reincide no erro de pensar que a nossa relação com os mercados financeiros é um problema de prestígio e honra. Pelo contrário, ela deriva de sermos um dos elos objectivamente mais fracos de uma arquitectura institucional errada do Euro. Esse elo será enfraquecido pelas medidas erradas europeias e reforçado pelas medidas correctas. O problema português, como o espanhol, não foi o de um "regabofe orçamental", mas o de absorção desequilibrada de uma liquidez excessiva gerada, entre outros, na Alemanha, que desencadeou uma bolha de crédito fácil, aliás mais privada que pública, que em Portugal se reflectiu num comportamento irresponsável da banca comercial, que é sistematicamente omitido na identificação das causas da crise portuguesa. Mas na componente subjectiva que a crise portuguesa tenha, Passos Coelho atirou no último ano pela borda fora um dos grandes factores que diferenciava Portugal de Espanha e da Grécia: a convergência entre Governo e oposição, que só pode ter acabado hoje. Depois do comunicado de hoje o PS só pode estar contra o Orçamento de Estado, sob pena de se tornar risível a dureza das palavras por si ditas.

4. A declaração pode ter sido precipitada para não dar espaço a que sejam digeridas todas as consequências da nova orientação do BCE. Passos Coelho reconhece que os desenvolvimentos "facilitam o nosso processo de ajustamento" e apressa-se a cortar cerce qualquer estratégia que os aproveite para mudar ou sequer flexibilizar o rumo que tem seguido. Pela primeira vez desde que é Primeiro-Ministro é confrontado com uma iniciativa europeia hostil à sua estratégia maximalista de austeridade sem compensações e o BCE pode bem ter-lhe introduzido o constrangimento inesperado de não poder mais invocar que tem consigo o pensamento comunitário hegemónico. Sem o PS a seu lado e em perda nas instituições europeias (até Durão Barroso já fala da defesa do Estado social dos "países resgatados"), o governo português iniciou, inesperadamente para si, o caminho para a solidão e intui que o ano pré-eleitoral alemão pode ter mais incertezas do que as que antecipavam os colóquios de Gaspar com Schauble.

5. O Tribunal Constitucional é invocado de uma forma perigosa e irresponsável. Por um lado é desafiado, ao manter-se parcialmente o corte de subsídios a pensionistas e funcionários públicos sem ser introduzido  tal corte no sector privado. Argumentar-se-á que se produz efeito equivalente, mas a argumentação está longe de óbvia e fácil. Por outro lado, o Tribunal é apontado a dedo à sociedade como sendo o culpado pela redistribuição de sacrifícios entre trabalhadores por conta de outrém, numa retórica que o torna culpado pela perda de rendimento da generalidade das famílias e que é de uma lealdade institucional pelo menos questionável. Deverá haver cadeiras algo agitadas no Palácio Ratton.

6. A pretexto da redistribuição de sacrifícios, o governo aumenta a taxa social única, em esforço global (mais 1,25%) e em esforço para os trabalhadores (mais 7%), enquanto a diminui significativamente para os empregadores. Aos trabalhadores do sector privado reduz em 7% o salário. Aos do sector público tira com a mão da contribuição o que devolve parcialmente com a do salário. Ou seja, baixa efectivamente os salários no valor da inflação e ainda no que resultar do ajustamento dos escalões de IRS, não anunciado hoje. Aos patrões baixa os custos salariais. Mas esta redução tem implícita uma curiosa engenharia financeira para o Estado: aumenta as receitas públicas (aumenta a taxa social única) e diminui as despesas por diminuir as contribuições do grande patrão português que se chama Estado. Ou seja, há mais recursos dos trabalhadores, menos dos empresários e do Estado no financiamento da segurança social pública. Habilidosa, esta redução de despesa que dificilmente poderíamos fazer caber no conceito de "gordura" do Estado.

7. Em vez de seguir a via de garantir os níveis de rendimentos dos portugueses, impõe a ideia de que as famílias serão "aliviadas" pela redução de preços que derivará da redução de custos para as empresas. Pura ilusão, a menos que se acredite que Portugal vai entrar em deflação, o que agravaria ainda a espiral recessiva. Algo aqui faz lembrar as velhas estratégias de congelamento de preços e de preços tabelados tão iliberal e tão funesta para o desenvolvimento nos "bons velhos tempos" do proteccionismo português.

8. Tapando o sol com a peneira, o Governo apenas deixa por definir uma medida, que tem, em abstracto, potencial socialmente positivo. Anuncia algo que parece uma taxa negativa de imposto, mas deixa-o para a concertação social. Nas medidas hardcore de diálogo social em qualquer sítio do mundo, como o esforço contributivo, avança sem consulta nem diálogo, sózinho. Neste aspecto abre a porta a uma negociação em que não há grande coisa para os parceiros negociarem entre si, na medida em que deriva essencialmente da vontade do Estado em gastar mais ou menos. Veremos se e que parceiros sociais mordem o isco.

Em síntese, o Governo hoje rompeu dois pontos essenciais de equilíbrio político. Atirou fora a convergência sobre o ajustamento financeiro com o PS, desobrigando-o de qualquer dever de cooperação com quem não o tem em conta. Tão ou mais importante, rompeu um equilíbrio entre empregadores e trabalhadores no financiamento da segurança social que vem de muito longe. Em vez de menos de um terço do esforço contributivo para a segurança social, os trabalhadores passam a fazer metade. Que mais será preciso para dizer preto no branco que estas medidas não são tomadas em nosso nome?



Fintar Schengen. As pessoas comuns riem-se de como a Europa trata os assuntos sérios que gere em comum

Os dinheiros europeus financiam num país extra-comunitário uma viagem a um país do espaço Schengen para ajudar a transferência de know-how europeu para esse país. A delegação oficial, constituída por funcionários públicos, é dispensada de visto de entrada, mas tem que ser acompanhada por um elemento do staff, nacional desse país e sem direito a privilégios.
Começa a saga Schengen. São necessários múltiplos documentos, provas de depósitos bancários, etc., etc. Diligente, a embaixada do país Schengen em causa apenas concede visto após uma entrevista. Eu, que ando a espalhar as virtudes da Europa fico preocupado com os problemas que isso pode causar ao sucesso da iniciativa. Mas, no meu staff de apoio estão todos relaxados. Não levam esse país a sério. Simplesmente, mandam a pessoa em causa ir à embaixada de outro país-Schengen. Levou a papelada, não precisou de marcar dia nem entrevista. Gastou uma manhã e voltou com o visto que lhe permitirá circular por todo o espaço Schengen. Riu-se da burocracia arrogante do Estado-membro que se fez difícil e perguntou-me se  os Europeus tratam sempre assim os assuntos sérios que gerem em comum.

A Europa mudou ontem, em Frankfurt? Passos Coelho que não se aggiorne e vai ver

Ontem David Dinis recordou na sua página de Facebook um debate entre Passos Coelho e António José Seguro no qual o actual líder do Primeiro-Ministro disse estar contra a lógica da intervenção que agora assume o Banco Central Europeu e que o líder do PS defendia. Na verdade, a decisão do BCE - que os mercados estão a aplaudir - é tardia, é insuficiente, mas é contra o Bundesbank e, finalmente, é um passo no caminho oposto ao do austeritativismo despido de quaisquer precauções e redes de protecção a países frágeis a que a direita europeia nos tinha vindo a condenar desde o dia em que, como dizia José Sócrates, o mundo mudou.
A viragem de Frankfurt pode ter muitos efeitos positivos. Mas tem também um efeito imediato que faz dela uma viragem no debate político português. Pela primeira vez desde o início da crise do euro temos uma medida europeia sintonizada com a estratégia de António José Seguro e do PS e que remete Passos Coelho para a oposição às decisões do mainstream europeu.
A Europa não virou à esquerda, mas se o nosso Primeiro-Ministro continua tão colado a Merkel ainda se arrisca a perder as graças do BCE, da Comissão europeia e, em Setembro de 2013, do novo governo alemão. Wishful thinking? Veremos.

Talvez a penitência ajude

No navegar à bolina descrevem-se seriamente os efeitos do sacramento da penitência. Consegui encontrar um bom par de razões para a recomendar aos membros católicos do governo.

6.9.12

Blasfémias: quem diz "modelo social" leva

Basta alguém dizer  "modelo social" sem ser no contexto da proposta da sua destruição que os blasfemos desatam logo ao soco. Nem Durão Barroso lhes escapa. Alergia tão à flor da pele nunca é sinal de pensamento profundo.