O Governo parece incapaz de procurar uma plataforma que lhe permita sobreviver à tempestade que desencadeou no Verão, antes prosseguindo a rota de colisão com tudo o que Portugal construiu desde a Constituição de 1976. Mas tarde ou mais cedo, essa rota levará à inevitável acção do Presidente da República, impulsionado ou não por um gesto próprio de Paulo Portas.
A sucessão próxima de acontecimentos é particularmente propícia à necessidade de clarificação do rumo do país. Vamos saber em quanto ficou mesmo o défice de 2013 e será apresentado o plano de cortes de 4 mil milhões de euros na despesa pública ao mesmo tempo que os portugueses se estarão a aperceber da dimensão real da contracção dos seus rendimentos por força do OE 2013. Ainda no primeiro trimestre teremos a solicitação de medidas adicionais por parte da troika (mais 2000 milhões de cortes?), talvez em conjunto com a declaração de inconstitucionalidade de algumas normas do OE, com ou sem nova moratória na produção de efeitos.
É, pois, tempo de começar a discutir quando haverá eleições antecipadas e não se elas ocorrerão. Ao contrário da posição tradicional do partido a que pertenço, acho que se deve ponderar seriamente a possibilidade de pedir aos portugueses que decidam em simultâneo sobre poder autárquico e legislativo.
Embora esteja consciente de que há fortes argumentos contra esta ideia, parece-me melhor alternativa que o governo transitório de tecnocratas e menos desligitimadora politicamente que fazer dois actos eleitorais separados por três meses de diferença num ano de crise económica profunda. Como se sabe, é frequente em política ter que escolher o menor dos males.
16.1.13
11.1.13
Casa comum lusófona. Vá pelos seus dedos e explore este novo arquivo.
A casa comum da língua portuguesa, que já estava online, está agora mesmo a ser apresentada na Fundação Mário Soares, que dinamiza o novo arquivo.
Seguindo um conselho pedido emprestado à publicidade, vá pelos seus dedos, explore este acervo de memórias contemporâneas da lusofonia.
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8.1.13
Mudar de vida na luta contra a droga. Portugal como exemplo.
O proibicionismo que comanda a estratégia mundial de combate à droga não é economica nem socialmente eficaz. A via portuguesa, de despenalização do consumo, que começou por ser vista com desconfiança, tem novos seguidores e pode iluminar uma viragem estratégica. Quem o diz não sou eu, é Gary Becker, Prémio Nobel da Economia, neste artigo que co-assinou no Wall Street Journal.
4.1.13
A última aparição de Jimi Hendrix na BBC.
A 4 de Janeiro de 1969, Jimi Hendrix deveria ter feito um dueto no programa Happening for Lulu da BBC com a apresentadora, a Lulu que era então também a senhora Robert Gibbs e decidiu praticar resistência musical.
No momento do guião em que a apresentadora introduzia o tema da banda em que o dueto deveria ocorrer ("Hey Joe") ouviu-se - aos 4'45'' do vídeo - um feedback que muitos julgam ter sido intencional. Depois, a banda começou a tocar o tema mas, antes da partenaire entrar em palco, Jimi diz ao microfone que o grupo quer parar de "tocar aquele lixo" e dedicar um tema aos Cream; o grupo começa a tocar uma versão instrumental de "Sunshine of your love" e tocou, tocou, tocou... até acabar o tempo, com o produtor aos gritos. Dizem que isso lhe valeu ser banido da BBC, há 44 anos.
No momento do guião em que a apresentadora introduzia o tema da banda em que o dueto deveria ocorrer ("Hey Joe") ouviu-se - aos 4'45'' do vídeo - um feedback que muitos julgam ter sido intencional. Depois, a banda começou a tocar o tema mas, antes da partenaire entrar em palco, Jimi diz ao microfone que o grupo quer parar de "tocar aquele lixo" e dedicar um tema aos Cream; o grupo começa a tocar uma versão instrumental de "Sunshine of your love" e tocou, tocou, tocou... até acabar o tempo, com o produtor aos gritos. Dizem que isso lhe valeu ser banido da BBC, há 44 anos.
2.1.13
Adeus António
Esta tarde ainda estava na porta do gabinete que partilhamos no ISCTE o aviso aos teus alunos de que por motivo de força maior não os poderias receber à hora combinada. Quando entrei pensei que haverias de ser tu a atirar esse papel para o lixo. Mas, quando saí, já sabia que não o farias, embora ainda tenha que ganhar coragem para o fazer eu.
Fomos colegas enquanto estudantes. Nessa altura já eras um especialista do mundo do trabalho e eu ia apenas ser um sociólogo. Fomo-nos cruzando, sempre trilhando percursos próximos e sempre o fazendo pelas vias autónomas de quem pertencia a diferentes gerações, tinha percorrido na vida diferentes caminhos e partilhava, antes do mais e mais que tudo, uma visão do mundo desejável.
Talvez nos tenhamos tornado amigos quando zelávamos ambos na sombra - como devem fazer os assessores - pelo bom relacionamento em questões sociais entre o Governo de António Guterres e a Casa Civil do Presidente da República Jorge Sampaio. Conversávamos muito, então. Aliás, nunca mais deixámos de o fazer.
No dia em que fui convidado para Ministro era óbvio que terias que ir fazer comigo o que fosse possível daquilo que tínhamos pensado juntos sobre as transformações necessárias no mundo do trabalho. Resististe, mas reconheceste que não podias recusar participar do esforço de pôr em prática o que pensavas.
As nossas vidas levaram muitas voltas desde então. Felizmente, após um pequeno interregno, tu pudeste retomar no Governo de José Sócrates e com um papel diferente do que tinhas antes, a batalha necessária pela modernização das relações laborais. Nem sempre as tuas posições venceram e nem sempre estive de acordo com as que defendeste. Mas nunca deixámos de as discutir. E, nunca nenhum de nós pôs em causa que as causas sociais da esquerda portuguesa se prendem com o que está por fazer e não com a defesa do que está feito e tão imperfeito é.
Se as tuas ideias tivessem sido mais ouvidas, teríamos hoje um mundo do trabalho mais justo, um sindicalismo mais forte, uma protecção social mais equitativa e uma sociedade melhor. Mas, como várias vezes conversámos, para que tal fosse possível era necessária uma coligação pela mudança que não se conseguiu ainda reunir.
Nunca mais poderei voltar a agradecer-te a confiança inabalável e a solidariedade activa que me deste, quando te teria sido mais confortável ser discreto senão silencioso. Mas, o teu carácter nunca te deixaria afastar da verdade por uma conveniência, calar a reivindicação de justiça porque outros a calam ou falhar uma responsabilidade por capitulação à relação de forças.
Já não vou poder ir ao teu doutoramento, que as imperfeições da natureza e os avanços insuficientes da medicina te impediram de concluir.
Hoje o socialismo democrático português perdeu um discreto mas sólido pensador do seu modelo social, tu foste impedido de acabar os teus projectos e eu perdi um amigo ("e coisa mais preciosa no mundo não há", como canta o Sérgio Godinho).
Amanhã vou rasgar por ti o papel que está na nossa porta. Toda a gente sabes que só falhaste compromissos na vida por motivos de força maior. E ficamos a dever um ao outro, para sempre, a última conversa. Ambos sabemos que não há novo encontro. Adeus António.
(publicado também no Canhoto, o projecto do Rui que se tornou trio numa conversa ao serão)
Fomos colegas enquanto estudantes. Nessa altura já eras um especialista do mundo do trabalho e eu ia apenas ser um sociólogo. Fomo-nos cruzando, sempre trilhando percursos próximos e sempre o fazendo pelas vias autónomas de quem pertencia a diferentes gerações, tinha percorrido na vida diferentes caminhos e partilhava, antes do mais e mais que tudo, uma visão do mundo desejável.
Talvez nos tenhamos tornado amigos quando zelávamos ambos na sombra - como devem fazer os assessores - pelo bom relacionamento em questões sociais entre o Governo de António Guterres e a Casa Civil do Presidente da República Jorge Sampaio. Conversávamos muito, então. Aliás, nunca mais deixámos de o fazer.
No dia em que fui convidado para Ministro era óbvio que terias que ir fazer comigo o que fosse possível daquilo que tínhamos pensado juntos sobre as transformações necessárias no mundo do trabalho. Resististe, mas reconheceste que não podias recusar participar do esforço de pôr em prática o que pensavas.
As nossas vidas levaram muitas voltas desde então. Felizmente, após um pequeno interregno, tu pudeste retomar no Governo de José Sócrates e com um papel diferente do que tinhas antes, a batalha necessária pela modernização das relações laborais. Nem sempre as tuas posições venceram e nem sempre estive de acordo com as que defendeste. Mas nunca deixámos de as discutir. E, nunca nenhum de nós pôs em causa que as causas sociais da esquerda portuguesa se prendem com o que está por fazer e não com a defesa do que está feito e tão imperfeito é.
Se as tuas ideias tivessem sido mais ouvidas, teríamos hoje um mundo do trabalho mais justo, um sindicalismo mais forte, uma protecção social mais equitativa e uma sociedade melhor. Mas, como várias vezes conversámos, para que tal fosse possível era necessária uma coligação pela mudança que não se conseguiu ainda reunir.
Nunca mais poderei voltar a agradecer-te a confiança inabalável e a solidariedade activa que me deste, quando te teria sido mais confortável ser discreto senão silencioso. Mas, o teu carácter nunca te deixaria afastar da verdade por uma conveniência, calar a reivindicação de justiça porque outros a calam ou falhar uma responsabilidade por capitulação à relação de forças.
Já não vou poder ir ao teu doutoramento, que as imperfeições da natureza e os avanços insuficientes da medicina te impediram de concluir.
Hoje o socialismo democrático português perdeu um discreto mas sólido pensador do seu modelo social, tu foste impedido de acabar os teus projectos e eu perdi um amigo ("e coisa mais preciosa no mundo não há", como canta o Sérgio Godinho).
Amanhã vou rasgar por ti o papel que está na nossa porta. Toda a gente sabes que só falhaste compromissos na vida por motivos de força maior. E ficamos a dever um ao outro, para sempre, a última conversa. Ambos sabemos que não há novo encontro. Adeus António.
(publicado também no Canhoto, o projecto do Rui que se tornou trio numa conversa ao serão)
1.1.13
Horas vieram certas horas (Eduardo Guerra Carneiro)
Horas vieram certas horas
chegaram com amigos certos
Sei lá onde agora Sei que partem os amigos
e se vão para longe Não sei deles
Viajam alegres sem dinheiro certo
Outros que não vão morrem na guerra
que nos fere e dói que mais não seja
por ser guerra em vão.
(Poemas Livres 3, Porto, Edição dos Autores, 1968, 94 páginas. Coordenação dos Autores. (s/ Depósito Legal; s/ ISBN))
)
chegaram com amigos certos
Sei lá onde agora Sei que partem os amigos
e se vão para longe Não sei deles
Viajam alegres sem dinheiro certo
Outros que não vão morrem na guerra
que nos fere e dói que mais não seja
por ser guerra em vão.
(Poemas Livres 3, Porto, Edição dos Autores, 1968, 94 páginas. Coordenação dos Autores. (s/ Depósito Legal; s/ ISBN))
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31.12.12
Política nacional, educação e direitos
Recapitulemos o que aqui no Banco mais interessou os leitores, mês a mês. Temas mais lidos? Política nacional, educação e direitos. Reconheço as minhas preocupações pessoais deste ano nos interesses dos que por aqui passaram.
Dezembro: E não nos perguntamos como é possível que a PSP de Almada não soubesse que aquelas perguntas não se fazem?
Novembro: O core business do Banco Alimentar é evitar que se deteriorem os bifes que não comemos enquanto a carne é fresca
Outubro: O circo das escutas voltou à cidade. A Ministra da Justiça já comentou o fim da impunidade?
Setembro: "Redobrar a vontade e a ambição". E tempo de deixar Passos Coelho sozinho na sua fuga em frente
Agosto: A velha escola está de volta. Resta esperar que a esquerda anuncie já que esse regresso cai com o governo
Julho: Organizem-se e respeitem-nos
Junho: Congresso Democrático das Alternativas: defender a República para o Século XXI
Maio: Se Portugal fosse a Grécia
Abril: A versão Nuno Crato do eduquês: pobre, a bem dizer, nem precisa muito de escola
Março: presidente com pê pequeno
Fevereiro: Ilusionismo orçamental: acção social no ensino superior
Janeiro: Contra a corrente e contra a presunção de incompetência
Dezembro: E não nos perguntamos como é possível que a PSP de Almada não soubesse que aquelas perguntas não se fazem?
Novembro: O core business do Banco Alimentar é evitar que se deteriorem os bifes que não comemos enquanto a carne é fresca
Outubro: O circo das escutas voltou à cidade. A Ministra da Justiça já comentou o fim da impunidade?
Setembro: "Redobrar a vontade e a ambição". E tempo de deixar Passos Coelho sozinho na sua fuga em frente
Agosto: A velha escola está de volta. Resta esperar que a esquerda anuncie já que esse regresso cai com o governo
Julho: Organizem-se e respeitem-nos
Junho: Congresso Democrático das Alternativas: defender a República para o Século XXI
Maio: Se Portugal fosse a Grécia
Abril: A versão Nuno Crato do eduquês: pobre, a bem dizer, nem precisa muito de escola
Março: presidente com pê pequeno
Fevereiro: Ilusionismo orçamental: acção social no ensino superior
Janeiro: Contra a corrente e contra a presunção de incompetência
28.12.12
Da Prisa à Newshold, a vitória é certa, mas de quem?
Tal como quem definiu o perfil da TVI não foram os espanhóis da PRISA, na Newshold preocupa-me mais a concepção de jornalismo dos rostos portugueses do que os interesses dos seus financiadores angolanos.
Ao contrário da análise predominante, acho que os "capitalistas" angolanos já demonstraram que têm uma sofisticação incompatível com a ingénua ideia de tentarem transformar os nossos meios de comunicação em meras correias de transmissão do regime político que os gerou. Mas a ideia de que o tipo de jornalismo do Sol e do Correio da Manhã possa dominar um canal de televisão montado nos capitais desse poderio económico-político faz-me pensar que o risco de "asfixia democrática" não é imaginário; apenas tem o seu epicentro entre nós e não lá fora.
Ao contrário da análise predominante, acho que os "capitalistas" angolanos já demonstraram que têm uma sofisticação incompatível com a ingénua ideia de tentarem transformar os nossos meios de comunicação em meras correias de transmissão do regime político que os gerou. Mas a ideia de que o tipo de jornalismo do Sol e do Correio da Manhã possa dominar um canal de televisão montado nos capitais desse poderio económico-político faz-me pensar que o risco de "asfixia democrática" não é imaginário; apenas tem o seu epicentro entre nós e não lá fora.
21.12.12
E não nos perguntamos como é possível que a PSP de Almada não soubesse que aquelas perguntas não se fazem?
Uma pergunta que nunca devia ter sido feita teve a única resposta correcta que podia dar-se-lhe. Para já, assunto encerrado. Mas sobra uma questão. Quem escreveu o ofício e quem o enviou tem responsabilidades de investigação criminal e acha que pode pedir a uma escola que identifique pessoas pela sua etnia e que funcione como informador em abstracto sobre eventuais colectivos de alunos não identificados, não suspeitos nem constituídos arguidos pela prática de nenhum crime, mas que possam no critério subjectivo de um director de escola sê-lo.
O facto de quem tem responsabilidade de investigação criminal não ter noção da enormidade que estava a escrever pode tentar reduzir-se a um erro localizado de uma pessoa mas parece uma ponta de um icebergue de desrespeito dos direitos humanos bem mais séria. Gostaria de ver as hierarquias responsabilizadas ao nível adequado pela possibilidade de ocorrência deste erro. Num país com uma sólida cultura de direitos humanos não poderia ser diferente.
O facto de quem tem responsabilidade de investigação criminal não ter noção da enormidade que estava a escrever pode tentar reduzir-se a um erro localizado de uma pessoa mas parece uma ponta de um icebergue de desrespeito dos direitos humanos bem mais séria. Gostaria de ver as hierarquias responsabilizadas ao nível adequado pela possibilidade de ocorrência deste erro. Num país com uma sólida cultura de direitos humanos não poderia ser diferente.
17.12.12
João Martins Pereira online
Já está online um acervo significativo de informação de e sobre João Martins Pereira. Para alguns, como eu, uma fonte importante de recursos sobre um pensador que merecia ser melhor conhecido. Para outros, como eventualmente alguns leitores, uma oportunidade para porem em comum conhecimentos e materiais disponíveis.
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