18.4.13
Perante os disparates governamentais até no Blasfémias se sente necessidade de defender a Constituição
Se Passos Coelho e Gaspar tivessem a mesma lucidez face ao nosso sistema democrático que leio no insuspeito de oposicionismo Blasfémias evitavam algumas dores de cabeça ao país. Mas temos que viver com o Primeiro-Ministro que temos enquanto aqueles de quem ele constitucionalmente depende lhes mantiverem confiança, a menos que o próprio perceba que os limites da sua legitimidade política se tocam, por exemplo, quando tenta atropelar recorrentemente a Constituição e as instituições encarregues de a proteger.
17.4.13
Governo sem salvação possível
António José Seguro não se deixou enredar no simulacro de compromisso que Passos lhe estava a oferecer. acho que fez bem. As convergências exigem muito trabalho prévio, para o qual Passos Coelho nunca mostrou grande abertura e disponibilidade para cedências recíprocas, coisa que a sua carta nem sequer fingia permitir.
O PS em caso algum pode sequer parecer que participa da salvação deste Governo. Todas as convergências de que o país necessita, até podem um dia ter que ser com um PSD liderado por Passos Coelho, mas nunca no quadro da viabilização ainda que tácita deste Governo nem da continuidade da sua linha estratégica face à troika e ao processo de ajustamento do país.
O PS em caso algum pode sequer parecer que participa da salvação deste Governo. Todas as convergências de que o país necessita, até podem um dia ter que ser com um PSD liderado por Passos Coelho, mas nunca no quadro da viabilização ainda que tácita deste Governo nem da continuidade da sua linha estratégica face à troika e ao processo de ajustamento do país.
Almada, eleições, inaugurações. A época está aberta.
Em Almada, ano de eleições é ano de inaugurações, tal como na Região Autónoma da Madeira e em todo o lado em que o planeamento não é feito por forma a melhorar gradualmente os serviços à população mas para obedecer a campanhas eleitorais de estilo manipulador.
Em Almada vem aí a inauguração do Quarteirão das Artes, que se saúda. Mas passaram mais quatro anos sem que todas as crianças do concelho tenham escola a tempo inteiro. Há 3 anos diziam que esta necessidade óbvia conflituava com o endeusado plano (no caso, a carta escolar). Três anos passados e a necessidade agudizada (até pelas crianças que regressam à escola pública), está tudo como dantes. Que pena não se ter inaugurado em tempo as salas de aula que faltam.
Em Almada vem aí a inauguração do Quarteirão das Artes, que se saúda. Mas passaram mais quatro anos sem que todas as crianças do concelho tenham escola a tempo inteiro. Há 3 anos diziam que esta necessidade óbvia conflituava com o endeusado plano (no caso, a carta escolar). Três anos passados e a necessidade agudizada (até pelas crianças que regressam à escola pública), está tudo como dantes. Que pena não se ter inaugurado em tempo as salas de aula que faltam.
As idiossincrasias coimbrãs e os cosmopolitanismos provincianos
Não vi o debate entre Nuno Encarnação e João Galamba. Não sei se a invocação de Adriano pelo Nuno foi apropriada e nem me custa admitir que possa ter sido contraproducente para o autor. Escrevo motivado pelos posts e do Paulo Pinto e o comentário do Nuno Encarnação no Jugular.
Paulo Pinto parece surpreendido pela idiossincrasia coimbrã que faz com que um deputado nascido e criado na direita do pós-25 de Abril se sinta à vontade com as letras e as músicas da balada coimbrã. Não ficaria tão surpreendido se tivesse presente que a direita coimbrã se apegou às "tradições" académicas, depois do 25 de Abril, aliás, à época contra a esquerda e incorporou no seu revivalismo praticamente todas as canções de Adriano, José e Afonso que obedecem aos cânones da "sua" música, algo que inclui quase todo o Adriano e pelo menos o José Afonso até ao início dos anos setenta.
Dentro dessa idiossincrasia reage Nuno Encarnação com uma - começa a ser recorrente - tentativa de ataque a que a esquerda se aproprie dos hinos que eram da esquerda. Pessoalmente felicito Nuno Encarnação por não se sentir incomodado com a Grândola ou a Trova, mas ele sabe melhor que eu que fora do ccírculo restrito dos jovens do fado de Coimbra não tem muitos companheiros no partido ou na coligação para essa batalha. Aliás, essa batalha só faz sentido para os filhos de Abril (e ainda bem que o tentam), porque a direita que érea adulta à época, mesmo quando hoje nos aparece pela esquerda, nunca consegue esconder bem a reacção cutânea a estas cantorias.
Infelizmente o Paulo Pinto precipitou-se porque o cosmopolitismo às vezes é um pouco provinciano em relação àqueles a quem não atribui pedigree e não reconhece linhagem. Porque haviam de ser os deputados do PSD mais parvenus que, por exemplo, os do PS ou do BE? Infelizmente anda por aqui um vestígio de complexo de superioridade que faz mal a debate democrático.
Paulo Pinto parece surpreendido pela idiossincrasia coimbrã que faz com que um deputado nascido e criado na direita do pós-25 de Abril se sinta à vontade com as letras e as músicas da balada coimbrã. Não ficaria tão surpreendido se tivesse presente que a direita coimbrã se apegou às "tradições" académicas, depois do 25 de Abril, aliás, à época contra a esquerda e incorporou no seu revivalismo praticamente todas as canções de Adriano, José e Afonso que obedecem aos cânones da "sua" música, algo que inclui quase todo o Adriano e pelo menos o José Afonso até ao início dos anos setenta.
Dentro dessa idiossincrasia reage Nuno Encarnação com uma - começa a ser recorrente - tentativa de ataque a que a esquerda se aproprie dos hinos que eram da esquerda. Pessoalmente felicito Nuno Encarnação por não se sentir incomodado com a Grândola ou a Trova, mas ele sabe melhor que eu que fora do ccírculo restrito dos jovens do fado de Coimbra não tem muitos companheiros no partido ou na coligação para essa batalha. Aliás, essa batalha só faz sentido para os filhos de Abril (e ainda bem que o tentam), porque a direita que érea adulta à época, mesmo quando hoje nos aparece pela esquerda, nunca consegue esconder bem a reacção cutânea a estas cantorias.
Infelizmente o Paulo Pinto precipitou-se porque o cosmopolitismo às vezes é um pouco provinciano em relação àqueles a quem não atribui pedigree e não reconhece linhagem. Porque haviam de ser os deputados do PSD mais parvenus que, por exemplo, os do PS ou do BE? Infelizmente anda por aqui um vestígio de complexo de superioridade que faz mal a debate democrático.
16.4.13
E agora, António José?
A carta de Passos Coelho a Seguro já deveria ser esperada, dada a sua estratégia de relegitimação após a decisão do Tribunal Constitucional.
Depois de Cavaco ter sido forçado a ter agenda num domingo em que tinha anunciado não a ter apenas para que se soubesse que dava o seu beneplácito ao governo, amarrando-se a ele, é a vez de Seguro.
Evidentemente que, depois de uma moção de censura e semanas a pedir a queda do Governo, não há qualquer margem de manobra decente para ele se deixar colar à estratégia de Passos e Gaspar. Mas a chantagem deve ser forte. Agora se vai ver de que é feita a capacidade de liderança de Seguro. Terá a força necessária para dizer que só se podem fazer novos consensos nacionais depois da demissão deste governo ou vai acabar a benzer tal como Cavaco, por omissão que seja, a dupla Passos-Gaspar?
Depois de Cavaco ter sido forçado a ter agenda num domingo em que tinha anunciado não a ter apenas para que se soubesse que dava o seu beneplácito ao governo, amarrando-se a ele, é a vez de Seguro.
Evidentemente que, depois de uma moção de censura e semanas a pedir a queda do Governo, não há qualquer margem de manobra decente para ele se deixar colar à estratégia de Passos e Gaspar. Mas a chantagem deve ser forte. Agora se vai ver de que é feita a capacidade de liderança de Seguro. Terá a força necessária para dizer que só se podem fazer novos consensos nacionais depois da demissão deste governo ou vai acabar a benzer tal como Cavaco, por omissão que seja, a dupla Passos-Gaspar?
10.4.13
É costume um credor pedir ao cliente para não realizar auditorias à sua gestão?
Há algo de original na capa do Record de hoje, como me assinalou um amigo. Não é todos os dias que é notícia que a banca exige a quem lhe pede crédito para "não realizar auditoria à gestão" da entidade, pois não? Ou é costume e eu é que ando distraído?
8.4.13
Como o massacre de Wiriamu chegou ao Congresso da Oposição Democrática -O Luís Costa conta
A MINHA PARTICIPAÇÃO NO CONGRESSO DA OPOSIÇÃO DEMOCRÁTICA REALIZADO EM AVEIRO DE 4 A 8 DE ABRIL DE 1973
Ao ler o Público de hoje deparei com um artigo titulado Em Aveiro, a 8 de Abril de 1973, assinado por Mário Vale Lima, médico, que recupera a sua memória da participação no 3º Congresso da Oposição Democrática que decorreu em Aveiro de 4 a 8 de Abril de 1973.
Faz hoje 40 anos e também lá estive o que também constituí a minha primeira visita à cidade de Aveiro.
Julgo que tem algum interesse e curiosidade, pelo que do fundo da minha memória e claro do fundo do meu baú, recupero e partilho parte do que guardo daquele dia memorável.
Em Abril de 1973 tinha 19 anos, vivia em Algés, estudava no então ISCSPU, tinha um trabalho de tarefeiro para fazer o recenseamento da Guiné no então Ministério do Ultramar, arranjado pelo Luis Magueijo, que era lá contínuo e meu conterrâneo, atividade que assegurava o meu sustento, depois de nos primeiros tempos em Lisboa, depender da ajuda familiar, completada pelos rendimentos que ia obtendo como estivador no porão do Madeirense e do Funchalense, situação intermediada pelo Manuel Prata, primo do meu pai, em cuja casa vivi nos tempos iniciais, que era Guarda Fiscal, responsável pelo bar na Rocha do Conde de Óbidos, muito frequentado pelos meus temporários colegas de estiva.
Na vida participativa, obviamente na esquerda do possível, com ligação não orgânica ao Partido e envolvido em actividades UEC, dirigente (não homologado pelo Ministério da Educação) da AA do ISCSPU, escrevia no jornal República, suplemento Técnica e Civilização, era responsável da secção de cinema do Primeiro Acto - Clube de Teatro em Algés e com ligações à base da CDE nesta localidade do concelho de Oeiras, na fronteira com Lisboa.
Em Algés havia uma classe média muito politizada com um centro de referência na baixa de Algés, polarizado pela casa da Silvina, mãe da Rita Blanco, por cima da pastelaria Nortenha. Aqui apareciam intelectuais, escritores, editores, músicos, as duas referências na crítica de televisão, Mário Castrim (Diário de Lisboa) e Correia da Fonseca (República) e membros do Coro da Academia dos Amadores de Música, incluindo o Maestro Lopes Graça, visita habitual da casa.
Em Algés de Cima havia um número considerável de pessoas, alguns casais, activas na oposicrática com actividade profissional na educação, na função pública, na propaganda médica, nos serviços. Estas duas realidades não tinham muitos pontos quotidianos de contacto, havendo uma espécie de ponte assegurada pelo, chamemos-lhe assim, Algés do meio, onde de resto fisicamente moravam o Madeira Luis, a Virginia e este vosso escriba.
Em conjunto assegurámos participação em diversas iniciativas da resistência, de que aqui recupero um grupo significativo no funeral do Ribeiro dos Santos, em Outubro de 1972 - fizemos o caminho a pé de Santos até ao cemitério da Ajuda a correr à frente da polícia - bem como na reunião da oposição em Benfica, no início de 1974, sob a alçada formal da Cooperativa Forja, de que resultaram dezenas de activistas detidos e levados para o Governo Civil de Lisboa no Chiado. Eu e a Isabel Tavares da Cruz, com o marido já retido em Paris com mandato de captura da PIDE, tinhamos saído momentos antes da invasão policial para irmos preparar o jantar em casa dela onde todos nos juntariamos depois. Afinal passámos o resto da noite em frente ao Governo Civil a protestar contra a repressão e a exigir a libertação dos detidos.
Foi neste caldo de cultura que se criaram as condições para participar no Congresso de Aveiro. Foi-me atribuída uma missão que executei com sucesso. Era tempo dos massacres em Moçambique (Tete), de que o rosto mais visível era o massacre de Wiriamu, na sequência das denúncias do padre Hastings. Chegou-nos um texto e a missão era disseminar a informação.
Nos terrenos em que me movia, arranjei 5 resmas de papel e 4 stencils. Pedi à Virginia para me emprestar a máquina de escrever. Letra a letra para ficar tudo direito e rentabilizar até ao limite os meios disponíveis, enchi as quatro folhas com o máximo de informação possível a partir do texto recebido.
Como era responsável na secção de cinema e tinha chave de entrada, na noite de sexta para sábado, de 6 para 7 de Abril, fui ficando no Primeiro Acto e quando fiquei sozinho comecei a imprimir no policopiador. À mão, página a página, cerca de 5000 impressões, frente e verso. A máquina estava junto à janela que dava para a rua e não devia fazer barulho. Tinha a luz apagada. Seguiu-se a operação agrafo. Deliberadamente só já de dia saí à rua com um saco de viagem recheado em direcção ao serviço de entrega.
No Domingo, 8 de Abril, fui pela fresca ter a casa do Moisés e da Milú para rumarmos a Aveiro. Ele era delegado de propaganda médica de uma multinacional alemã, ela trabalhava nos Hospitais Civis de Lisboa. No meio dos folhetos e das amostras lá ia uma boa parte dos documentos reproduzidos. Chegámos a Aveiro a meio da manhã (não havia ainda autoestrada...), já depois da carga policial que impediu a romagem à campa de Mário Sacramento.
Aveiro estava cercada pela força policial. Os automóveis não podiam entrar pelo que fomos a pé da estrada nacional até ao centro de Aveiro. Só mais tarde o Moisés pode ir buscar a viatura e entrar na cidade. Incorporámo-nos no Congresso já em fim de festa, num quadro de alguma euforia porque a repressão não foi capaz de travar o prosseguimento dos trabalhos. Teatro Avenida repleto, incluindo nos bastidores. Aí tomei contacto e falei longamente com o Malaquias Abalada de Alpiarça, oriundo do operariado agrícola e que viria a ser deputado na Constituinte onde protagonizou alguns debates que fazem parte dos anais parlamentares. Na minha (in)genuidade de jovem revolucionário sempre acreditei no princípio leninista da aliança operária e camponesa como motor da revolução...
Ao fim do dia apanhei o rápido (julgo que era assim o nome dos actuais combóios alfa) para Lisboa. A Milú tinha tirado férias e ia acompanhar toda a semana o Moisés no Norte na distribuição da propaganda...médica!
Foram feitas recomendações especiais a respeito dos regressos. A políca tinha tentado travar autocarros, dificultar a mobilidade, impedir que as pessoas chegassem a Aveiro. Era de recear actos repressivos nos regressos. Os comboios e as estações estavam rigorosamente vigiadas. Subi a Lourenço Peixinho até à estação de Aveiro. Naquele tempo a malta de esquerda usava uma bolsa, tipo alforge, antepassado histórico das mochilas. Eu tinha uma de camurça que mandei fazer num sapateiro. Vinha cheia de documentos que colhi no Congresso e um cinzeiro que guardo religiosamente e junto cópia em tamanho real A4.
Sem problemas em Aveiro. Discretamente instalei-me no combóio. Havia o aviso de que Santa Apolónia estava infestada de polícia e de pides. Aqui chegado, com alguma ansiedade e inquietude, avanço a passo largo e decidido para a saída em direcção ao Cais do Sodré onde apanhei o combóio para Algés. Pouco mais de 12 horas depois regressava ao ponto de partida. Missão cumprida. No meu registo memorial ecoavam ainda as palavras da carta-testamento de Mário Sacramento, lembradas por Lindley Cintra na intervenção com que encerrou o Congresso: Façam um mundo melhor, ouviram? Não me obriguem a voltar cá...
Luís Costa
Ao ler o Público de hoje deparei com um artigo titulado Em Aveiro, a 8 de Abril de 1973, assinado por Mário Vale Lima, médico, que recupera a sua memória da participação no 3º Congresso da Oposição Democrática que decorreu em Aveiro de 4 a 8 de Abril de 1973.
Faz hoje 40 anos e também lá estive o que também constituí a minha primeira visita à cidade de Aveiro.
Julgo que tem algum interesse e curiosidade, pelo que do fundo da minha memória e claro do fundo do meu baú, recupero e partilho parte do que guardo daquele dia memorável.
Em Abril de 1973 tinha 19 anos, vivia em Algés, estudava no então ISCSPU, tinha um trabalho de tarefeiro para fazer o recenseamento da Guiné no então Ministério do Ultramar, arranjado pelo Luis Magueijo, que era lá contínuo e meu conterrâneo, atividade que assegurava o meu sustento, depois de nos primeiros tempos em Lisboa, depender da ajuda familiar, completada pelos rendimentos que ia obtendo como estivador no porão do Madeirense e do Funchalense, situação intermediada pelo Manuel Prata, primo do meu pai, em cuja casa vivi nos tempos iniciais, que era Guarda Fiscal, responsável pelo bar na Rocha do Conde de Óbidos, muito frequentado pelos meus temporários colegas de estiva.
Na vida participativa, obviamente na esquerda do possível, com ligação não orgânica ao Partido e envolvido em actividades UEC, dirigente (não homologado pelo Ministério da Educação) da AA do ISCSPU, escrevia no jornal República, suplemento Técnica e Civilização, era responsável da secção de cinema do Primeiro Acto - Clube de Teatro em Algés e com ligações à base da CDE nesta localidade do concelho de Oeiras, na fronteira com Lisboa.
Em Algés havia uma classe média muito politizada com um centro de referência na baixa de Algés, polarizado pela casa da Silvina, mãe da Rita Blanco, por cima da pastelaria Nortenha. Aqui apareciam intelectuais, escritores, editores, músicos, as duas referências na crítica de televisão, Mário Castrim (Diário de Lisboa) e Correia da Fonseca (República) e membros do Coro da Academia dos Amadores de Música, incluindo o Maestro Lopes Graça, visita habitual da casa.
Em Algés de Cima havia um número considerável de pessoas, alguns casais, activas na oposicrática com actividade profissional na educação, na função pública, na propaganda médica, nos serviços. Estas duas realidades não tinham muitos pontos quotidianos de contacto, havendo uma espécie de ponte assegurada pelo, chamemos-lhe assim, Algés do meio, onde de resto fisicamente moravam o Madeira Luis, a Virginia e este vosso escriba.
Em conjunto assegurámos participação em diversas iniciativas da resistência, de que aqui recupero um grupo significativo no funeral do Ribeiro dos Santos, em Outubro de 1972 - fizemos o caminho a pé de Santos até ao cemitério da Ajuda a correr à frente da polícia - bem como na reunião da oposição em Benfica, no início de 1974, sob a alçada formal da Cooperativa Forja, de que resultaram dezenas de activistas detidos e levados para o Governo Civil de Lisboa no Chiado. Eu e a Isabel Tavares da Cruz, com o marido já retido em Paris com mandato de captura da PIDE, tinhamos saído momentos antes da invasão policial para irmos preparar o jantar em casa dela onde todos nos juntariamos depois. Afinal passámos o resto da noite em frente ao Governo Civil a protestar contra a repressão e a exigir a libertação dos detidos.
Foi neste caldo de cultura que se criaram as condições para participar no Congresso de Aveiro. Foi-me atribuída uma missão que executei com sucesso. Era tempo dos massacres em Moçambique (Tete), de que o rosto mais visível era o massacre de Wiriamu, na sequência das denúncias do padre Hastings. Chegou-nos um texto e a missão era disseminar a informação.
Nos terrenos em que me movia, arranjei 5 resmas de papel e 4 stencils. Pedi à Virginia para me emprestar a máquina de escrever. Letra a letra para ficar tudo direito e rentabilizar até ao limite os meios disponíveis, enchi as quatro folhas com o máximo de informação possível a partir do texto recebido.
Como era responsável na secção de cinema e tinha chave de entrada, na noite de sexta para sábado, de 6 para 7 de Abril, fui ficando no Primeiro Acto e quando fiquei sozinho comecei a imprimir no policopiador. À mão, página a página, cerca de 5000 impressões, frente e verso. A máquina estava junto à janela que dava para a rua e não devia fazer barulho. Tinha a luz apagada. Seguiu-se a operação agrafo. Deliberadamente só já de dia saí à rua com um saco de viagem recheado em direcção ao serviço de entrega.
No Domingo, 8 de Abril, fui pela fresca ter a casa do Moisés e da Milú para rumarmos a Aveiro. Ele era delegado de propaganda médica de uma multinacional alemã, ela trabalhava nos Hospitais Civis de Lisboa. No meio dos folhetos e das amostras lá ia uma boa parte dos documentos reproduzidos. Chegámos a Aveiro a meio da manhã (não havia ainda autoestrada...), já depois da carga policial que impediu a romagem à campa de Mário Sacramento.
Aveiro estava cercada pela força policial. Os automóveis não podiam entrar pelo que fomos a pé da estrada nacional até ao centro de Aveiro. Só mais tarde o Moisés pode ir buscar a viatura e entrar na cidade. Incorporámo-nos no Congresso já em fim de festa, num quadro de alguma euforia porque a repressão não foi capaz de travar o prosseguimento dos trabalhos. Teatro Avenida repleto, incluindo nos bastidores. Aí tomei contacto e falei longamente com o Malaquias Abalada de Alpiarça, oriundo do operariado agrícola e que viria a ser deputado na Constituinte onde protagonizou alguns debates que fazem parte dos anais parlamentares. Na minha (in)genuidade de jovem revolucionário sempre acreditei no princípio leninista da aliança operária e camponesa como motor da revolução...
Ao fim do dia apanhei o rápido (julgo que era assim o nome dos actuais combóios alfa) para Lisboa. A Milú tinha tirado férias e ia acompanhar toda a semana o Moisés no Norte na distribuição da propaganda...médica!
Foram feitas recomendações especiais a respeito dos regressos. A políca tinha tentado travar autocarros, dificultar a mobilidade, impedir que as pessoas chegassem a Aveiro. Era de recear actos repressivos nos regressos. Os comboios e as estações estavam rigorosamente vigiadas. Subi a Lourenço Peixinho até à estação de Aveiro. Naquele tempo a malta de esquerda usava uma bolsa, tipo alforge, antepassado histórico das mochilas. Eu tinha uma de camurça que mandei fazer num sapateiro. Vinha cheia de documentos que colhi no Congresso e um cinzeiro que guardo religiosamente e junto cópia em tamanho real A4.
Sem problemas em Aveiro. Discretamente instalei-me no combóio. Havia o aviso de que Santa Apolónia estava infestada de polícia e de pides. Aqui chegado, com alguma ansiedade e inquietude, avanço a passo largo e decidido para a saída em direcção ao Cais do Sodré onde apanhei o combóio para Algés. Pouco mais de 12 horas depois regressava ao ponto de partida. Missão cumprida. No meu registo memorial ecoavam ainda as palavras da carta-testamento de Mário Sacramento, lembradas por Lindley Cintra na intervenção com que encerrou o Congresso: Façam um mundo melhor, ouviram? Não me obriguem a voltar cá...
Luís Costa
O Governo e o TC: um passo atrás, dois à frente
O Tribunal Constitucional forçou o Governo a dar um passo atrás na sua estratégia orçamental para este ano. O Primeiro-Ministro, na resposta que lhe deu e em que pôs em causa entendimentos que pareciam consensuais no nosso sistema democrático (como os papeis do Tribunal Constitucional e do Presidente da República), deu dois passos em frente.
A partir deste fim-de-semana o país dispõe de um governo de beneplácito presidencial, inovação política a meio caminho da iniciativa presidencial, que desvaloriza o Parlamento e joga a confiança do Presidente como tentativa de compensação da falta de entendimento parlamentar alargado para medidas contestadas. Se com isto Passos e Cavaco visam limitar o espaço de manobra do PS, como tudo indica pretenderem, parecem não perceber que o efeito mais que provável é a quebra de qualquer amarra estratégica entre os partidos do consenso europeu a que gostam de chamar o arco da governabilidade. Esta vinculação do Presidente a um governo contestado poderia, se houvesse clarividência estratégica à esquerda, ter aberto a mais larga porta que alguma vez houve desde o 25 de Novembro para que o país tivesse soluções de governabilidade alternativas ao triângulo CDS-PSD-PS
A partir da declaração ao país de Pedro Passos Coelho, o entendimento do Governo sobre os objectivos do programa de ajustamento passou a incluir explicitamente o ataque frontal ao Estado Social que conhecemos, ameaçando deixar de o financiar adequadamente nos três pilares fundamentais da educação, saúde e segurança social. Fazê-lo num pais ainda com baixo nível educativo e já com elevados índices de desigualdade, pobreza e desemprego, é também a vinculação da terapia da troika à destruição dos equilibrios - instáveis e frágeis, é certo, mas que asseguraram paz social - que se construíram desde a Constituição de 76, estreitando ainda mais a base potencial de apoio ao controverso projecto de ajustamento que já de si sujeitaria os portugueses a sacrifícios impostos por uma doutrina austeritária internacional que está longe de demonstrado que seja eficaz.
Os dois passos em frente hoje dados por Passos Coelho mostram que o seu derrube passou de uma mera questão de alternativa política para ser uma questão de regime. Oxalá os que não gostam do beneplácito presidencial aos governos e não apostam no corte missiva das funções sociais do Estado sejam capazes de o perceber e, sobretudo, de agir em conformidade.
A partir deste fim-de-semana o país dispõe de um governo de beneplácito presidencial, inovação política a meio caminho da iniciativa presidencial, que desvaloriza o Parlamento e joga a confiança do Presidente como tentativa de compensação da falta de entendimento parlamentar alargado para medidas contestadas. Se com isto Passos e Cavaco visam limitar o espaço de manobra do PS, como tudo indica pretenderem, parecem não perceber que o efeito mais que provável é a quebra de qualquer amarra estratégica entre os partidos do consenso europeu a que gostam de chamar o arco da governabilidade. Esta vinculação do Presidente a um governo contestado poderia, se houvesse clarividência estratégica à esquerda, ter aberto a mais larga porta que alguma vez houve desde o 25 de Novembro para que o país tivesse soluções de governabilidade alternativas ao triângulo CDS-PSD-PS
A partir da declaração ao país de Pedro Passos Coelho, o entendimento do Governo sobre os objectivos do programa de ajustamento passou a incluir explicitamente o ataque frontal ao Estado Social que conhecemos, ameaçando deixar de o financiar adequadamente nos três pilares fundamentais da educação, saúde e segurança social. Fazê-lo num pais ainda com baixo nível educativo e já com elevados índices de desigualdade, pobreza e desemprego, é também a vinculação da terapia da troika à destruição dos equilibrios - instáveis e frágeis, é certo, mas que asseguraram paz social - que se construíram desde a Constituição de 76, estreitando ainda mais a base potencial de apoio ao controverso projecto de ajustamento que já de si sujeitaria os portugueses a sacrifícios impostos por uma doutrina austeritária internacional que está longe de demonstrado que seja eficaz.
Os dois passos em frente hoje dados por Passos Coelho mostram que o seu derrube passou de uma mera questão de alternativa política para ser uma questão de regime. Oxalá os que não gostam do beneplácito presidencial aos governos e não apostam no corte missiva das funções sociais do Estado sejam capazes de o perceber e, sobretudo, de agir em conformidade.
4.4.13
Day after: Relvas, o cordeiro pascal da moção de censura
Miguel Relvas, foi de lobo a cordeiro pascal do PSD e, obviamente, demitiu-se. Fê-lo um dia depois da moção de censura do PS o que, por muito que venha aí argumentação racional desligando os dois factos, não pode ser politicamente verdadeiro. A política faz-se de decisões em que o tempo tem importância e este foi o tempo escolhido por ou imposto a Relvas, reforçando o gesto do PS, por muito que o venham a negar.
Esta demissão não corresponde apenas à saída de um ministro. O governo tal qual foi concebido inicialmente, deixa de existir hoje. Os equilíbrios e contrapesos dentro do PSD e entre o PSD e o CDS terão que ser refeitos para que não se assista apenas ao inexorável, rápido e porventura patético desmoronamento da coligação.
Se Passos é ou não homem para se recompor da entrega da cabeça de Relvas, não sei. Mas sei, que se pensar que a coisa se resolve com uma promoção ou outra ou mesmo com uma mexida cirúrgica, caiu no dia a seguir à moção de censura do PS. A menos que.. acordemos um destes dias com uma remodelação tão extensa que seja, na prática, um novo Governo.
(Foto de José Carlos Pratas/Global Imagens)
A cruzada anti-bifes ganha mais um argumento
Deixemos Isabel Jonet e os bifes em paz. A verdade é que uma equipa da Escola Médica de Harvard diz que os idosos que têm mais ácidos omega-3 (os dos peixes gordos) no sangue reduzem o risco de mortalidade em 27%, o risco de doença cardíaca em 35% e aumentam a esperança de vida em 2,2 anos. Comamos peixe para uma vida mais longa, então.
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