13.11.13

Hipocondriacos, não percam o novo teste do colégio americano de cardiologia ao vosso risco de doença cardiovascular.

O Colégio de Cardiologia dos EUA emitiu novas orientações para o acompanhamento do colesterol que mudam do objectivo de ter um certo nível no teste do colesterol para a ´necessidade de avaliação do risco global de doença cardiovascular. Associadamente, disponibilizou um teste de risco de ter uma doença cardiovascular nos próximos dez anos e até ao fim da vida - fácil de preencher e numa simples folha de cálculo em excel - de que pode fazer download aqui. O meu resultado a 10 anos agradou-me, já quanto ao risco até ao fim da vida, fiquei menos optimista. Contudo, a disparidade quer dizer que há boas hipóteses de durar mais de dez anos se não arranjar outra fonte de problemas de saúde. Do mal o menos! Hipocondriacos que lêem este blogue, não percam o teste.

26.9.13

Também tenho uma narrativa sobre a crise

Estou a acabar um texto sobre os impactos da crise. Uma montanha de dados, quadros e gráficos depois, concluo que desde 2007 se apoiou os bancos, abandonou as empresas à sua sorte, castigou trabalhadores e pensionistas e, com tudo isto, o Estado ganhou... um monte de dívida que não honrará sem várias e profundas restruturações.
Já tenho uma narrativa sobre a crise. Longa vida a todos os que conceberam, trouxeram até nós e aplicam ainda tal estratégia. 

23.9.13

In memoriam António Ramos Rosa

Tudo será construído no silêncio, pela força do silêncio, mas o pilar mais forte da construção será uma palavra. Tão viva e densa como o silêncio e que, nascida do silêncio, ao silêncio conduzirá.

(Rosa, António Ramos, "Tudo será construído no silêncio, pela força do silêncio", O Aprendiz Secreto, Vila Nova de Famalicão, Quasi, 2001, p. 11)

18.9.13

Síria e preocupações humanitárias: que opções?

Imaginemos que nos colocamos do ponto de vista estritamente humanitário e queremos diminuir o sofrimento humano do povo sírio sem escolher entre as duas opções de governo do país que parecem estar em cima da mesa. O que fazer? Esta nota de background, plena de informação, sugere que as intervenções militares de terceiras partes exacerbam esse mesmo sofrimento e provocam intensificação da acção militar e das violações de direitos humanos. A revisão da literatura que aí se faz não é optimista para os que se coloquem no problema do ângulo humanitário: intervenção precoce para prevenir o conflito (na Síria é tarde demais), actividades de monitorização e investigação (com os limites que tenha, a iniciativa russa sobre as armas químicas é inegavelmente um bom passo, mas absolutamente localizado), missões de garantia da manutenção de paz (estamos ainda longe desse estádio). Pode parecer cínico, mas quem se coloque estritamente no ângulo humanitário perante a questão Síria tem que esperar ou pela vitória total de uma das partes ou pelo efeito da estranha lei da natureza que provoca nos contendores cansaço e vontade de negociar num certo momento e estar preparada para agir. Podemos também querer ser parte no desfecho, escolhendo entre a expansão da influência das monarquias do Golfo e o eixo hegemonizado hoje pelo Irão. Mas isso já nada tem que ver com causas humanitárias, é escolher um lado e ir à guerra e intervir para que tenha um desfecho favorável, o que sendo legítimo é outra coisa.

9.7.13

Decisão talvez mais irrevogável que a de Portas

Se consegui passar toda a crise do Governo sem ter o impulso para escrever  um comentário sobre a irrevogabilidade da decisão de Paulo Portas, as mentiras parlamentares de Maria Luís e o sucesso dos lancinantes apelos de Passos Coelho, com excepção da nota patriótica do post anterior, só pode ser porque a veia político-blogosférica está pouco saliente. 
Aproveito a ocasião e tomo a decisão  de suspender as prosas que aqui verto desde os tempos em que era quase o único socialista a não louvar quotidianamente Sócrates.
A decisão não é necessariamente irrevogável, mas é capaz de demorar mais tempo a ser revista que a saída de Portas do Governo.
Bom Verão a tod@s.

3.7.13

O relógio da crise não parou

Quem avaliar o país pelos discursos de Passos Coelho, os gestos do CDS e os silêncios de Cavaco pensará que estamos a viver uma farsa. Mas como veremos rapidamente, perante o não cumprimento de compromissos com a troika, a falta de força para os renegociar e a dificuldade de gerar plataforma governativa simultaneamente viável, sensível e realista face à gravidade da situação do país, o risco que corremos é ainda o da tragédia. A curto prazo arriscamo-nos a ser todos gregos ou cipriotas ou um misto venenoso dos males de ambos.
Portugal precisa agora de um Presidente da República real e de um Parlamento de democratas que prepare o futuro sem deixar de garantir um Governo para amanhã e para a semana que vem. Oxalá ao menos os meus amigos do Largo do Rato se não esqueçam disso na vertigem do regresso ao poder. Precisamos de ir a eleições depressa, mas sem Passos nem Portas nem vazio governativo de meses. Governo de salvação nacional, forte e credível, já. O relógio da crise não parou.

1.7.13

RMG - 17 anos já é algum tempo

No dia 1 de Julho de 1996 o Rendimento Mínimo Garantido entrou em vigor sob a forma de projecto-piloto de base territorial. Lançavam-se as bases para as parcerias sociais que haveriam de frutificar noutras medidas e criava-se a peça que faltava no edifício da protecção social portuguesa. A quem à direita fez tudo para que a medida não nascesse invocando que uma vez criada seria irreversível há hoje que dar razão - era irreversível. A quem dizia que seria incontrolável, há que lembrar que as dificuldades do Estado como regulador andaram por outras bandas que não as sociais.
Em 1996 não sabíamos se o RMG sobreviveria. Mas sabíamos que era necessário. Não imaginávamos é que em 2013 ainda o fosse tanto. 
Entretanto mudaram-lhe o nome, mas que importa o nome? Também o desfiguraram um pouco, mas nada que a sensibilidade social e o bom-senso não consertem com facilidade, nem que seja só na próxima esquina da alternância.

11.6.13

Os polícias e os censores sempre foram maus semiólogos.

Sei por experiência própria que quando alguém escuta o que dizemos tem muita dificuldade em sair do seu quadro interpretativo pré-definido e ainda maior dificuldade em fazer leitura não literais e denotavas das palavras que ouve ou lê, para não falar da elevada capacidade de imaginação de contextos e sentidos alternativos para as palavras com que é confrontado.
Antes de o saber por essa terrível e inesperada experiência já o sabia por conhecimento histórico. A nossa história tem muitas histórias para contar de coisas inocentes que foram ditas e transformadas em factos de lesa-majestade por má interpretação (e em abono da verdade tem também uma boa colecção de casos de sentido oposto).
Os polícias e os censores sempre foram maus semiólogos. Isso devia ser razão suficiente para nos indignarmos e revoltarmos contra a tentativa de usar as capacidades tecnológicas para ver, ouvir e ler tudo o que todos os cidadãos dizem a respeito de tudo.
Temos necessariamente que correr colectivamente o risco de haver cidadãos espiados quando há causas prováveis de suspeita contra eles (mesmo assim garantindo que esse poder é limitado contra abusos). Mas se aceitamos que todos possam ser suspeitos de tudo sem que nada aponte para isso estamos a caminhar para um panóptico que por cada "mau" que apanhe destruirá a vida de centenas ou milhares de "bons".
Nada sei sobre as motivações do whistleblower do escândalo PRISM, mas sei que também não gostaria de viver numa sociedade que aceite a ideia de que há quem possa saber tudo sobre todos e que muito provavelmente essa sociedade caminharia inevitavelmente para a realização das utopias negras que conhecemos da literatura e da história, num tempo em que a tecnologia era infinitamente mais limitada.

Simple Minds, Mandela Day, Wembley, faz hoje 25 anos

Os Simple Minds foram a primeira banda a responder à chamada para o concerto de Wembley pelos 70 anos de Mandela, então preso há 25 anos. Foram também a única a compôr uma canção especialmente para o evento. Cantaram-na assim, faz hoje vinte e cinco anos.

9.6.13

Em Tavira, com Sérgio Mestre. Gostava de estar na vossa festa, pá.



2003 foi um ano para esquecer. Entre outras e muitas maldades, calou a flauta transversal  que brilhava discretamente em boa parte da música popular portuguesa pela mão do Serginho.
Conheci-o num espectáculo de solidariedade com a América Latina organizado por um grupo a que eu pertencia (o GSAL) e onde ele ia tocar com Vitorino, um dos que hoje se juntam em Tavira num festival com o seu nome.
Sérgio Mestre era um daqueles músicos que olham com displicência para tudo o que tem a ver com a vida comum dos mortais, apenas para se transfigurarem em algo perto da transcendência quando a música os penetra. O seu som continua por aí. Infelizmente não abunda na net, identificada como tal. Numa pesquisa rápida descobri apenas este cantinho no myspace, que não é representativo mas é ilustrativo.
A sua vida está também metaforizada na sua morte. Sentiu-se mal num concerto de homenagem a Adriano Correia de Oliveira, acabou o espectáculo e morreu. Se a morte lhe tivesse pedido opinião, era capaz de não ter escolhido um cenário muito diferente.
Gostava de estar na vossa festa, pá.