15.4.14

É mesmo? Já?

A.R. deu conta da notícia da maior actualidade. Eu fiquei a pensar nos efeitos que tem para a confiança na justiça um cidadão ter que recorrer ao Supremo Tribunal de Justiça para ver reconhecido que, em Portugal, em processo penal, é admissível a remessa a juízo de peças processuais através de correio eletrónico.

14.4.14

O difícil convívio da educação com a democratização e o trabalho

A educação conviveu mal com a democratização. São populares, mesmo nas elites sociais, as conceções neoelitistas que associam as estratégias reais de democratização a dois termos fortemente pejorativos: o “eduquês” e o “facilitismo”, para desvalorizar as pedagogias, estigmatizar a inovação no desenvolvimento curricular e na avaliação das aprendizagens.
Portugal geriu mal, também, a relação entre a educação e o trabalho. A evolução tecnológica, as transformações organizacionais e o desenvolvimento da sociedade conhecimento requerem da escola que participe ativamente da socialização para o trabalho de todos e para todos os tipos de trabalho. A boa escola educa para o trabalho, educa pelo trabalho e prepara para a profissão.
O trabalho é uma atividade – de produção de um bem, de prestação de um serviço ou de desempenho de uma função – com utilidade social e valor económico, desempenhado com recursos a uma tecnologia e num contexto organizacional determinado.
Educar para o trabalho é educar todos para os requisitos de um desempenho profissional, nas atitudes, no domínio das tecnologias e na socialização para os contextos organizacionais em que ocorre, o que implica, conhecer hierarquias, colocar-se em relações verticais e horizontais em processos colaborativos.
Educar pelo trabalho é educar todos pela criação de atividades que se finalizem na produção de algo com utilidade social e valor económico. Implica aprender que essa finalização com sucesso, num tempo preciso e com qualidade adequada, é condição de sucesso.
Aprender uma profissão corresponde a obter as competências necessárias ao desempenho de uma atividade específica. Cada um terá que, numa sequência de aprendizagem adequada,  no nível educativo próprio, aprender a sua ou as suas profissões.
A escola democrática devia incorporar essas três dimensões. Mas aquilo que o neoelitismo nos propõe é a redução da relação entre educação e trabalho à aprendizagem de certas profissões e o reforço da relação entre ensino vocacional e percursos de insucesso educativo, apostando agora num ensino vocacional básico e secundário e num ensino superior de curta duração, que propagam a ideia de que aprender uma profissão é destino de quem “não aprende”.

Quem hoje comanda a educação parece não ter aprendido nada com os desafios que o século XX trouxe quer a esta quer ao trabalho.

(contributo para uma tertúlia das Inquietações Pedagógicas, publicado no Jornal de Letras, Artes e Ideias, Março de 2014) 

10.4.14

Joschka Fischer sobre como Putin deve acordar a Europa para os perigos que enfrenta

"For far too long, the West has harbored illusions about Vladimir Putin’s Russia – illusions that have now been shattered on the Crimean peninsula. The West could (and should) have known better: Ever since his first term in office as Russian president, Putin’s strategic objective has been to rebuild Russia’s status as a global power.
(...)
Europeans have reason to be worried, and they now have to face the fact that the EU is not just a common market – a mere economic community – but a global player, a cohesive political unit with shared values and common security interests. Europe’s strategic and normative interests have thus re-emerged with a vengeance; in fact, Putin has managed, almost singlehandedly, to invigorate NATO with a new sense of purpose.
(...)
The EU peace project – the original impetus for European integration – may have worked too well; after more than six decades of success, it had come to be considered hopelessly outdated. Putin has provided a reality check. The question of peace in Europe has returned, and it must be answered by a strong and united EU."

Leia na íntegra: http://www.project-syndicate.org/commentary/joschka-fischer-argues-that-the-eu-is-now-in-a-fundamental-strategic-struggle-with-russia#ytdZaq8YJtFDBA9z.99

30.3.14

Há 40 anos revolucionários e sectários, hoje respeitáveis e frios?

Quando fui com os amigos do CIDAC, onde na altura pertencia ao Grupo de Solidariedade com a América Latina, ao funeral de José Afonso, uma amiga de todos os que por esse colectivo passaram, a nossa Mimi, contou-me, a mim, que era o único que não tinha idade para lá ter estado, de um grande canto livre no Coliseu, pouco antes do 25 de Abril, em que "o Zeca" só estava autorizado pela censura a cantar o "Milho Verde" e a "Grândola Vila Morena".
A sua descrição era fascinante para um antifascista que era criança quando o fascismo morreu. Contou-me emocionada da existência de bufos na sala, do receio de carga policial e de como, mesmo assim, nada afectava a energia revolucionária lá dentro. Disse-me que o público tentava que "o Zeca" cantasse as outras, "aquelas" canções e que ele respondia atacando o refrão do "Milho Verde".
Hoje um amigo fez-me cair no mail a sua versão desse mesmo concerto, muito mais abrangente, pois a Mimi apenas queria nesse dia falar da sua grande perda.
Das duas histórias que assim recebo, retenho quanto o entusiasmo é simultaneamente generoso e cruel. Fico a saber que a Grândola como senha para o 25 de Abril pode ter nascido ali, no mesmo dia em que Ary era vítima de homofobia e Tordo e Paulo de Carvalho quase vistos como colaboracionistas. Como, amigos, depois da Tourada e Depois do Adeus?
A história tem sempre os seus românticos, os seus romances e as coisas que mais tarde os seus protagonistas gostavam que tivesse sido diferente.
Mas, da história da Mimi do GSAL e do relato do LMC não me sobram dúvidas. A ditadura tinha dificuldade em conter aquela gente, podia era estar convencida que eles nada representavam. Comparando mal, é como se hoje alguém enchesse o pavilhão antigamente chamado atlântico para cantar uma alternativa e achássemos que isso nada queria dizer. Mas a Arena Meo só enche para quem não contesta e não é preciso polícia por fora nem por dentro e somos livres. talvez por isso também menos sedentos de alternativas e, ao que me diz quem lá foi, com plena vontade de evocar o que nos resta da energia revolucionária, o concerto celebrando os 40 anos desse original, tenha sido muito mais como a nossa democracia, respeitável e frio.

PS. Irene Pimentel publicou no Jugular o registo histórico desse concerto de 29 de Março de 1974.

23.3.14

In memoriam Adolfo Suarez

Espanha não teve revolução. O ditador sonhou ser sucedido por um rei educado por si e nos seus valores e que o sistema político não fizesse o aggiornamento com o fim-de-século que se aproximava. Franco, felizmente, errou na parte do seu raciocínio que dependia de terceiros. Juan Carlos revelou-se um rei com vontade de conviver com uma democracia plena e Adolfo Suarez construiu-a. 
A história não produz contra-prova, mas, se Marcelo Caetano tivesse a fibra de Adolfo Suarez, Portugal teria chegado à democracia antes de ou pelo menos com o Portugal e o Futuro. É certo que Suarez não tinha pela frente uma guerra colonial tão tragicamente apelativa do imaginário da direita nacionalista. mas seguramente teve a coragem que faltou a Caetano e um rei muito mais capaz de o auxiliar que o Presidente Américo Tomás. 
A revolução não fez mal a Portugal, antes pelo contrário. mas os homens de coragem merecem que se sublinhe o que fazem na história. Adolfo Suarez merece um lugar nesse panteão.

21.3.14

Bauman: " a política não tem poder e o poder não tem controlo político"

"Poder es la capacidad de hacer cosas, política es la capacidad de decidir qué cosas hacer, de elegir. Los gobiernos tienen políticas, programas, pero no el poder para aplicarlos. Antes, los gobiernos tenían el poder y hacían política. Eso ya se acabó porque el poder emigró y es global, pero la política sigue siendo tan local como hace 400 años. La política no tiene poder y el poder no tiene control político. En esa situación, las clases medias cada vez influyen menos, y eso es un peligro mayor para la democracia." (Leia a entrevista de Zygmunt Bauman ao El Tiempo, em castelhano, aqui ou no blogue Sociologos Plebeyos, onde a encontrei.

19.3.14

A "aceitação" da Crimeia na Rússia deve fazer tocar o despertador daEuropa

A Rússia tem interesses e força suficientes para "aceitar" a integração da Crimeia sem que a comunidade internacional possa fazer algo mais do que gestos inconsequentes e dirigidos à opinião pública no curto prazo para o evitar. Sem orejuízo das sanções que se imporão - e que como escreve o think-tank Brueghel - têm que ser vistas também pelo seu impacto nos países que a imporão, há que pensar a resposta a este acto na perspectiva de médio e longo prazo.
Com este conflito por resolver, a integração da Ucrânia na NATO - que já não ocorreu porque os parceiros europeus reconheciam como legítimos os interesses de segurança russos no país - fica definitivamente excluída por muito tempo. 
Mas é a altura de saber se a União Europeia pode ser o embrião de uma nova potência política de nível mundial. A íntegração da Ucrânia na União Europeia é a única forma de impedir que o país volte com maior ou menos conflitualidade para a esfera de influência russa. Mas a União Europeia tal como existe não poderá absorver este país. Como dificilmente poderá incluir a maior parte dos países do sudeste europeu ou a Turquia.
Se a este puzzle acrescentarmos a dificuldade de o Reino Unido conviver com o a profundamente federalista da União, a crise ucraniana pode ser a nossa wake-up call. A Europa de geometria flexível, com um anel alargado de menor exigência de integração que o actual pode ser o único caminho para evitar o regresso à confrontação entre o eixo atlântico e a Rússia com fronteiras a mover-se como placas tectónicas entre o centro e o leste da Europa.
Para preparar a Europa para integrar a Ucrânia, a Turquia, os Balcãs orientais e para não perder o Reino Unido, é necessário preparar uma reforma institucional de sentido oposto às que tivemos nas últimas décadas, que crie uma forma de participação, real e mitigada, de escolha dos países que queiram ser "regiões especiais" da União.
É a hora de pensar a Europa como projecto de paz que transcende a paz entre a França e a Alemanha. Ou, se preferirem, de acolher uma segunda geração de país fundadores. desde que surjam os protagonistas com essa visão. Ou, senão, não teremos resposta para os movimentos da placatectónica  geopolítica que atravessa de sul para Norte o eixo mar negro-Báltico.


15.3.14

Até o beijo no cinema Thomas Edison inventou

Não é seguramente o mais cinemático beijo da história do cinema, nem os seus protagonistas brilhariam pelos padrões estéticos contemporâneos, mas este é o primeiro beijo da história do cinema, filmado em 1896. Até o beijo holliwoodesco Thomas Edison criou.

14.3.14

O Corpo Expedicionário Português na 1ª Guerra Mundial: uma refeição quente nas trincheiras

O corpo expedicionário português levou consigo um fotógrafo, Arnaldo Garcez. Carlos Silveira escreve que os arquivos das forças armadas portuguesas têm mais de 2000 fotografias desse pioneiro da fotografia de guerra. Mas essas imagens não estão, ou eu não as consegui ver, online e disponíveis no contributo português para a Europeana 1914-1918, o que, se não é erro meu, é de lamentar. Nesta exposição virtual há, contudo, fotografias do Corpo Expedicionário Português, da autoria de John Warwick Brooke, fotógrafo militar inglês. Esta, retratando uma refeição nas trincheiras, é uma das que estão online e integram a colecção dos Museus de Guerra britânicos.


THE PORTUGUESE EXPEDITIONARY CORPS ON THE WESTERN FRONT, 1917-1918
 
THE PORTUGUESE EXPEDITIONARY CORPS ON THE WESTERN FRONT, 1917-1918© IWM (Q 5566)
Pas-de-Calais, 25 de Junho de 1917
Fotografia de John Warwick Brooke
Colecção: Imperial war Museums, via Europeana 1914-1918