Mostrar mensagens com a etiqueta troika. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta troika. Mostrar todas as mensagens

11.11.12

O eterno retorno do erro sectário do Bloco de Esquerda

O Bloco de Esquerda continua enganado no adversário principal,  ao concentrar as suas energias na troika. E continua incapaz de ver o PS como uma força com a qual há que dialogar, com respeito pela sua influência social e política no país. O que diminui em vez de aumentar a possibilidade de o país ser governado pela esquerda.
O Bloco fala como se Passos Coelho fosse uma marioneta da troika. Pelo contrário  a troika é um aliado de ocasião das ideias que ele tinha antes de imaginar que ela chegaria a Portugal. Recomendo, pois, aos estrategas bloquistas a leitura deste documento da campanha de Passos Coelho contra Ferreira Leite, em Maio de 2008. Já então dizia abertamente pretender entre outras coisas:


O Bloco já ignorou uma vez o perigo de Passos Coelho chegar ao Governo em 2011, ao participar na tenaz esquerda-direita que derrubou Sócrates e fazer campanha com a ideia de que Passos Coelho não seria um Primeiro-Ministro diferente de Sócrates. Repete agora, acho, o erro ao ter como slogan "vencer a troika" estrangeira e não a direita caseira. Penso que já é visível para quem o queira, que há outra forma de ser interlocutor da troika e que vêm do próprio BCE e do FMI sinais de abertura para alternativas que Passos Coelho obstinadamente recusa em vez de esforçadamente procurar ampliar. Passos acredita na receita que está a aplicar, não está obrigado a ela. E esse é o nosso maior problema. A troika é apenas um problema sério, mas de segundo nível. Veja-se como, na própria direita europeia, Espanha gere de modo diferente a crise ou como os tecnocratas italianos procuram navegar nos interstícios de oportunidade que existem. Mas o Bloco prefere atacar a troika, consciente de que com isso se demarca inexoravelmente do PS em vez de atacar o PSD abrindo a porta a soluções políticas de entendimentos concretos com este.
Com o caminho que seguiu este fim-de-semana, o Bloco de Esquerda está em força nas primárias da esquerda populista, disputando ao PCP o apelo a um eleitorado que sofre as consequências destas políticas,sem lhes compreender as causas nem vislumbrar alternativas viáveis, mas retira-se do caminho da construção de uma alternativa de Governo de esquerda.
Dir-me-ão os amigos da maioria bloquista que não, que o Bloco anunciou o "verdadeiro" governo de esquerda. Esse que eles imaginam há-de chegar quando as massas revoltadas queimarem o Memorando em cerimónia pública no Terreiro do Paço e a insurreição popular generalizada na Europa tiver derrotado todas as comissões executivas da burguesia. Radio Tirana anunciava algo parecido há uma décadas.
Ao não perceber que a prioridade devia estar na construção de alianças concretas sobre políticas concretas e não na criação de zonas demarcadas de objectivos finais como a expulsão da troika, o Bloco auto-marginalizou-se do espaço das alternativas de Governo ao PSD-CDS e enfraqueceu a esquerda como um todo. Oxalá os portugueses não se enganem na avaliação deste erro crasso da nova liderança do BE e os que querem reforçar o espaço dessas alternativas tenham força suficiente e protagonistas capazes.

20.9.12

Portugal em marcha à ré: disparem as críticas ao cérebro e não ao braço direito, ao Governo e não à troika

Não é necessário partilhar a visão do mundo de Eugénio Rosa para lhe agradecer o trabalho de compilação e análise de dados e ler com os nossos próprios olhos a informação que disponibiliza com sistematicidade e rigor. No seu último estudo, os dados sobre importações e exportações apontam para um caminho - ainda antes de sabermos o que aconteceu em 2011 - de queda signficativa das importações ligadas ao investimento e de prosseguimento da orientação para baixo (em termos de incorporação tecnológica) no nosso perfil de exportações.
A nossa crise não é só de contracção do mercado, é de redução do ritmo de preparação para o futuro enquanto continuamos a sorver a bolha de oxigénio da orientação exportadora dos sectores menos avançados da economia que buscam alternativas à falência. E, imagine-se porquê, crescemos a nossa venda ao exterior de metais preciosos (lá se vão os anéis e as arrecadas das avós).
Se não invertermos a tendência, a queda do nosso PIB potencial é inevitável e a degradação estrutural da situação económica do país só pode ser evitada por um improvável milagre induzido do exterior.
A isto, podem chamar empobrecimento ou perda de rumo, mas o que mais temo é que seja a desnatagem dos segmentos mais modernos da nossa economia. Isto é que estejamos perante numa crise que atrasa; sem nenhum dos potenciais efeitos benéficos das crises que restruturam. Este tipo de processo gerou profundas crises sociais em todos os países que aconteceu, da América Latina dos anos oitenta ao Leste Europeu do fim do comunismo. E, neste processo, aumentar a competitividade pela desvalorização fiscal brutal,  é mais um passo no caminho para trás, nem sequer é uma paragem para reorganizar forças e ganhar fôlego.
Acresce que este caminho - ideia que me separa da esquerda antitroikista - só parcialmente é induzido pela troika. Sim, há constrangimentos fortes da tecnocracia que nos passa cheques e examina periodicamente. Mas o caminho para o desequilíbrio é mesmo conduzido pela falta de imaginação ou pelas convicções profundas dos lunáticos que nos governam em nome dos dois partidos em quem os portugueses livremente votaram e que de peito feito sempre prometeram ir além da troika. Nisso, os portugueses não se podem dizer enganados. É certo que o PSD e o CDS foram alem da troika em marcha à ré, mas que podia esperar-se de diferente dos seus radicais ímpetos "reformistas"?
Daqui deriva que, para mim, os que estão a orientar o descontentamento popular para virar as armas contra a troika em vez de o fazerem contra o Governo - como fazem os meus amigos que reduziram o Congresso das Alternativas a uma assembleia geral dos Ladrões de Bicicletas - é má pontaria: atira ao braço direito e não ao cérebro do problema.