11.6.13

Os polícias e os censores sempre foram maus semiólogos.

Sei por experiência própria que quando alguém escuta o que dizemos tem muita dificuldade em sair do seu quadro interpretativo pré-definido e ainda maior dificuldade em fazer leitura não literais e denotavas das palavras que ouve ou lê, para não falar da elevada capacidade de imaginação de contextos e sentidos alternativos para as palavras com que é confrontado.
Antes de o saber por essa terrível e inesperada experiência já o sabia por conhecimento histórico. A nossa história tem muitas histórias para contar de coisas inocentes que foram ditas e transformadas em factos de lesa-majestade por má interpretação (e em abono da verdade tem também uma boa colecção de casos de sentido oposto).
Os polícias e os censores sempre foram maus semiólogos. Isso devia ser razão suficiente para nos indignarmos e revoltarmos contra a tentativa de usar as capacidades tecnológicas para ver, ouvir e ler tudo o que todos os cidadãos dizem a respeito de tudo.
Temos necessariamente que correr colectivamente o risco de haver cidadãos espiados quando há causas prováveis de suspeita contra eles (mesmo assim garantindo que esse poder é limitado contra abusos). Mas se aceitamos que todos possam ser suspeitos de tudo sem que nada aponte para isso estamos a caminhar para um panóptico que por cada "mau" que apanhe destruirá a vida de centenas ou milhares de "bons".
Nada sei sobre as motivações do whistleblower do escândalo PRISM, mas sei que também não gostaria de viver numa sociedade que aceite a ideia de que há quem possa saber tudo sobre todos e que muito provavelmente essa sociedade caminharia inevitavelmente para a realização das utopias negras que conhecemos da literatura e da história, num tempo em que a tecnologia era infinitamente mais limitada.

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