Mostrar mensagens com a etiqueta de passagem pelo banco. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta de passagem pelo banco. Mostrar todas as mensagens

26.8.14

Os vivos e os mortos

A própria identidade de Gabriel esvanecia-se num mundo cinzento e palpável: o mundo sólido em que aqueles mortos outrora tinham vivido começava a dissolver-se e a desaparecer.
(James Joyce, OS MORTOS/Dublinenses)

A minha avó Leonor, mãe do meu pai, morreu em Junho de 1985, há quase 30 anos, a cinco dias de completar oitenta e cinco anos. Tinha nascido em 23 de Junho do ano 1900. O meu avô, António, morreu em Dezembro de 1984 e ela, na prática, desistiu de viver, depois de 62 anos juntos, indo ter com ele de novo, exactamente seis meses depois.
Quando eu era miúdo de escola primária, moravam no fundo do povo, no outro extremo da aldeia, vindo morar para perto de nós, no cimo do povo, para a casa que os meus pais lhes construíram. Viviam no piso de cima e em baixo era a adega, o alambique e a criação do vivo, como sói dizer-se por lá no que respeita a porcos, galinhas, coelhos e afins. E tinham sempre um(a) burro(a) para auxiliar em transportes, regas e lavragens. Esta mudança ocorreu há para aí 50 anos. Tenho uma vaga memória de quando moravam no fundo do povo e era uma festa quando ia para casa deles, a mais de um quilómetro de distância. Naquele tempo era quase o fim do mundo...
Há dias, agora em Julho, a minha avó recebeu uma notificação das finanças por causa do pagamento do IMI de 2011 e 2012 da casa de que se desfizeram há para aí meio século e nunca entrou em sucessivas habilitações de herdeiros, desde que o meu avô morreu.
Lá tivemos de ir às finanças limpar a honra da nossa avó...
Avó: onde quer que esteja fique sossegada, os seus netos já resolveram o assunto. Não vai precisar de voltar cá como aquela malta que tinha quotas em atraso...
 
(Uma crónica de LMC)

25.4.14

O mágico que escrevia ao som dos boleros do pequeno gigante

(Uma crónica do LMC)
La vida no es la que uno vivió,
sino la que uno recuerda y como la recuerda para contarla
Gabriel García Márquez, Vivir para contarla (2002)


Já quase tudo foi dito. Muitos rancores ficaram (temporariamente) congelados nas gavetas, ao longo destes dias. A quase unanimidade dói. Soa a falso.
Sou suspeito. Li quase tudo o que foi dado à estampa do jovem Gabito ao velhoGabo, de seu nome completo Gabriel José de la Concordia García Márquez, nascido na Colômbia, sabe-se lá se em 1927 ou 1928, sendo apenas um dos dezasseis filhos do telegrafista de Aracataca.

Na minha estante, tudo devidamente alinhado e sempre ao alcance da mão, corresponde a quase meio metro, só superado em extensão e quantidade, no panorama hispano/latino-americano, pelo Manuel Vásquez Montalbán. Encostados à direita do Gabo está uma boa dúzia de livros do Mario Vargas Llosa que me dá gozo ler, com muito orgulho, mas, como não sou hipócrita, com algum preconceito.

Tenho e li grande parte na edição castelhana. Prefiro. Sem desprimor, por exemplo, para a soberba tradução que o saudoso Fernando Assis Pacheco -  companheiro ocasional, com a Edite Esteves e o Afonso Praça, nos cafés da Rodrigues Sampaio onde todos faziamos pela vidinha no primeiro quartel da década de oitenta do século passado - fez para a primeira edição portuguesa daCrónica de uma Morte Anunciada,editada por O Jornal, em Julho de 1983 (o original é de 1981) e me custou a módica quantia de 340 escudos (lembram-se?).

Mas o que aqui me traz agora é algo que pensei partilhar no início deste ano da graça de 2014, mas que, vá lá saber-se porquê, acabei por deixar cair na voracidade dos tempos e, ora, em tempos de mortes confirmadas, recupero.

No dia 5 de Janeiro deste ano morreu no Brasil, vítima também de problemas respiratórios, o pequeno grande cantor e compositor de charme Nelson Ned. Sofrendo de nanismo atingiu na idade adulta apenas 1,12 metros, mas tinha um vozeirão daqueles. Nessa ocasião foi tornado público que o grande GGM escrevia ao som da voz do cantor romântico, depois brega e nos últimos anos de inspiração e feição evangélica de onde se destacam, entre outros êxitos, Se eu pudesse falar com Deus, Quando eu falo com Jesus Oração do Aflito. Em 45 anos de edições discográficas, Nelson Ned vendeu 45 milhões de cópias, o equivalente a um milhão por ano.

   
O bolero é a vida, Gabo disse um dia, confessando que escrevia muitas vezes ao som da música de Nelson Ned. Embora não me lembre de escrever ao som de Nelson Ned (tenho como banda sonora de fundo os discursos esta manhã na AR...), ele também faz parte da minha vida e do meu território afecto-auditivo. Eu tinha 16 ou 17 anos quando surgiram os primeiros êxitos, a começar pelo Tudo Passará (Mas tudo passa, tudo passará/E nada fica, nada ficará/Só se encontra a felicidade/Quando se entrega o coração), passando pelo Se as flores pudessem falar (Hoje eu lhe mando essas flores/Que eu colhi de um jardim/Na esperança de que você se lembre/Um pouquinho de mim), sem esquecer esse magistral bolero Domingo à tarde que saltava das cornetas das aparelhagens sonoras das festas e romarias das nossas aldeias beirãs. Quem seria capaz de resistir à voz arrebatadora do pequeno gigante da canção (título da sua biografia), sublinhando letra a letra verso a verso, de forma límpida e cristalina: O que é que você vai fazer domingo à tarde/Pois eu quero convidar você para sair comigo/Passear por aí numa rua qualquer da cidade/Vou dizer pra você tanta coisa que a ninguém digo....

Nós éramos jovens viçosos, borbulhantes, sinais exteriores de penugem, a dar os primeiros passos no faça você mesmo, ainda não conhecíamos o Gabo, mas conhecíamos de cor e salteado os trauteantes boleros que tanto o inspiraram. Não líamos Gabito, mas devorávamos toda a magia da velha colecção Emílio  Salgari e outras coisas mais arrojadas, sob a superior recomendação do José Ferreira Monte (poeta nobre da paixão e luta, autor da letra de duas das famosas canções heróicas do Coro do Lopes Graça) na sua tribuna da biblioteca itinerante da Gulbenkian que regularmente passava lá pela terra.

Da corneta sonora do aparato televisivo, Cavaco aconselha que é tempo de abandonar as políticas de vistas curtas...depois, toca o hino.

Volto a Gabo. Na imprensa deste fim de semana, os últimos textos, as última homenagens. Tal como Nelson Ned, Gabo começa agora a ficar em paz. Tudo passa, tudo passará, mas algo fica... ficará?


  O quarto ficou submerso numa atmosfera silenciosa, dentro da qual não se ouvia nada a não ser o lento e sereno esvoaçar da morte (...) 
(GGM, A Revoada).

Saravá, Nelson! Hasta siempre, Gabo!

LMC

8.4.13

Como o massacre de Wiriamu chegou ao Congresso da Oposição Democrática -O Luís Costa conta

A MINHA PARTICIPAÇÃO NO CONGRESSO DA OPOSIÇÃO DEMOCRÁTICA REALIZADO EM AVEIRO DE 4 A 8 DE ABRIL DE 1973

Ao ler o Público de hoje deparei com um artigo titulado Em Aveiro, a 8 de Abril de 1973, assinado por Mário Vale Lima, médico, que recupera a sua memória da participação no 3º Congresso da Oposição Democrática que decorreu em Aveiro de 4 a 8 de Abril de 1973.

Faz hoje 40 anos e também lá estive o que também constituí a minha primeira visita à cidade de Aveiro.

Julgo que tem algum interesse e curiosidade, pelo que do fundo da minha memória e claro do fundo do meu baú, recupero e partilho parte do que guardo daquele dia memorável.

Em Abril de 1973 tinha 19 anos, vivia em Algés, estudava no então ISCSPU, tinha um trabalho de tarefeiro para fazer o recenseamento da Guiné no então Ministério do Ultramar, arranjado pelo Luis Magueijo, que era lá contínuo e meu conterrâneo, atividade que assegurava o meu sustento, depois de nos primeiros tempos em Lisboa, depender da ajuda familiar, completada pelos rendimentos que ia obtendo como estivador no porão do Madeirense e do Funchalense, situação intermediada pelo Manuel Prata, primo do meu pai, em cuja casa vivi nos tempos iniciais, que era Guarda Fiscal, responsável pelo bar na Rocha do Conde de Óbidos, muito frequentado pelos meus temporários colegas de estiva.

Na vida participativa, obviamente na esquerda do possível, com ligação não orgânica ao Partido e envolvido em actividades UEC, dirigente (não homologado pelo Ministério da Educação) da AA do ISCSPU, escrevia no jornal República, suplemento Técnica e Civilização, era responsável da secção de cinema do Primeiro Acto - Clube de Teatro em Algés e com ligações à base da CDE nesta localidade do concelho de Oeiras, na fronteira com Lisboa.

Em Algés havia uma classe média muito politizada com um centro de referência na baixa de Algés, polarizado pela casa da Silvina, mãe da Rita Blanco, por cima da pastelaria Nortenha. Aqui apareciam intelectuais, escritores, editores, músicos, as duas referências na crítica de televisão, Mário Castrim (Diário de Lisboa) e Correia da Fonseca (República) e membros do Coro da Academia dos Amadores de Música, incluindo o Maestro Lopes Graça, visita habitual da casa.

Em Algés de Cima havia um número considerável de pessoas, alguns casais, activas na oposicrática com actividade profissional na educação, na função pública, na propaganda médica, nos serviços. Estas duas realidades não tinham muitos pontos quotidianos de contacto, havendo uma espécie de ponte assegurada pelo, chamemos-lhe assim, Algés do meio, onde de resto fisicamente moravam o Madeira Luis, a Virginia e este vosso escriba.

Em conjunto assegurámos participação em diversas iniciativas da resistência, de que aqui recupero um grupo significativo no funeral do Ribeiro dos Santos, em Outubro de 1972 - fizemos o caminho a pé de Santos até ao cemitério da Ajuda a correr à frente da polícia - bem como na reunião da oposição em Benfica, no início de 1974, sob a alçada formal da Cooperativa Forja, de que resultaram dezenas de activistas detidos e levados para o Governo Civil de Lisboa no Chiado. Eu e a Isabel Tavares da Cruz, com o marido já retido em Paris com mandato de captura da PIDE, tinhamos saído momentos antes da invasão policial para irmos preparar o jantar em casa dela onde todos nos juntariamos depois. Afinal passámos o resto da noite em frente ao Governo Civil a protestar contra a repressão e a exigir a libertação dos detidos.

Foi neste caldo de cultura que se criaram as condições para participar no Congresso de Aveiro. Foi-me atribuída uma missão que executei com sucesso. Era tempo dos massacres em Moçambique (Tete), de que o rosto mais visível era o massacre de Wiriamu, na sequência das denúncias do padre Hastings. Chegou-nos um texto e a missão era disseminar a informação.

Nos terrenos em que me movia, arranjei 5 resmas de papel e 4 stencils. Pedi à Virginia para me emprestar a máquina de escrever. Letra a letra para ficar tudo direito e rentabilizar até ao limite os meios disponíveis, enchi as quatro folhas com o máximo de informação possível a partir do texto recebido.

Como era responsável na secção de cinema e tinha chave de entrada, na noite de sexta para sábado, de 6 para 7 de Abril, fui ficando no Primeiro Acto e quando fiquei sozinho comecei a imprimir no policopiador. À mão, página a página, cerca de 5000 impressões, frente e verso. A máquina estava junto à janela que dava para a rua e não devia fazer barulho. Tinha a luz apagada. Seguiu-se a operação agrafo. Deliberadamente só já de dia saí à rua com um saco de viagem recheado em direcção ao serviço de entrega.

No Domingo, 8 de Abril, fui pela fresca ter a casa do Moisés e da Milú para rumarmos a Aveiro. Ele era delegado de propaganda médica de uma multinacional alemã, ela trabalhava nos Hospitais Civis de Lisboa. No meio dos folhetos e das amostras lá ia uma boa parte dos documentos reproduzidos. Chegámos a Aveiro a meio da manhã (não havia ainda autoestrada...), já depois da carga policial que impediu a romagem à campa de Mário Sacramento.

Aveiro estava cercada pela força policial. Os automóveis não podiam entrar pelo que fomos a pé da estrada nacional até ao centro de Aveiro. Só mais tarde o Moisés pode ir buscar a viatura e entrar na cidade. Incorporámo-nos no Congresso já em fim de festa, num quadro de alguma euforia porque a repressão não foi capaz de travar o prosseguimento dos trabalhos. Teatro Avenida repleto, incluindo nos bastidores. Aí tomei contacto e falei longamente com o Malaquias Abalada de Alpiarça, oriundo do operariado agrícola e que viria a ser deputado na Constituinte onde protagonizou alguns debates que fazem parte dos anais parlamentares. Na minha (in)genuidade de jovem revolucionário sempre acreditei no princípio leninista da aliança operária e camponesa como motor da revolução...

Ao fim do dia apanhei o rápido (julgo que era assim o nome dos actuais combóios alfa) para Lisboa. A Milú tinha tirado férias e ia acompanhar toda a semana o Moisés no Norte na distribuição da propaganda...médica!

Foram feitas recomendações especiais a respeito dos regressos. A políca tinha tentado travar autocarros, dificultar a mobilidade, impedir que as pessoas chegassem a Aveiro. Era de recear actos repressivos nos regressos. Os comboios e as estações estavam rigorosamente vigiadas. Subi a Lourenço Peixinho até à estação de Aveiro. Naquele tempo a malta de esquerda usava uma bolsa, tipo alforge, antepassado histórico das mochilas. Eu tinha uma de camurça que mandei fazer num sapateiro. Vinha cheia de documentos que colhi no Congresso e um cinzeiro que guardo religiosamente e junto cópia em tamanho real A4.

Sem problemas em Aveiro. Discretamente instalei-me no combóio. Havia o aviso de que Santa Apolónia estava infestada de polícia e de pides. Aqui chegado, com alguma ansiedade e inquietude, avanço a passo largo e decidido para a saída em direcção ao Cais do Sodré onde apanhei o combóio para Algés. Pouco mais de 12 horas depois regressava ao ponto de partida. Missão cumprida. No meu registo memorial ecoavam ainda as palavras da carta-testamento de Mário Sacramento, lembradas por Lindley Cintra na intervenção com que encerrou o Congresso: Façam um mundo melhor, ouviram? Não me obriguem a voltar cá...


Luís Costa


19.10.12

A educação de um povo/leituras #2: Como vai ser 2013? O que dizem os anuários hortofrutícolas

O LMC continua a série de leituras instrutivas da verdade a que temos direito nos media mais lidos do país. Desta vez debruça-se sobre os respeitáveis e idosos O Seringador - Reportório Crítico-jocoso e prognóstico  e o Verdadeiro Almanaque Borda d'Água - Reportório útil a toda a gente. Antes, tinha sido a vez da Ana, da Maria  e da Mariana.



HÁ VENTOS FAVORÁVEIS A SOPRAR NAS NOSSAS VELAS?
O orçamento para 2013 vai sendo vendido ao retalho para antecipar a pouco e pouco o choque hemofilático que em todo o seu esplendor explodirá esta segunda, 15 de Outubro.
Sempre atento às dinâmicas da sociedade e na vanguarda da informação, construí a previsão para 2013, para lá do orçamento e como leitura complementar, sobre os desvarios de um povo do melhor que há, suportada  nos almanaques hortofrutícolas e usando como variáveis de controlo (reminiscências da formação em sociologia) os "estudos" do Eugénio Rosa e as "análises" do Marques Mendes. Como em 2013 passarei a ser sexagenário, assumo aqui o papel do Velho da Cartola, o homem que fazia as previsões no Borda d'Água quando tinha tiragens de 300 000 exemplares, batendo largamente a revista Maria.
Os almanaques hortofrutícolas são sempre uma boa e nobre fonte de informação, porque baseados em saber acumulado e testado: O Seringador - Reportório Crítico-jocoso e prognóstico (S) já vai no 148º ano de publicação (tiragem não revelada) e o Verdadeiro Almanaque Borda d'Água - Reportório útil a toda a gente (BdA) já leva 84 anos e declara uma tiragem de 100 000 exemplares.

Eis o nosso futuro imediato em 10 andamentos:
1. Como será o primeiro dia do resto do novo ano?
2013 (ano comum) nasce a uma terça-feira, tendo domínio sobre o fogo, assegura o BdA. Já o S garante que o facto de o ano começar a uma terça o que, segundo os Antigos (com A grande), é um dia azarento como todos os demónios e prenunciativo das desgraçadas condições em que o petiz inicia a sua carreira, que deverá ser tormentosa, prenhe de misérias, desgraças, guerras, revoluções, epidemias e calamidades de toda a ordem...(uff!). Atenção, nada de desânimos, há saída, garante o S: só Deus, em sua infinita misericórdia, nos poderá livrar, mas para isso é necessário para Ele apelarmos em súplica fervorosa.
2. Qual o  planeta dominante?
Marte, o planeta da Morte, segundo o S presidirá aos destinos de 2013 o que é uma tremendíssima espiga! O BdA é mais prosaico e considera como principais características de  Marte, os metais ferro e cobre e, desta forma, 2013 será quente, seco, masculino, noturno e pouco amigo do homem. Esta dimensão de humanidade é aprofundada pelo S que, socorrendo-se do juízo fundamentado do eminente astrólogo Alfagrano, vai mais longe. Marte é inimigo do homem (excepto dos tratantes que são seus protegidos). Outra vez, em 2013?
3. Que clima vamos ter?
Mais escorreito e prosaico, o BdA garante que vamos ter uma primavera húmida a que se seguirá um verão quente. O outono vai ser seco antecipando um inverno frio e chuvoso. Uma certeza porém: a neve salpicará de branco as terras altas.
Mais gongórico, o S garante que o inverno vai ser muito frio, chuvoso como o diabo e escuro como breu. A neve não será apenas aos salpicos, garante o S: haverá neves por uma pá velha. E o outono e o inverno? Sem dúvida, sustenta o S, o estio será quente como as fornalhas de Belzebu e o outono seco que nem um arenque.
4. E no mar, como vamos navegar?
O BdA é categórico: em 2013 as tempestades e os naufrágios serão uma constante levando assim a muitos e devastadores infortúnios. No mesmo sentido, mas de forma mais devastadora, o S garante que haverá tempestades pavorosas e naufrágios tremendos.
5. E em terra,  como vai ser a lavoura?
Vai haver pancadaria tesa, garante o S. Quanto à agro-pecuária, vamos ter falta de trigo e outros grãos, garante o S. O BdA confirma que os cereais serão escassos. Já quanto ao azeite e ao vinho, os dois oragos não coincidem: haverá mediania de azeite e bastante vinho, assevera o S. Para o BdA o azeite e o vinho serão pouco abundantes. A ver vamos!
6. E vai haver eclipses?
Não há ano que se preze que não tenha a sua dose de eclipses. Em 2013 serão 2 do Sol e 3 da Lua. Total, do sol, só em 3 de Novembro. Das 10.05 às 15.29 o oceano Atlântico e suas envolventes vão mergulhar na escuridão, no reino das trevas. Mais simbólico (premonitório?) é o eclipse parcial da Lua em 25 de Abril. O que sobrará dos "ideais" de Abril?
7. E as pessoas?
O BdA é categórico sobre o que nos espera em 2013: Nas pessoas é previsível um aumento de doenças e mortes sobretudo no sexo feminino. Seremos surpreendidos  por mortes repentinas de pessoas com bastante influência e notoriedade na vida pública do país. Cuidado notáveis de Portugal! O S vai pelo mesmo caminho. O sexo feminino será mais atingido por várias enfermidades e garante também que morrerão alguns varões ilustres e grandes - vitam cum morte commutabunt! Mulheres, cuidem-se!
8. E as crianças, senhores?
Só o BdA ousa produzir juízo, mas que a mim, que vou ser avô no início de 2013, interessa particularmente pois, os que nascerem sob o domínio  de Marte serão inimigos da paz e cheios de ira vivendo sem piedade, mentindo e enganando, pelo que exige particular atenção a seus educadores pois as crianças são difíceis de educar mas também um desafio para a própria sociedade. De um fôlego, sem vírgulas como no original. Minha rica netinha...
9. Recados que calam fundo
Os nossos oráculos também têm as suas fontes e os seus conselheiros que, em verso ou em prosa, contribuem para aprofundar o pensamento prospectivo e  consolidar a dimensão analítico-empírica  em que assentam os juízos para o ano que aí vem, se, como há quem anteveja, mas carece de confirmação, o mundo não acabar antes, mais precisamente em 12.12.12.
O S recorre à edificante verve dagrande poetisa D. Maria Emilia Dinis Rocha:
Crimes nos noticiários
Engravatados vigários
Que eu fiquei desiludida.
Desliguei a televisão
Disse um enorme palavrão
E chamei p... à vida.
Sublime!
O BdA bebe do fino. Nem mais nem menos que Plotino, esse  egípcio filósofo neoplatónico, discípulo de Sacas e mestre de Porfírio:
Se um homem procura numa vida boa algo para além dela, então não é a vida boa que procura.
Profundo!
10. Haverá saída, ventos favoráveis?
Claro que sim, mas aí as nossas fontes divergem sobre a rota, o rumo, a atitude. Depois de considerar que o vaticínio para 2013 é de arrepiar o cabelo a um careca, o S, enquanto o pau vai e vem folgam as costas, aconselha que esperemos confiados que Deus Nosso Senhor nos tome sob sua omnipotente protecção, crendo sempre que acima de todos os juízos DEUS SUPER OMNIA.
No seu (perfeito) juízo, o BdA não tem dúvidas: prever o futuro implica tomadas de decisão no presente. A luta continua: Delimitar objectivos facilita a nossa vontade de lutar e as estratégias a aplicar para atingir os fins pretendidos.
Até ao fecho desta edição não conseguimos recolher as previsões do nosso analista e do nosso estudioso, mas beneficiámos das frescas declarações públicas de Jerónimo de Sousa e de José Policarpo que convictamente confirmam estas tendências para 2013.
Afinal, vai haver revolução ou não?

8.9.12

A educação de um povo/leituras: A Ana e a Mariana (sem esquecer a clássica Maria)


O LMC foi ver o que une e divide a Ana, a Mariana e a Maria.


Faltavam poucos minutos para as oito e meia da manhã desta quarta-feira 5 de Setembro. Saio do autocarro 728 e dirijo-me ao quiosque no Cais do Sodré em frente da entrada do Metro para comprar o Público. Ao meu lado, uma senhora de meia idade dirige-se ao casal de vendedores e pergunta se têm a ANA. Já não temos, responderam, só temos a MARIANA. A potencial compradora afastou-se, nem água vai nem água vem, como se tivesse sido vítima de uma heresia. REvista só há uma, a ANA e mais nenhuma!
Fiquei de orelha guiada e num quiosque para os lados do Campo Pequeno comprei a ANA, a MARIANA e, já agora, a clássica e histórica MARIA. Por junto 1,95€ porque o preço é uniforme: 0,65€. De imediato mergulhei no universo das revistas de bolso dirigidas sobretudo às mulheres. De resto, a ANA reivindica-se de mulher para mulher e a MARIA, mais do que uma revista a sua maior amiga. Não vislumbrei especial referência na MARIANA embora ostente na capa o símbolo 100% portuguesa. Remoque?


Alguns traços em comum:

1. Longevidade

Num panorama editorial caracterizado pelo aparecimento (muitas vezes efémero) e desaparecimento de publicações, as 3 revistas revelam capacidade resistente e exibem tiragens generosas.
A MARIA já vai no nº 1765 e reclama uma tiragem média de 242 750 exemplares por edição. Contas de merceeiro, na média de 50 edições ano, a MARIA já se publica há mais de 35 anos e em cada ano venderá mais de 10 milhões de exemplares!
A ANA vai no nº 797, indica tiragem média de 58 500 exemplares por edição. Pelas mesmas contas, já sobrevive há cerca de 16 anos.
A MARIANA é mais recente, vai no nº 489, indica uma tiragem média de 50 000 exemplares, devendo andar perto de celebrar 10 anos de vida se, em qualquer dos casos, nenhuma das publicações sofreu interrupção editorial.

2. O seu a seu dono

A MARIA e a ANA pertencem ao universo IMPALA/Jacques Rodrigues. A MARIANA pertence à PRESSPEOPLE, grupo que tem uma linha editorial centrada na culinária com particular enfoque na saudável e vegetariana, para além de uma linha de publicações em torno dos astros, salmos e orações poderosas.
Para quem como eu tem um pós-doc em vida social, tirado na prestigiosa universidade de Marbella, dei conta agora que o grupo IMPALA tem 4 publicações, dirigidas (particularmente) a mulheres das classes D (MARIA), C (ANA), B (NOVA GENTE) e A (VIP). Curiosamente o tamanho é também crescente sendo a MARIA a minorca e a VIP a que tem uma superfície mais ampla.
A MARIANA, suponho que corresponde a um trocadilho ou provocação no ataque ao domínio IMPALA (MARIA¨+ANA), tem um tamanho intermédio, maior que a MARIA, mais pequena que a ANA.

3. Temáticas

Vai tudo bater no mesmo. As 3 revistas dedicam o essencial da primeira página à telenovela da SIC, Dancing Days, que está a contribuir para que a televisão do Balsemão esteja a bater a TVI na prime time. As revistas cavalgam a onda do fenómeno ou inserem-se numa estratégia mais global, companheiras úteis, da ofensiva do canal de Carnaxide?
As telenovelas, os últimos acontecimentos acontecidos e vindouros dos próximos episódios consomem a parte de leão de todas elas.

MARIANA: Duarte rejeita Júlia
MARIA: Mariana conhece o pai e descobre que tem um irmão... mas é rejeitada
ANA: Traição entre irmãs/Raquel rouba namorado a Júlia

Três manchetes todas relativas a Dancing Days.

Sexo: muito e diversificado, com chamadas na primeira página:
ANA: Sexo/Descubra se está a ser traída
MARIA: Teste/Fantasias sexuais por revelar?

Talvez porque anda a vender a colecção CRUZES DO MUNDO (2 colares com +2,95€), a MARIANA é mais parca, chamando à primeira página as declarações da actriz Ana Guiomar que garante não gosto de me ver com implantes.
Para lá das traições, a ANA dedica 2 páginas a 22 lições sobre jogos libidinosos em que é proibido usar mãos e a MARIA desenvolve os 6 mitos comuns sobre os homens. 
A MARIA tem ainda um correio íntimo para ela (tenho vergonha do que ele me pede) e para ele (como fazê-la adorar sexo?) e a ANA publica um conto erótico.
Culinária, receitas, cuidados de beleza, roupas, regresso à escola/filhos, horóscopo, fofoquices de "famosos" nacionais e lá de fora, cenas insólitas (MARIANA: noiva cai ao rio durante as fotos do casamento) são questões transversais nos conteúdos de todas.

4. Publicidade

A contracapa das 3 revistas é de empresas de crédito rápido. As duas da IMPALA, Cofidis. A MARIANA, Cetelem, mas o verso da primeira página é da Cofidis e a Cetelem tem uma página impar na Maria.
Cremes, tratamentos, plataformas vibratórias, soluções para a calvície, astrólogos e videntes, turismo alimentam publicitariamente as 3 revistas.


Eis sinteticamente a minha peregrinação por 3 publicações do nosso panorama editorial que fabricam 20 milhões de cópias por ano correspondendo a 6 mil milhões de páginas impressas, se dermos como bons os números apresentados nas tiragens.
Já parecem os números do deficit, mas, pelas aparências, a crise não está a passar (muito) por aqui...

Boas leituras.

LMC 

30.8.12

De passagem pelo Banco: Acácio Lima escreve sobre Alfredo Ribeiro dos Santos


Testemunho-homenagem ao Dr. Alfredo Ribeiro dos Santos

Faleceu na terça feira, dia 28 de Agosto de 2012, O Dr. Alfredo Ribeiro dos Santos que foi Médico Anestesista, no Porto, um homem muito culto, um humanista, autor de vários ensaios e um excelente historiador sobre as Revistas publicadas em Portugal, no século xx. Contava 95 anos, mas tinha, ainda, entre mãos uma biografia de Veiga Pires, um outro médico seu Professor, Amigo e também um Antifascista militante, que fica inacabada.

Foi um ativo opositor do regime corporativista de Salazar, militante do Movimento de Unidade Antifascista e do Movimento de Unidade Democrática- MUD, e ativo apoiante da Candidatura Presidencial de Norton de Matos, em 1948.

O Dr. Alfredo Ribeiro dos Santos entrou na minha roda, na minha Vida, pela mão de Seu filho, meu companheiro de turma no Liceu.  E soube transmitir-me, com clareza e didatismo, a essência da Liberdade, a essência da Democracia, o primado da Democracia Representativa e a magna e decisiva questão das Liberdades, Direitos e Garantias, Individuais.
Tudo o que estruturou a minha Vida.

O Dr. Alfredo Ribeiro dos Santos conheceu, conviveu de perto e foi Amigo, de personagens impares da vida portuguesa no séclo xx, nomeadamente Leonardo Coimbra, Jaime Cortesão, Murilo Mendes, Agostinho da Silva.

O Dr. Alfredo Ribeiro Dos Santos era agnóstico, e,  no dizer de sua filha Milice, que corroboro, era epicurista no seu gosto pelos prazeres, pelas Revistas, pelos Livros, pela Música, pela Arte, pela Estética, pela boa Mesa, pela Beleza Feminina, pelo companheirismo. Ele amava a Vida.

Hoje, volvido mais de meio século, ainda vou buscar ao Dr. Alfredo Ribeiro dos Santos,muitos dos valores que condimentam uma “Democracia Avançada”, uma pré câmara do “Socialismo”estribada na síntese :

- “O Socialismo exige Democracia”;
- “A Democracia de Pleno exige o Socialismo”.

Homenageando o Dr. Alfredo Ribeiro dos Santos, solidário com as Suas Filhas Milice e Misá.

Porto, 29 de Agosto de 2012

Acácio Lima

2.8.12

Igualdade de género e o mundo do trabalho. Recursos em linha divulgados pela OIT/Lisboa


Tenho a honra de ter sido pessoalmente subscritor, em nome de Portugal, do protocolo com a OIT que criou o escritório de Lisboa da organização. Embora discreto, esse escritório tem vindo a desenvolver ao longo dos anos uma actividade extremamente interessante de promoção do trabalho digno em Portugal e no espaço lusófono.
De vez em quando dissemina recursos em linha. Este que me caiu no mail é sobre a igualdade de género e o mundo de trabalho. Aqui ficam as ligações úteis sobre o tema que o escritório da OIT escolheu, para partilha com os que passam pelo Banco.




O Escritório OIT- Lisboa tem o gosto de enviar, para informação, um conjunto de recursos em linha sobre a igualdade de género e o mundo do trabalho.

Nas línguas oficiais da OIT:
Participação de mulheres e homens nas Conferencias Internacionais do Trabalho (CIT) , dados estatísticos (2006-2012)



Mulheres no setor público na UE



Igualdade de género no diálogo social e relações laborais

Igualdade de género e trabalho digno – Convenções e Recomendações da OIT



Trabalho doméstico
Uruguai é o primeiro estado-membro da OIT a ratificar a Convenção n.º 189
Página da OIT sobre trabalho doméstico

Estudo da OIT em parceria com outras agências das Nações Unidas sobre a situação das mulheres na América do Sul e Caribe

Integrar a saúde no local de trabalho - Manual de formação SOLVE

Centro Internacional de Formação da OIT - Turim
Formações em igualdade de género (2012), a distância e residencial
http://gender.itcilo.org/cms/ - informação em inglês, ainda que muitos cursos sejam ministrados nas três línguas oficiais da OIT e em português.



Nações Unidas
Instituto de Investigação para o Desenvolvimento Social
The last three decades have seen remarkable changes in economic structures and policies both within and across countries, loosely captured by the term globalization. This paper reviews evidence on how key aspects of globalization processes have impacted the real economy, in terms of employment and social conditions of work for women and men across a wide range of countries.

The paper shows that recent pension reforms in Latin America in the three countries studied have embraced some of these measures, and the gender equality issue is slowly being introduced in the pension reform agendas. However, gender gaps are unlikely to disappear. Differences in pension rights and benefits between men and women may lessen if women enter the labour force in greater numbers, and gender gaps in the labour market diminish. Until this happens, pension systems need to keep redesigning the basis for allocation of rights and benefits to avoid, reduce and compensate the gender gaps that still exist.

VIH e sida – Conferência internacional sobre VIH 2012

Protecção de mulheres e meninas com deficiência

1.7.12

"Não crês no amor? Cala-te estupor": sobre a mística de certos casamentos

Não crês no amor?
?
Não ouves?
?
Não crês no amor?
Cala-te estupor.


 Passadas algumas décadas continuo a reter estes versos do POEMA DO AUTOCARRO (Um de quinze tostões. Campo de Ourique.) do António Gedeão por via da cantata em que o maestro César Batalha, com o Coro de Santo Amaro de Oeiras, reinterpretou soberbamente o tema. Julgo guardar algures ainda o respectivo vinil. Amor é uma palavra pouco comum no meu vocabulário. As palavras gastas e usadas por tudo e por nada sofrem profunda erosão e tornam-se ásperas, amargas, frutos do acaso. Sosseguem. Não vou teorizar (melhor: especular sobre o tema). Vem tudo isto a propósito de neste último dia de Junho, final do Semestre europeu, expressão a conquistar lugar no dicionário das (in)utilidades, realizaram-se dois casamentos, a larga distância um do outro, de pessoas do meu território afectivo que tiveram a particularidade de sair do quadro normal instituído.
Algures em Sintra, a Ana e o Nuno foram à igreja! Eu explico: já estão casados, têm uma filha a caminho de ir para a primária e a Ana entendeu que deveria ter um casamento católico. O Nuno aceitou na condição de só ela fazer os respectivos votos e, consequentemente, ficar desobrigado dos santos sacramentos da igreja. Não é fácil de explicar, mas de uma forma simples, a Ana casou sozinha pela igreja. Disseram-me que o padre tudo faria para que na cerimónia não fosse visível este desiderato. A esta hora não sei ainda como as coisas se passaram, mas desejo-lhes boa sorte. Eles merecem! 
Aqui em Tirgu Mures, na Transilvânia romena, cidade onde a população é metade hungara e a outra metade romena, realizou-se o casamento da Lavinia com quem trabalho, no âmbito de um projecto de transição escola vida activa, há cerca de ano e meio. Na última reunião de trabalho e de coordenação propôs que a próxima se realizasse a 2 de Julho, anunciando que se ia casar no sábado 30 de Junho e procedendo ao convite/exigência de marcarmos presença no acto. Mas não vais de lua de mel, retorquimos. Não, só vou depois, na segunda vamos trabalhar. E assim foi! 
O que tem de especial é o facto de a Lavinia casar pela igreja ortodoxa com um muçulmano da Jordânia e, tal como a Ana, na prática casar sozinha... com o Ahmed! Ao fim de dez horas de maratona casamenteira, eis o balanço. O casamento religioso realizou-se ao ar livre no jardim do hotel/restaurante Atlântico, tendo a mesa/altar sido instalada em cima da relva no meio das ameixoeiras, macieiras e cerejeiras. Só estas já não tinham fruto e as outras ainda estavam em processo de maturação. Belo local, excelente ambiente. Coloquei-me numa posição estratégica - debaixo de uma cerejeira, àquela hora, meio dia aqui, dez horas em Lisboa, os termómetros nos 30 - de modo a poder observar todos os passos essenciais do acto. De onde estava via de frente todos os passos. O padre, homem para 1, 90 metros e uma volumetria bastante para lá da centena de quilos, revelou-se patusco e bem disposto e respeitou todas as fases em que o Ahmed deveria ficar fora de cena: não jurou sobre a Bíblia, não foi confrontado com a necessidade de beijar os livros sagrados e o acto final envolvendo os padrinhos foi também ajustado à circunstância. Isso não impediu que na prédica final o padre não passasse algumas verdades, como o facto de o direito religioso como o direito civil romeno acautelar exclusivamente o casamento monogâmico. Depois produziu alguns ensinamentos sobre os deveres de obediência e de lealdade, os filhos... Tudo isto foi claramente perceptível porque o padre falava em romeno muito pausado porque como o Ahmed não sabe (suficiente) romeno a Lavinia ia traduzindo em inglês para ele as palavras do padre. No final o padre deu um abraço efusivo e beijou o noivo e a noiva e quando me aproximei para os cumprimentos da praxe, o pregador fez questão de me dizer em surdina que era um rapaz especial. 
O banquete marcado para as duas ainda continuava às dez da noite quando procedemos à retirada. Non stop. Comida, bebida, dança, música. Não muito diferente do que se passa nas nossas paragens. 
Momento marcante: O marido da Lavinia tem feições próximas do Sidney Poitier daí do tempo das Sementes de Violência, quando, como o Ahmed hoje, tinha menos de 30 anos. Quando o DJ pôs a rodar o tema principal da telenovela brasileira O Clone, passada entre o Brasil e Marrocos e que eu via na televisão romena em 2007, quando cá vivi, a Lavínia e o Ahmed tomaram de assalto a parte central do espaço de dança. Naquela fracção de segundos pude ver o brilho dos olhos, os gestos cúmplices, o deslizar das mãos, o agitar dos corpos, os lábios que se tocam. Uma e outras vezes. 


Ó música. 
Em tuas profundezas 
Depositamos nossos corações e almas. 
Tu nos ensinaste a ver com os ouvidos 
E a ouvir com os corações. (Gibran Kahlil Gibran) 


 LMC
( Das crónicas que envia aos amigos e eu respigo para o Banco) 

19.4.12

Hoje é dia do padroeiro das causas urgentes


Mão amiga fez-me chegar o lembrete e eu dou-o ao conhecimento deste recanto da blogosfera. Diz ele:

Por uma imperdoável distracção só há pouco fui ver o que dizia o Borda D'água para hoje - eu guio-me sempre por ele e não me tenho dado mal - e constatei que hoje é dia de Santo Expedito, o santo das causas urgentes.
Na emergência das nossas vidas, com toda a urgência aqui vai o lembrete e um modelo de oração que poderão adaptar em conformidade com as respectivas preces.
É urgente, senão só para o ano!

15.3.12

É urgente tornar os chineses 'gente como nós', diz um amigo sinólogo

How would a Chinese superpower treat the rest of the world? Anyone wanting to peer into the future could start by looking back at the past — or, at least, at the official version of China’s past. The message is not reassuring. China’s schoolchildren are being taught a version of history that is strongly nationalist. The official narrative is that their country was once ruthlessly exploited by rapacious foreigners. Only a strong China can correct these historic wrongs.

Há semanas, conversando do outro lado do mundo sobre o papel da China como potência global, o meu interlocutor e amigo zurzia fortemente a teoria da "diferença chinesa" com que muitos de nós revestem de discurso politicamente correto a tolerância para com a ditadura de mercado que vai crescendo sobre as potências do capitalismo democrático. Agora, a pretexto do artigo de Gideon Rachman, no Financial Times, cujo início acima reproduzo, volta à carga. Escreve ele e eu ofereço:

 Depois da nossa conversa sobre a China, encontrei este artigo que vai ao encontro das nossas especulações. Concordo integralmente com a tese do artigo porque é urgente tornar os chineses 'gente como nós', no Ocidente, para aumentarmos as probabilidades de desenvolvimento pacífico das relações Ocidente-Ásia e de solução pacífica negociada dos diferendos crescentes que se esperam quando os recursos do planeta nos parecem (e parecerão) encolher espantosa e rapidamente nas próximas décadas. A fuga a-maoísta da China à autocrítica é lamentável e preocupante. A meu ver, é apenas comparável à fuga do Ocidente comercial à auto-crítica política e diplomática (não basta académica) pelo uso da ópio-dependência como instrumento comercial de subordinação, impondo-a à China, a partir de 1839, à força de bombardeamentos navais e realizando a destruição metódica de um sistema social e político seculares numa escala continental no período vertiginoso de uma vida (70 anos). Sendo a humanidade narcísica e territorial, é difícil fazer a China 'perdoar e esquecer'. Mas enquanto a humilhação durar é mais fácil para o establishment chinês (presente ou um nacionalista extremista que se siga ao colapso desordenado do actual) manipular esse sentimento e gerar mobilizações xenófobas e bélicas, que atrasariam mais a aderência da população chinesa a modelos de sociedade aberta.

23.1.12

Do charme discreto de Silva Peneda (Luis Costa volta ao Banco)


Uma arreliadora avaria no avião de ligação fez com que passasse 8 horas deste domingo no aeroporto de Viena na escala para Bucareste. Tempo suficiente para, entre outras coisas, uma leitura mais aprofundada da chamada imprensa de referência de hoje, toda ela com incursões pelo mundo sindical. Sinal dos tempos, tendo em conta a recente assinatura do acordo na concertação social e a anunciada saída do Carvalho da Silva da liderança da CGTP no próximo fim de semana, passado mais de um quarto de século como grande timoneiro da maior organização social portuguesa.
O DN puxa para o escaparate a entrevista do João Proença na qual boa parte é dedicada a explicar as virtudes do acordo aos arrivistas, caluniadores e incréus e em que confirma ter recebido incentivos de dirigentes da maioria da CGTP para o  negociar, o que certamente lhe valerá nova queixa judicial por ser criminoso e reincidente… nesta incidência.
A entrevista termina com a anunciada renovação da UGT e a também já anunciada saída do João Proença dentro de pouco mais de um ano, já que mais não seja por imposição estatutária. O JN agarra no tema e já lançou a bolsa de apostas sobre quem na primavera de 2013 irá ocupar a cadeira que o João vai deixar vaga. E à cabeça lá aparece o nome da Helena André, embora fonte próxima da deputada tenha afiançado ao JN que não está nos seus planos liderar a UGT.
O Público dedica parte significativa do seu espaço a uma biografia encomiástica do Carvalho da Silva. Foram ouvidos amigo-s e outros que nem por isso - e houve quem se refugiasse no anonimato. Por junto estamos no território do elogio próprio dos momentos de jubilação ou de partida para outra vida para além desta que lhe tem ocupado avassaladoramente o tempo.  Subscrevo obviamente por baixo, em boa parte, ou não fora o meu conterrâneo e amigo Ulisses um dos principais alimentadores do  retrato de página inteira. O texto termina com um até amanhã, evitando acrescentar o camarada, talvez porque, como sublinha o Ulisses, não o vejo como um comunista alinhado. Por via das dúvidas…
Mas de tudo o que li, a minha atenção particular vai para a entrevista de Silva Peneda ao JN. O Presidente do CES faz o pleno: evidencia que a UGT prestou um grande serviço ao país, para depois passar a justificar a posição da CGTP cuja ruptura com o acordo foi feita com grande elevação e muito nível. A CGTP explicou as suas razões de forma muito serena e isso passou-se com grande elevação. O caldo só seria entornado depois…
Quanto ao comportamento do Governo, Silva Peneda diz, entre risos, escreve o JN, vai dar para as minhas memórias, para depois sublinhar: Já estive no Governo e este tipo de situações não são fáceis.
Com efeito Silva Peneda sabe do que fala. Em 1991 teve um papel relevante na assinatura por parte da CGTP dos primeiros acordos de concertação social, sobre formação profissional e segurança do trabalho. Era Ministro do Trabalho e na reunião decisisiva, em que participei na delegação da CGTP, Silva Peneda teve a frieza e o bom senso de ir desmontando os argumentos do Torres Couto que tentava a todo o custo adiar o fim do mito da não adesão a acordos por parte da central concorrente, uma das suas principais muletas do seu discurso até ali.
Sinal dos tempos, dos contextos e dos lugares, é o mesmo Torres Couto que 20 anos depois vem vergastar o João Proença pela assinatura deste acordo não augurando nada de bom e seguramente um fim trágico para a central que ajudou a fundar.
É evidente que  tem também a marca do tempo, daquele tempo, o compromisso da CGTP na concertação social em 1991. O caldo de cultura que levou a que pela primeira vez acordos acolhessem a assinatura da CGTP e desse passos em relação à filiação na CES, vai beber nas perturbações vividas internamente pela não assinatura do Acordo Económico e Social, depois de um processo de participação activa e intensa na negociação. Não é estranho às dinâmicas em curso a leste que tiveram em Agosto de 1991 um ponto de viragem com o golpe que apeou Gorbachov e que, de certa maneira, legitimaram a reunião do Hotel Roma um dos momentos mais significativos da contestação interna no Partido. Além do mais, embora não cientificamente demonstrado, havia quem afiançasse que naquele final de Julho de 1991, aquando da assinatura do acordo, o  Domingos Abrantes estava de férias… Obviamente que estamos no domínio da  intriga porque o Expresso do sábado anterior (o acordo foi assinado na terça) já afiançava que o acordo eram favas contadas.
Mas voltando a Silva Peneda razão (ou pretexto?) para estes passos em volta de um dia em grande para a mediatização do sindicalismo, da acção sindical e dos seus protagonistas mais visíveis, presentes e futuros. Serena e discretamente explica a chave do sucesso: Perceber o que os parceiros sociais querem e conseguir que tenham alguma confiança em mim.

Aeroporto de Viena, 22 de Janeiro de 2012

Luis Costa 

6.1.12

Recomendação de amigo

Aproxima-se o fim de semana. 
Esta sexta termina o período festivo, com a celebração do dia dos reis ou dos Mestres do Oriente, como avisadamente refere o Verdadeiro Almanaque Borda D'Água de 2012, que, como sabeis, é bissexto. 
Findas as festas, para  ajudar a disfrutar de um fim de semana tranquilo, ouso fazer uma recomendação musical. 
Escolhi uma missa cantável do grande mestre Mozart, precisamente a 49. 
Optei por partilhar apenas a parte mais empolgante, chamada GLÓRIA, mas na loja do You Tube também se podem encontrar, outras partes da mesma obra, nomeadamente o KYRIE, mais suave e relaxante, mais aconselhável para quem fique à lareira a ler um bom livro. Para os menos familiarizados nas coisas da fé, o KYRIE (de origem grega) é parte integrante da missa cantada e no tempo da missa em latim foi entre nós popularizado na versão KYRIE ELEISON, que no actual rito romano foi substituído pelo equivalente traduzido, SENHOR TENDE PIEDADE (DE NÓS). 
Segundo a Wikipedia, no rito tridentino (antes da reforma de Paulo VI de 1969) o KYRIE vinha recitado depois do acto penitencial, enquanto que hoje, no rito ambrosiano, é ainda hoje recitado durante o acto penitencial e já no fim, mesmo antes da benção final, repetido três vezes. Contudo, em 2007, e com este elucidativo e esclarecedor detalhe termino, Bento XVI autorizou que nas missas privadas (sem povo) se use a liturgia tridantina. Excepcionalmente, pode ser usado nas paróquias, desde que assista apenas um número estável e fixo de fiéis (coetus fidelium).
Bom fim de semana e boas músicas.




 L(eitor) M(eu) C(onhecido)


 PS. Bom almoço, tertúlia do Pardal

20.12.11

Sobre a homenagem a João Martins Pereira (4ª parte): contra a ideologia do pequenês


Correu nos dias 25 e 26 de Novembro p. p., uma “Homenagem / Evocação a João Martins Pereira”, o intelectual português mais brilhante da segunda metade do século passado.

Este meu texto será o quarto e último, de uma série que o Dr. Paulo Pedroso entendeu por bem inserir neste seu blog “Banco Corrido”. 
Agradeço ao Dr. Paulo Pedroso este seu convite, que me permitiu homenagear o meu querido e saudoso Amigo João Martins Pereira.

1. A Doutrina Corporativa espreitando, na falta de uma Crítica Radical ao Corporativismo


Numa intervenção muito maturada e claramente virada para contribuir com uma achega à construção de uma alternativa ao tipo de sociedade que temos, e à atual situação política de Destruição do Estado Providência, desmantelamento do Estado de Direito e preparação de uma “Democracia Musculada”, eufemismo de Estado Repressivo, surgiu uma intervenção anotando o como mobilizar pessoas para participar nessa derrogação/ construção.
A anotação passava pelo não negligenciar o “Espirito de Corpo”, enquanto agregador, corrigindo uma fragmentação. Não vou por aí, como diria Régio.

A nova plataforma política, terá sim de passar por uma crítica radical, a toda a doutrina corporativa, não compaginável com a democracia, e terá de saltar por cima do “pragmatismo” perverso, que tem presidido à “utilização” do conservadorismo e egoismo, presentes em vários sectores, aliás como reiteradamente o Dr. Jorge Sampaio tem , muito justamente, pontuado.


Não creio possível, face às actuais técnicas e tecnologias, passar por cima da “Empresa Célula Base do Aparelho Produtivo e do Aparelho de Distribuição”. É nas Empresas que o processo de apropriação das “mais valias” vai tendo lugar, embora esse processo surja noutros pontos.   Curiosamente, o Patronato, sobretudo a partir da década de 90 , introduziu na “Gestão”, (termo que uso numa versão ampla), “descobrindo” duas coisas carregadas de consequências:


  • aceitou partilhar as “mais valias”com os Gestores, que mudam assim de Estatuto; 
  • recomenda aos Gestores que se desdobrem em: “aconchegarem” os Acionistas da Empresa; “aconchegarem” os Banqueiros da Empresa; “aconchegarem”os Fornecedores da Empresa; “aconchegarem” os Clientes da Empresa “descobrindo” as suas necessidades mutantes; “aconchegarem” os Vizinhos da Empresa, o que trocado por miúdos, é atender às necessidades que o Poder Local tem de satisfazer; “aconchegarem” os detentores da Investigação e da Formação, isto é, as Universidades
Do meu ponto de vista, a Professora Doutora Manuela Silva, interveniente central nesta “Evocação”, terá de burilar o seu importante contributo para a maturação da alternativa.


2. Outras memórias evocadas pela existência da evocação


Vou chegando ao fim. Esta ida a Lisboa, sempre gratificante para mim, por lá ter vivido mais de vinte anos, desta vez teve outros condimentos.
No centro, o meu querido e saudoso Amigo João Martins Pereira.
Depois, o ficar próximo do meu querido e saudoso Amigo Ernesto Melo Antunes, via a Doutora Manuela Cruzeiro, e pensei numa obra dela.
Para ficar bem próximo da minha querida e saudosa Amiga Engenheira Maria de Lourdes de Matos Pintasilgo via Professora Manuela Silva.
Os três pilares que me vão sustentando.



3. Conclusão: contra a ideologia da pequenez


Concluo com uma citação de João Martins Pereira, no seu livro “Para a História da Indústria em Portugal- 1941-1965”, escrito por volta de 2005, constante a página 231, no exemplar que tenho, que o João me  mandou em 4 de Janeiro de 2007, numa troca de galhardetes de Fim de Ano:

“A ideologia da pequenês. Enquanto a autarcia pode associar-se ao vector “pátria” ( que tem de ser “grande”, “rica”, “orgulhosa”) da trilogia ideológica do regime (Estado Novo), a pequenês pertencerá ao vector ”família”. O que é desejável é o “familiar”, o “todos se  conhecem”, “a pequena comunidade”- como no mundo rural. A própria ideia base do corporativismo é a cooperação entre patrões e trabalhadores, no limite a empresa como “familia”, como a quiseram os patrões “paternalistas” (na sua maioria pequenos empresários”). Salazar, em vésperas de se lançar o projecto siderurgico, referia-se como “a nossa pequena siderurgia”, pois neste país  não cabia outra- e, curiosamente, a  ele coube decidir-se pela “grande siderurgia”, que, na verdade, nunca chegou a sê-lo. O argumento da pequenês aparece explicito em vários parceres que U. Cortês recebeu sobre o primeiro projecto da SN. Também. F. Dias, ele que foi o arauto da “dimensão” (escala) económica das industrias, foi o licenciador de três pequenas unidadesde sulfato de amónio, em lugar de uma, de bem menores custos (de investimento por tonelada produzida e de exploração, e o defensor, nos primeiros tempos, de uma unidade siderúrgica “experimental”. É claro que os complexos industriais de Estarreja, de Alferrarede e sobretudo , essa sensação de “gigantismo” que assustava- quanto mais não fosse , e muitos o disseram, pelos “perigos sociais” das grandes concentraçõesindustriais: a deserção dos campos. O desenraizamento dos novos operários, que os levaria ao alcoolismo ou à subversão, etc.. Esta era uma componente política muito presente na ideologia da pequenês: quando há uma empresa com umas centenas , ou mesmo milhares, de operários, é muito mais dicícil controlá-los”

Esta citação suporta as minhas considerações sobre uma crítica radical à doutrina corporativa.

Mas esta citação serve ainda para desbancar o “Compromisso Portugal”, dos Marcelos e Carrapatosos, do “Small is beautifull”, e, numa outra vertente, os populistas/ maximalistas, detratores do Projeto Ota e do Projeto TGV.

Acácio Lima


Nota: 
Este texto encerra a evocação de João Martins Pereira que Acácio Lima, seu camarada e amigo aceitou fazer aqui no Banco. Visite os textos publicados anteriormenre:


1. João Martins Pereira: o mais desconhecido dos mais influentes pensadores da esquerda portuguesa, publicado a 18.11.2011;


2. Sobre a homenagem a João Martins Pereira: uma análise (1ª parte)publicado a 5.12.2011;

3. Sobre a homenagem a João Martins Pereira: uma análise (2ª parte)publicado a 5.12.2011;

4. Sobre a homenagem a João Martins Pereira (3ª parte): a necessidade de um macro-regulador e a importância do Estado de Direito, publicado a 6.12.2011;


Obrigado, Acácio, pelo tempo despendido. Paulo.