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3.4.13

CGTP e Cunhal: a central, o partido, os investigadores e as linhas vermelhas

A direcção da CGTP decidiu juntar-se a uma iniciativa partidária de evocação do seu dirigente histórico, ainda que transformando-a em iniciativa própria e com esse gesto recordou a quem se tivesse esquecido a ligação umbilical que a sua maioria tem ao PCP e quanto essa maioria preza hoje sequer as aparência de independência do calendário do seu partido.
Alguns colegas sociólogos que têm trabalhado as questões sindicais decidiram, em carta aberta, advertir "enquanto investigadores" a direcção da central sindical das consequências do seu gesto para a ideia de  independência do movimento sindical.
A mim, os gestos de ambos parecem-me paralelos no pisar de uma linha vermelha que deveria existir entre estatutos e níveis de acção. Nem  uma central sindical deveria ter agenda partidária tão explícita, nem investigadores deveriam, invocendo essa qualidade, intrometer-se na definição das estratégias sindicais "correctas". Ao fazê-lo, uns e outros mostram, assim, os seus posicionamentos, o que sendo clarificador não deixa de ser exemplar de que há  coisas fora do seu lugar na relação entre agendas de investigação, sindicais e políticas. Ou, voltando a uma tese cujo potencial explicativo de problemas actuais da sociedade portuguesa tem crescido no meu espírito, este episódio deve colocar-se entre os reveladores dos défices de institucionalização que atravessam os diversos níveis da sociedade portuguesa.

18.3.13

Futebolês conceptual - a triangulação da informação

Estes dias estive a trabalhar num texto que devia, entre muitas outras coisas, explicar a estratégia de "triangulação da informação" que pretendia adoptar. Sim, para atingir os objectivos pretendidos, seria necessário, como é frequente em ciências sociais, cruzar informação de diversas fontes, recolhida e analisada segundo diferentes métodos de pesquisa. Mas porquê triangulação e não quadrangulação ou pentangulação? Para além das sonoridades estranhas das últimas versões, apenas encontrei no espírito a explicação de que se tratasse de alguma forma de imperialismo do futebolês conceptual, assim como se o nosso Rui Tovar de antigamente se tivesse apoderado do vocabulário das ciências sociais. (E tentei apresentar a dita triangulação o melhor que soube).

16.2.13

Dinheiro pode não dar felicidade, mas vida dá.

Um estudo da segurança social americana demonstrou mais uma vez um efeito da desigualdade vital, encontrado em muitos outros contextos. Entre pensionistas, quanto maior o rendimento menores os índices de mortalidade. Dinheiro pode não dar felicidade, mas vida dá.

26.11.12

Sir Humphrey podia dar umas aulas aos autores de certas sondagens

Em ciências sociais não há perguntas perfeitas nem respostas independentes das perguntas que se fazem. Mas há casos de manual ou de anedotário, se preferirem. A empresa Pitagórica e o Jornal i protagonizaram uma hoje. Esta. Os sondageiros prontificaram-se a perguntar o seguinte: "O Partido Comunista e o Bloco de Esquerda defendem a realização imediata de eleições. Acha que se devem realizar já eleições?" Era mais fácil perguntarem logo: "simpatiza com o PCP ou com o BE?".
Na escola onde estes pitagóricos estudaram ninguém lhes ensinou o que é uma "leading question"? Sir Humphrey podia dar-lhes umas aulas práticas:


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6.10.12

Envelhecimento: o género conta


A promoção do envelhecimento activo tem esquecido que as desigualdades de género se prolongam ao longo da vida e em particular na distribuição assimétrica da função de cuidar em muitas sociedades. Sara Falcão Casaca e Sally Bould reflectem sobre o fenómeno num artigo a ler  da plataforma Barómetro Social. Fica o destaque:

As orientações políticas e as medidas associadas ao prolongamento da vida ativa não têm integrado a dimensão de género. O aumento da esperança média de vida tem tido um impacto diferenciado nas experiências das trabalhadoras e dos trabalhadores com mais de 55 anos de idade. As mulheres enfrentam agora uma maior probabilidade de terem pessoas idosas ao seu cuidado, sobretudo naqueles contextos onde escasseiam os equipamentos públicos e/ou estruturas formais de apoio à população idosa. O envelhecimento ativo acarreta, assim, novos desafios e tensões na vida de muitas mulheres, cujo quotidiano se reparte pelo cumprimento de responsabilidades várias, seja na esfera laboral, familiar (domínio onde são as principais prestadoras de cuidados a elementos progenitores e/ou a crianças mais pequenas – netos e netas), seja ainda na comunidade mais vasta. À exceção de um conjunto de boas práticas isoladas e de algumas orientações seguidas em alguns países nórdicos (Dinamarca e Suécia), em geral as políticas promotoras do envelhecimento ativo têm negligenciado áreas relevantes de apoio – desde a criação e disponibilização de equipamentos e serviços de assistência às famílias (tanto destinados a crianças como a pessoas dependentes) até às oportunidades de aprendizagem durante toda a vida ativa.

10.9.12

Desabafo profissional: serei mais um maldito positivista?

Estou há dias a ler artigos científicos e relatórios de avaliação e cansado de textos que concluem que "parece que" e de avaliadores que antecedem qualquer afirmação de "alguns" e "algumas". O uso do "por um lado A e por outro não A" típico da contaminação ensaística das ciências sociais parece-me que apresenta algumas fragilidades para a sua afirmação. Serei, afinal, mais um maldito positivista ou ainda haverá esperança?

15.7.12

Produção de bem-estar ("welfare production") um tema de investigação fora de moda, quanto aos humanos

Ao pesquisar numa base de dados científica as publicações sobre "welfare production" deparei-me, com alguma surpresa, com a anémica produção recente de artigos sobre bem-estar humano (é certo que compensada quando introduzido o tópico qualidade de vida) e a florescente investigação sobre produção de bem-estar animal.

9.5.12

A desigualdade mata? Sim, devagar.

Hui Zeng, professor de Sociologia na Ohio State University estudando dados dos EUA entre 1984 e 2006 concluiu que a desigualdade mata devagar. O aumento da desigualdade começa a sentir-se no aumento da mortalidade 5 anos mais tarde, atinge o seu máximo efeito ao fim de 7 anos e desvanece-se ao fim de 12.
Aos impactos já determinados da desigualdade junta-se a possibilidade de ser também um problema de saude pública. O estudo foi publicado na revista Social Science and Medicine e a notícia pode ler-se no site da Universidade.

19.7.11

Manuel Villaverde Cabral apresentou-me Robert Fishman com uma frase que diz tudo: É o único investigador sobre as transições para a democracia em Portugal e Espanha que percebeu a superioridade da transição revolucionária sobre a transição sem revolução.  Desde então tenho seguido os trabalhos deste sociólogo e recomendo vivamente a quem possa que o vá ouvir, amanhã, 20 de Julho, às 18 horas, falar sobre Contrastes entre Portugal e Espanha: Prática Democrática e Crise Económica, nas instalações do CES-Lisboa (Picoas Plaza, Rua do Viriato 13, Lj. 117/118).