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23.9.13

In memoriam António Ramos Rosa

Tudo será construído no silêncio, pela força do silêncio, mas o pilar mais forte da construção será uma palavra. Tão viva e densa como o silêncio e que, nascida do silêncio, ao silêncio conduzirá.

(Rosa, António Ramos, "Tudo será construído no silêncio, pela força do silêncio", O Aprendiz Secreto, Vila Nova de Famalicão, Quasi, 2001, p. 11)

30.8.12

De passagem pelo Banco: Acácio Lima escreve sobre Alfredo Ribeiro dos Santos


Testemunho-homenagem ao Dr. Alfredo Ribeiro dos Santos

Faleceu na terça feira, dia 28 de Agosto de 2012, O Dr. Alfredo Ribeiro dos Santos que foi Médico Anestesista, no Porto, um homem muito culto, um humanista, autor de vários ensaios e um excelente historiador sobre as Revistas publicadas em Portugal, no século xx. Contava 95 anos, mas tinha, ainda, entre mãos uma biografia de Veiga Pires, um outro médico seu Professor, Amigo e também um Antifascista militante, que fica inacabada.

Foi um ativo opositor do regime corporativista de Salazar, militante do Movimento de Unidade Antifascista e do Movimento de Unidade Democrática- MUD, e ativo apoiante da Candidatura Presidencial de Norton de Matos, em 1948.

O Dr. Alfredo Ribeiro dos Santos entrou na minha roda, na minha Vida, pela mão de Seu filho, meu companheiro de turma no Liceu.  E soube transmitir-me, com clareza e didatismo, a essência da Liberdade, a essência da Democracia, o primado da Democracia Representativa e a magna e decisiva questão das Liberdades, Direitos e Garantias, Individuais.
Tudo o que estruturou a minha Vida.

O Dr. Alfredo Ribeiro dos Santos conheceu, conviveu de perto e foi Amigo, de personagens impares da vida portuguesa no séclo xx, nomeadamente Leonardo Coimbra, Jaime Cortesão, Murilo Mendes, Agostinho da Silva.

O Dr. Alfredo Ribeiro Dos Santos era agnóstico, e,  no dizer de sua filha Milice, que corroboro, era epicurista no seu gosto pelos prazeres, pelas Revistas, pelos Livros, pela Música, pela Arte, pela Estética, pela boa Mesa, pela Beleza Feminina, pelo companheirismo. Ele amava a Vida.

Hoje, volvido mais de meio século, ainda vou buscar ao Dr. Alfredo Ribeiro dos Santos,muitos dos valores que condimentam uma “Democracia Avançada”, uma pré câmara do “Socialismo”estribada na síntese :

- “O Socialismo exige Democracia”;
- “A Democracia de Pleno exige o Socialismo”.

Homenageando o Dr. Alfredo Ribeiro dos Santos, solidário com as Suas Filhas Milice e Misá.

Porto, 29 de Agosto de 2012

Acácio Lima

21.5.12

Eu sou do tempo dos Bee Gees

Houve filas de horas, muito raras à época, para comprar bilhete para o Saturday Night Fever, no Teatro Aveirense.

27.1.12

O olhar de Ulisses


Em memória de Theo Angelopoulos, que morreu atropelado por um  motociclista em Pireus talvez porque, quando chamada a emergência médica, duas ambulâncias avariadas levaram a que o socorro demorasse quarenta minutos a chegar. A crise atinge-nos de muito mais ângulos que a imaginação alcança..

18.11.11

João Martins Pereira, o mais desconhecido dos mais influentes pensadores da esquerda portuguesa.

Esta semana fez três anos que faleceu João Martins Pereira, talvez o mais desconhecido dos mais influentes pensadores da esquerda portuguesa. Alguém que conseguiu ser realista quando todos queriam ser utópicos e utópico quando todos viraram ultrapragmáticos. Pedi a Acácio Lima, seu amigo pessoal e companheiro de lutas políticas, também amigo e passageiro frequente deste blogue que escrevesse um depoimento sobre ele. Ele, gentilmente, acedeu.



 1. Era um “colador de cacos”

João Martins Pereira, no seu dia a dia, era um observador muito atento do fluir das coisas, nos detalhes e vicissitudes, e tudo enquadrava na dinâmica dos processos, num novo patamar de crescente abstracção.
Tudo matrizava num pensamento integrador, onde sobressaia, a Teoria da política, a Teoria marxista da economia política e do materialismo histórico. Tudo surgia, não fragmentado, mas integrado num todo, havendo uma “continuidade”.
Era assim, se discernia sobre cinema, sobre teatro, sobre a teoria do romance, sobre a emancipação da mulher, sobre as teorias da pedagogia, sobre a banda desenhada, sobre os rumos e características da ciência e da tecnologia, nos seus imparáveis avanços, determinantes das mutações das relações sociais, nas suas vertentes do Modo de produção e da Divisão do trabalho.  E, claro, sobre as medidas de política económica e financeira.Qual o seu enquadramento ideológico e que interesses especificos servem.
Insisto na “integração”, na visão pluridisciplinar. Tudo na via da associação de ideias, inovadora e criativa, na rejeição da fragmentação, e sempre na atenção do histórico, do histórico da mutação, da mudança.
João Martins Pereira era um “colador de cacos”, paciente, refazendo “jarras”, retocando-as, escamoteando as rachadelas, mas sem perder o Norte, sabendo sempre onde estavam as “fissuras”. 


2. Sabia que tínhamos que “apanhar um comboio em movimento”

João Martins Pereira, não tinha o frenesim dos activistas políticos, mas conhecia muito bem a agit-prop. Preferia tudo decantar, detectar tendências, hierarquizar acontecimentos  e anotações.
Para João Martins Pereira esta questão de Transformar o Mundo, passava por esse organizar, hierarquizar e integrar, no histórico,  mantendo à distância todo e qualquer voluntarismo.
Daí o hierarquizar prioridades na condução da Política Económica, enquanto Secretário de Estado da Indústria, sendo Ministro João Cravinho, nos Governos Provisórios de Vasco Gonçalves. E, foi assim, que diagnosticou, que as mudanças estruturantes da máquina de produção e na máquina da distribuição, se teriam de centrar nas já significativas infra-estruturas existentes da Indústria Metalomecânica Pesada e Semi-pesada, bem como na Indústria Química, dita Pesada.  
Atento ao detalhe mas sempre na perspectiva do global, considerava essencial programar os ingentes investimentos de modernização e de satisfação de necessidades de um país out do desenvolvimento, por forma a regular as cargas oficinais nesse sector Metalomecânico Pesado e Semi-Pesado. Regular a atividade das diversas empresas-chave: Mague, Sorefame, Construtora Moderna, Cometna, Sepsa, Efacec, ... .
Para garantir emprego estável, e uma gestão consequente essa regulação de cargas passava por um Planeamento -Programação dos grandes investimentos.
João Martins Pereira articula assim a gestão empresarial, que ele bem conhecia, com uma Estratégia Política de Desenvolvimento. Articula dois níveis de programação.  Queira-se ou não, a ideia base de Planeamento existente em João Martins Pereira estava na mesma onda da do Plano de Melo Antunes – Rui Vilar.
João Martins Pereira, discretamente, criou esse Departamento “regulador” para a Indústria Metalomecânica Pesada e Semi Pesada. A preocupação de João martins Pereira com as cargas oficinais das empresas metalomecânicas pesadas e semipesadas deve ser lida como uma articulação do curto prazo com o médio e o longo prazo e terá de ser lida como uma preocupação em manter um emprego estável, no mínimo. Mas era sobretudo um apontar para a regulação, agindo, redireccionando, constrangendo e corrigindo o mercado.
Vem a talho de foice referir que a questão da planificação-programação, calendarização dos grandes investimentos que iriam surgir se tornou imperiosa e o Patronato acabou por criar anos depois o CIEP – Centro dos Industriais do Equipamento Pesado. O CIEP do Patronato, no seu jeito e à sua maneira, não era mais do que um “organismo de pressão” sobre os Governos. Mas, curiosamente, optou por uma partilha monopolista do mercado, ferindo todas as regras da concorrência.
Fica a nota da divergência-diferenciação entre as concepções-visão de João martins Pereira e as concepções-visão do Patronato.
No pensamento de João Martins Pereira encontrava-se a virtualidade de “apanhar o comboio em movimento” e de o “carrilar”, coisa que não parece ser desejada pelos maximalistas, que optam pelo voluntarismo e pelo virar costas à História. Ou, se quiserem, João Martins Pereira sabia muito bem medir a correlação de forças.  Ou ainda, se quiserem, João Martins Pereira jamais abandonava o radicalismo de pensamento, do seu pensamento nas suas abordagens, mas sempre firmava os pés na análise factual das situações.
Entretanto, João Martins Pereira “corta” com os Governos Vasco Gonçalves, e a ideia da Regulação, ficou na “gaveta”. Mas entende-se bem a saída de João Martins Pereira dos Governos de Vasco Gonçalves. É que também ele aderia a “ O Socialismo exige Democracia” e a Democracia, para se aprofundar de pleno, exige o Socialismo”.

3. A alegria de viver

 Concluo na heterodoxia.  A última carta que recebi de João Martins Pereira, dista de cerca de dois meses do seu falecimento.
A nossa correspondência era manuscrita  pois as emoções e afectividades não casam bem com o bater de teclas numa caixa de plástico.
Num parágrafo dessa carta João Martins Pereira, referia-se ao apport reequilibrador e de alegria no viver  que lhe vinha da sua relação afectiva com a Manuela.  Ela, entenderá bem esta minha heterodoxia de quase invasão do “privado”.  
Mas, também insistindo no “privado”, deixo uma palavra para a sua filha Marta que sempre valorizou bem as capacidades didácticas-pedagógicas de seu pai.

Acácio Barata Lima
Porto, Ramada Alta, 14 de Novembro de 2011

20.9.11

RIP Johnny Raducanu. Vals Nostalgic.


Um amigo aterrou ontem em Cluj e difundiu a notícia da morte do Mr. Jazz romeno. O mesmo que manteve esta música viva no país quando era permitida às vezes e que é o inspirador dos jazzistas da actual geração, eles próprios dignos de nota. A escolha deste tema é também desse amigo. Nos últimos anos, Raducanu era mais eléctrico. Mas esta valsa nostálgica poderia ser um apropriado epitáfio.

9.7.11

RIP Diogo Vasconcelos

Não me atrevo a escrever sobre ele. Conheciamo-nos muito superficialmente, de uma meia dúzia de reuniões e encontros casuais. Recordo, sobretudo, o seu sorriso bem-educado, a sua militância na defesa das suas causas e, não posso deixar de dizê-lo, a solidariedade pessoal que dele recebi nos momentos mais difíceis, em que podia ter escolhido a distância ou o silêncio, mas escolheu o abraço e a palavra.
Se escrevesse mais do que isto, gostaria de ter escrito como a Maria Manuel Leitão Marques e o Carlos Zorrinho.

6.7.11

Maria José Nogueira Pinto: uma adversária que dava gosto ter

Maria José Nogueira Pinto era uma adversária política que dava gosto ter. Lutava por aquilo em que acreditava com todas as armas legítimas. Queria fazer as coisas acontecer, sabia discutir, provocar se queria, era uma polemista muito mais enérgica do que parecia à primeira vista.
Que me lembre apenas estivemos do mesmo lado nas causas que unem os democratas-cristão aos socialistas democráticos, em particular em alguns temas da solidariedade e um em especial, o lançamento do rendimento mímo garantido. A história apurará que foi ela que dobrou Paulo Portas para que não votasse contra a medida, ameaçando votar a favor se não conseguisse pelo menos a abstenção do CDS.
Não a conheci para além da vida pública e em particular nos breves meses em que participei nos frente-a-frente da SIC Notícias. Mas naqueles poucos minutos que antecedem a entrada em estúdio e nos que se seguem à saída do ar, sente-se a personalidade daqueles com quem se está a falar. Maria José Nogueira Pinto era uma conservadora radical, forte, íntegra e leal.
A vida cívica, não é uma cedência ao lugar comum, perdeu uma protagonista. Provavelmente uma pessoa que a direita não soube aproveitar tanto quanto devia, fazendo o país perder algo do que este espírito independente podia ter-lhe dado. Nalgumas causas, teria feito estragos à minha visão do mundo, mas são os adversários de mérito que melhor estimulam as boas energias das alternativas que defendemos.

9.6.11

"Semprumar": homenagem a Semprun por um (ex-)comunista amigo meu

Confesso o meu fascínio pela escrita do Semprum, de quem li boa parte dos livros e as crónicas das últimas décadas, de reflexão sobre a Europa, depois reunidas em livros que andarão cá por casa. Gosto do estilo, da construção narrativa, do humor e do cinismo sempre presente.
Julgo que cheguei a ele através da Segunda morte de Ramón Mercader, mas a minha fidelização e fascínio têm um marco objectivo: Autobiografia de Federico Sánchez. É um livro que me enche as medidas e que leio com superior gozo. Assim aconteceu a noite passada. Noticiada a sua morte, no meio de uma insónia, eram para aí 3 da manhã, tirei-o da estante e foi até de manhã a saborear aquelas 300 páginas. A espaços é certo, os momentos mais "despertadores".
Trata-se de um livro em torno da sua expulsão do Partido Comunista Espanhol em 1964, juntamente com Fernando Claudin, numa reunião do Partido num castelo na então Checoslovaquia, por, entre outras razões que (porra, leiam o livro!) se prendem com as posições do PCE, em que imperavam o Santiago Carrillo e a Passionaria Dolores Ibarrubi, em relação ao estalinismo e à dependência do PCUS (aqui chegado, espero que o meu potencial leitor já saiba ou ainda não tenha apagado o significado destas siglas). A esta distância de quase 60 anos, é uma pancada forte vermos um dos paladinos do eurocomunismo ser acusado por um dos seus de subserviência em relação à URSS.
Coube à Passionaria comunicar a decisão dos orgãos do Partido. Por isso o primeiro e o último capítulo têm o mesmo título: A Passionaria pediu a palavra. Pelo meio toda uma história da vida no e com o Partido, das suas contradições que assume como o poema com assinatura "anónimo" que o Partido distribuíu e Semprum tinha escrito 10 anos antes, em Março de 1953, horas depois do anúnci oficial da morte de Estaline:
Morreu o nosso pai, o camarada,
morreu-nos o Chefe e o Mestre,
Capitão dos Povos, Arquitecto
do Comunismo em obras gigantescas.
Morreu. Morreu. Não há palavras.
Ressoam os tambores do silêncio.
Morreu-nos Estaline, camaradas.
Cerremos fileiras em silêncio.
Com profunda ironia recupera versos do seu extenso Cântico a Dolores Ibarruri, a camarada  ali à sua frente que entretanto pediu a palavra:
A ti Dolores, agora, quero falar-te,
com a minha voz profunda e entranhada.
Modesto é o lugar de militante
que ocupo nas fileiras do teu partido;
nem tão-pouco é exemplar o meu trabalho.
Digo-te sincera e simplesmente:
não sou um bolchevique, apenas tento sê-lo.
Eu não sou Dolores, de raiz
operária. Em mim não é a consciência de classe
que me norteia palavras e acções.
Bem o entendes. O meu coração é vosso,
bate ao ritmo glorioso deste tempo....
E por aqui me fico. A Autobiografia de Federico Sanchez foi o vencedor do Prémio Planeta, um dos mais prestigiados de Espanha, em 1977. A edição portuguesa surgiu em 1982 através da saudosa Moraes Editores. Não sei se voltou a ser reeditado ou se existe no mercado mas a minha biblioteca privativa está sempre pronta a emprestar.
Muito mais havia para semprumar, mas deixo à vossa curiosidade: a mal gerida relação com Espanha e o espanhol (escrevia sempre em francês), a sua faceta cinematográfica (colaboração entre outros no argumento do Z do Costas Gravas), a sua passagem pelo governo de Filipe González (de que resultou o livro Federico Sanchez se despide de ustede).
(texto recebido por mail)
PS. Eu cheguei a Semprun pela despedida de Frederico Sanchez e juntaria à galeria dos imperdíveis. entre os textos que mais conseguem construir uma ficção notável sobre um caso real numa situação extrema, que li eu próprio num contexto bem especial, o espectacular  "Le mort qu'il faut", que julgo que não tem tradução portuguesa.

PS2. Outro amigo, de outra geração, recorda a importância de "A longa viagem" na obra de Semprun. Definitivamente, há um ângulo diferente para cada um de nós, como se espera do respeito por um criador. Recorda esse amigo o receio fulcral dos resistentes perante a opressão brutal de ditaduras e totalitarismos:

Sendo as coisas o que são, a possibilidade de se ser humano está ligada à possibilidade da tortura, à  possibilidade de vacilar sob a tortura”(...) “Um homem devia poder ser homem mesmo que não fosse capaz de resistir à tortura, mas a verdade é esta, sendo as coisas o que são, um homem deixa de ser o homem que era, que poderia vir a ser, caso vergue diante da tortura...”.

Como todos sabemos ninguém regressa o mesmo da vida que Semprun conheceu.

13.12.10

Fernando Mendonça, um protagonista discreto

No dia em que alguém voltar a olhar parao sector cooperativo como uma realidade a desenvolver e adaptar os seus ideias de solidariedade e fraternidade às duras condições de competitividade do séc. XXI terá que estudar como o movimento cooperativo agrícola no sector leiteiro em Portugal resistiu nas últimas décadas à ofensiva das multinacionais do sector e triunfou sobre elas, mantendo um predomínio no mercado português, que é raro actualmente no sector cooperativo e não é, infelizmente, acho eu, acompanhado por nenhum outro ramo do sector
Nesse dia terá que estudar-se o papel de alguns personagens discretos mas eficazes, ligados aos seus projectos e sonhadores mas pragmáticos, capazes de manter a vinculação aos seus associados locais mas sem medo de enfrentar os desafios da globalização.
Fernando Mendonça, que ontem morreu subitamente, será um protagonista incontornável nesse estudo. Conheci-o apenas no exercício de funções públicas, no quadro de dois grandes desafios - a adopção do Código Cooperativo e a organização do primeiro congresso cooperaivo em muitas e muitas décadas. 
A discussão do primeiro implicou a exigência do reconhecimento da especificidade do sector, mas também a sua disponibilidade para se interrogar sobre as suas fronteiras exteriores com os outros sectores da economia.  A do segundo implicou a capacidade de ultrapassar as fronteiras interiores entre ramos cooperativos, nascidos em diferentes movimentos históricos e com diferentes conotações ideológicas. Em ambos os desafios, Fernando Mendonça foi um aliado de peso, de grande estatura moral e política.
Dele, em todos os momentos posteriores, apenas recebi respeito e consideração, que sempre retribui com admiração e orgulho.
Partilhámos a certa altura o sonho de ver eliminadas as restrições à constituição de bancos cooperativos, para além das espartilhadas caixas de crédito agrícola mútuo, mas o sector não tinha e não tem músculo financeiro para tanto e não é matéria em que se possa tentar aventuras inconsequentes. Mas, como todos os projectos começados com alma, este e outros projectos cooperativos encontrarão novos protagonistas, se bem que, sendo todos nós substituíveis, há ns mais substituíveis que outros e, no sector cooperativo, Fernando Mendonça se encontra entre os que não têm substituto fácil.

24.2.10

RIP Orlando Zapata



(via Ana Matos Pires) Como aconteceu com outras ditaduras, os movimentos de mães estão entre as vozes mais difíceis de calar em Cuba. Orlando Zapata era um prisioneiro de consciência adoptado pela Amnistia Internacional. Foi condenado a mais de três décadas de prisão por perturbação da ordem pública, a propósito de ter organizado manifestações de solidariedade com presos políticos cubanos.
Morreu na sequência de uma greve de fome. Saiba mais sobre esta nova vítima da ditadura cubana.

5.6.09

Humberto Daniel: polemizando viveu, polemizando morreu

Foto: Setúbal dos seus sonhos
Esta noite, Humberto Daniel morreu como tinha vivido, polemizando num debate público. Socialista, sindicalista, autarca, Humberto pertencia ao tipo de cidadãos que respiram intervenção política e que à causa pública dedicavam o melhor das suas energias.
Somos da mesma geração, conhecemo-nos há décadas, desde que militámos ambos na JS e, gostando-se ou não das ideias que foi defendendo ao longo da sua vida, há uma coisa que todos lhe reconhecerão: a paixão que dedicava às coisas em que se empenhava.
Talvez ele não se reconhecesse nesta designação, mas há muito que via nele um dos cidadãos inspirados nas raízes da tradição anarco-sindicalista, uma das fontes em que bebem alguns dos mais generosos activistas portugueses do socialismo democrático de hoje.
Dos cargos públicos que desempenhou, o de Presidente da Junta de Freguesia de São Sebastião, em Setúba foi aquele em que provavelmente mais se destacou. E como ele valorizou essa função e com que dedicação a desempenhou.
A sua freguesia era uma das mais carenciadas da cidade de Setúbal. No lançamento do Rendimento Mínimo Garantido foi, talvez, o Presidente de Junta que mais se empenhou em dinamizar numa óptica de cidadania e inserção social a medida. Andou no terreno, ao lado de assistentes sociais, abriu as portas da Junta ao funcionamento da Comissão Local de Acompanhamento, empenhou-se em garantir o regresso à escola dos filhos de beneficiários que as haviam abandonado.
Do meu contacto com ele, foi nessa experiência que melhor o vi aplicar as suas energias construtivas de político, embora o próprio talvez preferisse que recordassemos a violência com que conseguia aplicar as suas energias críticas. Algumas vezes eu próprio o senti, nas nossas discordâncias, mas isso sempre foi completamente lateral na nossa relação.
Esta semana, enquanto decorria o comício de Vital Moreira em Setúbal, conversámos à porta sobre o quotidiano e ele contou como estava feliz com o novo começo na sua vida que representava estar de novo à espera de ser pai. Já não vai poder viver este novo sonho. Eu já sabia que as leis da vida são indiferentes à justiça. Mas, essa verdade racional não deixa de ferir cada vez que somos confrontados com ela desta dura forma.