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30.10.11

"Apesar de você". Chico Buarque e a mulher autoritária.

Brasil, 30 de Outubro de 1969.
O General Médici passa a ser Presidente da República da ditadura militar. É criada a ideia de uma abertura que leva o editor de Chico Buarque a convencê-lo a regressar ao Brasil. Mas a ditadura era a mesma, em todas as suas frentes. Chico recorreu a um estratagema recorrente dos cantores de intervenção em tempo de ditadura -  jogar com a ambiguidade das palavras. Compôs um samba supostamente sobre uma briga de namorados e a censura deixou passar:



O sucesso de "apesar de você" entre a juventude rebelde tornou o verdadeiro sentido da canção evidente e, obviamente, foi proibida. "Quem é o você da canção?", terão perguntado a Chico na polícia, que terá respondido "uma mulher muito mandona, muito autoritária". 

5.8.11

Isto é jornalismo

Nelson Jobim podia ter a intenção de o fazer ou pode ter sido levado a dizê-lo, mas é um bom momento de jornalismo, aquele em que o jornalista pôe o Ministro da Defesa a dizer em público que votou no adversário da Presidente a cujo governo pertence. As consequências foram as que tinham que ser num caso destes, num país normal. Saíu do governo.


PS. Alguém conseguiria saber se os membros do Governo português votaram todos no PSD ou no CDS? Ou mesmo se votaram? Isso também seria jornalismo.

10.9.10

Qual é a cobra não venenosa? Lula explica.

O marketing político no Brasil é fascinante. Lado a lado com técnicas sofisticadas, apenas comparáveis às americanas, fazem-se as campanhas mais kitsch e inacreditáveis.
Esta diversidade não é acidental. No Brasil, campanha é mesmo para procurar voto, todos os votos, de todos os eleitores, de todas as condições sociais. Campanha não é coisa que obedeça ao politicamente correcto, procure impressionar elites já decididas ou perca tempo com mediadores que não chegam ao povão..
Mesmo as figuras de primeiro plano arriscam na linguagem a níveis inimagináveis em Portugal e descem a um vocabulário que este país que só acha credíveis políticos que falem como doutores destruiria nos media.
Por cá, para pedir que votem no nosso candidato, apresentamos-lhe o currículo, as boas ligações, etc. Uma vez por outra lá se diz que é necessário separar o trigo do joio, distinguir a boa da má moeda, ou algo assim. Mas, para os protagonistas do primeiro plano (excepto Paulo Portas em dia em que perca o controlo) não passa disso. Coisas bíblicas ou da teoria económica, são o máximo defigura de estilo a que chegamos sem que os comentadorres zurzam nos políticos.
Mas no Brasil a campanha dói mais. E gostei de ler no blogue de Richard Widmark que Lula, ele mesmo e não qualquer político de terceira linha, explica assim em campanha em Belo Horizonte como devem os eleitores procurar decidir o seu voto:

 “Daqui a pouco, a gente não tem noção, colocam 10 cobras na nossa frente, e a gente não sabe qual é a venenosa e qual não é venenosa”.

Lula anda pelo Brasil, a explicar que cobra evitar, a ver se o eleitor morde o isco que lhe lança. E eu, que o acho um grande Presidente da República, sorrio a imaginar Cavaco ou Alegre a tentarem dizer coisas destas por aí.

5.4.10

Reuniu hoje pela primeira vez o governo "suplente" do Brasil.

Lula remodelou o governo por causa das eleições de Outubro. No Brasil vigora uma norma, aos nossos olhos estranha, que faz com que um Ministro que se candidate às eleições federais tenha que renunciar ao cargo. Assim, o país passa o último semestre de cada legislatura com Ministros "suplentes" e sem os políticos pesos-pesados.
A meus olhos é uma instituição algo estranha e paralizante do Estado, embora se compreenda a intenção de separar o exercício de funções públicas com a campanha eleitoral.
Na notícia de hoje da Globo, chama-se ainda a atenção para outro pormenor, bem significativo da especificidade das instituições políticas brasileiras: o Supremo Tribunal Eleitoral já multou duas vezes Lula por fazer campanha antecipada para a sua candidata, Dilma Rousseff.
Já imaginaram George Bush multado por fazer campanha por McCain? Ou Clinton por tê-lo feito por Al Gore?
Como, no terreno, este rigor brasileiro se mescla com as mais perigosas formas de clientelismo e de condicionamento da vontade dos eleitores, é outra história. Mas, no fundo, não deveria surpreender-nos esta forma de mestiçagem institucional do mais rigoroso formalismo democrático com o mais despudorado clientelismo eleitoral. O Brasil entende-se a si mesmo como o fruto da mais bem sucedida mestiçagem do mundo.

31.3.10

A libertação de mais um refém das FARC tem um dedo de Lula

Em nenhum conflito os papeis de falcão ou de pomba são atributos exclusivos de uma das partes. As FARC e o governo da Colômbia não são excepção e a guerrilha está agora a conseguir demonstrar uma vontade de paz que o governo não consegue acompanhar.
Bem pode este clamar que se trata de acto de propaganda e ameaçar a televisão colombiana que seguiu em directo a libertação do refém,  que o que sobra é que agora as FARC recebem na selva uma senadora do Partido Liberal para libertar reféns e não para ser raptada ela própria.
Algo mudou para que isto seja possível. Um dos factores de mudança é uma vitória governamental, que conseguiu debilitar muito o seu oponente no plano militar. Mas não bastaria. O que estamos a assistir exige uma diplomacia habilidosa, persistente e forte.
E nesse campo há que sublinhar a vontade das FARC, a oferta humanitária da Cruz Vermelha e o papel da senadora. Mas há que interrogarmo-nos como se conseguiu criar a janela de segurança adequada à libertação do sargento Moncayo, durante o tempo necessário, que até teve que ser estendido por causa das condições climatéricas. E, na resposta a esta questão, não parece nada acidental que tenham sido helicópteros brasileiros a realizar a operação de resgate.
A chave para a possibilidade de pacificação deste conflito não está nem do lado do alinhamento dos EUA com o governo colombiano nem nos laços promíscuos do Chavismo com as FARC, mas na afirmação progressiva do Brasil como potência regional e na sua capacidade de se manter como elo entre os autodesignados bolivarianos, o que remanesce da extrema-esquerda militarizada e as oligarquias que persistem no poder em vários países.
Esta obra da presidência de Lula é já património diplomático do Brasil e quem lhe suceda terá que ser capaz de estar à altura de o continuar.

25.2.10

Lula e o castrismo: realpolitik a quanto obrigas

Não acredito que nos dias de hoje Lula morra de amores pela ditadura castrista, mas quer ele quer os Castros sabem que o Brasil não pode ser potência regional, pelo menos enquanto durar o bloqueio, sem dar sinais de estar com Cubs contra os ianques. No contexto extremamente embaraçoso de visitar a ilha a seguir à morte de um preso político em greve de fome, Lula, político habilidoso, bem passou para o lado de cá da objectiva, mas o Wall Street Journal não deixou de ver a foto por causa disso.

29.5.08

Carlos Minc, o pitbull e as armadilhas da imagem

O novo Ministro do Ambiente brasileiro é mais um bom conhecedor de Portugal. Passou por cá no PREC enquanto exilado político e fez bons amigos na esquerda a que se convencionou chamar extrema. Conversei com ele uma única vez, há unas anos,no Rio de Janeiro, porque lá tinha ido com um amigo seu dessa época. Da conversa para além das memórias que caracterizam todos os reencontros de amigos, guardo dois episódios. Carlos Minc fazia as suas campanhas eleitorais com dinheiro do seu próprio bolso e da sua família, com recursos extremamente limitados e achava que essa era uma limitação inultrapassável a que ideias como as suas se afirmassem na política nacional. Não lhe passava sequer pela cabeça dar esse salto. Mas, sintomatico mesmo da eficácia e astúcia mediática com que se fazia o combate político no país, foi a história que nos contou do que tinha acabado de acontecer-lhe num programa de TV. Á época Carlos Minc era um activista contra a liberdade com que se passeavam cães perigosos pelo Rio. Um tema fracturante e uma batalha que acabou por ganhar, com a lei que interdita a circulação desses cães na via pública a certas horas e regulamente o uso de mordaças . Nessa altura, foi convidado a ir ao programa de Jô Soares defender as suas posições. Jô, a velha raposa, deu-lhe todo o palco. Deixou-o expor quase sem contraditório todos os seus argumentos sobre a perigosidade desses animais e as suas características violentas e perigosas. Quando a entrevista estava a terminar, subitamente, um pitbull bébé entra em estúdio, salta para o colo do político e tem a performance enternecedora dos cachorros. Sem uma palavra, Jô arrasara toda a argumentação. Comparado com este profissionalismo, os grandes planos de Ferreira Leite são apenas tentativas desastradas de aprendizes de feiticeiro. Mesmo assim., Minc ganhou essa batalha e a sua lei passou. Agora vamos ver como se dá em Brasília. Andamos um pouco distraídos sobre a política brasileira, mas com a administração de Fernando Henrique Cardoso abriu-se um ciclo político no Brasil que conduziu à possibilidade de alguém como Lula poder ser Presidente e em que a defesa de políticas justas, corajosas e radicais se mistura com a gestão realista dos problemas com a qual quase toda a esquerda portuguesa - já que o PCP parece um caso perdido - podia bem aprender algo. Foto: Amisrael