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23.5.14
A Rua Sésamo e as políticas publicas
Os apóstolos do mercado gostam de dizer que a intervenção do Estado na cultura é desnecessária, mesmo perniciosa, e se deve deixar todo o espaço à livre iniciativa. Quando a Rua Sésamo atingiu 44 anos de emissão, vale a pena lembrar-lhes que é filha de um programa de acção pública para a igualdade de oportunidades, de uma iniciativa pública das muitas daquele que foi talvez o último Presidente americano que abraçou grandes causas sociais e atacou a sério o problema da desigualdade, Lyndon B. Johnson. Este artigo do Washington Post conta a história e relembra com alguns vídeos os momentos marcantes da série.
27.3.13
Sócrates na RTP: metamorfose ou regresso?
José Sócrates, o comentador, regressa com uma entrevista ao ex-Primeiro-Ministro. Quem definiu este perfil deve ter ganho a liderança das audiências hoje, mas também contribuiu para a confusão sobre o estatuto do regressado.
Dizem que o comentador José Sócrates não vai ser remunerado. Acho mal. O comentário político é um trabalho. Tem utilidade social e valor económico. Como não há almoços grátis e José Sócrates não vai comunicar no âmbito de uma responsabilidade inerente a funções públicas ou de uma causa que defenda, mas prestar um serviço de análise, ele e a RTP deixam ficar implícito que vai ser pago em promoção da sua marca pessoal, a qual, em Portugal, tem essencialmente valor político.
Tenho curiosidade sobre o que o ex-Primeiro-Ministro tem a dizer sobre o actual estado do país e sobre o que o ex-Secretário-Geral do PS tem a dizer sobre a dinâmica do seu partido sob a liderança do seu sucessor. Mas, recordo uma resposta de António Costa na Quadratura do Círculo quando o pressionavam a falar sobre a sua então protocandidatura a Secretário-Geral do PS. Disse algo como 'não sou comentador para me comentar a mim mesmo'.
Terá Sócrates a mesma sageza então demonstrada por Costa e deixarão as circunstâncias que a pratique? O setting montado pela RTP, o alarido das petições online e a enormidade do envolvimento do parlamento na questão por mão do CDS apontam em sentido contrário. Se Sócrates quiser surpreender, comentar-se-à a si mesmo hoje, mas não nos comentários posteriores, e vincá-lo-á logo a abrir a entrevista. Se não o fizer, independentemente do sucesso político e pessoal que venha a ter ser inferior ou superior ao que teve com os debates com Santana Lopes, presta um mau serviço à definição da fronteira conceptual entre política activa e comentário político. Uma fronteira tão necessária, quanto está completamente esbatida no país dos ex-lideres que usam a televisão como estaleiro para os sonhos de regresso ao mar alto.
Se hoje houver regresso e não metamorfose, os que gostam dos combates políticos ganham um tema de conversa, mas a relação entre os media e a política, não perdendo grande coisa, não ganha nada.
28.12.12
Da Prisa à Newshold, a vitória é certa, mas de quem?
Tal como quem definiu o perfil da TVI não foram os espanhóis da PRISA, na Newshold preocupa-me mais a concepção de jornalismo dos rostos portugueses do que os interesses dos seus financiadores angolanos.
Ao contrário da análise predominante, acho que os "capitalistas" angolanos já demonstraram que têm uma sofisticação incompatível com a ingénua ideia de tentarem transformar os nossos meios de comunicação em meras correias de transmissão do regime político que os gerou. Mas a ideia de que o tipo de jornalismo do Sol e do Correio da Manhã possa dominar um canal de televisão montado nos capitais desse poderio económico-político faz-me pensar que o risco de "asfixia democrática" não é imaginário; apenas tem o seu epicentro entre nós e não lá fora.
Ao contrário da análise predominante, acho que os "capitalistas" angolanos já demonstraram que têm uma sofisticação incompatível com a ingénua ideia de tentarem transformar os nossos meios de comunicação em meras correias de transmissão do regime político que os gerou. Mas a ideia de que o tipo de jornalismo do Sol e do Correio da Manhã possa dominar um canal de televisão montado nos capitais desse poderio económico-político faz-me pensar que o risco de "asfixia democrática" não é imaginário; apenas tem o seu epicentro entre nós e não lá fora.
10.12.12
"Medina Carreira": uma falha no sistema anti-fraude ou uma peça numa engrenagem de produção de notícias?
Na sequência de uma referência a que haja "pessoas avençadas" para a violação do segredo de justiça, Estrela Serrano acha que é uma humilhação para os jornalistas que mercenários façam deles correias de transmissão para publicação de "notícias" e recomenda às redacções que discutam os procedimentos de recolha de informação para que os jornalistas não sejam alvos passivos ou activos de impostores.
Compreende-se que o conselho é dado de boa fé, mas implica uma resposta a meu ver errada a uma pergunta prévia. Esses supostos avençados seriam avençados de quem? Se dos jornais, o conselho não faz sentido, porque seriam as práticas dos jornais e dos jornalistas a produzir as fontes e não a serem correias de transmissão. Se de outras entidades, talvez fosse grave para o sistema democrático, mas quem serão essas entidades, teorias da conspiração à parte?
Infelizmente, Estrela Serrano, não penso que estejamos a falar de uma falha do sistema de defesa anti-fraude dos jornais, mas de um sistema de produção de informação de que alguns deles são co-autores. E, infelizmente, até hoje nem o regulador nem os tribunais tiveram capacidade para o prevenir ou punir, nem existem mecanismos que evitem que o crime compense. Mais, que as vítimas deste sistema sejam induzidas a, se agirem racionalmente, nem sequer tentarem enfrentá-lo, é o pior sinal possível de que estamos perante um arranjo institucional perverso e poderoso.
O jornal desta semana está vendido e toda a gente espera, ansiosa, por outro Medina Carreira, que aumente as vendas e mantenha a notoriedade. Resta-nos fazer apostas quanto a quem sairá esta lotaria negra ou quanto ao perfil daqueles em relação a quem temos a certeza de que não sairá nunca e porquê..
Compreende-se que o conselho é dado de boa fé, mas implica uma resposta a meu ver errada a uma pergunta prévia. Esses supostos avençados seriam avençados de quem? Se dos jornais, o conselho não faz sentido, porque seriam as práticas dos jornais e dos jornalistas a produzir as fontes e não a serem correias de transmissão. Se de outras entidades, talvez fosse grave para o sistema democrático, mas quem serão essas entidades, teorias da conspiração à parte?
Infelizmente, Estrela Serrano, não penso que estejamos a falar de uma falha do sistema de defesa anti-fraude dos jornais, mas de um sistema de produção de informação de que alguns deles são co-autores. E, infelizmente, até hoje nem o regulador nem os tribunais tiveram capacidade para o prevenir ou punir, nem existem mecanismos que evitem que o crime compense. Mais, que as vítimas deste sistema sejam induzidas a, se agirem racionalmente, nem sequer tentarem enfrentá-lo, é o pior sinal possível de que estamos perante um arranjo institucional perverso e poderoso.
O jornal desta semana está vendido e toda a gente espera, ansiosa, por outro Medina Carreira, que aumente as vendas e mantenha a notoriedade. Resta-nos fazer apostas quanto a quem sairá esta lotaria negra ou quanto ao perfil daqueles em relação a quem temos a certeza de que não sairá nunca e porquê..
9.12.12
Mais tarde ou mais cedo haverá outro Medina Carreira
Venci o pudor e fui ver quem assinava a peça do Sol que "incrimina" Medina Carreira. Tal como numa prova cega, podia adivinhar sem ver preto no branco. As fontes e o seu modus operandi, a transmissão just in time da investigação criminal num estádio preliminar de investigação, a transmissão acrítica do que é contado para a manchete, o ataque feito à vítima num aspecto da sua vida de que depende a sua credibilidade, têm marca registada em Portugal.
Marx dizia que a história se repetia duas vezes, a primeira em tragédia, a segunda em farsa. Esta já se repetiu quantas vezes? Até prova em contrário, Medina Carreira é a vítima mais recente da imaginação delirante de alguém, da credulidade de mais alguém, da perversidade que se julga purificadora de outros e da sua própria visibilidade, transformada em pecado. Não é nenhuma teoria da conspiração, é a versão portuguesa do moral panic.
Estamos em crise financeira? Os "empreendedores morais" viram-se para aí. Mudam os tópicos, mudam as vítimas, não muda a natureza dos agentes. Só há uma certeza, mais tarde ou mais cedo haverá outro Medina Carreira, porque quem alimenta o jornalismo de esgoto não é a fonte nem o jornalista, é o público; tal como quem queria o sangue dos bodes expiatórios nas matanças de outrora (vá lá, que agora são apenas metafóricas) era o povo. Os inquisidores ficavam satisfeitos, tal como a fonte e o jornalista agora, mas era porque se contentavam com o seu próprio sucesso, desinteressados da verdade material ou, pior, completamente incapazes de perceber a importância de a procurar em vez de receber e difundir uma crença. Cada época gera as bruxas de que necessita.
Marx dizia que a história se repetia duas vezes, a primeira em tragédia, a segunda em farsa. Esta já se repetiu quantas vezes? Até prova em contrário, Medina Carreira é a vítima mais recente da imaginação delirante de alguém, da credulidade de mais alguém, da perversidade que se julga purificadora de outros e da sua própria visibilidade, transformada em pecado. Não é nenhuma teoria da conspiração, é a versão portuguesa do moral panic.
Estamos em crise financeira? Os "empreendedores morais" viram-se para aí. Mudam os tópicos, mudam as vítimas, não muda a natureza dos agentes. Só há uma certeza, mais tarde ou mais cedo haverá outro Medina Carreira, porque quem alimenta o jornalismo de esgoto não é a fonte nem o jornalista, é o público; tal como quem queria o sangue dos bodes expiatórios nas matanças de outrora (vá lá, que agora são apenas metafóricas) era o povo. Os inquisidores ficavam satisfeitos, tal como a fonte e o jornalista agora, mas era porque se contentavam com o seu próprio sucesso, desinteressados da verdade material ou, pior, completamente incapazes de perceber a importância de a procurar em vez de receber e difundir uma crença. Cada época gera as bruxas de que necessita.
26.11.12
Sir Humphrey podia dar umas aulas aos autores de certas sondagens
Em ciências sociais não há perguntas perfeitas nem respostas independentes das perguntas que se fazem. Mas há casos de manual ou de anedotário, se preferirem. A empresa Pitagórica e o Jornal i protagonizaram uma hoje. Esta. Os sondageiros prontificaram-se a perguntar o seguinte: "O Partido Comunista e o Bloco de Esquerda defendem a realização imediata de eleições. Acha que se devem realizar já eleições?" Era mais fácil perguntarem logo: "simpatiza com o PCP ou com o BE?".
Na escola onde estes pitagóricos estudaram ninguém lhes ensinou o que é uma "leading question"? Sir Humphrey podia dar-lhes umas aulas práticas:
:
Na escola onde estes pitagóricos estudaram ninguém lhes ensinou o que é uma "leading question"? Sir Humphrey podia dar-lhes umas aulas práticas:
:
25.11.12
Num blogue perto de si
Sobre a refundação
O Estado social mais justo, Hugo Mendes em Jugular
A Primavera árabe no Inverno
The rise of a pharaoh: the Arab spring's newest dictator, Nezar Alsayyad em The Berkeley Blog
O Estado social mais justo, Hugo Mendes em Jugular
A Primavera árabe no Inverno
The rise of a pharaoh: the Arab spring's newest dictator, Nezar Alsayyad em The Berkeley Blog
Os media e os outros poderes
Nem os jornalistas são auxiliares das polícias nem as polícias devem ser bancos de imagens das televisões, Estrela Serrano, em Vai e Vem
8.11.12
E se a PT se concentrasse antes em dar-nos uma TDT de jeito?
Tem razão Pedro Lains. E eu acrescento que a questão da qualidade da recepção de TDT não se resume à cobertura de zonas rurais remotas. Testemunhei-o na cidade de Aveiro, supostamente uma Cidade Digital, no fim-de-semana passado. Como pode a PT viver bem com a ideia de que deu a Portugal, na era digital, uma situação em que o número de canais abertos não se expande e, ainda por cima, a qualidade da cobertura diminui? Não é aceitável que a recepção de canais abertos em Portugal seja em 2012 pior do que era em 1972.
7.11.12
É possível fazer jornalismo com rigor e contenção. Será necessário que o objecto da notícia seja um jornalista?
Alguém "terá tentado" agredir um Ministro. Terá sido um jornalista. A notícia é dada com objectividade, rigor e contenção e protegendo a identidade do suspeito de agressão. O suspeito é um jornalista, antigo colaborador do Público e do Expresso, não é um cidadão anónimo. Porque se o fosse, já saberíamos todo o seu Bilhete de Identidade. E se fosse político ou antigo político, então...
20.10.12
O circo das escutas voltou à cidade. A Ministra da Justiça já comentou o fim da impunidade?
A Ministra da Justiça já tropeçou na escuta do dia? Que soundbyte populista lhe saiu desta vez?
Eu pergunto-me se em Portugal há alguém que nunca tenha falado de ou para um telefone sob escuta, quantos milhões de páginas de transcrições se produzem por ano e se há algum racio entre os recursos despendidos neste meio de investigação e em outros.
Claro que não estou a comentar esta escuta, mas as vagas sucessivas delas que aterram directamente da investigação criminal nos jornais e nas televisões por obra e graça do espírito santo.
Facilmente essas escutas e o seu uso atentam contra direitos fundamentais? Que nos importa? Ouvir é mais fácil que andar na rua à procura de provas e é muito mais produtivo na produção de indícios por muito falíveis que sejam. Sem falar no picante voyeurismo de ficarmos a saber que as pessoas públicas usam todo o vocabulário do português contemporâneo e não apenas aquele que é consistente com os fatos e gravatas.
Ficamos a saber tanto sobre a vida dos outros nas escutas telefónicas. Mas não há problema, porque as escutas são sempre, precisamente, feitas aos outros, como julgam as boas consciências e pensava a Ministra da Justiça quando comentava just in time certas diligências processuais. E nesta história, provando que nem tudo é linear, nem se começa pelos comunistas, ao contrário do velho poema.
A interpretação das escutas exige muita heurística e domínio aprofundado da semiótica? Que interessa, se as pessoas não usam o código linguístico do português que está sentado a ouvi-la e do juiz que a valida, são criminosas até que provem o contrário. É tão simples. E, garanto, a imaginação conspirativa dos auditores de escutas pode transcender a dos policiais negros.
Autobiograficamente falando, nunca poderei esquecer as inferências feitas e as consequências que resultaram da atribuição a uma minha interlocutora telefónica da designação "voz masculina" e da ignorância dos investigadores sobre um facto de actualidade num conflito internacional.
O circo das escutas voltou à cidade. Eu, democrata, não vou por aí. Se algum dia, o escutado for levado a julgamento por suspeita de crime, telefonem-me.
PS. Escrevo na total e propositada ignorância do suposto conteúdo da escuta telefónica a Pedro Passos Coelho que "|caiu" no Expresso, que por sua vez a pôs na capa como costuma fazer o seu concorrente Correio da Manhã.
19.10.12
A educação de um povo/leituras #2: Como vai ser 2013? O que dizem os anuários hortofrutícolas
O LMC continua a série de leituras instrutivas da verdade a que temos direito nos media mais lidos do país. Desta vez debruça-se sobre os respeitáveis e idosos O Seringador - Reportório Crítico-jocoso e prognóstico e o Verdadeiro Almanaque Borda d'Água - Reportório útil a toda a gente. Antes, tinha sido a vez da Ana, da Maria e da Mariana.
HÁ VENTOS FAVORÁVEIS A SOPRAR NAS NOSSAS VELAS?
O orçamento para 2013 vai sendo vendido ao retalho para antecipar a pouco e pouco o choque hemofilático que em todo o seu esplendor explodirá esta segunda, 15 de Outubro.
Sempre atento às dinâmicas da sociedade e na
vanguarda da informação, construí a previsão para 2013, para lá do
orçamento e como leitura complementar, sobre os desvarios de um povo do
melhor que há, suportada nos almanaques hortofrutícolas e usando como
variáveis de controlo (reminiscências da formação em sociologia) os
"estudos" do Eugénio Rosa e as "análises" do Marques Mendes. Como em
2013 passarei a ser sexagenário, assumo aqui o papel do Velho da Cartola, o homem que fazia as previsões no Borda d'Água quando tinha tiragens de 300 000 exemplares, batendo largamente a revista Maria.
Os almanaques hortofrutícolas são sempre uma boa e nobre fonte de informação, porque baseados em saber acumulado e testado: O Seringador - Reportório Crítico-jocoso e prognóstico (S) já vai no 148º ano de publicação (tiragem não revelada) e o Verdadeiro Almanaque Borda d'Água - Reportório útil a toda a gente (BdA) já leva 84 anos e declara uma tiragem de 100 000 exemplares.
Eis o nosso futuro imediato em 10 andamentos:
1. Como será o primeiro dia do resto do novo ano?
2013 (ano comum) nasce a uma terça-feira, tendo
domínio sobre o fogo, assegura o BdA. Já o S garante que o facto de o
ano começar a uma terça o que, segundo os Antigos (com A grande), é um
dia azarento como todos os demónios e prenunciativo das desgraçadas
condições em que o petiz inicia a sua carreira, que deverá ser
tormentosa, prenhe de misérias, desgraças, guerras, revoluções,
epidemias e calamidades de toda a ordem...(uff!). Atenção, nada de desânimos, há saída, garante o S: só Deus, em sua infinita misericórdia, nos poderá livrar, mas para isso é necessário para Ele apelarmos em súplica fervorosa.
2. Qual o planeta dominante?
Marte, o planeta da Morte, segundo o S presidirá aos destinos de 2013 o que é uma tremendíssima espiga! O
BdA é mais prosaico e considera como principais características de
Marte, os metais ferro e cobre e, desta forma, 2013 será quente, seco,
masculino, noturno e pouco amigo do homem. Esta dimensão de
humanidade é aprofundada pelo S que, socorrendo-se do juízo fundamentado
do eminente astrólogo Alfagrano, vai mais longe. Marte é inimigo do homem (excepto dos tratantes que são seus protegidos). Outra vez, em 2013?
3. Que clima vamos ter?
Mais escorreito e prosaico, o BdA garante que vamos ter uma primavera húmida a que se seguirá um verão quente. O outono vai ser seco antecipando um inverno frio e chuvoso. Uma certeza porém: a neve salpicará de branco as terras altas.
Mais gongórico, o S garante que o inverno vai ser muito frio, chuvoso como o diabo e escuro como breu. A neve não será apenas aos salpicos, garante o S: haverá neves por uma pá velha. E o outono e o inverno? Sem dúvida, sustenta o S, o estio será quente como as fornalhas de Belzebu e o outono seco que nem um arenque.
4. E no mar, como vamos navegar?
O BdA é categórico: em 2013 as tempestades e os naufrágios serão uma constante levando assim a muitos e devastadores infortúnios. No mesmo sentido, mas de forma mais devastadora, o S garante que haverá tempestades pavorosas e naufrágios tremendos.
5. E em terra, como vai ser a lavoura?
Vai haver pancadaria tesa, garante
o S. Quanto à agro-pecuária, vamos ter falta de trigo e outros grãos,
garante o S. O BdA confirma que os cereais serão escassos. Já quanto ao
azeite e ao vinho, os dois oragos não coincidem: haverá mediania de
azeite e bastante vinho, assevera o S. Para o BdA o azeite e o vinho serão pouco abundantes. A ver vamos!
6. E vai haver eclipses?
Não há ano que se preze que não tenha a sua dose
de eclipses. Em 2013 serão 2 do Sol e 3 da Lua. Total, do sol, só em 3
de Novembro. Das 10.05 às 15.29 o oceano Atlântico e suas
envolventes vão mergulhar na escuridão, no reino das trevas. Mais
simbólico (premonitório?) é o eclipse parcial da Lua em 25 de Abril. O
que sobrará dos "ideais" de Abril?
7. E as pessoas?
O BdA é categórico sobre o que nos espera em 2013: Nas
pessoas é previsível um aumento de doenças e mortes sobretudo no sexo
feminino. Seremos surpreendidos por mortes repentinas de pessoas com
bastante influência e notoriedade na vida pública do país. Cuidado
notáveis de Portugal! O S vai pelo mesmo caminho. O sexo feminino será
mais atingido por várias enfermidades e garante também que morrerão alguns varões ilustres e grandes - vitam cum morte commutabunt! Mulheres, cuidem-se!
8. E as crianças, senhores?
Só o BdA ousa produzir juízo, mas que a mim, que vou ser avô no início de 2013, interessa particularmente pois, os
que nascerem sob o domínio de Marte serão inimigos da paz e cheios de
ira vivendo sem piedade, mentindo e enganando, pelo que exige particular
atenção a seus educadores pois as crianças são difíceis de educar mas
também um desafio para a própria sociedade. De um fôlego, sem vírgulas como no original. Minha rica netinha...
9. Recados que calam fundo
Os nossos oráculos também têm as suas fontes e os
seus conselheiros que, em verso ou em prosa, contribuem para aprofundar o
pensamento prospectivo e consolidar a dimensão analítico-empírica em
que assentam os juízos para o ano que aí vem, se, como há quem anteveja,
mas carece de confirmação, o mundo não acabar antes, mais
precisamente em 12.12.12.
O S recorre à edificante verve dagrande poetisa D. Maria Emilia Dinis Rocha:
Crimes nos noticiários
Engravatados vigários
Que eu fiquei desiludida.
Desliguei a televisão
Disse um enorme palavrão
E chamei p... à vida.
Sublime!
O BdA bebe do fino. Nem mais nem menos que
Plotino, esse egípcio filósofo neoplatónico, discípulo de Sacas e
mestre de Porfírio:
Se um homem procura numa vida boa algo para além dela, então não é a vida boa que procura.
Profundo!
10. Haverá saída, ventos favoráveis?
Claro que sim, mas aí as nossas fontes divergem sobre a rota, o rumo, a atitude. Depois de considerar que o vaticínio para 2013 é de arrepiar o cabelo a um careca, o S, enquanto o pau vai e vem folgam as costas, aconselha que esperemos
confiados que Deus Nosso Senhor nos tome sob sua omnipotente protecção,
crendo sempre que acima de todos os juízos DEUS SUPER OMNIA.
No seu (perfeito) juízo, o BdA não tem dúvidas: prever o futuro implica tomadas de decisão no presente. A luta continua: Delimitar objectivos facilita a nossa vontade de lutar e as estratégias a aplicar para atingir os fins pretendidos.
Até
ao fecho desta edição não conseguimos recolher as previsões do nosso
analista e do nosso estudioso, mas beneficiámos das frescas declarações
públicas de Jerónimo de Sousa e de José Policarpo que convictamente
confirmam estas tendências para 2013.
Afinal, vai haver revolução ou não?

8.9.12
A educação de um povo/leituras: A Ana e a Mariana (sem esquecer a clássica Maria)
O LMC foi ver o que une e divide a Ana, a Mariana e a Maria.
Faltavam poucos minutos para as oito e meia da manhã desta quarta-feira 5 de Setembro. Saio do autocarro 728 e dirijo-me ao quiosque no Cais do Sodré em frente da entrada do Metro para comprar o Público. Ao meu lado, uma senhora de meia idade dirige-se ao casal de vendedores e pergunta se têm a ANA. Já não temos, responderam, só temos a MARIANA. A potencial compradora afastou-se, nem água vai nem água vem, como se tivesse sido vítima de uma heresia. REvista só há uma, a ANA e mais nenhuma!
Fiquei de orelha guiada e num quiosque para os lados do Campo Pequeno comprei a ANA, a MARIANA e, já agora, a clássica e histórica MARIA. Por junto 1,95€ porque o preço é uniforme: 0,65€. De imediato mergulhei no universo das revistas de bolso dirigidas sobretudo às mulheres. De resto, a ANA reivindica-se de mulher para mulher e a MARIA, mais do que uma revista a sua maior amiga. Não vislumbrei especial referência na MARIANA embora ostente na capa o símbolo 100% portuguesa. Remoque?
Alguns traços em comum:
1. Longevidade
Num panorama editorial caracterizado pelo aparecimento (muitas vezes efémero) e desaparecimento de publicações, as 3 revistas revelam capacidade resistente e exibem tiragens generosas.
A MARIA já vai no nº 1765 e reclama uma tiragem média de 242 750 exemplares por edição. Contas de merceeiro, na média de 50 edições ano, a MARIA já se publica há mais de 35 anos e em cada ano venderá mais de 10 milhões de exemplares!
A ANA vai no nº 797, indica tiragem média de 58 500 exemplares por edição. Pelas mesmas contas, já sobrevive há cerca de 16 anos.
A MARIANA é mais recente, vai no nº 489, indica uma tiragem média de 50 000 exemplares, devendo andar perto de celebrar 10 anos de vida se, em qualquer dos casos, nenhuma das publicações sofreu interrupção editorial.
2. O seu a seu dono
A MARIA e a ANA pertencem ao universo IMPALA/Jacques Rodrigues. A MARIANA pertence à PRESSPEOPLE, grupo que tem uma linha editorial centrada na culinária com particular enfoque na saudável e vegetariana, para além de uma linha de publicações em torno dos astros, salmos e orações poderosas.
Para quem como eu tem um pós-doc em vida social, tirado na prestigiosa universidade de Marbella, dei conta agora que o grupo IMPALA tem 4 publicações, dirigidas (particularmente) a mulheres das classes D (MARIA), C (ANA), B (NOVA GENTE) e A (VIP). Curiosamente o tamanho é também crescente sendo a MARIA a minorca e a VIP a que tem uma superfície mais ampla.
A MARIANA, suponho que corresponde a um trocadilho ou provocação no ataque ao domínio IMPALA (MARIA¨+ANA), tem um tamanho intermédio, maior que a MARIA, mais pequena que a ANA.
3. Temáticas
Vai tudo bater no mesmo. As 3 revistas dedicam o essencial da primeira página à telenovela da SIC, Dancing Days, que está a contribuir para que a televisão do Balsemão esteja a bater a TVI na prime time. As revistas cavalgam a onda do fenómeno ou inserem-se numa estratégia mais global, companheiras úteis, da ofensiva do canal de Carnaxide?
As telenovelas, os últimos acontecimentos acontecidos e vindouros dos próximos episódios consomem a parte de leão de todas elas.
MARIANA: Duarte rejeita Júlia
MARIA: Mariana conhece o pai e descobre que tem um irmão... mas é rejeitada
ANA: Traição entre irmãs/Raquel rouba namorado a Júlia
Três manchetes todas relativas a Dancing Days.
Sexo: muito e diversificado, com chamadas na primeira página:
ANA: Sexo/Descubra se está a ser traída
MARIA: Teste/Fantasias sexuais por revelar?
Talvez porque anda a vender a colecção CRUZES DO MUNDO (2 colares com +2,95€), a MARIANA é mais parca, chamando à primeira página as declarações da actriz Ana Guiomar que garante não gosto de me ver com implantes.
Para lá das traições, a ANA dedica 2 páginas a 22 lições sobre jogos libidinosos em que é proibido usar mãos e a MARIA desenvolve os 6 mitos comuns sobre os homens.
A MARIA tem ainda um correio íntimo para ela (tenho vergonha do que ele me pede) e para ele (como fazê-la adorar sexo?) e a ANA publica um conto erótico.
Culinária, receitas, cuidados de beleza, roupas, regresso à escola/filhos, horóscopo, fofoquices de "famosos" nacionais e lá de fora, cenas insólitas (MARIANA: noiva cai ao rio durante as fotos do casamento) são questões transversais nos conteúdos de todas.
4. Publicidade
A contracapa das 3 revistas é de empresas de crédito rápido. As duas da IMPALA, Cofidis. A MARIANA, Cetelem, mas o verso da primeira página é da Cofidis e a Cetelem tem uma página impar na Maria.
Cremes, tratamentos, plataformas vibratórias, soluções para a calvície, astrólogos e videntes, turismo alimentam publicitariamente as 3 revistas.
Eis sinteticamente a minha peregrinação por 3 publicações do nosso panorama editorial que fabricam 20 milhões de cópias por ano correspondendo a 6 mil milhões de páginas impressas, se dermos como bons os números apresentados nas tiragens.
Já parecem os números do deficit, mas, pelas aparências, a crise não está a passar (muito) por aqui...
Boas leituras.
LMC
1.9.12
Mais um episódio da novela sem fim do país das escutas
A.R. formula um desejo que não se concretizará, porque mercado não é igual a democracia e este tipo de coisas vendeu, vende e venderá em Portugal (e há sempre alguém a pensar que é um problema dos judeus, dos ciganos, dos homossexuais, até que chegue a sua vez).
24.6.12
Pode a polícia municipal ter sido injuriada e agredida antes de o ser? Óscar Mascarenhas aconselha bem o DN.
A propósito da notícia que antes de o ser já o era, só pode dar-se um conselho ao DN. Se não quer perder o respeito, dê-se ao respeito, siga o Provedor, tome medidas e informe-nos delas:
Houve conspiração ou tão-somente confusão de narizes? Não consigo responder. Mas o DN cobriu-se de vergonha com aquela notícia de apenas 101 palavras. A Direção do jornal promete aprofundar o assunto. Não estou a pensar na vertente disciplinar, mas na jornalística. Ferido na asa, o DN tem de dar tudo por tudo na investigação para saber, ao certo, se apenas foi uma trapalhada noticiosa ou se existiram outras coisas que levaram a esta situação.
Pelo que diga e faça ou deixe de dizer e de fazer, ficaremos informados sobre que tipo de jornal é hoje o DN. Sobre que tipo de jornalismo praticou o redactor que relatou os factos não ocorridos, as suas respostas ao Provedor são mais do que suficientes para saber.
Houve conspiração ou tão-somente confusão de narizes? Não consigo responder. Mas o DN cobriu-se de vergonha com aquela notícia de apenas 101 palavras. A Direção do jornal promete aprofundar o assunto. Não estou a pensar na vertente disciplinar, mas na jornalística. Ferido na asa, o DN tem de dar tudo por tudo na investigação para saber, ao certo, se apenas foi uma trapalhada noticiosa ou se existiram outras coisas que levaram a esta situação.
Pelo que diga e faça ou deixe de dizer e de fazer, ficaremos informados sobre que tipo de jornal é hoje o DN. Sobre que tipo de jornalismo praticou o redactor que relatou os factos não ocorridos, as suas respostas ao Provedor são mais do que suficientes para saber.
22.6.12
Pode a polícia municipal ter sido injuriada e agredida antes de o ser? Indispensável ler Óscar Mascarenhas, amanhã, no DN.
No Arrastão, Sérgio Lavos conta um episódio que Porfírio Silva, muitissimo bem, classificou entre as coisas que desgraçam uma democracia. Portanto, já está tudo dito, basta clicar e ler e eu nada tenho a acrescentar a propósito de o Diário notícias ter impresso, três horas antes de acontecer, o relato de uma intervenção da Polícia Municipal do Porto em que esta teria sido alvo de injúrias e agressões.
Apenas venho ao assunto para avisar que Óscar Mascarenhas, Provedor do Leitor do DN - que já disse que pediu "esclarecimentos urgentes à Direção do DN, sendo certo que a notícia parece sustentar-se em informações fornecidas pelas forças policiais" - faz amanhã a análise do que aconteceu (como se lê, também no Arrastão).
Veremos se o que parece - ou seja que a Polícia Municipal difundiu que tinha sido injuriada e agredida num evento que ainda não acontecera - é. Se for é muito grave. Da parte de uma polícia que minta antecipadamente e da parte de um jornal que difunda acriticamente tal comunicado como se de notícia se tratasse e sem sequer ter a cautela mínima de identificar a fonte. Mas, em matérias tão sensíveis, prognósticos só no final do jogo. Indispensável ler Óscar Mascarenhas.
Apenas venho ao assunto para avisar que Óscar Mascarenhas, Provedor do Leitor do DN - que já disse que pediu "esclarecimentos urgentes à Direção do DN, sendo certo que a notícia parece sustentar-se em informações fornecidas pelas forças policiais" - faz amanhã a análise do que aconteceu (como se lê, também no Arrastão).
Veremos se o que parece - ou seja que a Polícia Municipal difundiu que tinha sido injuriada e agredida num evento que ainda não acontecera - é. Se for é muito grave. Da parte de uma polícia que minta antecipadamente e da parte de um jornal que difunda acriticamente tal comunicado como se de notícia se tratasse e sem sequer ter a cautela mínima de identificar a fonte. Mas, em matérias tão sensíveis, prognósticos só no final do jogo. Indispensável ler Óscar Mascarenhas.
21.3.12
Slogan, soundbyte, tuite? O twitter e a propaganda.
Será o twitter um novo aparelho ideológico de estado? Depois de a diplomacia americana ter entrado por completo nas redes sociais (no que é seguida pela britânica e até pela russa, mas não pela portuguesa), Jon Kofas vê neste uso uma forma de tentar ganhar apoio público para as causas de cada Estado de construir hegemonia no velho sentido Gramsciano. Nas suas palavras:
the "Twitting" is not merely a new tool, but a new religion designed to capture peoples' hearts and minds. The question is for whose ultimate benefit is this new 'Twitting' religion working, and does it have any traces of 'democracy'?
Exagerado e apocalíptico? Parece, mas levanta uma questão interessante. A do uso do twitter como instrumento de defesa de interesses próprios no espaço público, isto é, sem eufemismos, como máquina de propaganda. Com efeito, 140 caracteres adaptam-se melhor a ser sucessores do slogan e do soundbyte do que a uma discussão profunda. Mas talvez também seja um bom exercício político aprender a expressar argumentos em 140 caracteres.
the "Twitting" is not merely a new tool, but a new religion designed to capture peoples' hearts and minds. The question is for whose ultimate benefit is this new 'Twitting' religion working, and does it have any traces of 'democracy'?
Exagerado e apocalíptico? Parece, mas levanta uma questão interessante. A do uso do twitter como instrumento de defesa de interesses próprios no espaço público, isto é, sem eufemismos, como máquina de propaganda. Com efeito, 140 caracteres adaptam-se melhor a ser sucessores do slogan e do soundbyte do que a uma discussão profunda. Mas talvez também seja um bom exercício político aprender a expressar argumentos em 140 caracteres.
19.11.11
Até a Inquisição conseguia perseguir bruxas que o eram mesmo.
O "caso Duarte Lima" segue um guião tão decalcado a papel químico de outros que nem devia constituir surpresa e consegue tornar secundária a questão que devia ser principal de saber se é ou não seriamente suspeito dos crimes que lhe atribuem. De humor particularmente fino é, no seu caso, a alegação da existência de risco de fuga para o estrangeiro de alguém que tem mandato de detenção internacional.
Próximo episódio? Durante uns dias haverá provas a conta-gotas nos media, umas que se revelarão mais tarde verdadeiras e outras de inventar, como nas histórias. Seguinte? Descobriremos que muito menos figuras públicas conheciam bem Duarte Lima do que aquelas que julgávamos. Final? Infelizmente já só vai acabar por interessar ao próprio, à família e aos amigos, sendo que esse é que devia ser o momento mediático da verdade, o que nos havia de mobilizar a todos para reflectir sobre a conduta de Duarte Lima ou da justiça, conforme o desfecho.
Um dia mais tarde, é certo, vai-se apurar que ou Duarte Lima é culpado ou talvez seja, porque se não fosse esse o caminho predefinido nada daquilo a que estamos a assistir aconteceria assim. Uma justiça que admita a presunção de inocência condenará sempre veementemente a alimentação precoce da besta mediática.
Agora é o momento de sacudir a água do capote dizendo "à justiça o que é da justiça" enquanto se convive com a prática por ela da regra "aos media o que é da justiça". O julgamento que talvez venha a haver, antes de o ser já o é na forma de guião de telenovela com desenvolvimentos diários e reviravoltas, depoimentos e contra-depoimentos. Enquanto fogem os ratos que viveram no barco de Duarte Lima o julgamento fica feito definitivamente no tribunal da opinião pública.
Nada sei sobre o caso concreto de Duarte Lima e do BPN. Mas sei que a esta novela judiciária outra se seguirá, com a mesma estrutura de guião. Nem é a primeira nem será a última. É aquela em que os guionistas acreditam e a que os media compram porque sabem que vende. É a que reflecte a sociedade que somos. Só não sei ainda quem será o próximo figurante. E algumas vezes as suspeitas hão-de ter fundamento. Até a Inquisição conseguia perseguir bruxas que o eram mesmo.
E que diferença tem o procedimento da justiça nos casos mediáticos em relação aos outros? Apenas uma. Os outros casos não dão prestígio nem vendem papel por isso podem ser tratados com recato por quem na justiça acredita na justiça ou com impunidade por quem estando nela a não honrar. E enquanto vemos com disfarçada alegria, contida tristeza ou verdadeira raiva estas telenovelas não olhamos para o monstro que cresce a nossos olhos ou até, alguns de nós pelo menos, o alimentamos.
Eu já acreditei mais na justiça do Portugal democrático.
Próximo episódio? Durante uns dias haverá provas a conta-gotas nos media, umas que se revelarão mais tarde verdadeiras e outras de inventar, como nas histórias. Seguinte? Descobriremos que muito menos figuras públicas conheciam bem Duarte Lima do que aquelas que julgávamos. Final? Infelizmente já só vai acabar por interessar ao próprio, à família e aos amigos, sendo que esse é que devia ser o momento mediático da verdade, o que nos havia de mobilizar a todos para reflectir sobre a conduta de Duarte Lima ou da justiça, conforme o desfecho.
Um dia mais tarde, é certo, vai-se apurar que ou Duarte Lima é culpado ou talvez seja, porque se não fosse esse o caminho predefinido nada daquilo a que estamos a assistir aconteceria assim. Uma justiça que admita a presunção de inocência condenará sempre veementemente a alimentação precoce da besta mediática.
Agora é o momento de sacudir a água do capote dizendo "à justiça o que é da justiça" enquanto se convive com a prática por ela da regra "aos media o que é da justiça". O julgamento que talvez venha a haver, antes de o ser já o é na forma de guião de telenovela com desenvolvimentos diários e reviravoltas, depoimentos e contra-depoimentos. Enquanto fogem os ratos que viveram no barco de Duarte Lima o julgamento fica feito definitivamente no tribunal da opinião pública.
Nada sei sobre o caso concreto de Duarte Lima e do BPN. Mas sei que a esta novela judiciária outra se seguirá, com a mesma estrutura de guião. Nem é a primeira nem será a última. É aquela em que os guionistas acreditam e a que os media compram porque sabem que vende. É a que reflecte a sociedade que somos. Só não sei ainda quem será o próximo figurante. E algumas vezes as suspeitas hão-de ter fundamento. Até a Inquisição conseguia perseguir bruxas que o eram mesmo.
E que diferença tem o procedimento da justiça nos casos mediáticos em relação aos outros? Apenas uma. Os outros casos não dão prestígio nem vendem papel por isso podem ser tratados com recato por quem na justiça acredita na justiça ou com impunidade por quem estando nela a não honrar. E enquanto vemos com disfarçada alegria, contida tristeza ou verdadeira raiva estas telenovelas não olhamos para o monstro que cresce a nossos olhos ou até, alguns de nós pelo menos, o alimentamos.
Eu já acreditei mais na justiça do Portugal democrático.
18.11.11
Se a investigação criminal não aprendeu é porque não quis
Estar fora do país tem a vantagem de ver menos certas coisas. Hoje foi um dia assim. Chego, pois, tarde à informação de que voltou a haver actos de investigação criminal pré-anunciados à comunicação social e desenvolvidos "live". Em Portugal, esses anúncios podem ser selectivos, mas são recorrentes.
Não quero saber de antipatias pessoais, políticas ou clubisticas, de discordâncias teóricas ou diferenças de carácter ou de quaisquer outras questões para este efeito laterais. Um Estado que humilha não é um Estado decente (como bem escreveu Avishai Margalit) e um Estado que não é decente na justiça tem a sua democracia doente.
O pior de tudo é não haver surpresa em nada disto. Se a investigação criminal não aprendeu ainda a ser diferente é porque não quis.
Não quero saber de antipatias pessoais, políticas ou clubisticas, de discordâncias teóricas ou diferenças de carácter ou de quaisquer outras questões para este efeito laterais. Um Estado que humilha não é um Estado decente (como bem escreveu Avishai Margalit) e um Estado que não é decente na justiça tem a sua democracia doente.
O pior de tudo é não haver surpresa em nada disto. Se a investigação criminal não aprendeu ainda a ser diferente é porque não quis.
15.11.11
João Duque, "a bem da nação": num país em que há um autoritário em cada esquina, consciências liberais precisam-se.
Julgava eu que estávamos perante um governo de ofensiva neoliberal quando me deparo com as conclusões da Comissão Relvas para a RTP. Eduardo Pitta leu o relatório em causa e deu-lhe o nome merecido: albanês. Mas, se dúvidas houvera de que de tal se tratava, João Duque desfê-las "a bem da nação", confundindo informação e propaganda, com o tique totalitário que o Porfírio Silva bem notou.
Espero agora assistir a um barulho ensurdecedor da blogosfera liberal contra o desmando autoritário da Comissão Relvas e do seu chefe. Ou será que a dita ao seguir para o governo se reduziu à servidão?
Num país em que há um autoritário em cada esquina, consciências liberais precisam-se, urgentemente.
Espero agora assistir a um barulho ensurdecedor da blogosfera liberal contra o desmando autoritário da Comissão Relvas e do seu chefe. Ou será que a dita ao seguir para o governo se reduziu à servidão?
Num país em que há um autoritário em cada esquina, consciências liberais precisam-se, urgentemente.
5.8.11
Isto é jornalismo
Nelson Jobim podia ter a intenção de o fazer ou pode ter sido levado a dizê-lo, mas é um bom momento de jornalismo, aquele em que o jornalista pôe o Ministro da Defesa a dizer em público que votou no adversário da Presidente a cujo governo pertence. As consequências foram as que tinham que ser num caso destes, num país normal. Saíu do governo.
PS. Alguém conseguiria saber se os membros do Governo português votaram todos no PSD ou no CDS? Ou mesmo se votaram? Isso também seria jornalismo.
PS. Alguém conseguiria saber se os membros do Governo português votaram todos no PSD ou no CDS? Ou mesmo se votaram? Isso também seria jornalismo.
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