Hoje começa um período que o cristianismo consagrou à reflexão sobre as fragilidades humanas. Se Bento XVI se guiasse por conselhos de marketing e alguém perto dele partilhasse a minha sensibilidade para o momento ideal de uma resignação histórica, tê-lo-ia aconselhado a partilhar hoje a notícia com o mundo.
Mas o que motiva a minha reflexão sobre o Papa é apenas que, nestes dias em que os media investiram sobre ele com uma ferocidade apenas guardada para quem surpreende, renunciando ao poder, à influência, à aura de santidade, importa pensar o significado do seu gesto além da espuma da notícia.
As reflexões de Joseph Ratzinger sobre Jesus Cristo têm, até onde consigo captar o seu sentido, um princípio organizador - a negação da redução de Cristo à condição humana. A ideia do "Cristo histórico" é uma das grandes construções pós-Conciliares que este co-obreiro intelectual do Vaticano II pretendeu destruir . Vista essa análise pelo ângulo de um ateu sob influência da ideia de Karl Jaspers de que Cristo é um dos mestres da humanidade, compreende-se. O teólogo percebeu que o racionalismo contemporâneo se apropriaria dessa condição humana de Jesus, sublinhando a sua excepcionalidade mas nessa condição (o sentido humano de milagre que Hanna Arendt nele evidenciou. é bem ilustrativo do exercício), para lhe dar maior universalidade, libertando-nos da vinculação à fé na sua transcendência, mas com isso retirando-o do lugar especificamente cristão que a Igreja lhe construiu ao longo da sua história, o luger de ser Deus, filho de Deus, irmão dos homens, homem mas não homem. Redivinizar Cristo era um imperativo que, parece-me, o teólogo impôs ao filósofo Ratzinger, conduzindo o racionalista Conciliar ao místico que valoriza o terceiro segredo de Fátima.
A esta luz, a resignação de Bento XVI é um acto de máxima coerência. Em ruptura com o culto da personalidade que na Igreja Católica levou, por exemplo, a elevar o Papa à infalibilidade, Bento XVI quis fazer uma prova com a sua biografia da incomensurável distância entre a pequenez do homem e a grandeza de Deus.
Não precisamos de partilhar a fé na grandeza de Deus para compreender a mensagem sobre as fragilidades do ser humano que Bento XVI nos deu. No fundo, nas transitoriedades da vida, a mais dificil das lições a aprender é a de, cumprido um dever, saber ir em paz. Joseph Ratzinger soube. O voyeurismo social dos que pensam que o gesto se reduz à importância de ter um pacemaker não percebeu nada. Ou fui eu que não percebi. Mas, aprendendo com o significado do período em que os cristãos entram agora, também não importa. é mais importante aquilo que se revela no nosso interior.
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13.2.13
11.11.12
As devoções a São Martinho: o vinho, o milagre e a caridade

Pieter Bruegel, o velho - O vinho do dia de São Martinho, Museu do Prado
No dia 11 de Novembro de 397 foi a enterrado o ancião Martinho, de 81 anos, bispo de Tours, o primeiro não mártir a ser santificado pela Igreja Católica. A Igreja Católica estava numa fase de institucionalização e o culto de São Martinho é um bom exemplo até hoje de dois elementos da força social do cristianismo: o sincretismo e a coexistência da teologia dos teológos e da teologia popular.
Para as populações rurais esta é a altura de começar o novo ciclo do ano, de renascer, consumindo pelo Inverno dentro as colheitas conseguidas no Verão. Por esta altura, celebravam-se os mortos (culto trazido para o Dia de todos-os-santos) e o renascimento era simbolizado no "vinho novo", momento de uma festa dionisíaca em honra da transformação da água em vinho. A eucarístia é um ritual que usa o vinho como metáfora do sangue na encarnação de Deus, pelo que a sacralização das festas do vinho permitia dar um fundo popular à religião ainda que houvesse que "domesticar" os cultos extremos dionísiacos, numa batalha incessante pelo equilíbrio entre sagrado e profano que ocuparia as práticas de culto até hoje. Tal como aconteceu com outras dessas festas, o calendário religioso misturou-se com os ritos pré-existentes, substituindo referências sagradas não cristãs por referências cristãs e autorizando a coexistência de sagrado e profano na comemoração. O "São Martinho, castanhas e vinho" é o produto do pragmatismo que resulta no sincretismo da celebração da época de excessos em torno do vinho novo.
Se há uma celebração profana e uma celebração sagrada, também esta se estabelece através de uma síntese que se repete incessantemente na história do cristianismo.
O São Martinho, santo do povo, é um santo milagreiro. Na evolução da teologia dos teólogos, ficará associado à virtude da caridade.
No episódio lendário que serve de base às duas narrativas, Martinho, ainda soldado, encontra no Inverno um pobre, esfomeado e andrajoso a quem nada tem para dar, tendo a inspiração de cortar a sua capa ao meio e a repartir com ele, expondo-se ele próprio ao frio. Deus, recompensando-o pela caridade, transformou subitamente o Inverno em Verão para que um e outro sofressem menos as agruras do clima.
Da devoção popular nasce a lenda do "verão de São Martinho", alívio no sofrimento do Inverno para que a a alegria da festa do vinho novo possa, abençoada por Deus, decorrer nas condições mais favoráveis. A devoção dos teólogos alimenta-seda exaltação da caridade como partilha, em que a dádiva divina do Verão é uma recompensa pelo acto generoso da renúncia a algo para o bem estar de outro, marca da caridade no cristianismo social que viria também até hoje. Essa faceta de Deus na ética cristã é tão actual e tão estratégica para a Igreja contemporânea que o teólogo e Papa Bento XVI já sentiu necessidade de a sublinhar em duas encíclicas desde o início do seu papado: Deus caritas est (2005) e Caritas in veritate (2009).
O São Martinho do vinho, do Verão e da caridade reúne, pois, os elementos de uma instituição social de enorme força popular - misticismo, sincretismo, ética - em que, como em todas as grandes metáforas da vida social, cada um encontra lugar para a sua narrativa.
O quadro de Pieter Bruegel, recentemente identificado e reproduzido acima, consegue de modo ímpar descrever o pleno sentido das metáforas de São Martinho. Ampliando-o, encontram-se pormenores admiráveis dos excessos da festa dionísiaca popular. A relação entre o sagrado e o profano está bem representada nas costas voltadas entre os que se dedicam à festa do vinho, no centro e na esquerda do quadro e o milagre de São Martinho, na direita. A virtude solitária da caridade é bem testemunhada por São Martinho e o pobre, olhando-se nos olhos, sem qualquer testemunha humana. Mas também a condenação da festa pagã desprovida da virtude fica assinalada pela posição de São Martinho e do seu cavalo, ambos focados na virtude da dádiva e não vendo o pecado que espreita na festa do lado esquerdo. Acrescente-se que São Martinho pratica a virtude para a sua direita, colocando o pobre no lugar santo à direita do Santo e em plano inferior, podendo bem simbolizar a posição de Cristo, a direita do pai. E ainda que na extrema-esquerda do quadro estão os mais tocados pelo pecado, sofrendo os efeitos da intoxicação alcoólica, na extrema oposição destra-sinistra que deixava para a última o lugar do Diabo.
15.4.12
Uma Igreja Católica de matriz trotskista? É difícil acreditar.
Bento XVI prefere uma Igreja de poucos, firmes e fortes, a uma Igreja com uma multidão de pusilânimes internos e externos." (João Gonçalves, no Portugal dos Pequeninos)
Se trocarmos "Bento XVI" e "Igreja" por um nome de político e de um partido, respectivamente, resulta a descrição de um partido trotskista, sectário e fechado em si próprio, condenado à pequenez e à marginalidade.
Não sei exactamente o que pensa Bento XVI do séc. XXI e admito que ele - que é um homem totalmente do séc. XX - não o perceba, mas se Joseph Ratzinger tivesse esta versão sectária da Igreja Católica Apostólica Romana condená-la-ia a ser nele irrelevante. Antes de mais, o filósofo sabe que a instituição só sobrevive se entender o espírito do tempo, que é, aliás, o que sempre fez, desde que, só para dar um exemplo, adaptou as datas do nascimento e morte de Jesus Cristo às festividades pagãs da Primavera e do Verão. Mais, o cardeal Ratzinger interpretou e definiu - ao divulgá-lo - o cânone da visão do chamado "terceiro segredo de Fátima" de um modo que o coloca claramente como um aviso sobre o perigo do fim da sua Igreja e não é credível que o queira precipitar, embora possa viver atormentado com a possibilidade, que corresponderia a um terrível silêncio de Deus.
Felizmente para a Igreja a que não pertenço, o seu Papa tem conselheiros mais avisados que João Gonçalves e, se é verdade como ele diz, que Ratzinger sabe que não pode ser uma "estrela pop", é igualmente verdade que o seu afastamento das interpretações da década de setenta e oitenta do século XX do Concílio Vaticano II se deve a um regresso fortíssimo ao carácter místico da fé católica que, num filósofo, só pode ser uma opção iluminada pela política.
Se trocarmos "Bento XVI" e "Igreja" por um nome de político e de um partido, respectivamente, resulta a descrição de um partido trotskista, sectário e fechado em si próprio, condenado à pequenez e à marginalidade.
Não sei exactamente o que pensa Bento XVI do séc. XXI e admito que ele - que é um homem totalmente do séc. XX - não o perceba, mas se Joseph Ratzinger tivesse esta versão sectária da Igreja Católica Apostólica Romana condená-la-ia a ser nele irrelevante. Antes de mais, o filósofo sabe que a instituição só sobrevive se entender o espírito do tempo, que é, aliás, o que sempre fez, desde que, só para dar um exemplo, adaptou as datas do nascimento e morte de Jesus Cristo às festividades pagãs da Primavera e do Verão. Mais, o cardeal Ratzinger interpretou e definiu - ao divulgá-lo - o cânone da visão do chamado "terceiro segredo de Fátima" de um modo que o coloca claramente como um aviso sobre o perigo do fim da sua Igreja e não é credível que o queira precipitar, embora possa viver atormentado com a possibilidade, que corresponderia a um terrível silêncio de Deus.
Felizmente para a Igreja a que não pertenço, o seu Papa tem conselheiros mais avisados que João Gonçalves e, se é verdade como ele diz, que Ratzinger sabe que não pode ser uma "estrela pop", é igualmente verdade que o seu afastamento das interpretações da década de setenta e oitenta do século XX do Concílio Vaticano II se deve a um regresso fortíssimo ao carácter místico da fé católica que, num filósofo, só pode ser uma opção iluminada pela política.
29.9.11
Haverá algum bispo português pronto a fazer o papel de Warren Buffett em tempo de crise e de solidariedade nacional? Irá a Igreja Católica dispôr-se a abdicar de algum dos seus vastissimos privilégios fiscais? Talvez alguma alma caridosa surja e tenha piedade dos portugueses sem 13º mês, etc. etc.
27.9.11
Yes he tries: teologia política de Obama e campanha eleitoral no ano novo judaico.
Escrevi já sobre a teologia política de Obama e aquilo a que chamei o seu pós-secularismo ecuménico, que nada tem que ver com laicismo nem com o seu contrário. Essa visão da relação entre religião e política encoraja-o a buscar os votos onde eles estão, a ver as linhas de demarcação religiosa como quaisquer outras linhas de identidade de grupo. E em época eleitoral todos os grupos valem o peso dos seus votos e da sua influência social. Em dia de ano novo judaico, Obama escolheu dizer aos judeus, para além da promessa de amizade eterna a ISrael, que "as Jewish tradition teaches us, we may not complete the work, but that must never keep us from trying."Claro, yes he tries.
1.10.10
Os ateus sabem mais sobre Deus que os crentes?
Os ateus sabem mais sobre Deus que os crentes? Na Esquerda Republicana fala-se de um estudo nos EUA que diz que sim.
25.11.09
A CDU de Almada e o Cardeal Cerejeira. O oportunismo não tem ideologia.
Há-de haver sempre um motivo através do qual a revisão da história se esconde para fazer de conta que está a celebrar algo diferente do que está realmente a fazer. Vem esta reflexão a propósito da inauguração de um busto de homenagem ao Cardeal Cerejeira, arquitecto da participação da Igreja Católica no fascismo português. Evidentemente, o busto não visa homenagear esse papel e surge a pretexto de que foi o inspirador da construção do Cristo-Rei. Como bem nota o Diário Ateísta, este subterfúgio é igual ao do Presidente da Câmara de Santa Comba Dão a propósito de Salazar.
Haverá quem contra-argumente que é uma homenagem legítima da Igreja Católica a um seu dignitário, o que não deixa de ser verdade. Ou mesmo que, sendo Manuel Cerejeira um Cardeal Patriarca e tendo nessa qualidade promovido o monumento, o actual Cardeal Patriarca de Lisboa se limitou a fazer-se representar na cerimónia pelo seu Vigário Geral em vez de estar em pessoa, num inequívoco sinal de distanciamento.
Assim como há-de haver quem veja na crítica a esta homenagem um sinal de anti-clericalismo serôdio ou uma desvalorização do papel que o Cristo-Rei pode ter para Almada no plano do turismo religioso. Mas estes últimos são feitos da mesma massa dos que acham que se pode homenagear Salazar em Santa Comba Dão pelas obras que promoveu.
Mas, inaceitável mesmo, é a cegueira a que chegou o idílio entre a CDU de Almada e o que quer que venha da Igreja Católica. Não apenas o vereador António Matos esteve presente na inauguração do busto ao nosso cardeal-pilar do fascismo e da guerra colonial, como conseguiu afirmar que "este é um momento importante para a nossa terra. Portugal está mais rico e a nossa cidade também". Se o Reitor do Santuário se lembrar disso, o autor da frase ainda há-de saudar a inauguração de um museu Manuel Gonçalves Cerejeira em Almada.
E se um dia alguém se lembrar de homenagear António Salazar por ter-se empenhado na realização da Ponte 25 de Abril e quiser implantar um busto na praça da Portagem? Ninguém há-de negar a importância da Ponte para Almada, nem o papel dos governos de Salazar na sua construção. Iria António Matos a essa inauguração e diria estas palavras? Seguramente que não, que o seu contentamento com monumentos a fascistas termina nos que ainda rendem votos e permitam continuar a ter na Igreja Católica local um aliado político de peso. Para os outros, a ideologia permite pronunciar o vaderetro Satanás adequado.
Nos tempos que correm, porque haveriamos de levar a mal que uma autarquia comunista se deixe confundir com os ícones do fascismo? Bem vistas as coisas, o oportunismo político não tem ideologia.
Haverá quem contra-argumente que é uma homenagem legítima da Igreja Católica a um seu dignitário, o que não deixa de ser verdade. Ou mesmo que, sendo Manuel Cerejeira um Cardeal Patriarca e tendo nessa qualidade promovido o monumento, o actual Cardeal Patriarca de Lisboa se limitou a fazer-se representar na cerimónia pelo seu Vigário Geral em vez de estar em pessoa, num inequívoco sinal de distanciamento.
Assim como há-de haver quem veja na crítica a esta homenagem um sinal de anti-clericalismo serôdio ou uma desvalorização do papel que o Cristo-Rei pode ter para Almada no plano do turismo religioso. Mas estes últimos são feitos da mesma massa dos que acham que se pode homenagear Salazar em Santa Comba Dão pelas obras que promoveu.
Mas, inaceitável mesmo, é a cegueira a que chegou o idílio entre a CDU de Almada e o que quer que venha da Igreja Católica. Não apenas o vereador António Matos esteve presente na inauguração do busto ao nosso cardeal-pilar do fascismo e da guerra colonial, como conseguiu afirmar que "este é um momento importante para a nossa terra. Portugal está mais rico e a nossa cidade também". Se o Reitor do Santuário se lembrar disso, o autor da frase ainda há-de saudar a inauguração de um museu Manuel Gonçalves Cerejeira em Almada.
E se um dia alguém se lembrar de homenagear António Salazar por ter-se empenhado na realização da Ponte 25 de Abril e quiser implantar um busto na praça da Portagem? Ninguém há-de negar a importância da Ponte para Almada, nem o papel dos governos de Salazar na sua construção. Iria António Matos a essa inauguração e diria estas palavras? Seguramente que não, que o seu contentamento com monumentos a fascistas termina nos que ainda rendem votos e permitam continuar a ter na Igreja Católica local um aliado político de peso. Para os outros, a ideologia permite pronunciar o vaderetro Satanás adequado.
Nos tempos que correm, porque haveriamos de levar a mal que uma autarquia comunista se deixe confundir com os ícones do fascismo? Bem vistas as coisas, o oportunismo político não tem ideologia.
21.10.09
Calma, é só um truque do velho escritor
José Saramago decidiu dizer umas frases provocatórias sobre a Bíblia para publicitar o seu novo livro, cujo título se inspira numa história que seguramente deve ser incluida no catálogo da maldade humana.
Percebe-se que Saramago é perseguido pelo tema da fé e já escreveu sobre ela com a profundidade de um ateu atormentado com a possibilidade da existência de Deus. Mas as frases de Penafiel não merecem nem uma nota de rodapé na história - que ela própria interessa apenas a quem interessar - da sua relação com Deus.
É pena que nem o representante da Conferência Episcopal Portuguesa que lhe chamou "antinobel" nem o Vice-Presidente do Partido Popular Europeu, Mário David, que o convidou a renunciar à nacionalidade portuguesa, tenham percebido o que valem estas palavras. De algum modo, cairam no engodo de Saramago, criando uma questão religiosa e política a propósito de um truque publicitário do velho escritor. Felizmente, o episódio não vai passar disto, porque o catolicismo dos portugueses nunca deu gás a este tipo de querelas.
21.6.09
Contudo, o Irão move-se
A ultrasimplficação das teses "das civilizações" não ajuda a ver a diversidade política interior a todas as sociedades e formas de poder. O Irão pode bem ser um dos mais eloquentes exemplos desse efeito de opacidade, dada a facilidade com que o atirámos para o reino das trevas do "islamismo".
Talvez por isso não estivessemos preparados para acompanhar o debate que atravessou o país na última campanha presidencial e menos ainda para compreender o que significará verdadeiramente a revolta nas ruas de várias cidades que atravessa o país há uma semana.
Há, contudo, duas ou três coisas que me parecem claras. O Irão evoluiu no sentido de ser uma semidemocracia, um regime de pluralismo político limitado por uma estrutura teocrática de poder em que a hierarquia religiosa define o máximo de pluralismo admisssível. Teve períodos diferentes na relação de forças entre visões políticas do país, que talvez sejam também visões religiosas do Islão. É hoje atravessado por uma tensão de que consigo identificar três pontos de divisão: no interior da teocracia que verdadeiramente comanda a definição do que é politicamente admissível no quadro institucional actual ( o que explicará as hesitações do poder religiosos face à crise política); no interior dos actores políticos, entre populistas e liberais (o que agrupa os homens do sistema por detrás dos candidatos presidenciais desavindos) e entre populações urbanas, cosmopolitas e o que deve ser o Irão profundo.
Neste quadro, parece claro que Ahmadinejad teve mais votos que o seu adversário mas, sem fraude, teria pelo menos que disputar uma nova volta que poderia perder e que nos corredores se pretende travar enquanto nas praças se procura forçá-la.
O Irão depois desta revolta vai seguramente evoluir em alguma direcção. Endurecer e reforçar as tendências de ditadura teocrática? Parece difícil que a energia acumulada o permita sem um período longo de conturbação. Ceder em algo aos segmentos urbanos para que o poder não caia? Será preciso religar os elos desavindos nas elites, mas não parece fácil. Jeito, mesmo, dava que no exterior alguém fizesse algum disparate, para que o temor do inimigo externo recimentasse as coligações rompidas.
Mas que o estão, não haja dúvidas. Esta carta de um proeminente grande Ayatolah e o seu conteúdo claramente em defesa de formas de democracia política, parece impensável à luz da imagem que tinhamos do monolitismo do regime. Eles estão a evoluir ou nós começámos a dar por ela? Certo é que, contudo o Irão move-se.
.
9.6.09
Um novo começo com o Islão, mais um sinal do pós-secularismo ecuménico de Obama
No meio da campanha eleitoral em Portugal, o discurso de Barack Obama no Cairo acabour por receber pouca atenção entre nós. José Leitão analisou-o e encontra nele sinais do pós-secularismo ecuménico que identifiquei num texto anterior. No Cairo, diz ele, Obama usou "uma nova linguagem que anuncia uma nova era nas relações dos Estados Unidos com o mundo islâmico". Da série de novos começos de Obama este não é dos menos significativos.
15.5.09
PCP, campanha eleitoral e Cristo-Rei
6.3.09
Nuno Alvares Pereira, a santidade, o laicismo e o parlamento
O CDS apresentou hoje um voto de congratulação pela canonização de D. Nuno Alvares Pereira. A sua intenção é óbvia, apresentar-se aos seus eleitores como Partido da Causa dos Santos e reivindicar para si o estatuto de representante dos católicos na política. Como manobra é frágil, porque há décadas que os católicos definem o seu sentido de voto separando a fé e a política. Mas interpela os parlamentares laicos sobre o sentido e o significado do seu voto.
Parece-me evidente que a Assembleia da República não tem nem deve ter opinião sobre a santidade de D. Nuno. Mas se a instituição relevante a nível mundial que dá pelo nome de Igreja Católica Apostólica Romana distingue um dos seus membros, pelos seus critérios, não vejo porque há-de o Parlamento abster-se de se congratular pelo facto.
A Assembleia da República não avalia os méritos culturais, desportivos ou religiosos dos cidadãos mas, como representante dos portugueses pode, sem se imiscuir nos critérios pelos quais esses méritos lhe são atribuidos, congratular-se quando um português é distinguido por esses critérios.
Por isso entendo que nem o CDS andou bem procurando chamar a si a fé dos portugueses, nem há razão para dúvidas de que o parlamento se afasta dos valores do laicismo por ter aprovado este voto.
13.2.09
Darwin, autoridade científica e religião
Hoje não faltaram referências às mais diversas vertentes do legado de Darwin para a construção da percepção moderna do mundo. Não as iria repetir aqui. Mas quando a sua teoria da evolução das espécies está sob ataque, não pela evolução da ciência, mas pela tentativa de cientifizar uma visão da Bíblia, recomendaria a quem se interesse pelo tema a leitura deste ensaio online sobre a fé de Darwin, publicado no âmbito de um projecto universitário de disponibilização da sua correspondência. Darwin, sobretudo, não gostava de se pronunciar sobre religião, dado que estava convencido de que a sua sabedoria cientifica não lhe conferia nenhuma autoridade em matéria religiosa. Duzentos anos depois, na ciência como na religião, há quem ainda se confunda sobre essa ideia fundadora da modernidade.
Como diz quem escreveu este ensaio:
Darwin's correspondence shows that his religious beliefs changed substantially over the course of this life, and that they never reached a fixed position. His agnosticism should be understood as a state of genuine uncertainty regarding the existence and nature of God. Darwin's unwillingness to pronounce on religious matters stemmed from his strongly held view that science and religion rest on different foundations and forms of evidence, and that his scientific expertise, no matter how extensive, did not make him a religious authority.
8.2.09
A teologia política de Obama: pós-secularismo ecuménico
Após um século de debates na política entre laicos, por vezes ateus e religiosos, têm vindo a surgir cada vez mais figuras que passam ao lado dessa questão, manifestando-se crentes, mas prontas a usar politicamente de uma relação de proximidade-distância com a fé que não faz delas ateus nem representantes de nenhuma igreja particular, ainda que se revelem publicamente vinculados a ela.
Talvez Tony Blair tenha sido até agora quem melhor encarnou essa posição. Obama revelou-se na semana que passou como uma figura a incluir nesse movimento. Já sabiamos que era cristão e, como é hábito nos EUA, nunca protegeu a sua fé de uma dimensão pública. Não é essa a novidade.
Na semana passada, aproveitou a sua participação no Pequeno-almoço nacional de oração (National Prayer Breakfast) para reformular, mas manter, um grupo que Bush havia criado na Casa Branca, o White House Office of Faith-Based and Neighborhood Partnership.
Nesse pequeno-almoço, politicamente correcto, invocou em pé de igualdade a mensagem de amor de todas as religiões do Livro, mencionou as das outras grandes religiões do mundo e recuperou a retórica quase universalista dos filhos de Abraão. Nem fez o uso maniqueísta de Deus que Bush fazia nem procurou separar a religião da política, como os laicos. Pelo contrário, renovou a aliança entre Estado e Igrejas que este gabinete presidencial personifica.
A teologia política de Obama, porque disso se trata, é completamente diferente da de Bush. Obama, ao que tudo indica, não quer invocar Deus para a política externa, mas procura mantê-lo como instrumento de política interna. Não quer invocar nenhuma Igreja que se julgue detentora da verdade sobre Ele, mas aliar-se a todas as Igrejas que lho permitam.
Esta política joga muito bem com a estratégia de renascimento religioso ensaiada por todas as grandes Igrejas nos anos 70, quando transferiram o primeiro passo da sua evangelização da catequese para a educação e as obras sociais.
A aliança entre esta estratégia de evangelização e a política pós-secular é duradoura e tem sido profícua. O Estado encontrou parceiros e intermediários fortes. A Igreja encontrou um modo de convivência com a política sem discussão sobre Deus e o Estado. O Estado não pede aos prestadores de serviços sociais que não endoutrinem. As Igrejas co-financiam o Estado e chegam aos locais onde ele não consegue ou não tenta chegar.
Obama não é, de perto nem de longe, o primeiro a fazer esta aposta. Até em Portugal a fizemos há duas décadas. O que é curioso é que a sua própria fé seja já o resultado da estratégia das Igrejas a que Gilles Kepel chamou "a vingança de Deus".
Nas suas próprias palavras, Obama converteu-se já adulto, não pela catequese ou por revelação, mas pelo contacto com as obras sociais das Igrejas de Chicago:
I didn’t become a Christian until many years later, when I moved to the South Side of Chicago after college. It happened not because of indoctrination or a sudden revelation, but because I spent month after month working with church folks who simply wanted to help neighbors who were down on their luck – no matter what they looked like, or where they came from, or who they prayed to. It was on those streets, in those neighborhoods, that I first heard God’s spirit beckon me. It was there that I felt called to a higher purpose – His purpose.
Esta maneira de chegar à fé pode ser superifcial e até poderia ter feito dele crente de outras religiões, se tivesse vivido noutros bairros doutras cidades, mas facilita imenso a sua teologia política. O seu pós-secularismo ecuménico permite-lhe acabar o discurso no pequeno-almoço da oração com um "God bless the USA" em que todos podem facilmente sentir que está incluido o seu Deus e não necessariamente aquele em que o cidadão Barack Obama acredita. E isso é satisfatório para todos, incluindo os que não acreditam em nenhum.
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