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4.2.13

Prostes da Fonseca

Quando googlei em busca da imagem de José Manuel Prostes da Fonseca, o motor de pesquisa devolveu-me um traço essencial da sua personalidade. Muitas imagens, nenhuma dele.  É-me difícil pensar em pessoa mais discreta e mais correcta entre todas as que conheço.
Não me lembro de o ouvir levantar a voz ou saír do registo mais polido que se possa imaginar. Nem me lembro de o ter visto falhar uma vez um compromisso sem aviso prévio e pedido de desculpas.
Praticamente tudo o que sei do fervilhante reformismo educativo que se iniciou em meados da década de 60 e deu origem à reforma Veiga Simão e às sucessivas vagas democratizadoras da educação deriva da paciência que teve para me contar essa parte da sua vida.  Um dia alguém há-de contar a história da geração que  rompeu com o salazarismo educativo e o papel que teve nesse movimento o famoso GEPAE a que pertenceu.
Tendo sido Secretário de Estado e Director-Geral no Ministério da Educação e após três ou quatro décadas de experiência, dedicava-se às aulas de sociologia da educação, disciplina que leccionámos juntos, como se fosse um jovem em princípio de carreira. Tendo sido Presidente do Conselho Directivo do ISCTE, dedicava-se aos projectos de formação como se essa fosse a sua primeira e tarefa de maior responsabilidade na casa.
O Engº Prostes da Fonseca tinha motivos para ser um homem amargo com a vida, que não o isentou de provações. Mas será sempre para mim - e para os que o conheceram melhor que eu - exemplo de como é possível extrair das dificuldades alento para viver bem consigo próprio, estoicamente, no seu caso.

2.1.13

Adeus António

Esta tarde ainda estava na porta do gabinete que partilhamos no ISCTE o aviso aos teus alunos de que por motivo de  força maior não os poderias receber à hora combinada. Quando entrei pensei que haverias de ser tu a atirar esse papel para o lixo. Mas, quando saí, já sabia que não o farias, embora ainda tenha que ganhar coragem para o fazer eu.
Fomos colegas enquanto estudantes. Nessa altura já eras um especialista do mundo do trabalho e eu ia apenas ser um sociólogo. Fomo-nos cruzando, sempre trilhando percursos próximos e sempre o fazendo pelas vias autónomas de quem pertencia a diferentes gerações, tinha percorrido na vida diferentes caminhos e partilhava, antes do mais e mais que tudo, uma visão do mundo desejável.
Talvez nos tenhamos tornado amigos quando zelávamos ambos na sombra - como devem fazer os assessores - pelo bom relacionamento em questões sociais entre o Governo de António Guterres e a Casa Civil do Presidente da República Jorge Sampaio. Conversávamos muito, então. Aliás, nunca mais deixámos de o fazer.
No dia em que fui convidado para Ministro era óbvio que terias que ir fazer comigo o que fosse possível  daquilo que tínhamos pensado juntos sobre as transformações necessárias no mundo do trabalho. Resististe, mas reconheceste que não podias recusar participar do esforço de pôr em prática o que pensavas.
As nossas vidas levaram muitas voltas desde então. Felizmente, após um pequeno interregno,  tu pudeste retomar no Governo de José Sócrates e com um papel diferente do que tinhas antes, a batalha necessária pela modernização das relações laborais. Nem sempre as tuas posições venceram e nem sempre estive de acordo com as que defendeste. Mas nunca deixámos de as discutir. E, nunca nenhum de nós pôs em causa que as causas sociais da esquerda portuguesa se prendem com o que está por fazer e não com a defesa do que está feito e tão imperfeito é.
Se as tuas ideias tivessem sido mais ouvidas, teríamos hoje um mundo do trabalho mais justo, um sindicalismo mais forte, uma protecção social mais equitativa e uma sociedade melhor. Mas, como várias vezes conversámos, para que tal fosse possível era necessária uma coligação pela mudança que não se  conseguiu ainda reunir.
Nunca mais poderei voltar a agradecer-te a confiança inabalável e a solidariedade activa que me deste, quando te teria sido mais confortável ser discreto senão silencioso. Mas, o teu carácter nunca te deixaria afastar da verdade por uma conveniência, calar a reivindicação de justiça porque outros a calam ou falhar uma responsabilidade por capitulação à relação de forças.
Já não vou poder ir ao teu doutoramento, que as imperfeições da natureza e os avanços insuficientes da medicina te impediram de concluir.
Hoje o socialismo democrático português perdeu um discreto mas sólido pensador do seu modelo social, tu foste impedido de acabar os teus projectos e eu perdi um amigo ("e coisa mais preciosa no mundo não há", como canta o Sérgio Godinho).
Amanhã vou rasgar por ti o papel que está na nossa porta. Toda a gente sabes que só falhaste compromissos na vida por motivos de força maior. E ficamos a dever um ao outro, para sempre, a última conversa. Ambos sabemos que não há novo encontro. Adeus António.


(publicado também no Canhoto, o projecto do Rui que se tornou trio numa conversa ao serão)