6.7.11

Maria José Nogueira Pinto: uma adversária que dava gosto ter

Maria José Nogueira Pinto era uma adversária política que dava gosto ter. Lutava por aquilo em que acreditava com todas as armas legítimas. Queria fazer as coisas acontecer, sabia discutir, provocar se queria, era uma polemista muito mais enérgica do que parecia à primeira vista.
Que me lembre apenas estivemos do mesmo lado nas causas que unem os democratas-cristão aos socialistas democráticos, em particular em alguns temas da solidariedade e um em especial, o lançamento do rendimento mímo garantido. A história apurará que foi ela que dobrou Paulo Portas para que não votasse contra a medida, ameaçando votar a favor se não conseguisse pelo menos a abstenção do CDS.
Não a conheci para além da vida pública e em particular nos breves meses em que participei nos frente-a-frente da SIC Notícias. Mas naqueles poucos minutos que antecedem a entrada em estúdio e nos que se seguem à saída do ar, sente-se a personalidade daqueles com quem se está a falar. Maria José Nogueira Pinto era uma conservadora radical, forte, íntegra e leal.
A vida cívica, não é uma cedência ao lugar comum, perdeu uma protagonista. Provavelmente uma pessoa que a direita não soube aproveitar tanto quanto devia, fazendo o país perder algo do que este espírito independente podia ter-lhe dado. Nalgumas causas, teria feito estragos à minha visão do mundo, mas são os adversários de mérito que melhor estimulam as boas energias das alternativas que defendemos.

5.7.11

A propósito do corte do rating da Moody's: depois do mortal à frente, o choque de realidade.

A Europa, talvez tarde demais, percebeu que o ataque é mesmo ao conjunto da zona Euro e não às moedas periféricas. As agências de rating iam deixando-o escrito nas entrelinhas mas a direita europeia, com os governos socialistas a arder e risco de contágio demasiado longínquo não se preocupava. Pelo contrário, alimentava o populismo da "preguiça" do sul, mesmo contra as evidências. Em Portugal, o PSD viu nessa culpabilização a sua oportunidade e fez um mortal à frente: chumbou o PEC IV, precipitou a ajuda externa, fez campanha na base da negação da crise mundial e na culpabilização do governo, descredibilizou o memorando que assinou como insuficiente.
Agora vem o choque de realidade, para a zona Euro e para o governo português. Objectivamente, o plano francês para a reestruturação da dívida da Grécia esconde mal que é uma operação de branqueamento de activos tóxicos da banca exposta à Grécia enquanto virmos a dívida soberana grega como um problema grego. Os "mercados" não mudaram de orientação, continuam a atacar o Euro. A França e a Alemanha é que estão a mudar de discurso.
O mesmo choque de realidade sofre o governo português. O que diria há dois meses o PSD de um comunicado do Ministério das Finanças sobre um downgrade do rating em que se dissesse que a Moody's "não terá tido em devida conta (...) [o] amplo consenso político que suporta a execução das medidas acordadas com a troika" ou que "o downgrade ora anunciado revela o ambiente adverso da crise da dívida soberana e as vulnerabilidades da economia portuguesa neste contexto"? O que dirão os dois candidatos a líderes do PS?
Depois do mortal à frente do PSD e a sofrer o choque da realidade, a direita e a esquerda portuguesa ou aproveitam para se deixar de ofensivas ideológicas fracturantes como a privatização do Estado social, de retóricas populistas como a do "estado de choque" ou a do "assalto ao bolso" dos contribuintes e trabalham juntas para resolver o problema que todos reconhecem - o da retoma da competividade da economia - ou deitam, cada uma para seu lado, gasolina aos "mercados".
Do ponto e vista europeu, se Portugal caír ainda é uma peça do dominó suportável, mesmo que já se tenha percebido que não cai sózinha, mas do ponto de vista português seria uma tragédia.
Temo pela cegueira estratégica de todos. O Primeiro-Ministro ainda não deu sinal de perceber que não é tempo para os liberais se vingarem dos anos oitenta e noventa. O PCP e o BE ainda parecem sorrir ante a ideia de uma manifestação com muita participação e um par de greves gerais e vejo no PS gente muito destacada, tentando ganhar o partido, que pensa que pode trocar de papel com o PSD e pôr agora o PS a fazer de conta que não há crise internacional, apenas incapacidade da governação.
Quero estar enganado, que o PSD caia em si, que o PS não caia no populismo de esquerda e que o PCP e o BE não julguem que vem aí a melhor oportunidade de ruptura desde o PREC. Mas não vejo nada disso no horizonte.

QUem deve tutelar o FSE?

O governo ainda não sabe quem vai tutelar o Fundo Social Europeu, segundo o DN. Recorde-se que o programa português de gestão dos recursos humanos é o maior da Europa, é um instrumento estratégico para a melhoria da situação educativa e das qualificações profissionais no país e exige grande capacidade de direcção estratégica.
A notícia não surpreende. A atomização das áreas sociais, espartilhadas entre uma secretaria de Estado do Emprego separada da função de protecção social, que está noutro Ministério e o redireccionamento político do Ministério da Educação em que o titular da pasta esta à partida bem distante deste tema sugeria que o risco era real. Vai o Secretário de Estado do Emprego conduzir uma estratégia fundamental para o Ministério da Educação? Vai o Ministro da Segurança Social, que gere o fundo responsável pela contrapartida nacional do FSE, conduzir a estratégia de desenvolvimento dos recursos humanos? Vai o Ministro da Educação ser capaz de se libertar dos seus preconceitos sobre as novas áreas de actuação? Vai o Ministro da Economia, em plena crise, dedicar-se a coordenar estes fundos, laterais ao core business da sua pasta?
Não é por acaso que a experiência de separação entre segurança social e emprego, ensaiada em 1995 por António Guterres durou só dois anos ou que toda a gente já se esqueceu de experiência semelhante à actual na orgânica do memorável governo de Pedro Santana Lopes. Mas más orgânicas não impedem boas soluções. Chegados aqui, qual é o ministério que melhor percebe a centralidade da estratégia de desenvolvimento dos recursos humanos para o país? Será Pedro Passos Coelho a dizer. Oxalá decida bem e não estrague uma experiência internacionalmente reconhecida como boa prática na gestão do FSE.
A orgânica do Governo não ajuda. Mas o bom senso resolve muitos problemas. Resta saber se, acabada a campanha eleitoral e tendo os Ministros que se confrontar com a realidade da governação, estes corrigem os defeitos organizativos do governo ou se submetem a eles. E se percebem a sua nova missão ou se deixam prender pelas suas retóricas anteriores.

3.7.11

Sem ironias ou segundas intenções. Um cumprimento a Mota Soares.

O novo Ministro da Segurança Social. Pedro Mota Soares, decidiu extinguir o lugar de director-adjunto distrital de segurança social. Cumprimento-o sinceramente pela decisão. Eram lugares desnecessários e mantidos, no mínimo, com alguma artificialidade. Isto sim, é simbólico da vontade de cortar despesa com critério.

Time,the best pictures of the week: polio, a war that deserves to be fought

                                          (Issouf Sanogo—AFP/Getty Images)

June 25, 2011. A child receives an oral polio vaccine in the Abobo suburb of Abidjan during the opening of the second national day of polio vaccinations organized by the World Health Organization, UNICEF and Rotary International, among others. Read more.

De links bem abertos: as coisas que dizem ao Expresso

Estou fora de Portugal e não assino o Expresso online, pelo que me limito a acreditar nas fontes secundárias que escrevem que:

1. Assunção Cristas disse à Única que um Ministro não tem de saber "a fundo" da àrea pela qual é responsável:  A pasta é esta, o desafio foi este, só tinha de pensar se tinha condições para o aceitar. Como toda a gente sabe, não percebo da matéria. (...) Se alguém que tem experiência política confia em mim para me fazer este convite - que é articulado entre o líder do CDS e o primeiro-ministro - tenho o dever de fazer o melhor que sei. Um ministro não tem de saber a fundo sobre a área." (via Ladrar à Lua)

2. Manuela Moura Guedes telefonou a Pedro Passos Coelho para que Miguel Macedo desconvidasse Bernado Bairrão que... (via Câmara Corporativa)


Com as coisas que dizem ao Expresso, o novo governo promete.

"people are strange": 40 years ago, the voice of Jim Morrison became silent.

1.7.11

Agora sim, Passos Coelho tem uma boa razão para pedir desculpa ao país.

Sim, há precedentes. Durão Barroso e depois José Sócrates tomaram nos primeiros dias de Governo medidas que contrariavam os seus discursos de pré-campanha. Não faltará quem o repita.
Mas há uma diferença de fundo. Tivessem Barroso e Sócrates razão ou não, ambos invocaram um motivo atendível. Ambos se basearam em informações do Banco de Portugal que diziam que a situação das finanças públicas era diferente da que tinha sido divulgada pelos seus antecessores.
Pedro Passos Coelho com as medidas que anuncia mal chega ao governo passa da conduta duvidosa que atribuoao seus antecessores (com o amparo de Vitor Constâncio) para a total falta de pudor. Não há "surpresa" invocável. As contas foram auditadas, corrigidas pelo Eurostat, tidas em consideração pelos peritos da famosa "troika". Não há nada de novo na situação económica e financeira do país entre a pré-campanha, a campanha eleitoral e hoje. O mundo não mudou, o país não mudou, apenas Passos Coelho mudou de lugar. E eu, que não gosto de usos excessivos da linguagem na política sou forçado a dizer que ou Passos Coelho tomou os eleitores por parvos, ou mentiu deliberadamente, ou disse disparates ou já não é ele que governa o país, mas alguém com quem ainda não tinha falado a 1 de Abril de 2011.
A reportagem do vídeo abaixo não deixa margem para dúvidas. Passos Coelho disse então que aquilo que agora  fez era um disparate.
Para a reflexão necessária sobre a verdade e a política fica que Sócrates imputou a Passos Coelho a intenção de cortar o 13º mês, este respondeu que isso era "um disparate" e agora o cortou.
Para a reflexão necessária no PS sobre a sua relação com o governo fica que esta como outras medidas nada tem que ver com compromissos nacionais assumidos com a troika.
Agora sim, Passos Coelho tem uma boa razão para pedir desculpa ao país. E o país tem razões para pensar que quem mentia não era Sócrates.

Presunção de inocência, sempre. Seja com quem for, seja contra quem for.

Abstive-me de escrever sobre o caso DSK. Tudo tem sido escrito. As frases mais certas e os maiores disparates. Abro uma excepção para dizer que, se tivesse escrito algo, gostaria de ter sido o que Rogério Costa Pereira escreveu em Strauss-Kahn: dos autos-de-fé modernos.Presunção de inocência, sempre. Seja com quem for, seja contra quem for.

De links bem abertos: a esquerda precisa de uma agenda reformista

Talvez os portugueses percebam hoje melhor que ontem o argumento de Patrick Diamond. Se a esquerda não adopta uma agenda reformista perante o mundo em mudança, a direita comandará com uma agenda mais dura e mais injusta:

"If the left does not propose an agenda for progressive reform, the centre-right will dominate the political landscape - implementing reforms that are harsh and unfair. That is the lesson of the contemporary era.