26.5.14

Os portugueses quiseram abanar o sistema político. Vamos a ver se isso foi entendido.

Escrevi aqui o que  teria acontecido no Domingo se os resultados eleitorais acertassem nas sondagens, com aquela ponta de cepticismo de quem sabe que em eleições europeias as sondagens acertam relativamente pouco nos resultados. Agora, que já sabemos os resultados, podemos concentrar-nos na parte do que aconteceu que as sondagens não previam. Ou seja:

1. Os partidos ditos do arco da governabilidade (PS, PSD e CDS) tiveram em conjunto um péssimo resultado, que obriga a reequacionar as condições de governabilidade do país e abre a porta à fragmentação do sistema político. Se a lógica de resultados de domingo se transferisse para legislativas, PS, PSD e CDS, por exemplo, não teriam poder para fazer uma revisão constitucional sem um outro aliado, que poderia ter que ser Marinho Pinto, fazendo desse aliado o novo guardião da adaptação do regime a novos circunstancialismos.

2. A crise do sistema político que se veio juntar à crise económica e social e que varreu a Europa não provocou nenhum sismo em Portugal, mas gerou ventos fortes, criando duas novas forças políticas, ainda que ambas atravessadas por sérios problemas por resolver. Como irá Marinho Pinto gerir a sua entrada na política pela via da mais desprestigiada das instituições parlamentares e da mais conotada com a inutilidade dos políticos contra a qual fez discurso? Como irá o MPT gerir a sua transformação de partido ecologista em barriga de aluger de um Marinho Pinto tão nutrido de votos? Como irá o Livre digerir a sua derrota, ainda que dando-lhe a possibilidade de aspirar a eleger deputados nas eleições legislativas? Caminhará para o desaparecimento e reabsorção (como aconteceu recentemente com o MEP) ou encontrará um discurso que lhe permita solidificar-se e crescer?

3. O PSD e o CDS parecem estar a caminho de uma derrota anunciada que os apeará pelo menos da liderança do país. Mas é patético que o PS pense que pode, a partir desta base e neste contexto, fazer uma campanha assente na reivindicação de uma maioria absoluta para a qual os portugueses definitivamente o não quiseram lançar. Que plataforma oferecerá agora o PS aos portugueses? O discurso moderado que todos percebem que antecipa o Bloco Central? A tentativa de um governo solitário e fraco? A ultrapassagem do Rubicão que implicaria uma parceria táctica com o PCP? A reabsorção amigável ou hostil de Marinho Pinto? (O Livre, para já, não tem força para ser variável significativa nesta questão).

4. Na minha leitura,  os portugueses rejeitaram no domingo não apenas o PSD e o CDS mas também o governo de bloco central que seafigura ainda o cenário mais provável (que não o que eu desejo) para manter o país governável. Pode agora defender-se "outro" bloco central, mais alargado, como aquele movimento que uniu Bagão Félix, Ferreira Leite e João Cravinho no manifesto pela restruturação da dívida. Ou pode ignorar-se que o PS perdeu no domingo o referendo ao seu rumo táctico na gestão da crise e seguir em frente.

5. Se o PS mantiver o rumo, parece-me que nasceu no domingo para Marinho Pinto e o Livre a oportunidade para se afirmarem que o PCP e o BE desperdiçaram na gestão da crise, atirando o país para os braços de Passos Coelho. Basta-lhes afirmar-se europeístas, mas contra a terapia da troika e o Pacto Orçamental e posicionarem-se para querer ajudar um governo liderado pelo PS, mas contra o bloco central e os vícios aparelhistas do partido que o conduziram a este imbatível poder interno sem força exterior. Ou não foi isto que os portugueses disseram no domingo aos actores fundamentais do seu sistema político?

5 comentários:

CAOS disse...

Parece-me que disseram que não querem estar na Europa ou, pelo menos, no Euro. O resultado do PCP indicia isso, ou não? Há um partido com representação parlamentar que parece não ter sofrido com os ventos fortes.

Nuno Agostinho disse...

O Livre sai derrotado?
Devemos estar a falar de outro Livre..
Livre caso repita a graça nas Legislativa coloca 2 deputados no parlamento, isso e ter 2,2%, os melhores estreantes de sempre em europeias, mais de 70 mil pessoas confiaram o seu voto a este novo Partido com 2 meses de existência, igualmente acima do BE nas suas primeiras europeias (1,79%) sendo que o BE foi a união de 3 forças politicas.
Ficou acima do BE em Lisboa... não sei se quer reconsiderar a parte do comentário que atribui uma derrota ao Livre....

Sérgio Martins disse...

“a oportunidade para se afirmarem que o PCP e o BE desperdiçaram na gestão da crise, atirando o país para os braços de Passos Coelho” (ideia que é um pilar central da actual orientação politica do PS) , é uma premissa errada e que pode levar o PS para o caminho da social democracia europeia – um progressivo e irremediável declínio.

O PEC IV, como os anteriores, é uma outra face do tratado orçamental, do memorando de entendimento, das opções económicas da Alemanha. Tudo isto faz parte de uma orientação económica que vai do centro-direita ao neo-liberalismo. Nem PCP, nem BE, nem PS se enquadram aqui, pelo menos se se quiserem situar entre o centro-esquerda e a esquerda.

P. disse...

De ti, esperava melhor.

Europeias é voto de contestação. Não confundir com legislativas. Tirar elações sobre a governabilidade do país é entrar em terrenos muito escorregadios, seja em Portugal, seja, por exemplo, em ... França.

Os partidos extra-tradicionais em Portugal nunca perduraram. Espantar-me-ia que MP conseguisse "sobreviver" e fazer moça.

Sei que não entraste em linha de conta com o novo elemento ... revolucionário: AC. Agora, tudo pode mudar até às próximas legislativas.

Don't worry. Be happy. Ainda muita água vai correr debaixo da ponte.

@zulebranco disse...

Na verdade houve oportunidade perdida pelo PS (previsível com Seguro). O BE também desde que Louçã deixou o cargo nunca meis se endireitou, o PC é mais do mesmo.
Pela europa fora o reaparecimento com algum peso da extrema direita é preocupante, com culpas próprias dos actuais dirigentes europeus que nos governam e a quem os cá do burgo pesam vassalagem....enfim

Para travar o mal que as políticas liberais e neoliberais nos têm trazido haverá que contrapor com projectos crediveis aceitáveis e desejáveis onde os interesses dos povos estejam presentes e não os que estão presentes como banca e outras multinacinais.
Em Portugal só com um PS forte responsável com projecto viavel de aglutinar todas as forças de esquerda que não receiem ser poder, é que pode existir esperança de novos horizontes para o país e também servir de exemplo às outras forças democráticas que andam adormecidas por esta europa fora