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23.5.13

Um verão político frio no Irão

A semidemocracia iraniana sob controle do clero xiita é um regime em que coexistem fortes mecanismos de cooptação e elementos de pluralismo político.
Os elementos de pluralismo têm sido usados pelos eleitores para dar sinais ao clero: escolheram uma vez o reformista Khatami, mobilizaram-se contra a reeleição de Ahmadinejad.
Agora, o Supremo Líder cortou o mal pela raíz. Nas próximas eleições iranianas não há riscos. O candidato reformista Akbar Hashemi Rafsanjani, embora seja um ex-Presidente da República e o candidato populista Esfandiar Rahim Mashaei , embora seja um ex-Vice-Presidente, foram eliminados das listas de candidatos.
Diz-se que a liderança actual da revolução iraniana teme acima de tudo uma perestroika que devastasse o regime e fará tudo para o evitar.
O próximo passo consiste em tentar reduzir o eleitorado iraniano à apatia, dando aos candidatos aprovados para as eleições de 14 de Junho o mesmo pluralismo que têm as candidaturas a deputados em Cuba. Veremos com que sucesso. Mas, contrariamente à percepção generalizada, há no Irão mais sementes de cultura democrática do que parece. Se está longe um verão quente persa, a tentativa de congelar as eleições presidenciais é tão ostensiva que este Verão demonstra que o regime dos Ayatollahs sente que atingiu o Outono.

21.9.11

Que capacidade de pressão tem o governo suíço sobre o Irão dos Ayatollahs? Alguma é.

Todos sabemos que o Irão não é um Estado de direito e que detenções arbitrárias, ilegais e injustas ali não se podem esperar que terminem em função de um julgamento justo. Quando as vítimas dessa arbitrariedade são cidadãos estrangeiros, a pressão política acaba por ter a eficácia que falta a outros mecanismos. Assim foi com a libertação de dois cidadãos norte-americanos presos há dois anos. Na sua mensagem sobre este facto, Obama agradece o esforço de mediadores de alto nível. Dois deles não surpreendem: o Sultão do Omã e o Presidente do Iraque. Mas o governo suíço... Que capacidade de pressão terá o governo do país que proibiu os minaretes no regime dos ayatollahs? Alguma é, que Obama não agradece assim por coisa pouca.


7.7.09

Semidemocracia islâmica ou ditadura? Os futuros imediatos do Irão.

A notícia de que a disputa política em torno dos resultados das eleições presidenciais do Irão tem implicado, de ambos os lados, os clérigos, vem confirmar que estamos perante fracturas internas do regime. O país é uma semidemocracia, com elementos de pluralismo político, tutelada pela hierarquia religiosa. Ao que parece, há agora uma fractura entre sectores que se reivindicam da herança espiritual da revolução islâmica, como os intelectuais que a apoiaram e serviram os seus primeiros governos e os clérigos que a teorizaram e os que se cimentaram nos poderes "seculares" que esta gerou, como os guardas da revolução e o exército. Ao contrário do que poderia imaginar um ocidental desatento, é nos sectores "espiritualistas" (ou islamistas se preferirem), que o descontentamento popular tem mais eco e nos "seculares" (o aparelho militar-policial) que estão os novos duros do regime. Os primeiros têm uma visão da sua "revolução" que assenta na necessidade de renovar a sua legitimidade e de enquadrar o povo no seu projecto político, bem como a sua ambição de hegemonia os leva a perceber o que tem que mudar para que o regime possa persistir. Os segundos têm apenas a consciência do que podem perder se o poder lhes sai das mãos. Não sabemos se o regime vai conseguir reenquadrar o descontentamento, particularmente nos meios urbanos e persistir como semidemocracia com legitimidade popular ou vai evoluir no sentido da ditadura, prescindindo dessa legitimidade e forçando um ciclo de repressão que pode ser duradouro. Em nenhum dos casos se tornaria numa democracia secular, mas no primeiro deles seria um parceiro mais previsível no cenário internacional. Porque quando uma ditadura tenta reganhar apoio popular fá-lo sempre pelos mais cruéis populismos internos e por gestos internacionais altamente simbólicos mas irresponsáveis. Com Amadhinejad acossado internamente, mantido no poder pela força policial e sem a benção de parte significativa do clero, o mundo tem um factor adicional de crise, que se dispensava. Acresce que não se pode prever com rigor como reagirão os movimentos que gravitam na sua órbita, como o Hezbollah, à divisão que atravessará nesse caso o país, como isso interferirá na estabilidade do Líbano e, necessariamente, em todo o Médio Oriente. De facto, a questão de legitimidade também os afecta porque têm uma filiação ideológica no regime iraniano. Os países aliados, esses, serão imunes à questão. O que liga, por exemplo, a Síria ao Irão não é nenhuma visão do Islão e muito menos a Rússia fragilizará a sua aliança com o regime por este se tornar mais ditatorial.

21.6.09

Contudo, o Irão move-se

A ultrasimplficação das teses "das civilizações" não ajuda a ver a diversidade política interior a todas as sociedades e formas de poder. O Irão pode bem ser um dos mais eloquentes exemplos desse efeito de opacidade, dada a facilidade com que o atirámos para o reino das trevas do "islamismo". Talvez por isso não estivessemos preparados para acompanhar o debate que atravessou o país na última campanha presidencial e menos ainda para compreender o que significará verdadeiramente a revolta nas ruas de várias cidades que atravessa o país há uma semana. Há, contudo, duas ou três coisas que me parecem claras. O Irão evoluiu no sentido de ser uma semidemocracia, um regime de pluralismo político limitado por uma estrutura teocrática de poder em que a hierarquia religiosa define o máximo de pluralismo admisssível. Teve períodos diferentes na relação de forças entre visões políticas do país, que talvez sejam também visões religiosas do Islão. É hoje atravessado por uma tensão de que consigo identificar três pontos de divisão: no interior da teocracia que verdadeiramente comanda a definição do que é politicamente admissível no quadro institucional actual ( o que explicará as hesitações do poder religiosos face à crise política); no interior dos actores políticos, entre populistas e liberais (o que agrupa os homens do sistema por detrás dos candidatos presidenciais desavindos) e entre populações urbanas, cosmopolitas e o que deve ser o Irão profundo. Neste quadro, parece claro que Ahmadinejad teve mais votos que o seu adversário mas, sem fraude, teria pelo menos que disputar uma nova volta que poderia perder e que nos corredores se pretende travar enquanto nas praças se procura forçá-la. O Irão depois desta revolta vai seguramente evoluir em alguma direcção. Endurecer e reforçar as tendências de ditadura teocrática? Parece difícil que a energia acumulada o permita sem um período longo de conturbação. Ceder em algo aos segmentos urbanos para que o poder não caia? Será preciso religar os elos desavindos nas elites, mas não parece fácil. Jeito, mesmo, dava que no exterior alguém fizesse algum disparate, para que o temor do inimigo externo recimentasse as coligações rompidas. Mas que o estão, não haja dúvidas. Esta carta de um proeminente grande Ayatolah e o seu conteúdo claramente em defesa de formas de democracia política, parece impensável à luz da imagem que tinhamos do monolitismo do regime. Eles estão a evoluir ou nós começámos a dar por ela? Certo é que, contudo o Irão move-se. .