A Turquia pode ser a grande beneficiária geoestratégica da Primavera àrabe e está a agir em conformidade. Em princípio, o resultado final, embora ainda incerto, dos regimes nascentes no Egipto, na Tunísia e na Líbia será uma democracia formalmente secular com grande influência política de partidos de base islâmica de um novo tipo, para os quais o AKP, o partido maioritário na Turquia, será um exemplo.
Ao nível partidário, o AKP não tem popupado esforços para tecer relações de influência com estas forças emergentes da clandestinidade ou da semilegalidade e para forjar laços com as frentes políticas em formação e que resultam do encontro entre velhos islamistas (tipo Irmandade Muçulmana) e movimentos radicalizados (frequentemente perto do terrorismo ou da luta armada, por vezes mesmo com ligações a Al Qaeda). Este pós-radicalismo islâmico pode vem ser a força emergente nos próximos anos e a nova força política dominante no Médio Oriente e é difícil imaginar que o AKP não se torne numa plataforma influente na definição do caminho dessas forças emergentes.
Ao nível diplomático, a Turquia também está a fazer realinhamentos sérios. Acolheu a primeira grande conferência de apoio à reconstrução da Líbia e está, em simultâneo a retomar uma ligação estratégica com o Egipto e a romper, passo a passo, a aliança que nos últimos anos teve com Israel. Agora, anunciou uma excepção na sua política de "zero problemaqs" com os vizinhos para anunciar que já não fala com o regime sírio, antecipando a sua adesão a sanções. Pelo meio, foi na Turquia que reuniu o conjunto disperso das forças de oposição na tentativa de formar algo equivalente ao Conselho nacional de Transição da Líbia.
A Turquia parece estar a fazer tudo para passar de uma excepção secular nos países de cultura islâmica, para uma força agregadora de um pólo de regimes pluralistas em que as forças islamistas são sufragadas pelo voto popular em eleições livres. Ou, se quisermos antecipar uma tendência provável, para a potência hegemónica de um novo modelo de regime político, o secularismo islâmico, que tem paralelos significativos com o domínio da democracia-cristã em certos períodos da história da Europa Ocidental.
Em princípio são boas notícias, embora tornem ainda mais completo o xadrez da política de alargamento da União Europeia e possa abrir fissuras na OTAN. Ao que se junta a magna questão do conflito israelo-palestiniano.
Israel pode estar perto de ser um dos grandes perdedores da Primavera árabe, a par dos que pensavam que a Europa Ocidental e os EUA podiam ter uma política para a região assente nos interesses económicos e na cooperação militar com regimes autocráticos e opressores, em nome da contenção do radicalismo islâmico.
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22.9.11
6.9.11
Quando Bush, Blair e as fontes do Avante estão de acordo...
A CIA transportou da Tailândia até à Líbia, com a cooperação do MI6 e aprovação ministerial britânica, pelo menos uma pessoa para ser "interrogada", noticia o Telegraph. Chama-se Abdel Akim Belhadj, o tal passageiro involuntário, entregue a Kadafi para ser torturado. Acontece que agora é um dos chefes militares rebeldes. Por isso, provavelmente, vamos saber mais sobre o que realmente aconteceu.
Seja como for, a "guerra suja" é reprovável em si e esta prova adicional do envolvimento do governo de Blair nem seria surpreendente, não fora o inusitado aliado em tão lamentáveis exercícios.
Fiquei curioso de como lidaria o PCP com esta conivência entre a CIA e o seu mais recente - e algo surpreendente - herói do socialismo. Fui ver e abri a boca de espanto. Porventura ignorando ainda em que companhia aérea Belhadj havia voado para a Líbia, o Avante de 1 de Setembro informa-nos: "Em Tripoli os contra-revolucionários estão às ordens de Abdelhakim Belhadj, quadro militar da Al-Qaeda. De acordo com informações recolhidas pelo jornalista Pepe Escobar para o Asia Times, Belhadj, jihadista forjado no Afeganistão, terá sido libertado pelos EUA para, juntamente com os instrutores e soldados da CIA, MI6, SAS britânico e Legião Francesa, orquestrar, desde Fevereiro, a chamada «insurreição popular contra Kahdafi».
Irá o Avante da próxima semana noticiar que o dito homem foi "libertado" pela CIA nas masmorras de Kadafi? Provavelmente o assunto já não terá actualidade para a próxima edição. Convenhamos que é melhor não insistir numa tecla que terá sido partilhada por Bush, Blair e as fontes do Avante.
PS. Entretanto, as ligações de Kadafi ao "transporte de passageiros" da CIA nem sequer são uma notícia inteiramente nova. Ana Gomes relembra-o e recorda que as linhas aéreas da agência voaram entre Tripoli e aeroportos em Portugal, com as novvas autoridades a, como ela diz, ver navios, que é como quem diz a assobiar para o lado.
Seja como for, a "guerra suja" é reprovável em si e esta prova adicional do envolvimento do governo de Blair nem seria surpreendente, não fora o inusitado aliado em tão lamentáveis exercícios.
Fiquei curioso de como lidaria o PCP com esta conivência entre a CIA e o seu mais recente - e algo surpreendente - herói do socialismo. Fui ver e abri a boca de espanto. Porventura ignorando ainda em que companhia aérea Belhadj havia voado para a Líbia, o Avante de 1 de Setembro informa-nos: "Em Tripoli os contra-revolucionários estão às ordens de Abdelhakim Belhadj, quadro militar da Al-Qaeda. De acordo com informações recolhidas pelo jornalista Pepe Escobar para o Asia Times, Belhadj, jihadista forjado no Afeganistão, terá sido libertado pelos EUA para, juntamente com os instrutores e soldados da CIA, MI6, SAS britânico e Legião Francesa, orquestrar, desde Fevereiro, a chamada «insurreição popular contra Kahdafi».
Irá o Avante da próxima semana noticiar que o dito homem foi "libertado" pela CIA nas masmorras de Kadafi? Provavelmente o assunto já não terá actualidade para a próxima edição. Convenhamos que é melhor não insistir numa tecla que terá sido partilhada por Bush, Blair e as fontes do Avante.
PS. Entretanto, as ligações de Kadafi ao "transporte de passageiros" da CIA nem sequer são uma notícia inteiramente nova. Ana Gomes relembra-o e recorda que as linhas aéreas da agência voaram entre Tripoli e aeroportos em Portugal, com as novvas autoridades a, como ela diz, ver navios, que é como quem diz a assobiar para o lado.
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