11.11.12

As devoções a São Martinho: o vinho, o milagre e a caridade


Pieter Bruegel, o velho - O vinho do dia de São Martinho, Museu do Prado


No dia 11 de Novembro de 397 foi a enterrado o ancião Martinho, de 81 anos, bispo de Tours, o primeiro não mártir a ser santificado pela Igreja Católica. A Igreja Católica estava numa fase de institucionalização e o culto de São Martinho é um bom exemplo até hoje de dois elementos da força social do cristianismo: o sincretismo e a coexistência da teologia dos teológos e da teologia popular.
Para as populações rurais esta é a altura de começar o novo ciclo do ano, de renascer, consumindo pelo Inverno dentro as colheitas conseguidas no Verão. Por esta altura, celebravam-se os mortos (culto trazido para o Dia de todos-os-santos) e o renascimento era simbolizado no "vinho novo", momento de uma festa dionisíaca em honra da transformação da água em vinho. A eucarístia é um ritual que usa o vinho como metáfora do sangue na encarnação de Deus, pelo que a sacralização das festas do vinho permitia dar um fundo popular à religião ainda que houvesse que "domesticar" os cultos extremos dionísiacos, numa batalha incessante pelo equilíbrio entre sagrado e profano que ocuparia as práticas de culto até hoje. Tal como aconteceu com outras dessas festas, o calendário religioso misturou-se com os ritos pré-existentes, substituindo referências sagradas não cristãs por referências cristãs e autorizando a coexistência de sagrado e profano na comemoração. O "São Martinho, castanhas e vinho" é o produto do pragmatismo que resulta no sincretismo da celebração da época de excessos em torno do vinho novo.
Se há uma celebração profana e uma celebração sagrada, também esta se estabelece através de uma síntese   que se repete incessantemente na história do cristianismo.
O São Martinho, santo do povo, é um santo milagreiro. Na evolução da teologia dos teólogos, ficará associado à virtude da caridade.
No episódio lendário que serve de base às duas narrativas, Martinho, ainda soldado, encontra no Inverno um pobre, esfomeado e andrajoso a quem nada tem para dar, tendo a inspiração de cortar a sua capa ao meio e a repartir com ele, expondo-se ele próprio ao frio. Deus, recompensando-o pela caridade, transformou subitamente o Inverno em Verão para que um e outro sofressem menos as agruras do clima.
Da devoção popular nasce a lenda do "verão de São Martinho", alívio no sofrimento do Inverno para que a a alegria da festa do vinho novo possa, abençoada por Deus, decorrer nas condições mais favoráveis. A devoção dos teólogos alimenta-seda exaltação da caridade como partilha, em que a dádiva divina do Verão é uma recompensa pelo acto generoso da renúncia a algo para o bem estar de outro, marca da caridade no cristianismo social que viria também até hoje. Essa faceta de Deus na ética cristã é tão actual e tão estratégica para a Igreja contemporânea que o teólogo e Papa Bento XVI já sentiu  necessidade de a sublinhar em duas encíclicas desde o início do seu papado: Deus caritas est (2005) e Caritas in veritate (2009).
O São Martinho do vinho, do Verão e da caridade reúne, pois, os elementos de uma instituição social de enorme força popular - misticismo, sincretismo, ética - em que, como em todas as grandes metáforas da vida social, cada um encontra lugar para a sua narrativa.

O quadro de Pieter Bruegel, recentemente identificado e reproduzido acima, consegue de modo ímpar descrever o pleno sentido das metáforas de São Martinho. Ampliando-o, encontram-se pormenores admiráveis dos excessos da festa dionísiaca popular. A relação entre o sagrado e o profano está bem representada nas costas voltadas entre os que se dedicam à festa do vinho, no centro e na esquerda do quadro e o milagre de São Martinho, na direita. A virtude solitária da caridade é bem testemunhada por São Martinho e o pobre, olhando-se nos olhos, sem qualquer testemunha humana. Mas também a condenação da festa pagã desprovida da virtude fica assinalada pela posição de São Martinho e do seu cavalo, ambos focados na virtude da dádiva e não vendo o pecado que espreita na festa do lado esquerdo. Acrescente-se que São Martinho pratica a virtude para a sua direita, colocando o pobre no lugar santo à direita do Santo e em plano inferior, podendo bem simbolizar a posição de Cristo, a direita do pai. E ainda que na extrema-esquerda do quadro estão os mais tocados pelo pecado, sofrendo os efeitos da intoxicação alcoólica, na extrema oposição destra-sinistra que deixava para a última o lugar do Diabo.

3 comentários:

O faroleiro disse...

"Essa faceta de Deus na ética cristã é tão actual e tão estratégica para a IGreja contemporânea que o teólogo e Papa Benedito XVI já sentiu necessidade de a sublinhar em duas encíclicas desde o início do seu papado"

gostei desse "tão estratégica"

cada um de nós vê a realidade apenas aquilo que quer ver

mas isso reflecte, sobretudo, as nossas escolhas mais fundamentais

Paulo Pedroso disse...

Percebo o sentido da crítica ao "tão estratégica" embora eu não tenha usado a expressão no sentido que julgo que lhe dá. Porque eu não sou contra a caridade, apenas acho que essa não é a missão do Estado e que não é a estratégia fulcral para a questão da pobreza. Mas a caridade, talvez seja assunto para outro post, é estratégica, no sentido de "alavanca" de uma teologia para o século XXI centrada na ideia de partilha cristã. saberá melhor que eu, mas a tradução de caritas por caridade perde a carga de "amor" que a expressão tem em latim e essa é, acho, a "caridade que Bento XVI defende. Digo isto como cidadão atento à instituição social igreja, que não aspira a ser teólogo e nem sequer é crente. Aceitarei de bom-grado as correcções que entender que mereça.

O faroleiro disse...

não tenho nenhumas correcções a fazer

apenas agradeço a resposta que me deu

e aguardo com alguma expectativa esse post

é sempre interessante e agradável ver alguém inteligente e não crente, com o qual muitas vezes não concordo, debruçar-se sobre estes temas