12.9.08

A liberdade é um começo improvável

O que em geral permanece intacto nas épocas de petrificação e de predestinada ruína é a própria faculdade de liberdade, a pura capacidade de começar que inspira e anima todas as actividades humanas e constitui a fonte oculta a partir da qual se produz tudo o que é belo e grande” (Hanna Arendt, “O que é a liberdade?” in Entre o Passado e o Passado e o Futuro, Lisboa, Relógio d’Água, 2006, p. 180)
Hanna Arendt reflectiu sobre a questão filosófica da liberdade num dos oito ensaios escritos nas décadas de cinquenta e sessenta do século XX e recolhidos em Entre o Passado e o Futuro. A sua tese pode resumir-se a que a liberdade é um começo improvável, uma iniciativa, uma acção não prevista numa cadeia de causalidade, interrompendo uma sequência prevista e frequente. Esta concepção da liberdade tem interessantes consequências no campo da acção política. O que é, afinal, uma pessoa livre? A liberdade, assim vista, não é um gesto interior, um debate entre mim e a minha consciência, mas uma acção exterior uma interferência na vida colectiva. Como escreve Arendt: “os homens são livres – o que é diferente de apenas possuirem aptidão para a liberdade – enquanto agem, nem antes nem depois; pois ser livre e agir são uma e a mesma coisa.” (p. 164) Não se é livre sem usar a faculdade de ser imprevisto. Arendt entende que este é um dos motivos pelos quais o cristianismo iniciou realmente a história da filosofia da liberdade, identificando os “milagres” do Novo Testamento como exemplos da capacidade para imprevistamente transformar uma sequência de acontecimentos esperada. Nesta dimensão, o cristianismo encerra uma mensagem libertadora - testemunha e apela ao exercício da liberdade. De algum modo a questão vem do Génesis, pois o homem é a primeira criação depois da criação (como notou Santo Agostinho): Deus criou-o depois de ter criado o mundo e o homem criou a condição humana por, improvavelmente, desobedecer. Essa desobediência foi a fundação política da liberdade humana: agir de modo imprevisto e ser responsabilizado pelas consequências da sua acção, em vez de obedecer de modo previsível e ser recompensado pela passividade. O que nos conduz à questão da relação entre liberdade, política e história. Arendt escreve que, vista as coisas de fora da acção humana, “ as probabilidades de que amanhã seja igual a ontem são muito elevadas” (p. 182). No entanto, na história os seres humanos fizeram acontecer as diferenças entre amanhã e ontem, contra a teoria das probabilidades. Porquê? Porque, tal como escreveu na frase final do ensaio, os homens constroem essa diferença sendo livres, uma vez que “por terem recebido a dupla dádiva da liberdade e da acção são capazes de estabelecer uma realidade própria só deles” (p. 182). Ou seja, a liberdade é o exercício da faculdade de interromper uma cadeia causal pré-determinada, de um ser humano realizar um improvável começo de algo novo. Do meu ponto de vista, assim formulada, a liberdade é a vitória do gesto humano sobre os determinismos, da acção sobre a tradição. Algo simples, mas que precisa muito de ser cultivado para que haja coragem de fazer acontecer ao longo das nossas vidas individuais.

3 comentários:

quink644 disse...

Que grande confusão e dessintonia com a realidade para aí vai... Contraponhamos Nietzsche, a mentira mais frequente é a que cada qual diz a si próprio...

Paulo disse...

O quink644 mandou um segundo comentário, que pressupuna que o primeiro não tinha sido publicado por discordância. Não pretendia censurar a sua opinião. Apenas não vinha ao blogger desde que deixou a sua mensagem. Quando vim, publiquei.

quink644 disse...

Bom, não era a esse comentário a que me referia...