23.11.09

O voyeurismo manhoso e a baixa política

Em Portugal é possível coleccionar ao longo de meses conversas ao telefone do Primeiro-Ministro, suspeitando de que possa ter praticado um crime, sem que quem cuida da legalidade das intercepções telefónicas suscite a intervenção de quem tem, pela lei, o poder de as autorizar. Só por si, o facto já merecia reflexão.
Acresce que o timing em que essas escutas saltaram para a ribalta também não tem a ver com o tempo da recolha mas com o tempo das decisões e não pode ser inocente. Há, aliás, um fluxo de especulações sobre elas que só pode ter sido alimentado por quem as conheça ou os jornalistas confiem que as conheça.
O ruído em torno das tais escutas é tanto que duvido que a opinião pública capte que as suspeitas sobre José Sócrates impendiam sobre um crime político (atentado ao Estado de Direito) e não sobre o objecto da Face Oculta. Será totalmente por acaso?
O Procurador-Geral da República decidiu pela irrelevância criminal do que ouviu. Se houvesse relevância criminal ainda haveria uma réstea de possibilidade de que houvesse interesse político em conhecer as conversas de Sócrates com Vara mesmo que fossem judicialmente nulas. Mas, não havendo, sobram apenas duas razões para que a questão não morra aqui: o voyeurismo manhoso e a baixa política.
Infelizmente, a baixa política tem força em Portugal e a nuvem de insinuações que se pretende levantar sobre José Sócrates não tem fim.
Jerónimo de Sousa nem se coibiu de mostrar a face do PCP, vindo afirmar peremptoriamente que as escutas que não conhecemos devem ser tratadas como matéria de prova indispensável à descoberta de eventuais crimes. Porque o dirá? Quem lhe disse tal coisa? Porque acredita em quem lho disse? Que razão terá Jerónimo de Sousa para não se conformar com a irrelevância criminal decidida por Pinto Monteiro e se deixar conduzir por outras fontes?

Manuela Ferreira Leite insiste numa inexistente responsabilidade política de José Sócrates e exige que ele tem o dever de prestar exclarecimentos.

Ambos visam ampliar o desgaste pessoal de José Sócrates, recorrendo a todos os meios sem cuidar de pensar na saúde da democracia representativa após as sucessivas tentativas de derrube ilegítimo pelo ataque à honorabilidade pessoal do Primeiro-Ministro. Se no PCP neosoviético que hoje temos isso até pode nem surpreender, já no PSD, pilar do sistema democrático, só pode ser sintoma do esbracejar de uma liderança que se afogou em disparates e opções erradas.
José Sócrates não tem o dever de prestar nenhum esclarecimento sobre isto. Tem, sim, o direito a não conseguir ficar calado perante mais esta ignomínia, embora a frieza táctica aconselhe a que dê o mínimo de corda a quem pretende apenas arrastá-lo para a lama.

3 comentários:

Sónia disse...

Um assunto desta natureza, não devia ser avaliado apenas por uma pessoa, o Procurador Geral da República. Isso só faz com que os portugueses considerem isso como "opinião pessoal" do PGR e os outros partidos políticos se aproveitem disso para se enaltecerem plantando a desconfiança e a dúvida. Agravar o facto é que são amigos pessoais há muitos anos e “começamos” logo a pensar em favores e coisas do género. De alguma forma, acreditando e gostando do nosso Primeiro, as pessoas vão sempre ter a dúvida e avaliar uma certa cumplicidade passiva. Fica a dúvida aguçada pelos abutres se o PGR está a proteger o nosso PM.
Ficaria a situação mais resolvida e transparente se o magistrado não fosse um NOMEADO pelo governo, mas sim um colectivo de Juízes avaliar, assim como outras decisões o são e vão a votos e tudo.
Quanto ao se deve o PM falar ou não:
Se não falar: Os Opinion Maker podem dizer que está a fugir com o dito à seringa, que não assume e que não fala.
Se falar: Vai ser acusado que tudo o que diz é em defesa dos seus interesses
Por isso, que faça o que a sua consciência ditar. Eu não falaria. Falar do que não existe?


www.twitter.com/soniasarrico

Paulo Pedroso disse...

Uma opinião é uma opinião e respeita-se, mas um facto também é um facto e verifica-se. Ao contrário do que a Sónia pensa, o PGR não é nomeado pelo Governo, é nomeado pelo Presidente da República sob proposta do Governo que lhe entrega três nomes.
Na altura em que foi nomeado até se especulou que não seria o preferido do Governo, de entre os três nomes indicados.

Sónia Corujo Sarrico disse...

Ahh! Estava convicta do que disse e pelos vistos mal informada, sendo assim...
Obrigada pelo esclarecimento.