18.1.11

A agonia do trabalhismo israelita

O Partido Trabalhista de Israel perdeu o seu líder e um terço dos seus deputados que, decidiram continuar no Governo com o Likud e fazer uma nova força política. Pela primeira vez na sua história, os representantes israelitas do socialismo democrático e da social-democracia, ficaram reduzidos a menos de uma dezena de deputados no Knesset.
Muitas razões explicarão a decadência do Partido Trabalhista, desde as mudanças demográficas, com a imigração de Leste pouco sensível à esquerda, até ao declínio dos bastiões do Partido, como o sindicalismo e os Kibbutz. Mas seguramente a morte de Rabin foi também o princípio da morte dos Trabalhistas. O seu sucessor, Barak, proveniente das forças armadas, recém-entrado no partido, não fez a transição de falcão a pomba que Rabin conseguiu e os trabalhistas nunca mais encontraram o seu caminho. Ao ponto de até hoje fazerem parte da coligação liderada pelo Likud e integrada pela extrema-direita e aparecerem no espectro político à direita do Kadima, que passou de dissidência centrista do Likud a força posicionada - imagine-se - à esquerda do Labour.
Ou seja, a falta de um projecto para o diálogo com os palestinianos, a incapacidade de adaptar a base social-democrata às novas condições sociais do país e o oportunismo destruiram o Labour. Lembro-me de, muito jovem, numa altura em que a Internacional Socialista pressionava Shimon Peres, este ter perguntado se queriam um pequeno partido de valores ou um partido que disputasse o poder, dizendo ser irrealista o projecto de diálogo israelo-àrabe em que os partidos irmãos o queriam  envolver. Peres, fiel a esse "pragmatismo" já não está no Partido Trabalhista, é membro do Kadima. Mas o dilema que ele colocava aos socialistas europeus pode bem ter ajudado a implodir o seu partido de então, agora reduzido a um pequeno partido e perdido no caminho a dar a si mesmo, quanto mais a Israel.
É certo que Israel é uma democracia única e nada pode ser dela extrapolado para outros contextos, mas há uma lição a aprender de tudo isto: a social-democracia, talvez ao contrário de outras forças políticas, precisa de projectos - realistas e claros - mas projectos, para continuar a ser uma força relevante.
Evidentemente, o caso israelita é extremo, o líder do partido coligou-se com um seu adversário para se manter no poder, precipitando a destruição do partido que liderava. Parece teoria da consipração, mas não é teoria, é conspiração de facto.
Mas este caso extremo reforça a necessidade de ver as forças políticas como entidades colectivas. Vamos ver como se refaz o campo do centro-esquerda israelita, mas há razões para pensar que demorará muito tempo  a que algo so influência das ideias progressistas e social-democratas reganhe força no país, que tem vivido tão acentuado desvio para a direita que pode também perder uma das suas bandeiras mais importantes. Não é fácil ser uma demcoracia há cinco décadas em guerra, mas também não é imaginável que o problema se resolva abdicando de o ser. COntudo, há razões para estar pessimista. Como escreveu Daniel Levy na Foreign Policy, "the immediate and fundamental questions facing Israel's future will be (...) decided in a fight between competing versions of the Jabotinskyite tradition (Ze'ev Jabotinsky was the founder of Revisionist Zionism, the forerunner to the Likud Party). Jabotinsky was a territorial maximalist in his time and committed to the role of force and power in achieving the goals of Jewish nationalism.  But he also was in many ways a pragmatic realist and actually a liberal when it came to equality for Arabs. Israel is facing a choice between a fascist mutation of Jabontinskyism and a liberal mutation of Jabotinskyism, and with Labor dead, it is a Likud family affair"
O artigo, que vale a pena ser lido na íntegra tem o triste título  de "A requiem for Israel's Labor Party".

2 comentários:

alex disse...

Bom artigo e boa pontuação das questões centrais que devem preocupar a esquerda: é preciso ter projecto..
partilhei no FB..
Abraço

Demo Gra Pia disse...

do socialismo democrático e da social-democracia,pois...pois...
a democracia tem destas coisas