25.5.08

Portugal? Fado

O fado é um dos símbolos nacionais mais vendáveis no estrangeiro. Não surpreende, pois, que esteja omnipresente nas iniciativas das nossas embaixadas: encanta os portugueses no exterior e atrai os nacionais dos diversos países. A Embaixada de Portugal na Roménia não é excepção. O ano passado trouxe jovens fadistas à Capital Europeia da Cultura, a Sibiu e agora volta a investir no fado para assinalar a semana portuguesa em Bucareste. Não pude ir ver o espectáculo mas não critico a iniciativa, bem pelo contrário. A minha experiência romena, trabalhando com equipas de diversos países, fez-me olhar de outro modo para a trilogia maldita que associamos à ditadura: Fado, Futebol e Fátima. A propósito, vem aí o jogo entre a selecção de Figo e a de um jogador romeno. Significados políticos internos à parte, os três efes são ainda a mais poderosa marca Portugal e bastar-lhe-ia juntarmos o vinho do Porto, o Algarve e a Madeira para dar conta da percepção imediata dos estrangeiros sobre nós. No que diz respeito ao fado, impressionou-me nestes últimos anos que ainda estivesse na memória dos romenos uma passagem de Amália Rodrigues pelo país a que muitos dos colegas na casa dos 50 anos aludem. É tão recorrente falarem dela como dos golos de Eusébio em 1966. Por acaso acabo de encontrar no youtube, videos desse concerto de Amália. Foi em 1969, ainda estávamos na ditadura e o PCP mudava de casa, de Bucareste para Praga. Ainda não tinha começado a "revolução cultural" que moldou o comunismo romeno que conhecemos. Não sei quem trouxe Amália, como a ditadura portuguesa reagiu à sua entronização num país comunista ou que discurso político a acompanhou no regime de Ceausescu, se é que o houve. Destaco desses vídeos a interpretação do barco negro. (não é possível fazer download). A história deste fado é também significativa de como as marcas se constroem. Esta "canção portuguesa"nasceu como uma toada brasileira sobre a escravatura escrita por dois sambistas, foi um êxito no Brasil nos anos 50, iniciou o percurso inverso da escravatura e foi gravada pelo Ouro Negro no início dos anos 60. A PIDE viu nela uma denúncia do colonialismo e não da escravatura e a música teve que mudar de letra: a sofrida toada da mãe escrava deu lugar às palavras fadistas da temente amante, num poema luminoso de Mourão-Ferreira. Mas, apesar de muitos dos seus admiradores o ignorarem, o fado "tipicamente português"também nasceu dos batuques dos escravos bantos trazidos para Lisboa e só se "casou" com a guitarra portuguesa séculos mais tarde, quando os ingleses a trouxeram, provavelmente para o Porto. .

2 comentários:

Nuno Castelo-Branco disse...

Pois e ainda me recordo muito bem dos tratos de polé que deram a Amália durante o PREC, para no dia do seu enterro, certa gente sem escrúpulos atrever-se a insinuar que ela simpatizava com ... o PC!
Quanto ao futebol, os senhores do poder deviam zelar para que a TV do estado não permitisse o regabofe da abertura , interrupção e fecho dos noticiários com novidades desse pequeno mundo de brincadeiras esféricas. Nem o antigo regime alguma vez permitiu tal descalabro.
Fátima: pois bem, lembra-se de certo político receber a confissão ao sábado na própria sede do partido? E acredita verdadeiramente que o país se pode dar ao luxo de prescindir a essa colossal fonte de ingressos que é o turismo ao santuário? sejamos práticos, pelo menos nisto.

Zeca Diabo disse...

Por que diz que não é possível fazer download dos vídeos do Youtube? Há muito que o faço usando o programa UltraGet http://www.ultraget.com/