22.9.12

Depois do Conselho de Estado há uma nova relação de forças na políticaportuguesa

Se o Governo, como tudo indica que fará, recuar na mexida na TSU, haverá uma mudança de página na definição da relação de forças neste ciclo político.
Pela primeira vez nesta crise "a rua" terá obrigado um governo a arrepiar caminho, ainda por cima numa medida que se apresentou como integrando a espinha dorsal da estratégia de acção para 2013.
O Governo terá pago o preço de governar sem os parceiros sociais e terá sido forçado - provavelmente por Belém - a encontrar uma solução que possa ser defendida pela UGT, reforçando o papel desta ultima como instancia legitimadora indispensável, ainda que por aceitação passiva, de mexidas sociais.
O Governo terá reconhecido que Belém é o seu limite. Não se importou minimamente com o Parlamento, os parceiros sociais e o Tribunal Constitucional, mas recuou perante o PR. E o Palácio é hoje muito sensível à "rua" e sobretudo ao bom clima com a CIP e a UGT.
A esquerda maximalista festejará o recuo, mas sem razão. Para muitos manifestantes, o BE e o PCP também são "os políticos" e manifestamente a influencia dos seus aparelhos nos manifestantes é muito menor que nas grandes manifs de antigamente. Como já tinha acontecido a alguns sindicatos, os partidos de protesto também viram os inorgânicos a crescer à sua volta e passarão por um período de desorientação.
O CDS entrou em phasing-out da coligação. Teme voltar a afundar-se com o PSD como lhe aconteceu com Santana Lopes e passará a falar mais vezes, sempre que temer perder votos.
O PS ganhou este round. Depois do PSD ter rompido o consenso europeu que devia manter o centro-esquerda amarrado à austeridade, ficou muito mais livre para criticar credivelmente a relação do governo com a crise. Mas qual será o peso de Belém (e da UGT) no Rato? O sentido final de voto e o discurso que o PS fizer sobre um OE sem TSU o dirão.
É altamente improvável que não haja sacrificados no altar da remodelação governamental. Não sabemos quem serão os bodes expiatórios escolhidos mas, se imperasse o principio da responsabilidade politica, três Ministros teriam que sair antes do Natal: Vitor Gaspar, que orquestrou a estratégia orçamental; Álvaro Santos Pereira que não teve a força ou a visão necessárias para impôr a sua negociação com os parceiros e Mota Soares que aceitou a "prenda" da TSU e até balbuciou precocemente umas frases em sua defesa. Contudo, quem falhou rotundamente foi Passos Coelho, que não conseguiu gerir a relação com o quarteto que devia procurar manter consigo para evitar que o caldo do consenso europeu se entorne: Cavaco, Portas, Seguro e Proença.
A gestão desta crise mostrou que Passos Coelho não cumpre os requisitos indispensáveis para ser Primeiro-Ministro. É apenas necessário que ele o perceba ou alguém lhe explique que assim é.



4 comentários:

Jorge Rocha disse...

É certo que muitos dos manifestantes estão numa posição clara de contestação à generalidade dos políticos.
É aqui que a esquerda tem de ser determinada a fazer com que saiam de uma posição de negação para outra de adesão a uma alternativa exequível, justa e redistributiva.
Um trabalho que cabe a todos quantos nos consideramos nesse lado da trincheira,

Anónimo disse...

Sinceramente, não percebo que terá ganho o PS nest round. A batalha que o PS e a social-democracia europeia devia travar ele recusa-se a reconhecer como fundamental, critica a posição do PSD face à crise mas não é capaz de opor uma agenda de políticas económicas que visem o combate ao desemprego, o crescimento da economia através de políticas progressivas na redistribuição dos rendimentos - no sentido oposto à que está a ser levada a cabo pela União Europeia. Conseguir inflectir esse sentido global de políticas seria uma vitória na medida em que se poderia alimentar expectativas de um futuro a médio prazo diferente. Mantendo-se tudo como está, a alternativa que um qualquer PS pode trazer é um variação do mesmo. É claro que à esquerda (na esquerda "maximalista" onde me encontro) o panorama não é brilhante. Do ponto de vista de explicação da crise (como ela surgiu e que caminhos serão necessários para dela sair) creio que em grosso modo, só políticas keynesianas de esquerda (como as sustentadas por muitos economistas críticos das políticas de austeridade atuais) poderão ter exito para de uma forma socialmente justa podermos sair desta crise. Nesse sentido, de diagnóstico, de compreensão da crise como fenómenos social e económico, creio que quem melhor descreve esta crise é esta esquerda à esquerda do PS. Contudo, tragicamente, se no prazo de um ano, menos uns meses ou mais uns meses, se vierem (ou viessem) a repetir eleições legislativas, a esquerda iria uma vez mais perder, se não nas urnas, pelo menos na capacidade para mudar o sentido de marcha desta crise. E esta é, vai sendo, a longa e desesperançada derrota da esquerda. Por fim, para quem faz parte da "esquerda maximalista" mas não acredita em vanguardas ideológicas, e não acredita nelas porque não as deseja como expressão de uma verdadeira democracia, há que festejar o recuo sim porque por uma vez a sociedade civil não politicamente organizada, decidiu organizar-se, isto é, mobilizar-se e não outorgar a seus supostos representantes o direito de exercer o poder que na base é seu. Essa é a vitória de uma esquerda maximalista sim, por oposição a minimalista, de mínimos olímpicos.
Rui Costa Santos

pfig disse...

Na~o diria que o PS ganhou este round, se cai 2% numa sondagem feita nesta altura.

Eu que vejo tudo 'a dista^ncia, e estou-me borrifando, no fundo, sinto-me mal, indisposto mesmo, por ver um zero como o Seguro 'a frente do partido em que muitas vezes votei e que apoiei quase sempre, enquanto vivi em Portugal (33 anos, +-).

Teófilo M. disse...

Concordo que haja uma nova relação de forças na política portuguesa, mas desconfio que o PS tenha ganho alguma coisa - se algo ganhou foi pouco para o que havia a ganhar - e, ao que eu assisti, foi ao aconchego presidencial a um governo em dificuldades que ainda não sei se foram voluntárias ou involuntárias.
O futuro próximo será clarificador.