29.4.10

O meu improvável encontro com a aventura deles

Ás 18 horas de quinta-feira, 29 de Abril, no auditório do CES no Picoas Plaza, Adelino Gomes apresenta um livro sobre o MES. Eu não poderia faltar ao lançamento deste livro. Porque os autores são meus amigos, porque contam uma história que merece ser contada e porque o fazem de um modo agradável sem a tentação que tantas vezes se vê nos relatos de quem viveu as coisas para "dourar a pílula" ou, no extremo oposto, para destilar ressentimentos.
Este é um livro que parte das memórias individuais para indagar o que já há de memória histórica de um dos mais curiosos fenómenos da extrema-esquerda portuguesa. Sabe-se muito sobre o que foi o futuro dos seus membros e, se falassemos, a linguagem de hoje, o MES foi um fraco partido mas uma forte marca.
Leia o que o Paulo Bárcia e o António Silva têm a dizer sobre a aventura deles. Como quiseram cruzar essa memória com o que a propósito do seu relato poderiam dizer amigos de gerações diferentes, convidaram o Embaixador José Fafe e convidaram-me também a mim para que escrevessemos sobre como respiraramos o ar do livro.
Para convidar os leitores a irem também ao lançamento do livro , não conseguiria dizer melhor do que aquilo que deixei dito no Prefácio. Por isso aqui o transcrevo como aperitivo à aventura deles:

Este prefácio embaraça-me mais do que qualquer outro dos que já escrevi. O livro é
sobre um período de que apenas tenho as reminiscências de infância e o conhecimento quea história já nos permite. O partido de que fala tornou-se num mito romântico entre muitos dos meus amigos, mas já tinha morrido de facto quando os conheci. Ainda tive um convite para o jantar de encerramento, a que teria sido absurdo ir mas me fez sentir uma espécie de irmão mais novo do grupo. Isto é, sobre o MES não há nada que eu possa dizer a mais do que o livro conta e deveria recusar o convite para escrever este prefácio.
Mas se não tivesse conhecido o António Silva e o Paulo Bárcia, os seus autores, eu não teria algumas das minhas melhores características e alguns dos meus defeitos seriam mais graves. Ser convidado por eles para escrever num livro seu é um privilégio irrecusável.
Acresce que, por causa dessa amizade, fui uma das pessoas que teve acesso ao emocionante texto de Paulo Bárcia, escrito em 2006, para a homenagem a um amigo que
teria feito 50 anos se um acidente estúpido o não tivesse roubado à vida e, por essa via, um dos que fizeram sentir aos autores que tinha chegado o momento de contarem a sua história para além dos serões entre amigos.
Na minha óptica, o momento era agora, porque os filhos de Abril merecem conhecer
as histórias da geração do PREC para além dos pequenos circuitos de filhos de militantes desta ou daquela facção. Mas era também agora por algo mais egoísta, porque me preocupa a perda na sociedade portuguesa da energia generosa que encontro neles e pensava que conhecer melhor a história da sua geração pode ajudar-nos a reencontrá-la.
Os meus amigos António Silva e Paulo Bárcia decidiram contar aos filhos de Abril a sua história e agradeço-lhes a coragem, porque falam de acontecimentos que ainda mexem na memória das pessoas, de gente que ainda anda por aí e nem toda gostará do seu lugar na fotografia ou das cores com que nele é pintada e porque o ponto onde eles se reuniram – o extinto MES – ambicionava um lugar no sistema político que penso que o PS deve incluir no seu, mas que não é evidente que o pretenda ou que, pretendendo-o, o vá conseguir manter.
As duas histórias deste livro, a dos jovens generosos e a do partido anticapitalista, são ambas ajudas para pensar o tempo que vivemos.
Foi isto que procurei que este texto reflectisse, para que convidasse à leitura do livro e à reflexão sobre o que esta história tem a ver connosco, trinta anos depois de ter acontecido.

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1 comentário:

Gabriel disse...

Texto admirável Paulo! Um belo tributo aos que participaram, de forma apaixonada, generosa e desprendida, nesse "projecto". É irrefutável que alguns dos protagonistas souberam preservar os valores que então os animaram, valendo-se dos mesmos para - de forma responsável e consequente - ajudarem a construir, ao longos das suas vidas profissionais e por via da participação política ou cívica, uma sociedade mais justa e solidária. Também eu tive a oportunidade, gratificante, de testemunhá-lo!
Há livros, como este, que são autêntico serviço público... O meu agradecimento aos autores.
Gabriel