13.3.12

Quem se mete com a EDP... sai?

A demissão do Secretário de Estado da Energia vem embrulhada na ideia de que tentou sem sucesso reduzir as rendas e subsídios às empresas produtoras de energia o que faz dele potencial vítima dos verdadeiros interesses instalados. Seriam 600 milhões de Euros de combate às gorduras do Estado, contestados especialmente por esse campeão da economia de mercado que dá pelo nome de EDP, que teríamos acabado de perder com a derrota do Secretário de Estado, se assim fosse.
Talvez os subsídios a este sector sejam excessivos, talvez não. Os sectores totalmente dependentes do Estado, seja o energético ou o dos serviços sociais, serão sempre alvo de disputas deste género. O que é certo é que o homem que tentou reduzir os custos para o Estado com os gigantes de sector energético não teve sucesso e acabou por sair do Governo enquanto os que os reduzem com os pigmneus dos pobres e assalariados - do RSI aos salários da função pública - são incensados. E não consigo deixar de pensar que se 600 milhões de corte nos subsídios às produtoras energéticas era um corte de 1/3, então estes subsídios são realmente imensos. Para quem queira ter a noção do que estão em causa, 1800 milhões de Euros é mais do triplo do valor anual do rendimento social de inserção. Embora perceba a necessidade de conter os custos energéticos finais, incomoda-me a ideia de o Estado contribuir com tanto para os prémios de objectivos dos gestores das empresas do sector. Pelo que me pergunto se a gestão do sector obedecerá a mínimos de eficiência, quando comparado com outros países, ou estará entregue a mentalidades rentistas confortavelmente instaladas e compradoras da inércia política e do silêncio mediático.

PS. Uma vez que a disputa parece ser em torno de um estudo. Sou eu que estou desatento ou o dito estudo não é público? Quem o fez? O que diz, exactamente? Agradeço toda a informação que se dignarem prestar-me.

3 comentários:

Pedro Estêvão disse...

“Embora perceba a necessidade de conter os custos energéticos finais, incomoda-me a ideia de o Estado contribuir com tanto para os prémios de objectivos dos gestores das empresas do sector.”

A mim também. Mas é o que costuma acontecer quando se privatizam empresas públicas em sectores estratégicos - especialmente quando estes são monopólios naturais como a produção e distribuição electricas.

As necessidades sociais e económicas básicas não deixam de existir por magia. Por isso, continua a ser necessário a um país dispor de reservas estratégicas de combustível, de centrais de produção eléctrica de reserva, de um serviço postal universal, de uma rede de distribuição de água para todo o território, de uma rede viária com o mesmo âmbito, etc. Só que enquanto antes estas actividades – por definição deficitárias - eram financiadas pelas receitas das áreas de exploração lucrativas das empresas públicas, com a privatização passam a ser financiadas integralmente pelo Orçamento do Estado.

O que nos leva a algumas questões inquietantes. Quem é que, no seu perfeito juízo, pode ter achado que privatizar a EDP e a REN (ou GALP ou a Brisa…) era uma boa ideia? Pior, quem é que, depois destas experiências desastrosas, pode achar que faz sentido repetir a graça com os Correios ou a Águas de Portugal?

Leonel Sousa disse...

A IMPORTÂNCIA DA REGULAÇÃO NOS MERCADOS MONOPOLISTAS – O EXEMPLO DA ENERGIA ELÉTRICA.

A ERSE apresentou sucintamente os fundamentos para o aumento em 4% da tarifa da energia elétrica em Portugal no seu comunicado disponível em http://www.erse.pt/pt/​imprensa/comunicados/2011/​Comunicados/​Comunicado_tarifasSE_2012.pdf.

No mesmo é considerado em “1) Fatores que contribuem para o incremento do nível tarifário” a “Evolução do custo das matérias-primas energéticas e da energia elétrica nos mercados internacionais”, num ano em que se prevê uma forte possibilidade de recessão mundial (e uma fortíssima redução do consumo). Contudo, em “2) Fatores que contribuem para a redução do nível tarifário”, não foi considerado o potencial de redução de custos com recursos humanos.

Consideremos o caso da EDP.

Nos termos do Relatório e Contas de 2010 (publicamente disponível em http://www.edp.pt/pt/​investidores/publicacoes/​relatorioecontas/Pages/​RelatorioeContas.aspx), os custos operacionais da EDP ascenderam em 2010 a M€1791 (+3% que em 2009). Os custos com pessoal representaram em 2010 M€570, isto é, 32% dos custos operacionais totais.
O aumento do horário de trabalho em mais meia hora por dia (duas horas e meia por semana) teria como potencial (teórico) de redução de custos salariais de cerca de 6,25%, o que no caso da EDP representaria mais de M€35,63. Se a EDP também suprimisse os subsídios de férias e de natal (tal como a TAP ou a CGD), então teríamos um potencial (teórico) de redução em custos com o pessoal de M€81,4. Ou seja, apenas com estas duas medidas teríamos um potencial de redução de custos com o pessoal da EDP na ordem dos 117 milhões de euros, isto é, um potencial de redução de 6,5% da totalidade dos custos operacionais.
A tais potencialidades, poderiam ainda ser acrescidas reduções dos custos com os titulares dos órgãos sociais da EDP (v.g. redução das remunerações dos administradores), tal como a Banca (http://​www.jornaldenegocios.pt/​home.php?template=SHOWNEWS_V2&i​d=472325) está a realizar.
A este propósito, veja-se o potencial de redução considerando os montantes (milhões de euros) definidos nas páginas 147 e 148 em: http://www.edp.pt/pt/​investidores/publicacoes/​relatorioecontas/2010/​Relatrio%20e%20Contas%202010/​RC%20Gov%20Soc_PT.pdf).

Não interessa, de per si, o que a EDP paga aos seus administradores e trabalhadores. O que releva é a existência de incentivos para as empresas produtoras de energia diminuírem os seus custos operacionais, incluindo com recursos humanos, em benefício do preço da energia em Portugal.

Assim ficam as seguintes dúvidas: seria possível em 2012 existir não um aumento, mas sim uma diminuição da tarifa da energia elétrica em Portugal? Seria tal uma tarefa da entidade reguladora do setor?

1.ª Curiosidade: o ganho médio mensal dos trabalhadores por conta de outrem do setor energético é o MAIOR a nível nacional (http://www.pordata.pt/​Portugal/Ambiente+de+Consulta/​427003);

2.ª Curiosidade: o famoso John Pierpont Morgan (um dos maiores banqueiros norte-americanos de sempre), entendia que a pessoa mais bem paga de uma empresa não deveria exceder 20 vezes o salário mais baixo pago nessa empresa.

Anónimo disse...

Enquanto faço ponto de Cruz, vou-me lembrando do mísero rendimento que obtenho ao bordar uns paninhos, e vou-me lembrando dos “pobres” da administração da E.D.P. Que ganham quase um milhão por ano, ouvi dizer que o Mexia ganhou cerca de três mil euros por dia, isto não é uma afronta a quem tem um mísero rendimento sujeito a pagar I.V.A., ao Gaspar e dele tem que te tirar para dar aos filhos licenciados e que não têm emprego, vamos comendo uma açorda, um frasco de grão ou de feijão:
PONTO DE CRUZ
fui fazer o ponto de cruz
e de tanto cruzar a linha
comecei a ficar sem luz
vejam que cruz a minha;
-
quando eu o faço de dia
se eu recebo do sol a luz
logo eu lembro o Mexia
e quão pesada é sua cruz!?
-
e talvez tu não te salves
por fazer tanto pontinho
e se salva o Nuno Alves
que bom é seu caminho!?
-
a luz não chega ao tecto
mal vejo o pano bordado
vejo o João Manso Neto
com o chorudo ordenado!?
-
e quão mal vou vendo eu
e mal o pano posso olhar
e vejo António de Abreu
com o ordenado sem par!?
-
duns euros a gente gosta
p'ra o pano poder comprar
logo vejo António da Costa
no Super e tudo vai levar!?
-
não quero que embarques
diz meu pobre Manuel Luz
vou falar ao João Marques
ou o João Marques da Cruz
-
tu não fiques sem vontade
diz o pobre do meu Manuel
que serei Miguel d'Andrade
ou ainda o Miguel Stillwell
-
já tenho os olhos cansados
deste trabalho o ganha pão
mas vejo estes desgraçados
ai ganhando quase milhão!?
-
mas que triste sorte minha
e a bordar eu me lamento
e a cruzar a colorida linha
eu pedi a Deus o aumento!
-
Deus responde-me do Céu
tu não vês ó Maria de Jesus
que a luz do Sol te dou eu
e aos outros tu pagarás luz!
-
Eugénio dos Santos